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A teoria da liberdade inteligível de Kant pareceu para Fichte a libertação do determinismo. Ainda que teoricamente se verifique a sua necessidade, o determinismo é hostil e indigno do homem. Mas seu tributo à herança kantiana consiste em inverter o pensamento e tirá-lo dessa necessidade puramente teórica. A liberdade do ser moral deve ser o primeiro fundamento e o pressuposto para o mundo da natureza e da determinação. O eixo de seu sistema é o Eu ativo, livre e absoluto que já não é mais fato, como o sujeito que estabelece a lei em Kant, mas ação criadora.

Kant havia produzido a crítica da razão, teórica e prática, mas não produziu o sistema da razão. Reinhold propusera a tese da representação como distinta tanto do sujeito como do objeto, referida simultaneamente a ambos. Mas para Fichte uma tal tese só pode acabar numa teoria da faculdade representativa, por mais vastas que possam ser as deduções. Uma tal teoria, embora necessária, não pode ser fundamental. Todo fato é primeiramente qualquer coisa para a consciência. Portanto, os fatos não podem ser o ponto de partida incondicionado, pois estão sujeitos às leis da consciência do objeto. A ação produtora da consciência é mais original do que o fato. Ela é Razão Prática. Só ela pode proporcionar um princípio supremo34.

Tanto na presença efetiva de um objeto quanto no representar de novo a primeira representação deste objeto, o que há de efetivo é o auto-esquecimento do sujeito, é o que realmente preenche a consciência. Toda a realidade surge para o sujeito pelo mergulho e esquecimento de si nas determinações do tempo. As determinações primeiras e fundamentais são apropriadas pelo eu mediante esse simples abandono de si. Além desse auto-esquecimento, há também a faculdade do eu de se desvencilhar dessas determinações primeiras e elevar-se acima delas a uma segunda potência da sua vida, captando-se como o consciente em tal determinação. O eu pode ainda captar-se como o pensante naquele pensar do saber primeiro. Seria então uma terceira potência do eu e, assim, pode ele elevar-se infinitamente. De cada potência superior o eu pode voltar-se para uma potência inferior. Mas abaixo da

34 Rubens Rodrigues Torres Filho, lembra que Fichte recorre aos parágrafos 16 e 17 da dedução das categorias, em que Kant

estabelece como princípio supremo do conhecimento a subordinação do diverso da representação à unidade transcendental da apercepção. A apercepção pura se eleva como veremos a seguir até o eu puro, na medida em que se trata da autoconsciência que produz o eu penso e que, para Kant, é uma e a mesma em toda consciência e não pode ser acompanhada por nenhuma outra. Nos textos Ankünding einer neueren Darstellung der Wissenschaftslehre e Begriff, porém, Fichte mostra o caráter inovador da doutrina da ciência em relação à assim chamada filosofia: “essa ‘ciência inteiramente recém-inventada, da qual nem sequer a idéia existia antes’ só poderá chamar-se metafísica se esta, em vez de ‘ciência das pretensas coisas em si’ for entendida como ‘dedução genética daquilo que aparece em nossa consciência’. Esse filosofar sobre a filosofia para estabelecer seu conceito distingue-se da metafísica, no sentido indicado e será chamado de ‘crítica’ A crítica é simplesmente uma investigação ‘sobre a possibilidade, o sentido próprio e as regras de uma tal ciência (Torres Filho, R. R. O Espírito e a Letra. São Paulo: Ática, 1975, p. 26)”.

potência primeira e fundamental ele não pode descer. Sob ela somente poderia a consciência cair no não-ser. Se a via descendente tem esse limite, a via ascendente, que é a reflexão, não impõe restrições.

A esfera da primeira potência é a que se chama experiência, realidade ou do objeto como fato da consciência. A essa esfera o autor conta como pertencente tudo o que é percebido pelo sentido externo no espaço e tudo o que é descoberto pelo sentido interno, mesmo que a este último pertençam as leis que conduzem às esferas superiores, ou seja, a pura forma.

