• Nenhum resultado encontrado

3 TRAÇOS CULTURAIS DO NÚCLEO COLONIAL INCONFIDENTES

3.5 Festas populares e curiosidades pitorescas

Entre os anos de 1910 a 1930 percebem-se muitas festas e curiosidades no cotidiano dos grupos de colonos. As diversidades em suas representações culturais e sociais dão um colorido especial ao local. Numa reunião de simplicidade e dificuldades econômicas marcadas pela luta, principalmente do trabalho rural familiar, a realidade social compõe práticas culturais significativas.

Era muita gente atrasado, tudo descalço, a Igreja era lá em cima. Era uma Igreja de sapé. Só tinha uma igrejinha lá em cima de Santo Antônio e São Geraldo o resto era um barracão de sapé. Começaram a construir a igreja lá. Mas Como era um tempo que não tinha cimento então construía com barro e era um tempo que chovia dia e noite. Só eu vi aquela igreja cair três vezes. Aí conseguiu, mas depois o Padre Carvalinho quis fazer aqui no Jardim. Mas aqui era a maior beleza, você ver que beleza era o jardim. E o escritório da colônia era lá onde é a Escola Agrícola. As festas...nossa lá em cima que era a igreja de sapé fazia aquelas barraquinha, tudo de sapé, tinha as coisa tudo. Mas daí vinha gente dalí do Cavaco, aquele povo tudo descalço, aquele povo atrasado, tudo vestido de riscado, não tinha nem fazenda de roupa bonita não tinha. Depois que nós fiquemo moça, eu e tua vó, que tinha palha de ceda, tinha muita roupa bonita. Mas de primeiro tinha só aquele riscado de Itajubá. As mulher fazia vestido pras filha e os homem tinha camisa daquele riscado, as criança tinha toquinha, era tudo daquilo. Não tinha roupa bonita como hoje tem. Mas os primeiros vestidos bonitos que tinha era eu e sua avó. Era um crepe de seda e tinha também palha de seda. Mas só quem podia que comprava. Maioria era o povo tudo descalço. Olha, esse o meu marido conheceu, a sola dos pés parecia sola de casco de Tatú de andar descalço, andava pras queimada, pras roças tudo descalço. Naquele tempo era tudo muito difícil né, agora você vê 1913 para hoje né? Quantos anos né”? Mas para acostumar não foi fácil porque tudo era difícil né! (GARCIA, 1999).

A partir das narrativas de um passado vivido e presenciado por D. Catarina Blessa Garcia, em seu rememoro, a depoente reconta suas histórias trazendo consigo outros personagens e suas lembranças materializam-se em imagens. Segundo Bosi (1998, p. 49) a “imagem-lembrança”, traz à tona da consciência um momento único, singular, não repetido, irreversível, da vida. A imigrante espanhola ressuscita detalhes de sua infância e juventude,

procura precisar suas lembranças na religião, nas festas do padroeiro São Geraldo Magela, na paisagem do jardim da Praça, na simplicidade e dificuldades da época onde lembra as pessoas descalças, a igreja de sapé e chão batido, as roupas de tecidos de riscado. Pela vestimenta feminina e evocação de pessoas que já faleceram, como sua amiga (avó da Senhora Íris Garcia), vai comparando aos poucos os melhoramentos entre passado e presente, relembrando as dificuldades enfrentadas pelos grupos de colonos. Estabelece desta forma, nos fragmentos de suas lembranças, a narração da própria vida como testemunho da cultura imigrante costurada a condição de reconhecimento de si e dos outros grupos.

No início de sua fundação, avida social no Núcleo Colonial Inconfidentes foi muito diversificada, por terem as famílias vindo de diversos lugares e com costumes diferentes. Tudo dependeu de uma adaptação. Além das festas religiosas, os momentos de lazer consistiam em bailes realizados nas residências ou no salão do Prédio da Administração, de depois, no Clube Recreativo. Nesses bailes podiam ser vistos os mais variados tipos de pessoas e roupas. As orquestras, organizadas por elementos da localidade, brilhavam na apresentação das valsas, mazurcas, polcas e até tangos e, por não dizer, tarantelas, rancheiras e quadrilhas. Outras festas apareceram, como o Carnaval de rua, com os famosos “limões de cera”, cheios de água perfumada, que se revezavam de uma pessoa para outra. As cerimônias de casamento também foram motivo de muitas festas na sede e nos lotes. Realizavam-se bailes com sanfonas e muito “comes e bebes”. As festas escolares, como da escola alemã, dava sua cota de contribuição. Só podia viajar a Ouro Fino de charrete, a cavalo, em carroça ou cargueiros, por uma estrada muito bem cuidada. Antigamente o 13 de maio na Colônia era festejado com muito brilhantismo. A data do decreto redentor com que a Princesa Isabel declarara extinta a escravatura no Brasil era motivo de grande alegria para o Sr. Rio Branco, escravo liberto. Juntamente com o Sr. João Ressaca e o Sr. Cândido Fernandes muitos outros negros formavam dois grupos: um de roupa rosa e outro de roupa azul, com todos os enfeites exigidos para aquela solenidade, assim como todos os instrumentos (pandeiro, reco-reco, chocalhos, etc.). Saíam eles garbosos, dançando e cantando pela avenida e outras ruas da Sede. O Sr. Rio Branco fazia seu discurso, que era sempre muito aplaudido. Ainda no fim do dia, ouviam-se a batida do tambor e seus cantares com a toada da dança “bambaleada” e “saracoteada” sem cansaço (GUIMARÃES, 2010, p. 395- 432).

