• Nenhum resultado encontrado

No dia 3 de agosto de 1960 a Tribuna do Norte anunciava a morte de Firmino João da Silva, o correligionário alvejado em Açu. Assim, o expurgo do inimigo, Dinarte Mariz, estava baseado no fato de que além de ser um governo corrupto era também um governo assassino. O título da capa do jornal foi: “Govêrno [sic] mata para sobreviver” (Tribuna do Norte, 3 ago. 1960, p. 1). Com a morte de Firmino João confirmada, não faltaram criticas por parte da Tribuna do Norte ao governador Dinarte Mariz acusando-o de fazer um governo intolerante.

Ao analisar os documentos da Tribuna do Norte neste período eleitoral de 1960 é possível identificar que foi uma campanha bastante violenta de ambos os lados da disputa. Acusações de tentativas de homicídios também eram feitas pelos governistas aos correligionários da Cruzada da Esperança. Durante um comício realizado na cidade de Jardim de Piranhas o governador Dinarte Mariz e o candidato governista Djalma Marinho foram vítimas de um atentado. Enquanto discursavam tiros foram disparados em direção da comitiva governista, mas não chegou a atingir ninguém. Segundo Pereira (2005, p. 325), o ocorrido chamou a atenção de representantes dos EUA no Nordeste15, uma vez que o estado já era alvo dos americanos para o combate ao comunismo na América Latina.

Tal episódio deveria ter uma publicação da Tribuna do Norte, aliás, a maior autoridade do estado tinha sido vítima de um atentado. Contudo a publicidade que a Tribuna

do Norte deu ao evento fez parte de mais uma construção do expurgo de Dinarte Mariz. Na

capa do jornal do dia 27 de agosto de 1960 estava escrito: “‘Atentado’ ao Governador e Seu Candidato Foi Uma Comédia dos Próprios Governistas [sic]” (Tribuna do Norte, 27 ago. 1960, p. 1). Para a Tribuna do Norte o atentado ao governador não passou de uma encenação mal ensaiada que não enganaria as pessoas de bom senso. Deste modo até as tentativas dos adversários de desconstruírem a ideologia da esperança eram utilizadas contra eles. “Depois de tentarem inútil o suborno, a corrupção e a violência, tentam, agora, o ridículo de uma farsa, montada (...)” (Tribuna do Norte, 27 ago. 1960, p. 1), com estas palavras o expurgo do outro era realizado na construção de um adversário corrupto, assassino e farsante.

A ideologia da esperança foi executada por Aluízio Alves e publicada na Tribuna do

Norte num momento de mudanças na base da estrutura política nordestina. A seca do ano de

15 Sobre a atuação dos EUA no Rio Grande do Norte durante o governo Aluízio Alves, ver: PEREIRA, Henrique

Alonso de A. R. Criar ilhas de sanidade: os Estados Unidos e a Aliança para o Progresso no Brasil (1961- 1966). São Paulo, 2005. Tese (Doutorado) – Pontifícia Universidade Católica – PUC-SP. Programa de Pós- Graduação em História.

1958 chama atenção do governo federal para o desenvolvimento da região. Para isso é criada em 1959 a SUDENE, sendo o desenvolvimento do Nordeste uma das metas do governo central não mais deixando nas mãos das oligarquias locais (TRINDADE, 2004, p. 101). Com isso, em Pernambuco as esquerdas chegam ao governo em 1962 com Miguel Arrais, sendo este um símbolo desse novo momento de rompimento das estruturas políticas nordestinas tradicionais.

No Rio Grande do Norte Aluízio Alves se propõe como aquele que romperia com o atraso das oligarquias agrárias. Para isso era necessário e estratégico que Aluízio Alves se distanciasse de suas origens oligárquicas e construísse uma nova estrutura política, mesmo que, para isso, esse rompimento ficasse apenas no campo das ideias. Deste modo podemos observar nas páginas da Tribuna do Norte sua construção de uma nova liderança a qual o contexto nordestino exigia. As oligarquias agrárias que outrora mantinham o domínio do eleitorado mediante imposição numa política, como observado por Leal16, inversamente proporcional ao desenvolvimento, neste momento entram em declínio. Atento às mudanças ocorridas no cenário regional e nacional Aluízio se lança como substituto no poder dessa relação de dominação com os eleitores construindo assim a ideologia da esperança.

Vimos que formas simbólicas foram mobilizadas pela Tribuna do Norte para mostrar aos eleitores que a posição de Aluízio Alves como liderança substituta da relação de domínio com os eleitores era legítima. Para tanto, se valeu da execução de toda uma cadeia de estratégias de legitimação começando pela racionalização ao construir um conjunto de raciocínio de como executar o desenvolvimento do estado. Num segundo momento se utilizando da estratégia de narrativização, o jornal mostrou ao eleitor que Aluízio apresentava condições de levar o Rio Grande do Norte ao desenvolvimento pelo fato de que enquanto deputado federal fora responsável pela criação de leis, como a lei da reforma da previdência, lei de energia de Paulo Afonso para o estado e lei de crédito de emergência para agricultores e criadores.

Tornada a relação de poder legítima, a ideologia da esperança buscou unificar tanto uma coligação partidária de diferentes orientações política como os diferentes setores da sociedade que compunham o eleitorado. As estratégias desenvolvidas para isso foram a

padronização, instituindo a ideia de desenvolvimento do estado como um referencial padrão a

ser compartilhado por todos da Cruzada da Esperança e seus eleitores. Utilizando também a estratégia de simbolização da unidade, em que criou diversos símbolos que unificasse todos os eleitores e correligionários como a utilização do thumbs up, o polegar para cima, simbolizando que a campanha estava sob o controle. Utilização de bandeiras verdes adornando a cidade até o dia da posse dos candidatos da Cruzada da Esperança. E as ofensas direcionadas aos eleitores da Cruzada da Esperança como o termo pejorativo “gentinha” eram reconhecidos por eles próprios como símbolos de unidade.

E finalmente, ao unificar, através da ideologia, grupos que a princípio eram contraditórios, o objetivo seguinte era fragmentar aqueles grupos que se colocavam como uma ameaça nesta relação de dominação doravante estabelecida. Para expressar o modo de operação da ideologia chamada de fragmentação a estratégia da diferenciação foi colocada em prática dando ênfase ao sinônimo de desenvolvimento a Aluízio Alves e de atraso a Dinarte Mariz. E a última estratégia de fragmentação fora o expurgo do outro. Estratégia essa que teve o objetivo de construir um adversário, Dinarte Mariz, que fora representado como corrupto, assassino e farsante, o qual todo o eleitorado fora convidado a resistir a até expurgá- lo.

Vitoriosa nas eleições de 1960 a ideologia da esperança serviu tanto para estabelecer uma nova liderança na relação de dominação entre as oligarquias dominantes e o eleitorado, quanto para sustentar práticas oligárquicas. Em momento de mudanças políticas no nordeste, Aluízio Alves se apresenta como a esperança de mudança para o desenvolvimento do estado, desde que fossem mantidas as práticas oligárquicas as quais faziam parte da origem política de Aluízio, lembrando que sua origem está vinculada também ao próprio Dinarte Mariz.