À doutrina da ciência interessa apenas o conjunto das primeiras determinações da consciência. Nesse sentido, cabe à filosofia procurar o diverso da consciência na percepção do objeto. A filosofia é a demonstração, a inferência da consciência inteira a partir de uma determinação qualquer de primeira ordem dada na consciência efetiva. As determinações da consciência podem ser apreendidas de maneira imediata, tal como se dão na percepção, ou de maneira mediata, quando o eu deriva sistematicamente a maneira como elas têm de se dar. O objeto da percepção será tomado pelo filósofo na medida em que lhe fornecem a afiguração e o delineamento daquela determinação fundamental da consciência: a doutrina da ciência deriva, a priori, sem nenhuma consideração pela percepção, aquilo que, segundo ela, deve aparecer justamente na percepção, portanto, a posteriori. Logo, para ela, essas expressões não significam objetos diferentes, mas apenas um modo de ver diferente de um e mesmo objeto35.

O filósofo precisa apenas pressupor um conceito da unidade do múltiplo da percepção. Da mesma forma, a autoconsciência completa é uma pressuposição que, a partir da inferência pela consciência efetiva da percepção, deve se confirmar. No diverso da consciência estão contidas as condições dessa autoconsciência. Nessa autoconsciência deve haver algo absolutamente incondicionado do qual começa a inferência. É a egoidade, sujeito-objetividade, o pôr do subjetivo, juntamente com seu objetivo, ou da consciência e daquilo de que ela é consciente como uma identidade.

Se além de qualquer objeto pensado o eu pensante pode distinguir-se quando pensa a si mesmo, ocorre a coincidência do pensante e do pensado. É o eu puro. A partir dessa abstração de tudo que não seja o próprio eu, o filósofo pode então engendrar todo o sistema da consciência. Da derivação do diverso a partir da sua unidade chega-se à universalidade. O eu puro é uma intuição dessa completude da consciência num único olhar. A partir dessa máxima abstração um novo termo é acrescentado a cada

35 FICHTE, J. G. Comunicado claro como o sol ao grande público onde se mostra em que consiste propriamente a novíssima

passo. E sua necessidade está contida na própria intuição, assim como o terceiro lado de um triângulo encontra-se determinado pelos outros dois. A intuição é a captação imediata do modo de agir da razão em geral. A derivação de todos os seres humanos da unidade da mesma razão garante a validade universal. Tal intuição se funda na doutrina da ciência e esta explicita a série inteira da intuição.

Para si mesma, esta intuição é a razão universal captando-se. O si mesmo da razão se captando é o eu puro. Ele é o primeiro termo da cadeia inteira e a doutrina da ciência descreve a série progressiva da intuição. Supondo-se inicialmente que eu = A, encontra-se na intuição da construção desse A, que um B se liga necessariamente a ele; na intuição do construir desse B, vê-se que a ele se encadeia um C. E assim se segue, até que se alcance o último termo de A, a autoconsciência inteira, que aparece completamente e levada a termo por si mesma.

Portanto, qualquer termo só é compreendido totalmente após se perfazer toda a série, pois cada termo está em conexão com o todo. As determinações da consciência efetiva aparecem nas divisões da doutrina da ciência apenas como último termo da inferência. Na construção e na intuição filosófica o eu da doutrina da ciência é abstraído do eu empírico. Ele é a identidade do eu consciente com o objeto de que tem consciência. Na percepção eles estão unificados e só é possível depurar o eu puro fazendo a abstração da consciência efetiva e de seus estados de coisa. Mas após o esforço requerido, o resultado último do sistema cai na esfera da consciência empírica e deve coincidir plenamente com a experiência, sem nada acrescentar à consciência efetiva.

Em O Princípio da Doutrina da Ciência Fichte mostra como na consciência dos opostos já se encontra a possibilidade da síntese. Na consciência empírica o pensante e o pensado se distinguem. Mas para o filósofo eles coincidem. O conceito ou o pensamento do eu consiste no agir sobre si do próprio eu. Ao mesmo tempo, e inversamente, um tal agir sobre si mesmo dá o pensamento do eu.