Diante de tais pontuações, podemos considerar que a memória deste passado histórico está ligada às relações interpessoais e também nas instituições sociais. A memória de Guimarães (2010) está relacionada com as famílias dos imigrantes e migrantes, com a religião, com o vestuário, com a escola, as viagens de charrete, com o clube e suas apresentações artísticas pelas músicas, danças, orquestras, casamentos, congada, instrumentos musicais, enfim a todo grupo de convívio e suas referências plurais compondo a diversidade cultural e étnica do Núcleo Colonial Inconfidentes. Desta forma, Guimarães (2010, p. 431- 433) vai refazendo o passado, reconstruindo suas próprias experiências:

Por volta de 1910 era comum quase todas as famílias no Núcleo Colonial Inconfidentes terem uma cabra para uso do leite como alimento, inclusive na minha casa, pois o leite de vaca era mais difícil. Muito movimentado também era o jogo de bocha, muito popular na Sede para onde afluía a imigração italiana. Lá perto da casa do Sr. Doná, durante as partidas, não se ouvia apenas o barulho das bolas, mas todo um vocabulário com “palavras especiais”, coisa natural do jogo.

Neste contexto das lembranças da autora Guimarães (2010), refletimos sua memória amarrada à memória do grupo, de sua família e também a memória da tradição, representando as lembranças coletivas da Colônia Inconfidentes. De acordo com Bosi (1998, p. 55) “as reminiscências da primeira infância sobem à superfície da consciência, umas e outras parecem ter-se mantido intactas no fundo da alma”.

Como eram gostosos nas tardes quentes de verão aqueles encontros da minha mãe e suas vizinhas D. Esperança. D. Maria Pereira, Ditinha e Maria da Sá Márcia, D. Julieta, D. Olímpia Clef e muitas outras, que se revezavam sentadas nas cadeiras colocadas em frente à minha casa. Ali, era longa a conversa, e rendia o crochê27, o principal hobby das senhoras daquele tempo (GUIMARÃES, 2010, p. 434).

A partir das afirmações da autora acima citada ressaltamos que a mesma ocupa não só em registrar a cultura e o cotidiano de sua vida, mas o faz evocando a memória do grupo carregada de lembranças e experiências. Atualmente, as pessoas adultas inseridas no universo do trabalho, pouco se ocupam em lembrar ou relembrar suas histórias, pouco se tem utilizado da memória pura, que segundo Bosi (1998) “opera no sonho e na poesia” e muito tem se ficado refém da memória-hábito produzida na repetição das tarefas diárias da vida ativa. Cada dia mais sem tempo, a sociedade atual vai se afastando dos encontros com vizinhos, das conversas evocativas e dos hobbys. As lembranças das tradições vão se perdendo na atualidade, na ânsia pelo lucro e competitividade, os sujeitos vão afastando-se de suas identidades e aproximando-se do consumo cultural midiático. Portanto, é preciso advertir que torna-se fundamental para a sociedade atual a busca de suas identidades, a luta pela não redução da história cultural, refeita seja nos registros bibliográficos ou no rememoro das pessoas idosas, que desempenham, segundo Bosi (1998, p. 82), “a função de unir o começo ao fim, de tranquilizar as águas revoltas do presente alargando suas margens”.

27

Atualmente o crochê é produzido no Município em larga escala, tornou-se uma fonte de sustendo, gerando muitos trabalhos. Este artesanato é feito manualmente por todo tipo de identidade de gênero. O Município de Inconfidentes ficou reconhecido em outros estados como a “cidade do Crochê” ou Capital Nacional do Crochê. Algumas matérias midiáticas sobre este artesanato foram e são realizadas com o apoio da Prefeitura Municipal de Inconfidentes.

CAPÍTULO - IV