3.3 Fronteiras que se erguem
3.4.1 Festas e jogos de azar nos dias de domingo
Cerca de 30% dos crimes analisados no acervo criminal de São João del-Rei e que envolvia imigrantes italianos no banco dos réus e/ou testemunhas, se passaram nas colônias José Theodoro, Carandaí e Marçal. Os crimes eram os mais variados possíveis e iam desde questões relacionadas ao trabalho, relações conjugais, até discussões ocasionadas pelos jogos de cartas e pelo excesso de bebidas. Quando lidos, esses conflitos revelam os espaços e meios que proporcionavam a interação tanto entre os próprios imigrantes, como entre eles e os moradores de São João.
Na tarde do domingo de vinte e nove de setembro de 1889, na colônia José Theodoro, ocorreu uma festa dos colonos. Por volta das três horas, o italiano Giuseppe Bassi entrou no restaurante de Manoel Anselmo para comprar bebidas gasosas e foi atendido por Francisco, apelidado de Chicanista. Após receber as gasosas, Giuseppe e Francisco se desentenderam quanto ao pagamento das mesmas e diante de tal desentendimento, o italiano deu duas bofetadas em Francisco e foi preso imediatamente por um advogado que lá se encontrava. Giuseppe foi julgado pelo Júri de sentença e condenado a um ano de prisão simples, multa correspondente a metade do tempo, mais as custas do processo pelo artigo 201 do código criminal. 131 O réu Giuseppe Bassi era italiano de vinte e oito anos, solteiro, lavrador a
alfabetizado.
As ofensas praticadas e os motivos que a ocasionaram não têm tanto a nos dizer, visto ser um tipo de desentendimento e ofensas bastante comuns em ocasiões de festas como essa. O que chamou nossa atenção ao lermos esse processo foi perceber a existência de momentos na colônia que promoviam uma maior interação social entre os imigrantes e a população local.
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Réu Francisco (Vulgo Chicanista). Processo Criminal 57 06, Registro 1152 do Acervo Criminal de São João Del Rei.
107 Segundo depoimentos do advogado que efetuou a prisão de Giuseppe, ele estava no estabelecimento comercial de Manoel Anselmo juntamente com sua família para ver a festa dos colonos. As demais testemunhas desse processo, todas de nacionalidade brasileira, também revelaram que prestigiavam a festança dos italianos. Todos os depoimentos das testemunhas apontam essas festividades nas colônias como espaços que não estavam circunscritos apenas aos imigrantes, contando também com a participação dos são-joanenses.
Outro aspecto merecedor de atenção foi o fato de esse crime ter acontecido no dia de domingo, dia esse que se repete em vários outros conflitos ocorridos entre os italianos de São João Del Rei. De acordo com a tradição cristã, o dia de domingo é considerado o dia do Senhor e geralmente é guardado pelos cristãos como um dia de oração e descanso. Entre os italianos nas colônias, o domingo era um dia propício à realização de atividades não relacionadas ao cotidiano do trabalho na lavoura, e em sua maioria propiciava uma maior interação entre as pessoas das colônias e a própria comunidade hospedeira. Boa parte dos crimes que envolviam imigrantes aconteceu nesse dia da semana, como podemos conferir no próximo caso.
No domingo de primeiro de maio de 1892, por volta das cinco horas da tarde, no núcleo colonial denominado Carandaí estavam algumas pessoas jogando cartas, como de costume na casa do italiano Luigi Giarola. Nesse ínterim chegou Joaquim Rodrigues dos Santos, também morador na colônia e pediu para guardar um boi nas terras de Antônio Bazzi enquanto ele resolvia uns negócios. Como as terras de Antônio Bazzi tinham algumas plantações, o mesmo não autorizou o favor, temendo que o gado danificasse sua roça. Tal fato provocou a discussão de ambos resultando nas ofensas físicas praticadas em Antônio Bazzi por Joaquim Rodrigues. Como o dono do estabelecimento, Luigi Giarola, era o próprio inspetor de quarteirão da localidade, ele mesmo levou o réu para a delegacia de polícia. O crime foi julgado pelo tribunal correcional da cidade e o réu foi absolvido. 132 Anatônio Bazzi
era italiano natural de Lignago, província de Verona, quarenta anos e lavrador.
Os jogos de cartas eram práticas muito comuns entre esses indivíduos e várias vezes vimos menção a eles nos autos criminais, sendo realizado nos dias festivos, ou como um simples costume praticado entre a vizinhança nas tardes de domingo. No relato de algumas testemunhas que presenciaram as ofensas praticadas contra Antônio Bazzi, eles se referiram aos jogos como um costume na casa do italiano Luigi Giarola.
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Réu Joaquim Rodrigues dos Santos. Processo Criminal 61 02, Registro 850 do Acervo Criminal de São João Del Rei.
108 Outro ponto merecedor de nossa atenção é que a prisão de Joaquim Rodrigues foi realizada por Luigi Giarola, que era Inspetor de Quarteirão naquelas redondezas. Os inspetores de quarteirão naquela época eram homens selecionados entre a população e tinham seus nomes aprovados pela Câmara Municipal; tinham de ter mais de vinte e um anos, saber ler, escrever e gozar de boa reputação nos seus quarteirões. 133 Sua atribuição era zelar pela
paz no seu quarteirão tendo até mesmo autoridade para efetuar prisões em flagrante, como foi o caso da prisão de Joaquim Rodrigues.
Dessa forma, o sossego em parte da Colônia do Carandaí era prezado por um próprio colono italiano. Não que isto fosse a regra. Em outras colônias da cidade notamos a presença de inspetores de quarteirão brasileiros fazendo a guarda das colônias imigrantes; mas foi interessante notar que um italiano se manifestasse para tal ocupação, visto ser ela uma tarefa que dava certa reputação entre a vizinhança, além de colocá-lo em maior contato com membros da justiça municipal. Tal disponibilidade em ser inspetor pode ser entendida também como uma maneira de resguardar os valores dos imigrantes, visto que os inspetores eram a primeira instância do policiamento em cada aglomerado urbano.
Como podemos perceber nesses dois crimes escolhidos, consta nas colônias a existência de ambientes, sejam esses comerciais ou não, que promoviam a sociabilidade tanto entre os colonos, quanto entre brasileiros. Em casos como esse que acabamos de relatar, os envolvidos foram retratados como homens bons e trabalhadores e as fagulhas de discussão que levavam às vias de fato foram, em sua maioria, relacionadas a ofensas verbais e questões pertinentes ao ambiente de trabalho, tendo como pano de fundo para o desenrolar do conflito o uso de bebidas alcoólicas e os já citados jogos de cartas. A seguir veremos as dimensões do contato entre italianos e brasileiros na região urbana de São João del-Rei.