• Nenhum resultado encontrado

3.1 O Agigantamento do Judiciário

3.1.2 Ativismo Judicial

3.1.2.2 Fidelidade Partidária

A Contituição Federal ao dispor sobre a Organização dos Poderes legislativo, executivo e judiciário, determinou taxativamente as formas em que o poder

75 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Supremo mantém decisão do TSE sobre coligações. Notícias

STF, Brasília, DF, 18 abr. 2002. Disponível em: <http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe. asp?idConteudo=58655&caixaBusca=N>. Acesso em: 26 abr. 2014.

76 BRASIL. Emenda constitucional nº 52, de 8 de março de 2006. Dá nova redação ao § 1º do art.

17 da Constituição Federal para disciplinar as coligações eleitorais. Disponível em: <http://www. planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/emendas/emc/emc52.htm. Acesso em: 26 abr. 2014.

legislativo, no caso em tela, Deputado ou Senador, perderá o seu mandato eletivo, conforme previsto no art. 55°, “in verbis”:

Art. 55 - Perderá o mandato o Deputado ou Senador:

I - que infringir qualquer das proibições estabelecidas no artigo anterior;

II - cujo procedimento for declarado incompatível com o decoro parlamentar;

III - que deixar de comparecer, em cada sessão legislativa, à terça parte das sessões ordinárias da Casa a que pertencer, salvo licença ou missão por esta autorizada;

IV - que perder ou tiver suspensos os direitos políticos;

V - quando o decretar a Justiça Eleitoral, nos casos previstos nesta Constituição;

VI - que sofrer condenação criminal em sentença transitada em julgado.77

Não satisfeito com tais formas de perda de mando eletivo, previstas na Carta Magna, acima citada, o TSE editou uma Resolução nº. 22.610, na qual estabeleceu uma nova causa para perda do mandato e de justificação de desfiliação partidária, desta forma adicionando uma previsão não exposta na Constituição Federal, em que caberia ao Poder Legislativo realizar tal medida, mostrando, mais uma vez, a querela envolvendo resolução do TSE e o Legislatvo.

Conforme a Resolução, o partido político interessado pode pedir, na Justiça Eleitoral, a decretação da perda do cargo daquele eleito que se desfiliar do partido sem justa causa:

Art. 1º - O partido político interessado pode pedir, perante a Justiça Eleitoral, a decretação da perda de cargo eletivo em decorrência de desfiliação partidária sem justa causa.

§ 1º - Considera-se justa causa: I) incorporação ou fusão do partido; II) criação de novo partido;

III) mudança substancial ou desvio reiterado do programa partidário; IV) grave discriminação pessoal.78

Percebe-se mais uma vez que o Judiciário, com o mesmo pretexto de “interpretar” a Carta Magna, acaba legislando, usurpando do Legislativo tal poder. Esse caso, apesar de não ter decisão do STF, mostra claramente que o Judiciário

77 BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.

Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm>. Acesso em: 25 abr. 2014.

78 BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Resolução nº 22.610, de 25 de outubro de 2007. Disponível

brasileiro passou a criar leis, constitucionais ou não, arrancando do Legislativo sua competência, ferindo fortemente a democracia.

O próprio Código Eleitoral, que vem a ser uma lei específica do Direito Eleitoral, não determina que o Tribunal Superior possa criar atos novos por meio de decisões, e sim, que seja apenas um executor da legislação eleitoral, conforme se vê no art. 23, da Lei 4.737/65:

Art. 23 - Compete, ainda, privativamente, ao Tribunal Superior, [...]

XVIII - tomar quaisquer outras providências que julgar convenientes à execução da legislação eleitoral.

Como diz o próprio inciso XVIII, do art. 23 da Lei nº. 1.737/65, o TSE é um executor da legislação eleitoral. Sendo assim, não pode tomar como providência para a execução da legislação eleitoral a criação de uma outra lei, como fez com a Resolução nº. 22.210, na qual acrescenta dispositivo não previsto na Constituição Federal, pois cabe ao Poder Legislativo a criação das leis, e não ao Judiciário, ferindo o Princípio da Separação dos Poderes, onde determina que eles devem ser harmônicos e independentes entre si, evitando uma confusão entre os Poderes.

Porém, o TSE, na criação da Resolução nº. 22.210, justificou a sua criação através das atribuições que lhe são conferidas no inciso XVIII, do art. 23 da Lei nº. 1.737/65, que, como já foi esplanado acima, o citado inciso refere-se apenas à execução da legislação eleitoral e não à criação de lei.

