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Os instrumentos utilizados na pesquisa realizada pela ONG Instituto PAPAI foram entrevistas semi-estruturadas e grupos focais. Segundo George Gaskell (2007), a entrevista qualitativa é um método de coleta de dados amplamente utilizado nas ciências sociais empíricas. Nestas, o pressuposto primeiro é o de que o mundo social não é um dado natural, pois ele é ativamente construído por pessoas em suas vidas cotidianas.

Gaskell (2007) argumenta que a entrevista qualitativa é utilizada para mapear e compreender o mundo da vida dos respondentes, que é estudado pelo cientista social, visando introduzir esquemas interpretativos para compreender as narrativas dos atores em termos conceptuais e abstratos. O objetivo final é a compreensão detalhada das crenças, atitudes, valores e motivações das pessoas em seus contextos sociais específicos.

O primeiro passo para a realização de uma entrevista qualitativa é a construção do roteiro. Minayo (1998) afirma que o roteiro de entrevista tem por propósito apreender o ponto de vista dos atores sociais acerca da temática prevista nos objetivos da pesquisa. Nesse sentido, é um instrumento que serve para orientar uma “conversa com finalidade”,

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Disponível em:http://www.recife.pe.gov.br/2007/07/04/programa_de_saude_da_familia_144855.php. Acesso em: 21.12.08.

que é o que caracteriza a entrevista. Assim, pretende facilitar a abertura, a ampliação e o aprofundamento da comunicação. Desse modo, o roteiro de entrevista não cerceará a comunicação, contribuindo para a explicitação das visões, juízos e relevâncias dos interlocutores em relação à temática pesquisada.

A autora aponta que a entrevista semi-estruturada caracteriza-se por combinar perguntas estruturadas e abertas, sem respostas ou condições prefixadas pelo/a pesquisador/a. A pessoa entrevistada tem a possibilidade de discorrer sobre o tema proposto. Sobre esse aspecto, Gaskell (2007) nos fala que, no decorrer da entrevista, a narrativa da pessoa entrevistada está em construção, pois alguns dos elementos falados são lembranças de conversações passadas. Contudo, alguns detalhes e interpretações falados podem surpreender até mesmo o/a próprio/a entrevistado/a.

Nessa perspectiva, segundo Minayo (1998), o que torna a entrevista um instrumento privilegiado de coleta de informações é a possibilidade de a fala ser reveladora de condições estruturais, de sistemas de valores, normas e símbolos e, ao mesmo tempo, ter a “magia” de transmitir, por meio da pessoa entrevistada, as representações de grupos determinados, em condições históricas, sócio-econômicas e culturais específicas.

Desse modo, essa autora argumenta que, ao mesmo tempo em que os modelos culturais interiorizados pelos indivíduos são revelados numa entrevista, eles refletem o caráter histórico e específico das relações sociais. Nesse sentido, os depoimentos precisam ser colocados num contexto de pertencimento a uma geração, a um sexo, a filiações diferenciadas, dentre outros aspectos. Por esse motivo, cada ator social informa sobre uma “subcultura” que lhe é específica, além de experimentar e conhecer o fato social de forma peculiar.

Potter e Wetherell (1987), ao discutirem sobre as entrevistas, argumentam que, para o analista de discurso, a consistência das respostas dos participantes é importante somente até onde o pesquisador deseja identificar padrões regulares do uso da linguagem. Assim, devido à primazia teórica da fala e o foco no modo como o discurso é construído e o que isso acarreta, a consistência é menos útil e desejada para a análise do que a variação nas entrevistas.

Os autores salientam que uma análise que identifica somente as respostas consistentes são algumas vezes “desinformantes”, pois não nos mostra sobre a total variação das fontes utilizadas pelas pessoas para construir o significado de seu mundo social e não revelam claramente a função das construções dos participantes. Eles ressaltam também que as transcrições verbais de qualquer entrevista revelam um grau de variação de respostas, que é normalmente reprimida por algum tipo de pré-codificação ou categorizações menos elaboradas.

Nesse sentido, para eles, a entrevista é considerada uma conversação e, por esse motivo, as questões do/a pesquisador/a se tornam um tópico de análise tanto quanto as respostas do/a entrevistado/a, porque elas colocam algum contexto funcional às respostas. Dessa forma, os autores salientam que as nuances linguísticas das questões são tão importantes quanto as nuances linguísticas das respostas. Assim, sugerem que a entrevista seja transcrita em sua totalidade e não apenas a parte do/a entrevistado/a, pois consideram que as questões do/a pesquisador/a são ativas e construtivas e não passivas e neutras.

Em relação ao grupo focal, Minayo (1998) afirma que a característica específica de um grupo de discussão, é possibilitar a emergência das opiniões, relevâncias e valores das pessoas entrevistadas. Do ponto de vista operacional, a discussão de grupo se faz em reuniões com um pequeno número de informantes, selecionados a partir dos critérios definidos pelo/a pesquisador/a, cujas idéias e opiniões são do interesse da pesquisa.

De acordo com Gaskell (2007), no grupo focal, o/a entrevistador/a assume o papel de catalisador/a da interação social/comunicação entre os/as participantes. O objetivo deste é estimular os participantes a falar e a reagir àquilo que outras pessoas do grupo dizem. Essa interação social caracteriza-se por ser mais espontânea do que a entrevista, pois é um exemplo da unidade social mínima em operação, em que os sentidos ou representações que emergem são mais influenciados pela natureza social da interação do grupo. Além disso, o grupo focal é um ambiente em que os participantes levam em consideração os pontos de vista dos outros na formulação de suas respostas, comentando também suas próprias experiências e as dos outros.

Minayo (1998) pontua que essa estratégia de acesso aos dados é geralmente utilizada para três finalidades: primeira, focalizar a pesquisa e formular questões mais precisas; segunda, complementar informações sobre conhecimentos peculiares a um grupo

no que se referem a crenças, atitudes e percepções; e terceira, desenvolver hipóteses de pesquisa para estudos complementares. Nesse sentido, a autora afirma que o grupo focal consiste numa técnica indicada para quando se pretende abordar questões da saúde numa perspectiva social, pois estuda as representações e relações dos diferenciados grupos de profissionais da área, dos vários processos de trabalho, como também da população.