3.3 1990: A TENTATIVA DE RESOLUÇÃO DE AYRTON SENNA
3.4 FERRARI, SENNA E PROST: AS AFINIDADES E DESAFINIDADES ELETIVAS
22 outubro 1990
Ferraristas vêem em Senna o 'novo Villeneuve'
O plano é ter na Itália os dois melhores pilotos do mundo. Melhores ao gosto dos italianos eternos amantes do Gilles Villeneuve. Para a torcida da Ferrari, não basta ser vencedor, em que ser rápido, agressivo e brilhante.
Prost, apesar de vencedor, também está longe do coração da torcida "rossa". Na Itália, o bom piloto ganha corridas com o coração no lugar do cérebro e com a alma no acelerador. Senna é o sonho da Ferrari porque o "advocato", Gianni Agnelli, patrão da Fiat, acha que o brasileiro é melhor, Fiorio, um
168 executivo de carreira dentro da empresa, sabe muito bem em que certos casos a vontade do "capo" é a vontade de Deus.140
A análise sobre os documentos permitiu constatar o recorrente assédio da Scuderia Ferrari sobre Ayrton Senna. A tradicional equipe italiana de Maranello desejava a contratação de Ayrton Senna após as duas fracassadas temporadas de Alain Prost em 1990 e 1991 com o carro vermelho do cavalinho empinado em um escudo amarelo. Prost fora combatente em 1990, conquistou vitórias, muitos pontos e disputou o título mundial contra Ayrton Senna até o penúltima Grande Prêmio. Mais que isso, havia derrotado seu companheiro de equipe, Nigel Mansell, com larga diferença, fazendo muitos atribuírem a emancipação da Ferrari na temporada de 1990 graças às competências mais elevadas de Prost. Porém, no ano de 1991 faltou combatividade, não conseguindo se sobressair em relação ao seu então ainda novo e inexperiente Jean Alesi. A interpretação da torcida italiana era de que Prost havia se declarado derrotado antes de ter tentado. Os maus resultados também fizeram a torcida rememorar o que ela havia deixado de esperar sobre Prost. Depois de 10 temporadas sem um título mundial de pilotos, a equipe Ferrari antes precisava de um piloto vencedor para só então saciar os desejos quentes da torcida italiana, mais desejosa de um piloto vibrante, arrojado e que demonstrasse uma enorme vontade de vencer. Os resultados importavam agora, Prost com já três títulos mundiais conquistados (1985, 86 e 89) aparecia como parte de um projeto modernizado e racionalizado da Ferrari. Muito distante dos antigos ídolos da equipe como Ascari, Fangio, Villeneuve; o piloto francês Alain Prost procurava refratar os anseios da torcida fanática italiana, compensando-a com suas vitórias e um possível título. Já no ano de 1991 a Ferrari não conseguiu construir um carro competitivo e com potencial para vitórias, ficando aquém da temporada passada, quase que regredindo. Os avanços tecnológicos e aerodinâmicos da Williams tiveram efeitos diferentes sobre a Mclaren e a Ferrari. Enquanto a equipe inglesa comandada por Ron Dennis (Mclaren) procurou confiar no seu próprio equipamento, ainda que desatualizado, a Ferrari pretendeu fazer um salto grande em meio a temporada, copiando a parte frontal do seu carro inspirando-se na equipe Williams. As mudanças não tornaram o carro da Ferrari para a temporada de 1991 competitivo suficiente e a modificação de uma concepção aerodinâmica implantada em um chassi desatualizado não se encaixou. Como
140
FOLHA DE SÃO PAULO. Ferraristas vêem em Senna o ‘novo Villeneuve’. Folha de São Paulo, São Paulo, 22 de outubro de 1990.