A consciência de um objeto é a consciência de um pensamento do objeto. Mas se estabelece-se previamente um sujeito independente, cai-se numa redução ao infinito, pois para cada nível de consciência de si, um outro sujeito que a preceda torna-se necessário. A consciência de si como condição da consciência empírica, tornando-a objeto para si mesma, se distancia indefinidamente.

Somente uma consciência em que objeto e sujeito não se separassem poderia explicar a consciência em geral. No pensamento de um objeto a consciência se dirige ao mesmo tempo para fora e

para dentro de si mesma. A atividade que retorna a si faz surgir o eu. Logo, no pensar de si mesma a consciência automaticamente é consciência empírica e, portanto, nela, o subjetivo e o subjetivo estão unificados e são absolutamente um. Essa consciência imediata se chama intuição. Trata-se de um pôr-se como pondo algo objetivo, que pode ser a própria consciência como objeto. Este é o fundamento do sistema: toda consciência possível, como objeto de um sujeito, pressupõe uma consciência imediata em que subjetivo e objetivo sejam pura e simplesmente um. A consciência é inconcebível sem essa pressuposição.

A busca por um elo entre sujeito e objeto será sempre inútil, pois ambos devem ser apreendidos em uma unidade. Toda outra consciência é mediada por esta. Só ela é incondicionada. O eu não é sujeito, é sujeito-objeto, no sentido exposto. Ele é esta intuição. Esse pôr a si mesmo do eu não produz uma existência como coisa em si, capaz de subsistir independentemente da consciência. Nem como substância pensante. A intuição intelectual é essa capacidade da consciência de intuir a si mesma. E nessa auto-intuição consiste o seu ser.

A consciência empírica é um repouso dessa força ativa em uma determinação qualquer. Ao pensar a si mesma a consciência encontra seu próprio agir, que ela chama de eu. O eu aparece imediatamente como determinidade ou repouso. A atividade interior captada em repouso é chamada conceito. A intuição do eu enquanto oposto ao objeto é apenas o seu conceito. Ele é instituído pela intuição, mesmo na consciência comum, mas inconscientemente.

A consciência da intuição só é alcançável por liberdade. A direção dessa liberdade é indicada pelo conceito. Portanto, o objeto da intuição existe anteriormente à intuição. É o conceito. Ele é a própria intuição considerada como repouso e não como atividade:

“O conceito, onde quer que apareça, nada mais é do que a atividade do próprio intuir, não captada como agilidade, mas como repouso e determinidade; e é isso que ocorre também com o conceito do eu. A atividade que retorna a si, captada como fixa e persistente – pela qual desde logo ambos, eu, como ativo, e eu, como objeto de minha atividade, coincidem – é o conceito do eu 36 ”.

O ponto de vista teórico, transcendental, não pode alcançar o conhecimento das coisas em si. Nele o não-Eu, objeto do conhecimento, permanece eternamente estranho ao sujeito, pois a consciência não pode superar essa dualidade. O eu teórico não possui autonomia. Mas o eu não se esgota no seu caráter teórico, ele é essencialmente prático. Sua ação significa uma relação inversa com o objeto. Criando e dando forma, propaga-se até o não-eu transformando-o segundo a finalidade do seu espírito. Por meio dessa ação, exerce a sua superioridade sobre o não-eu. Suspende a aparente igualdade de direitos com o não-eu, e com ela todo dualismo. O conceito de ‘Eu’ significa que

A inteligência, como tal, vê-se a si própria; e este ver-se a si própria está muito ligado, de forma imediata a tudo o que lhe pertence, e a natureza da inteligência consiste nesta ligação imediata do ser e do ver. O que há nela e o que ela é em geral é-o para si mesma; e apenas na medida em que o é para si própria, ela o é como inteligência” 37.

