CAPÍTULO III BRASIL E SUA PARTICIPAÇÃO EM REGIMES INTERNACIONAIS
3.1 FHC e Lula: perspectivas quanto aos direitos humanos
Não obstante, cumpre salientar que a adoção de regras de direitos humanos e a participação na comunidade internacional partem não só da consciência de que uma maior inserção e reconhecimento em tal comunidade requer a adoção de um discurso mínimo, mas também de certa coerção externa dos demais atores, no sentido de se aceitar um padrão mínimo de diálogo presente internacionalmente. É elucidativo voltar-se aos governos mais expressivos no período pós- Redemocratização para compreender esse paradigma. Nesse sentido, como bem aponta Macaulay (2007, p.27),
A administração FHC promoveu tanto reformas em direitos humanos quanto de fundo econômico neoliberal como um resultado da transferência indireta e coercitiva de políticas, ou seja, uma adoção voluntária feita a partir da percepção de que
não existem alternativas viáveis e que a resistência poderia conduzir a exclusão pela comunidade internacional e pela convicção principiológica.
De fato houve comprometimento do Governo FHC na convergência com padrões internacionais de direitos humanos em sua política externa, o que contribuiu para consolidar ainda mais a visão de um país legitimado a participar no cenário internacional enquanto ator cumpridor das normas de direito internacional.
Percebeu-se que houve mudança no conceito de poder: as conotações militar e nuclear são afastada para dar lugar a conceito que leva em conta bons indicadores sociais, estabilidade política, competitividade econômica e progresso científico - todos fatores que habilitariam o país a ter protagonismo internacional; uma vez que ao Brasil faltaria poder pela força, a participação em organismos internacionais faz com que regras sejam validas para todos, sejam as nações “fracas” ou “fortes”.
Assim, o Governo FHC, notadamente, trabalhou para dar apoio à criação do Tribunal Penal Internacional, e em função disso foi recompensado com um dos assentos rotatórios no Conselho de Segurança. Outra medida extremamente louvável foi a abertura do território para inspeções de monitoramento dos níveis de respeito aos direitos humanos a órgãos da ONU, do Sistema Interamericano de proteção e a ONGs (MACAULAY, 2007). Ainda, em Dezembro de 1998, foi reconhecida a jurisdição da Corte Interamericana de Direitos Humanos.
A mudança, deixando de se repelir investigações sobre violações de direitos humanos para uma relação mais cooperativa com as instituições internacionais, trouxe resultados diplomáticos importantes para o país, sendo louvado como atitudes construtivas, francas e autocríticas por diversas comissões da ONU (MACAULAY 2007). Em Agosto de 1996, o Brasil torna-se parte nos dois protocolos a Convenção Americana sobre direitos humanos. No ano seguinte, participa nos trabalhos preparatórios da Convenção sobre minas terrestres. Em 1998 reconhece finalmente a competência obrigatória da Corte Interamericana de Direitos Humanos. E, no que diz respeito à extinta Comissão de Direitos Humanos da ONU, em 2001 deu respaldo a atuação de relatores especiais no território nacional por meio de standing invitations, abrindo-se para inspeções de direitos humanos in loco (TRINDADE 2006).
Mais especificamente no plano interno, como reflexo das posturas adotadas internacionalmente, houve grande importância dada ao aparelho institucional relacionado aos direitos humanos. Não obstante críticas quanto a sua vagueza aos alvos a serem atingidos concretamente, a criação do Programa Nacional de Direitos Humanos, em 1996, e com repetição em 2002, com base em diretrizes propugnadas pela Conferência em Direitos Humanos da ONU de 1993, foi passo importante em direção ao conhecimento das condições de tais direitos em território nacional, de forma de avaliar a efetividade dos direitos humanos e caminhos para assegurá-los.
Durante o período Lula da Silva, houve substancial ganho de importância no papel do Brasil na comunidade internacional. A costura da política externa desse período soube fazer uso do bom desempenho da macroeconomia, enquanto as demais nações do mundo padeciam com a crise financeira de 2008, e de outros fatores como a descoberta das jazidas de petróleo do Pré-Sal. Tais elementos transformaram-se em ativos valiosos para as ambições brasileiras de consolidar-se como um global player.
Incidindo sobre o bom desempenho econômico, juntou-se o fator “carisma” do Presidente da República, e toda a questão de fundo que envolve sua vida pessoal (origem trabalhadora, humilde) e o foco que foi dado a sua eleição para presidência (necessidade de mudança), viabilizando a adoção de um projeto de desenvolvimento com justiça social. Não obstante, pode-se enxergar que o bom desempenho da economia oculta outros aspectos.
O maior dos desafios de Lula, durante seus dois mandatos, no que concerne aos direitos humanos, seria tomar como consolidada a participação do país nas esferas normativas de direitos humanos e avançar no sentido de se concretizar tais direitos em seu território, bem como propagar nas relações com outras nações o respeito a essa categoria de direitos, por uma questão de coerência e por força do artigo 4º, inciso II da Carta Constitucional de 1988. Nesse sentido, os mandatos do presidente Lula não se diferenciaram substancialmente daqueles de seu predecessor no que diz respeito a concreta implementação dos direitos humanos. Mas frise-se o apoio institucional dado à causa dos direitos humanos, ao conferir status ministerial à Secretaria Nacional de Direitos Humanos e criar as Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres e a Secretaria de Promoção da Igualdade Racial, bem como ao manter a elaboração do Plano Nacional de direitos humanos.
Por inúmeras vezes a política externa brasileira usa do argumento moral para tentar expandir sua influência nos círculos decisórios internacionais. Os capitais político e diplomático seriam elementos valiosos, comparáveis aos recursos de poder tradicionalmente utilizados pelas potências hegemônicas responsáveis pelas tomadas de decisão no âmbito internacional. Mas o argumento moral, da forma como é sustentado, desconsidera a realidade da tutela de direitos humanos no território nacional.
No âmbito interno brasileiro, contudo, verifica-se que as maiores violações aos direitos humanos ainda são perpetradas, ou deixam de ser corretamente investigadas, pelo Estado. É o que precisamente aponta SANTOS (2005, 35):
Perpetuadas pela polícia, esquadrões da morte e outros grupos de interesse, essas violações incluem a prática sistemática de tortura; trabalho escravo; discriminação com base na raça, etnia, gênero, orientação sexual, idade e deficiência; impunidade dos perpetradores de violência contra as mulheres; execuções sumárias; e violência contra movimentos sociais que lutam por reformas agrárias e pelos direitos dos indígenas, incluindo a criminalização dessas lutas. (...). Isso ocorre em razão da contínua concentração de poder nas mãos da elite, corrupção e problemas institucionais do sistema judicial no Brasil.
Essas violações ocorridas, permitidas pelo estado, prejudicam o suposto poder moral havido pelo Brasil, ainda que sob o ponto de vista institucional o país seja amplo garantidor dos direitos humanos. Ainda, o desrespeito a esses direitos desestruturam o sistema do qual faz parte o país pois, a despeito de existirem normas, princípios e regras tuteladas internacionalmente, as violações são permitidas.