169
consequência, a equipe Mclaren – que contava com Ayrton Senna e os robustos motores Honda – conseguiu competir com um carro ultrapassado contra uma Williams avançadíssima tecnologicamente. O carro da Mclaren na temporada de 1991 ainda possuía o bico frontal rente ao solo, enquanto o da Williams aparecia levantado. O câmbio utilizado por Ayrton Senna e Gerhard Berger exigia que se retirasse do volante uma das mãos para cada troca de marcha, enquanto que o da Williams, facilmente acessível através de borboletas atrás do volante, deixava o piloto confortável para sempre ter as duas mãos ao volante. Mais ainda, a equipe Williams contava com uma suspensão computadorizada, já na época conhecida como suspensão ativa. O carro controlado por Senna era antiquado, mas por outro lado, deixava o piloto mais conectado à pista, numa relação direta com as partes mecânicas do carro, sem as mediações que o avançado carro da Williams oferecia. A Ferrari também já contava com o câmbio acionado por borboletas desde a temporada de 1989, mas comparado ao carro da Williams, aparecia como que de transição. A Ferrari decidiu insistir por muito tempo num grande motor V12, potente, porém pesado, que desequilibrava a distribuição de massa do chassi. A Mclaren também dependia do seu forte motor, fornecido pela Honda, mas este era tão potente que era capaz de compensar todos os seus prejuízos. Já a Williams contava com o fornecimento dos motores V10 pela Renault, quase tão potentes quanto os motores da Honda e da Ferrari, mas sem os prejuízos de excesso de massa, dando ao carro da Williams um maior equilíbrio.
No que se inicia o primeiro quarto da temporada de 1991, Senna consegue realizar um feito inédito, vence as quatro primeiras provas da temporada e abre vantagem sobre os demais concorrentes. Somente no meio da temporada os carros da Williams começam a demonstrar os melhores resultados. Problemas no acerto das novas tecnologias e durabilidade das peças ainda não testadas para as suas condições de uso acabam por retirar as possibilidades de vitórias para Nigel Mansell, o piloto contratado como número “um” na equipe da Wiiliams. Mas com o tempo ficou claro que a Mclaren não teria mais a mesma vantagem das temporadas passadas no ano de 1991. Ayrton Senna não conquistava mais tantas pole-positions quanto antigamente. E quando o carro da Williams durava, Mansell ou Patrese venciam as provas com facilidade. São nos Grandes Prêmios da Hungria e da Bélgica que Ayrton Senna mostra a sua reação contra o avanço das Williams durante o campeonato. Senna conquista as poles-positions e as vitórias. No circuito da Hungria, Senna conquista a pole-position com mais de 1
170
segundo de vantagem sobre o segundo lugar no grid. Os circuitos de Hungaroring, na Hungria, e Spa-Francorchamps, na Bélgica, se contrastam. O primeiro era um circuito travado, de poucas retas, muitas curvas e poucos pontos de ultrapassagem. O segundo, um circuito grande para os padrões da Fórmula 1, com longos trechos de alta velocidade. Senna conseguiu se destacar nas duas provas. Dias depois, Giancarlo Minardi viria a dizer: "Senna é a única coisa que custa apenas US$ 10 milhões e faz o carro andar meio segundo mais rápido"141. A declaração, que deveria soar como mera piada com fins humorísticos, na realidade revelava a orientação da equipe italiana Ferrari e a posição que ela ocupa no espaço social. O apetrecho mais raro, e, portanto, mais desejado, segundo o ponto de vista dos ferraristas, não seria uma mera peça tecnológica e sim uma competência humana, corporificada, nas estruturas disposicionais de Ayrton Senna. Embora as competências técnicas de Alain Prost também eram provenientes de suas estruturas disposicionais, elas aparentavam como menos humanas quando comparadas com as de Senna. Senna era considerado talentoso, um piloto de "aptidões natas" e de competências todas elas raríssimas, ao ponto de valerem à época US$ 10 milhões de dólares em um contrato anual. Prost, por sua vez, era visto como que substituível, não conseguindo fazer render um melhor rendimento quando as condições não lhe eram favoráveis.
Os carros da Scuderia Ferrari traziam consigo extensões das propriedades humanas avindas de seus criadores. Suas características especiais advinham justamente dessa extensão particular, de um humanismo quase que mágico, que poderia ser sentido pelo ronco do motor vibrante, como que cheio de pulsações e transmitindo vida, diferentemente de outros carros técnicos e tecnológicos, obras de uma engenharia técnico-científica racionalizada. Deixar de ser o que era, seria o maior pecado cometido pela Ferrari, sem alma, não lhe adiantaria as vitórias. Estas deveriam vir também de um piloto passional, movido pela emoção, que só pudesse conquistá-las a partir de um talento raro. Senna era observado como a "peça" que faltava aos carros da Ferrari, enquanto que Prost, mesmo competente, não parecia afinado e adequado para a direção dos bólidos italianos. As competências de Prost passavam a serem vistas sob os pontos de vistas ferraristas como negativas, na falta de vontade, garra, raça e uma postura mais apaixonada, valores necessários para a condução de um carro da Scuderia Ferrari conforme as exigências dos italianos. Os resultados esperançosos da temporada de 1990
141
171
fizeram que a torcida se esquecesse por um momento esses valores, mas a falta deles na temporada de 1991, fizeram a torcida relembrar as falhas de caráter de Prost segundo essa visão.