Essa reunião de ser e de ver que constitui a natureza da inteligência, não se encontra em nenhum objeto. Este não existe para si, mas existe unicamente para um outro, é objeto para um sujeito. O sentido do ser que a inteligência que se vê a si mesma apreende é o de um agir, um fazer que não é antecedido por nenhum ser prévio que age. Trata-se da distinção precisa entre a ação produtora e o fato da consciência. A distinção entre o a priori e o a posteriori fica como que suspensa. O sujeito, como atividade pura, é toda a base sobre a qual a se constrói a experiência inteira. A oposição fundamental de Kant cai num nível secundário nessa consideração.

Filosofia então significa uma elevação a um plano superior da própria idealidade das condições transcendentais do conhecimento. Kant obtém as leis em questão a partir da sua aplicação à experiência e não da essência da própria inteligência. Na Crítica da Razão Pura são dadas as aplicações e com elas as próprias leis. No verdadeiro idealismo a essência da inteligência, que é atividade pura, pode ser apenas pressuposta. Esta posição filosófica básica não pode deduzir-se, só pode ser imediatamente verificada. E só pode ser assim, porque todas as determinações, assim como a unidade da sua síntese, o eu penso kantiano, têm como último reduto a atividade da inteligência. A dialética fichteana começa com a dedução do eu puro como atividade. Isso significa a exigência de deduzir tudo a partir de um princípio. Mas esta dedução não significa extrair toda multiplicidade a de uma tese axiomática abstrata. Não uma é dedução no sentido formal, mas a demonstração do que

se encontra na consciência empírica. Nessa consciência imediata se antecipa a totalidade da experiência. É desse ponto de vista que Hegel iniciará a Fenomenologia, o saber enquanto saber fenomenal, na figura da certeza sensível. A consciência imediata inclui já a plenitude sujeito-objeto. Trata-se de uma auto-evidência, no pleno sentido do idealismo.

Não se toma a consciência imediata como objeto, mas como atividade. Portanto, não há contradição no que pretende a doutrina da ciência. Dois problemas o entanto, se põem ante essa exigência. Primeiramente o de como a consciência filosófica pode certificar-se do seu ponto de partida, a consciência original. A sua resposta nos leva ao conceito de intuição intelectual. E também como se deve constituir o método da dedução do conteúdo determinado a partir dessa consciência original. A solução nos dá o conceito da dialética.

Na Segunda introdução da Doutrina da Ciência, Fichte discorre sobre a chamada intuição intelectual descrita acima. Não é possível conceber o que vem a ser a ação, mas se pode intuir. Intuição intelectual é a intuição de si mesmo que o filósofo realiza. É apenas a consciência imediata da ação. Ela, obviamente, não é empírica, pois é um pressuposto para toda experiência. Não é sensorial porque não se dá nas formas do espaço e do tempo. É uma auto-apreensão pura da atividade originária, uma auto-intuição do Eu.

Para Kant, toda intuição é sensível, inclusive a intuição a priori. O entendimento não intui. Se a razão pudesse intuir, ela conheceria a coisa em si, já que pode pensá-la. São os limites da intuição que impedem o seu conhecimento. Esses limites são os motivos da crítica à pretensão de uma metafísica científica. Por isso Kant recusa a intuição intelectual. Ela é a fonte dos erros do dogmatismo e da ilusão em que a razão se enreda.

Fichte não pensa a intuição intelectual como conhecimento da coisa em si, mesmo porque, esta é um conceito irracional. O conhecimento da coisa em si não está em causa porque a sua oposição ao fenômeno é justamente a dicotomia que ele quer eliminar. Tão irracional quanto a coisa em si é o conceito de intuição intelectual a ela relacionado na Crítica da Razão Pura. O cuidado de Kant é inútil. Mas a intuição intelectual de Fichte se aplica ao ato da consciência que o filósofo verifica imediatamente. Na dedução dos conceitos puros do entendimento Kant aproxima-se deste conceito ao

37FICHTE: Primeira introdução à Doutrina da Ciência, In: Recepção da Crítica da Razão Pura. Lisboa: Calouste Gulbenkian,

designar a apercepção transcendental como o ponto mais elevado da unidade da consciência. Mas por não admitir a intuição intelectual, recuou ante a necessidade de determinar o modo como a consciência filosófica obtém essa unidade. Nos primeiros parágrafos da Doutrina da Ciência Fichte chama de intuição o absoluto coligir e abranger de um diverso do representar. Significa abranger com um olhar o seu juízo, não como juízo meramente empírico, subjetivo, como diria Kant, mas incluído na totalidade dos juízos de todos os outros seres racionais sobre este ou aquele objeto, de maneira intemporal. A consciência do particular, do objeto singular, Fichte chama de experiência ou percepção. Um saber só é possível se for deixado de lado tudo o que é mera percepção. A doutrina da ciência deve ser um saber do saber.

