4. Apresentação e Análise dos resultados
4.2 Análise das entrevistas
4.2.5 Ferramentas que integram a prática e praticante
A materialidade participa da ação, uma vez que a prática pode ser orientada pelo objeto, com a possível incorporação do mesmo. Os objetos, além de promoverem a ordenação da ação, podem desestabilizá-la, gerando, dessa forma, uma nova ação, ou seja, uma nova prática (SVABO, 2009). Objetos, que também são denominados ferramentas, compõem a prática e integram o mundo vivido (SANDBERG; DALL´ALBA, 2009), neste caso o mundo pessoal e profissional do hoteleiro orientado para sustentabilidade.
Visando compreender a participação dos objetos/ferramentas nas práticas orientadas para sustentabilidade pessoal e profissional dos hoteleiros, foi questionada a existência de instrumentos/ferramentas para a efetivação dessas práticas.
Dos 115 entrevistados, 13 não responderam à questão e 52 (27 ocupantes de cargo operacional e 25 de cargos gerencias) responderam que as práticas orientadas para sustentabilidade não envolvem a utilização de ferramentas, o que pode sinalizar uma dificuldade na identificação desses objetos/equipamentos ou que estes já estão incorporados à prática e ao praticamente.
4.2.5.1 Ferramentas na prática: vida pessoal do hoteleiro
Quando os entrevistados relatam suas práticas expressam a utilização de ferramentas que podem contribuir com a prática, ou em algumas situações, podem prejudicá-la. São citadas: lixeiras, máquinas de lavar, recipientes para coleta de óleo, sacolas de tecido, placas solares, lâmpadas etc.
Pode-se supor que mesmo quando as ferramentas não são mencionadas, as mesmas estão presentes, pois já incorporaram a prática e o praticante. O exemplo não cita recipientes para coleta seletiva, mas é de conhecimento que essa prática só é possível com a utilização de lixeiras.
[...] Em casa faço coleta seletiva [..] (OR-41).
Máquina de lavar roupas, placas solares, lâmpadas, sacolas de tecido, balde, caminhão de lixo e canecas são destacados como favorecedores das práticas orientadas para sustentabilidade. Os hoteleiros explicam como esses objetos participam das ações.
[...] Reutilização da água da chuva e da máquina de lavar roupa para lavagem dos carros e do quintal da casa [...] utilização de placas solares para aquecimento da água do banho; [...] substituição das lâmpadas incandescentes por fluorescentes; [...] uso de sacolas de tecido na ida ao mercado [...] (OR-6).
[...] Tenho aquecedor em casa e quando eu ligo o chuveiro até água esquentar eu coloco um balde para que a água que cai do chuveiro não seja desperdiçada [...] (GR-20)
[...] Coleta seletiva de lixo em casa, o orgânico vai para o caminhão do lixo [...] (GR-35)
[...] Utilizo caneca e garrafa para poupar o uso de copos descartáveis (OR-30).
De acordo a relação estabelecida entre praticante e prática, as ferramentas/ objetos, não contribuem, desestabilizando-a e fazendo com que o praticante busque uma nova ação, como é o caso da máquina de lavar louças e chuveiro.
[...] Aqui nos EUA toda casa tem máquina de lavar, eu não uso pois acho que gasta muita água [...] (OR-4).
[...] Chuveiro demora para esquentar a água [que tem que ser] reutilizada (OR-5).
Observa-se que, na prática orientada para sustentabilidade, o indivíduo utiliza ferramentas, estas indicam a prática e seu papel no contexto, como por exemplo, pode ser citada a lata de lixo adequada para coleta seletiva (SANDBERG; DALL’ALBA, 2009; STRATI, 2014).
4.2.5.2 Ferramentas na prática: vida profissional do hoteleiro
Nas narrativas, são reportadas ferramentas como lixeiras para coleta seletiva, materiais impressos para orientação de funcionários e hóspedes, lâmpadas com baixo consumo de energia, placas de sinalização para economia de água e luz, equipamentos de segurança e ferramentas tecnológicas para gestão. Na percepção do entrevistado OR-30, objetos e o patrimônio do hotel, incluindo dinheiro, atua como uma ferramenta, indicando uma visão de que sustentabilidade demanda investimento.
Sim, o uso do próprio patrimônio do hotel: impressoras, ar-condicionado e principalmente dinheiro (OR-30).
A demanda por ferramentas (equipamentos mais econômicos) que podem contribuir com o sucesso das práticas orientadas para sustentabilidade foi retratada pelo hoteleiro OR-33.
[...] Pensar a longo prazo, adquirindo equipamentos mais econômicos, por exemplo [...] (OR-33).
As lixeiras para coleta seletiva e sua participação na prática são identificadas pelos entrevistados OR-16, OR-37, OR-39, GR-7, GR-29, OI-3 e OR-24, enfatizando a dimensão ambiental, conforme exemplo a seguir:
Uso de ferramentas na coleta seletiva, onde as cores das sacolas plásticas nas latas de lixo, determinam qual tipo de lixo deve ser depositado (OR-24).
Com relação à separação do lixo para reciclagem, os hoteleiros OR-40 e GR-1 relatam a utilização de EPI (equipamento de proteção individual) pelo funcionário que executa a prática, fazendo com que a ferramenta faça parte do praticante.