Os poderes do Estado, além de exercerem suas funções típicas, também excepcionalmente vêm a exercer uma função atípica ao seu poder. Sendo assim, o Poder Judiciário tem como função típica a de resolver conflitos, e também exercer de forma atípa a função de legislar, sendo esta a elaboração de normas regimentais internas, ou seja, normas sobre a competência e o funcionamento de seus órgãos, totalmente diferente da criação de lei que o Poder Legislativo exerce de forma típica. É o que se vê no art. 9679, inciso I, da Constituição Federal, abaixo transcrito:

Art. 96. Compete privativamente: I - aos tribunais:

a) eleger seus órgãos diretivos e elaborar seus regimentos internos, com observância das normas de processo e das garantias

79 BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.

Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm>. Acesso em: 25 abr. 2014.

processuais das partes, dispondo sobre a competência e o funcionamento dos respectivos órgãos jurisdicionais e administrativos;

b) organizar suas secretarias e serviços auxiliares e os dos juízos que lhes forem vinculados, velando pelo exercício da atividade correicional respectiva;

c) prover, na forma prevista nesta Constituição, os cargos de juiz de carreira da respectiva jurisdição;

d) propor a criação de novas varas judiciárias;

e) prover, por concurso público de provas, ou de provas e títulos, obedecido o disposto no art. 169, parágrafo único, os cargos necessários à administração da Justiça, exceto os de confiança assim definidos em lei;

f) conceder licença, férias e outros afastamentos a seus membros e aos juízes e servidores que lhes forem imediatamente vinculados. A realização da Resolução do TSE, além de basear-se no art. 23, XVIII do Código Eleitoral, foi também com observância do que decidiu o STF nos Mandados de Segurança n. 26.602, 26.603 e 26.604, no julgamento da ADI 3.999-7/DF, no qual o Relator, Ministro Joaquim Barbosa, entendeu constitucional a desfiliação partidária, por meio do Princípio da Fidelidade Partidária, conforme julgamento do STJ:

DIREITO ELEITORAL. CONFLITO NEGATIVO DE COMPETÊNCIA. MANDADO DE SEGURANÇA. DESFILIAÇÃO PARTIDÁRIA SEM JUSTA CAUSA. PERDA DO CARGO ELETIVO. RESOLUÇÃO N. 22.610/2007 DO TSE. CONSTITUCIONALIDADE.COMPETÊNCIA. JUSTIÇA ELEITORAL. - O Tribunal Superior Eleitoral, regulando a matéria, editou a Resolução n. 22.610/2007, a qual dispõe sobre o processo de perda de cargo eletivo e a justificação de desfiliação partidária, a fim de dar cumprimento ao que decidiu o Supremo Tribunal Federal nos Mandados de Segurança n. 26.602, 26.603 e 26.604, bem como com base no art. 23, XVIII, do Código Eleitoral.- O STF, no julgamento da ADI 3.999-7/DF (relator Ministro Joaquim Barbosa), decidiu pela constitucionalidade da aludida norma, como instrumento assecuratório da observância do princípio da fidelidade partidária, em caráter excepcional e transitório até pronunciamento do Poder Legislativo. - A quaestio posta em debate, no caso concreto, consiste na eventual desfiliação partidária sem justa causa, a caracterizar "infidelidade partidária", de vereador, em período posterior (2009) à data da vigência da norma em debate (30.10.2007). Ademais, tanto nos autos do mandado de segurança impetrado na Justiça comum (fls. 20-42) quanto na Ação de Decretação de Perda de Mandato Eletivo ajuizada na Justiça Eleitoral (fls. 76-85), o fundamento do pedido é a desfiliação do 1º Suplente de Vereador - João Pedro Merenda Neto -, supostamente sem justa causa, do Partido Verde, o que implica a impossibilidade de assumir cargo declarado vago. - Compete à Justiça Eleitoral o julgamento das demandas a teor do art. 2º da Resolução n. 22.610/2007 do Tribunal Superior Eleitoral. Conflito conhecido para julgar competente o Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo e declarar a nulidade da liminar proferida pelo TJ/SP nos autos do Agravo de Instrumento em

Mandado de Segurança n. 0063443-42.2011.8.26.0000. Prejudicado, por conseguinte, o agravo regimental de fls. 293-686, interposto contra a liminar deferida às fls. 167-172. 80

Portanto, não só o STF entendeu que a Resolução deve ser cumprida, como o fez baseando-se num princípio que não81 está expresso na Constituição. Interpretando por demais extensivamente um artigo do Código Eleitoral, que só permite a edição normative para facilitar a execução da lei eleitoral, não para criá-la, o STF autorizou o TSE a ampliar os motivos de perda de mandato eletivo.