Segundo Fichte, Kant manifesta a carência de uma tal intuição na sua doutrina do imperativo categórico. A lei deve ser o fundamento do conhecimento da liberdade transcendental. Mas esta liberdade tem o caráter apenas inteligível. A consciência do imperativo categórico, da qual tudo depende, não é nomeada por Kant, pois seu nome não seria outro senão intuição intelectual. Como essa consciência é imediata, o ‘eu penso’ que deve acompanhar todas as minhas representações, não é um impecilho, mas um momento seguinte à intuição intelectual. Não há contradição, pois esta intuição não se dirige a um ser, mas para um agir. Sem ela, no entanto, a crítica não pode chegar a um conceito de ação, e, portanto, de liberdade. Toda ação no mundo pressupõe essa autointuição do eu. É a ação produtora que distingue eu e coisa. É nela que o mundo sensível e o inteligível se unem.

Não se pode, portanto, deduzir do Eu algo que não esteja contido nele. Deve-se apenas mostrar que ele está contido nesse algo, ou seja, que de fato ele já é pressuposto. Isso é possível colocando-se em primeiro lugar o ato da autoconsciência. A intuição intelectual da ação produtora do Eu determina todo o processo. O primeiro princípio de toda a dedução não pode ser deduzido, mas imediatamente apreendido.

O princípio não se refere a um ser, mas a uma ação. Esta ação, no entanto, não se realiza sobre dos conceitos estáticos. Todo o resultado se torna novamente problemático e contraditório. Os próprios conceitos tornam-se fluidos. Trata-se da mesma dinâmica dominando método e conteúdo. A concepção funcional da consciência em Kant foi um passo na superação da opinião comum de que não há função sem um sujeito de um agir, ou uma atividade sem algum ser que seja ativo. Em Fichte esta opinião é superada pelo seu oposto. A função pura, sem substrato, não apenas existe como é a base de tudo. Ação

antecede todo ser e este surge a partir dela como produto. O Eu consiste na ação produtora e fora dela ele não é nada.

Fichte distingue duas séries de ações que se encontram simultaneamente na doutrina da ciência, a do Eu que o filósofo observa e a das observações do filósofo. O ato da consciência de si próprio, como princípio da filosofia é uma ação do filósofo. Mas isso não quer dizer que teria que existir o eu antes da ação. O Eu só se torna originário para si mesmo através desse ato, que é uma ação sobre uma ação. A ação do filósofo é a relação que se refere a uma ação originária. Ela realiza com consciência o que a consciência empírica realiza com necessidade. Na ação voluntária de reflexão ele traz para a intuição a ação necessária e originária.

Por ser uma intuição, a autoconsciência do Eu ativo não é compreensão. Uma consciência e seu objeto não podem surgir por meio dela. A efetivação do primeiro ato exige um segundo. À posição inicial do eu tem de contrapôr-se a posição do seu oposto, o não-eu. O primeiro ato fica como uma abstração do filósofo. O objeto é a alteridade sem a qual o eu não se pode encontrar atuando num processo antitético. Resulta da posição mesma do eu que o exige. A contradição, interiormente necessária e inevitável, é a própria essência da coisa. Para que seja superada, o ponto de reunião dos opostos não deve ser algo que lhes sucede. Só é possível procurá-lo como já existente, demonstrar que ele já está contido na consciência dos opostos.

A filosofia como uma ciência tem uma forma sistemática, ou seja, todas as proposições contidas nela estão em conexão com um único princípio e nele se unificam como um todo. Aquilo que o

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