Mas com a saída de Prost não veio a que parecia inevitável vinda de Ayrton Senna. Os ferraristas se decepcionaram com o brasileiro. Lauda,
especialmente enviado a Monza pelo presidente da empresa, Luca di Montezemolo, relatou um diálogo que teve com o piloto: "Disse que Ferrari ele viraria Deus. Ele respondeu que não interessa Deus, mas sim ganhar corridas".142
A afinidade entre as estruturas disposicionais de Senna e a Ferrari em conjunto com os mais italianos, não eram assim tão eletivas quanto pareciam. Senna era aguerrido, combativo, mas o resultado lhe aparecia como o fim máximo a ser perseguido na condução automobilística. Senna estava entre uma coisa e outra, não sendo igual à Prost, mas também não sendo um novo Villeneuve. Esse estado de "pureza", já havia se perdido na Fórmula 1 moderna de Senna, Prost, Mansell e outros. Não que Senna não corria pelo "puro" prazer na condução automobilística, mas já se podia observar em sua prática uma busca orientada pelas vitórias, a competitividade era um traço característico de seu habitus. Se é que se pode dizer que há "pureza" quando esta já está “contaminada”, Senna apresentava os últimos vestígios de uma posição social em deterioração. Por ser o último de sua espécie, era raro, e por isso mesmo tão desejado pela Scuderia Ferrari. Mas "impuro", já não apresentava como motivado a guiar os carros Ferrari, a não ser em condições de vitória. Depois de uma desastrosa temporada em 1991 sem vitórias, mesmo em uma decadente Mclaren, Senna preferiu permanecer na equipe inglesa, bem sucedida em anos anteriores pela sua racionalidade, do que transferir-se para à equipe italiana, tradicionalíssima, mas irracionalizada. A ambição de Senna passava a ser a equipe Williams, como uma equipe que o piloto brasileiro via um passo a frente da Mclaren e pelo menos dois passos à frente das demais.
Os assédios persistiriam, mas com a morte prematura do piloto brasileiro, uma filiação entre Senna e Ferrari nunca havia sido realizada.
142
172 3.5 RIVALIDADE SENNA E PROST: UMA DISPUTA SEM DESFECHO FINAL
Com a colisão, não só Alain Prost deixou de conquistar mais um título de campeão, mas a sua equipe, a Ferrari. O vice-campeonato de Alain Prost frustrou o desejo da torcida ferrarista de se ver encerrado o grande jejum de mais de uma década sem títulos conquistados na Fórmula 1. Agora, se somavam onze temporadas completas sem a conquista de um título de pilotos. Prost decepcionava a Ferrari, o seu jeito de pilotar e o seu estilo se mostraram insuficientes para a conquista do título em uma equipe fervorosa como a Ferrari. Essa era a visão da torcida. Os membros internos continuavam confiantes em Alain Prost. E atribuíam o mau desempenho do piloto francês aos conflitos internos com Nigel Mansell, e aos externos, com Ayrton Senna. Em uma década, essa fora a maior chance de conquista de um título de pilotos por parte da Ferrari. Mansell se retiraria da equipe, e esse problema seria resolvido. A retaliação de Senna já estava concretizada, e não se esperava que fosse se repetir. Mas o futuro não seria promissor. A Ferrari não contaria com John Barnard mais uma vez na construção do carro. O projetista se mudaria para a Benetton, uma nova equipe em vias de crescimento. O novo carro da Ferrari para a temporada de 1991 fracassaria e Alain Prost demonstraria publicamente todo o seu descontentamento com o carro chamando-o pejorativamente de um caminhão. A falta de vitórias na temporada de 1991 e as declarações ofensivas de Prost não agradaram aos membros internos da Ferrari e antes mesmo da temporada ser completada, faltando ainda um Grande Prêmio, Alain Prost seria demitido de sua equipe. Sem tempo hábil para firmar um contrato com uma nova equipe, Prost se retira por um ano. Estando ausente de