[...] Stwarding necessita de EPI para separar o lixo (OR-40). [...] Em caso de reciclagem faz-se necessário o uso de EPI (GR-1). As ferramentas podem atuar como orientação no caso de informativos, cartilhas, treinamentos e placas, controle na execução da prática como redutores de vazão de água e sensores de luz, e como contribuição com a prática como recipientes para lixo. Essencial destacar que, de acordo com os relatos, as ferramentas voltadas à sustentabilidade assumirão uma das três formas de atuação de acordo com a maneira pela qual o tema é
considerado pelos praticantes.Dos entrevistados, 21 (4, 6, 10, 14,
GR-18, GR-19, GR-20, GR-25, GR-26, GR-27, GR-43, GR-45, OR-2, OR-6, OR-7, OR-12, OR-18, OR-22, OR-23, OR-25, OR-34) apontam essas relações entre ferramenta e prática, conforme pode se observar pelas narrativas em destaque:
Nas torneiras dos banheiros o hotel instalou um medidor de água, para que não saia com uma pressão maior do que a necessária [...] O próprio hotel fornece os lixos com as cores das reciclagens dentro de cada departamento e fornece os materiais reciclados. Há plaquinhas em todos os apartamentos sobre o programa Plant for the Planet e também na área dos colaboradores. (GR-6)
[...] Há equipamentos que visam o não desperdício, válvulas em torneiras, sensores de luz, economizadores de energia nos apartamentos, assim como uma intensa comunicação visual para funcionários e hóspedes com avisos, cartazes e explicativos sobre sustentabilidade – por exemplo: nos apartamentos há um explicativo sobre a lavagem de toalhas onde o hóspede tem a opção de reutilizar a mesma toalha por alguns dias de sua hospedagem contribuindo assim para a utilização de menos água. As lixeiras em áreas comuns são identificadas com adesivos de recicláveis e não recicláveis/orgânicos. Há constantes treinamentos sobre separação de resíduos. (GR-25)
O Hotel [...] criou e desenvolveu uma Cartilha de Sustentabilidade, a qual pode ser considerada uma ferramenta que esclarece ao leitor os conceitos de responsabilidade socioambiental, desenvolvimento sustentável [...] (OR-6).
[...] Todo o óleo utilizado em nossas cozinhas é doado a instituições de caridade que o reciclam das mais diversas formas. O departamento de Alimentos e Bebidas possui diversos tonéis onde o óleo fica armazenado (OR-34).
As ferramentas gerenciais, como PEPS (primeiro que entra, primeiro que sai) e PVPS (primeiro que vence, primeiro que sai), que contribuem para o sucesso das práticas orientadas para sustentabilidade, estão presentes na narrativa do OR-40, que exemplifica:
[...] Comprar alimentos com medida adequada para que não aja desperdício, repassar bebidas de menor uso para setores com grande fluxo para que não estraguem, praticar PVPS [...] para produtos com vencimento industrializados e PEPS [...] produtos que não a data estipulada como frutas, legumes e etc. (OR-40).
Aplicativos como pacote office, planilhas de controle e de gerenciamento, e procedimentos são identificadas como ferramentas voltadas à gestão que podem substituir a produção de papel, neste contexto o computador assume a função de arquivo de documentos. Dos entrevistados, 11 (OR-20, OR-45, 5, 14, 28, 30, GR-34, GR-36, GR-40, GR-44, GR-49 e GI-5) indicam essas ferramentas. Os relatos a seguir exemplificam:
Por hora o POP (procedimentos operacionais padrão) podem ser considerados como ferramentas, embora existam projetos na rede para melhor destinação dos materiais recicláveis, um deles prevendo a captação de recursos com esses materiais, que seriam direcionados às ações sociais. (GR-14)
Temos um sistema que chama open onde imputamos todas estas informações (GR-36).
Neste caso, apenas a prática de arquivamento digital necessita de um computador (OR-20).
A associação das ferramentas de gestão e a participação do outro (SANDBERG; PINNINGTON, 2009) representado por departamentos e o acompanhamento dos resultados, reforçam que sustentabilidade deve ser tratada de maneira integrada no contexto organizacional.
Mensalmente aponto em um sistema de intranet a quantidade de toalhas que deixei de mandar para lavanderia e a manutenção insere os dados de consumo de água e energia (GR-30).
No departamento de engenharia, o gerente de manutenção é responsável pelo preenchimento de formulários online (EcoTrack) onde contém várias informações relacionadas à reciclagem, manutenção preventiva e combustíveis para veículos e maquinas (GR-5).
Observa-se que nas práticas pessoais e profissionais, as ferramentas estão presentes e são expressas participando do processo, integrando, dessa forma, prática e praticante. Destaca-se, ainda, que as ferramentas citadas nos dois contextos não diferem de forma significativa, com exceção as ferramentas de gestão, pois pode-se afirmar que boa parte das tarefas relacionadas à permanência do hóspede e a gestão das acomodações são semelhantes às atividades realizadas no ambiente doméstico, como troca de enxoval, manutenção da limpeza, produção de alimentos, entre outros. A diferenciação entre esses contextos está no volume das tarefas.
4.2.6 Práticas orientadas para sustentabilidade e a incorporação nas políticas do