qualquer equipe e tendo a possibilidade de contatar com qualquer chefe de equipe, Prost inicia uma nova rivalidade com Ayrton Senna, mas fora das pistas. Ele consegue firmar um contrato diferenciado com Frank Williams para correr em sua equipe na temporada de 1993. Nesse novo contrato, firmado ainda em 1992, Prost exige uma cláusula bastante atípica, o veto formal a participação de Ayrton Senna na equipe. Prost aceitaria pilotar pela Williams com qualquer piloto ao seu lado exceto Senna, o qual consideraria o convívio próximo além dos limites do insuportável. Nas temporadas de 1991 e 1992, a equipe Williams se colocou como a equipe mais avançada tecnologicamente na Fórmula 1, não sendo alcançada em desempenho por nenhuma outra mais equipe. Insatisfeito com o
173
desempenho de seu próprio carro na Mclaren, Senna tenta procurar Frank Williams para uma mudança de equipe, mas encontra vários empecilhos, até saber o real motivo das várias tantas recusas de Frank. Ao saber da cláusula contratual entre Frank Williams e Alain Prost, Senna chama o seu antigo rival de covarde. Prost assinara um contrato que lhe permitia pilotar o melhor carro para a temporada de 1993 sem ser ameaçado por mais ninguém, o que transformava o campeonato numa espécie de “cartas marcadas” na visão de Senna. Prost venceria o campeonato de 1993 com facilidades, tendo como companheiro de equipe o ainda novato, apesar de não tão novo, Damon Hill. Somente Ayrton Senna, em uma temporada excepcional, com várias corridas em condições climáticas adversas, pôde rivalizar com Alain Prost. Embora o piloto brasileiro teve algumas chances de aproximação, Senna nada pôde fazer quando as condições se voltavam para a normalidade, com o maior desempenho do carro da equipe Williams sobrando comparado aos demais carros da temporada. Ao final, Alain Prost se retiraria, sem o desejo de aposentadoria, mas para dar espaço para Ayrton Senna na equipe. Frank Williams sentia que devia um posto de sua equipe ao piloto brasileiro, somente dez anos depois, de ter dado a oportunidade de testar um carro de Fórmula 1 pela primeira vez ao ainda jovem de 23 anos Ayrton Senna. Naquela oportunidade, Frank gostou do desempenho de Senna, mas não o pode contratar porque os contratos com seus pilotos para a temporada seguinte já estavam firmados. A temporada de 1994 se iniciaria com Prost forçadamente aposentado, por não querer correr ao lado de Senna, e impedindo assim o ressurgimento da antiga rivalidade, em condições semelhantes às anteriores, de 1988 e 1989, com os dois pilotos disputando um campeonato em uma mesma equipe. Em 1994, Senna estaria só na Fórmula 1, como único piloto detentor de um título em meio a tantos outros jovens aspirantes desejosos de ganharem suas primeiras corridas e seus primeiros títulos. A ausência de um rival de sua própria época, e de um rival em que poderia se complementar, na relação de diferença, deixou Senna sem uma identidade própria. Esse sentimento de falta por parte de Ayrton Senna confirma que suas disposições corporais precisavam de um espaço próprio e particular para se realizarem, que agora, se colocava ao passado, com a sua nova restruturação. Embora Senna e Prost pudessem se odiar, no fundo, eles se amaram. A rivalidade entre os dois pilotos gerou a disputa que ambos inconscientemente pediram para acontecer. Na relação com o outro, eles desenvolveram o máximo de suas próprias competências e elevaram os limites das aplicações de suas estilísticas, em uma busca acirrada, em que
174
as definições pessoais acerca do que se trata o automobilismo, estendiam para os limites de seus próprios corpos definindo todo o espaço social automobilístico. Um sem o outro, não teria tido essa oportunidade.
3.6 AS HOMOLOGIAS ENTRE AYRTON SENNA E O BRASIL E ENTRE