• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 1 CARIDADE, FILANTROPIA E INVESTIMENTO SOCIAL PRIVADO:

1.7 FILANTROPIA NO BRASIL E NOS ESTADOS UNIDOS

Brasil e Estados Unidos são países extremamente desiguais. Embora situado no “norte global”, os Estados Unidos marcam 0.41 no índice Gini do Banco Mundial52, enquanto o Brasil marca 0.52, com dados no ano base de 2013. De acordo com esse indexador, que vai de zero a um, o zero representa a perfeita igualdade enquanto o cem representa a perfeita desigualdade. Ainda de acordo com os índices de desenvolvimento mundial dessa instituição, em termos de concentração de renda, nos Estados Unidos, 20% da população mais rica detém 46.4% da riqueza (em termos de lucros/salários e consumo), enquanto os 20% da população mais pobre detém somente 5.1%. No Brasil, os números ficam em torno

52 http://wdi.worldbank.org/table/2.9# De acordo com o IPEA: “O Índice de Gini, criado pelo matemático italiano Conrado Gini, é um instrumento para medir o grau de concentração de renda em determinado grupo. Ele aponta a diferença entre os rendimentos dos mais pobres e dos mais ricos. Numericamente, varia de zero a um (alguns apresentam de zero a cem). O valor zero representa a situação de igualdade, ou seja, todos têm a mesma renda. O valor um (ou cem) está no extremo oposto, isto é, uma só pessoa detém toda a riqueza. Na prática, o Índice de Gini costuma comparar os 20% mais pobres com os 20% mais ricos. No Relatório de Desenvolvimento Humano 2004, elaborado pelo Pnud, o Brasil aparece com Índice de 0,591, quase no final da lista de 127 países. Apenas sete nações apresentam maior concentração de renda.

Disponível em:

de 57.4% de riqueza para 20% da população mais rica e 3.3% para 20% da população mais pobre. Cattani (2009) aponta:

Na ausência de forças contrárias ou corretivas, a apropriação privada da produção social resultou em um desmedido processo de concentração de renda. Vários indicadores comprovam essa assertiva, como, por exemplo, o fato de que, em 2005, nos Estados Unidos, a parte recebida pelo 1% mais rico da população representava mais de 50% da riqueza nacional. Os outros 50% eram divididos entre o restante, 99% da população. Essa desproporção não tinha acontecido desde 1929! (CATTANI, 2009: 549).

No imaginário brasileiro, é muito forte a imagem de que os Estados Unidos, como um país de “primeiro mundo” e “desenvolvido”, deve muito da sua potência econômica a figuras e atos filantrópicos, tornando-o assim um modelo que buscam emular. Tanto em reportagens quanto em conversas com interlocutores, os EUA figuram continuamente como referência prioritária na área. Isso faz com que organizações se aliem, profissionais troquem expertise e know how e, ainda, redes transnacionais sejam tecidas para desenvolver, fortificar e mesmo legitimar práticas de filantropia e gestão.

Meu interesse em pesquisar a filantropia no Brasil e nos Estados Unidos partiu de uma perspectiva comparada. Sendo assim, o desenvolvimento do estudo mostrou os vínculos que existem entre as filantropias dos dois países, isso aparece na estreita correlação e parceria entre atores, seus investimentos e seus projetos.

No ano de 2011, noticiava-se uma pretensa escassez das doações brasileiras e clamava-se por “estímulo fiscal” para aumentar a filantropia no país53

. Como parâmetro comparativo, um dos principais jornais do país trazia as cifras estadunidenses destacando o protagonismo do casal Bill e Melinda Gates, que já teria doado vinte e oito bilhões de dólares para filantropia, quase três vezes o valor passível de ser arrecadado no Brasil inteiro no período de um ano54.

Em 2014, a Revista Filantropia #68, produzida pelo Instituto Filantropia, apresentava os dados de uma pesquisa realizada em 2012, pela ChildFund Brasil, indicando que “os brasileiros doam mais de 5 bilhões de reais [ou o equivalente a uma média de 2 bilhões de dólares] anualmente para projetos sociais e ambientais”. No entanto, figurava uma completa ausência de dados referentes aos valores

53

<http://www1.folha.uol.com.br/mercado/863950-estimulo-fiscal-pode-duplicar-filantropia-no- brasil.shtml> Acesso em: 13 set. 2012.

54

<http://oglobo.globo.com/mundo/com-foco-empresarial-grupo-de-bilionarios-redefine-filantropia-nos- eua-2837637>. Acesso em: 13 set. 2012.

arrecadados no ano de 2014, no país. E nenhuma menção honrosa aos grandes filantropos do ano rechearam as páginas dessa Revista e das publicações de Institutos voltados à temática (tais como o Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social - IDIS - e o Grupo de Institutos Fundações e Empresas - GIFE). No site do IDIS, em divulgação da Pesquisa “Por que os investidores sociais brasileiros não divulgam o quanto doam?”, além da comparação com os Estados Unidos, já aparece a “incipiente cultura da doação no Brasil” como justificativa:

O jornal quinzenal “The Chronicle of Philantropy” faz, todo ano, uma lista das maiores doações feitas publicamente por norte-americanos. Considerando apenas as maiores de 1 milhão de dólares, foram doados U$ 9,6 bilhões em 2013. No Brasil, esses números são desconhecidos - aqui, não se sabe quanto, ou mesmo se os detentores de grande fortuna doam a causas sociais. Para entender essa realidade, o IDIS convidou quatro especialistas para comentar. Entre os pontos em comum observados, eles indicam a necessidade de criar uma cultura de doação (ainda incipiente no Brasil, ao contrário do que ocorre nos Estados Unidos) e a importância de falar publicamente sobre doações para inspirar outras pessoas55.

Ainda nesta reportagem, a Diretora de uma Associação apontava: “Nos Estados Unidos, declarar a doação é algo positivo e valorizado. As pessoas doam para inspirar e também para serem reconhecidas e admiradas. No Brasil, a admiração está apenas no ato de ganhar, e não no ato de doar. Os valores são diferentes. ” Eis que em 10 de dezembro de 2014, Warren Buffet, chief executive officer (CEO) da Berkshire Hathaway, ganhava as páginas de diversos sites na internet como “o homem mais generoso do mundo”, tendo feito o que foi considerada a “maior doação de caridade do ano, US$ 2,1 bilhões [cerca de R$ 5,5 bilhões], para a Fundação Bill e Melinda Gates”, de acordo com o ranking da Wealth-X56

. Ou seja, Warren Buffet teria superado sozinho, em quase três vezes, o valor supostamente arrecadado no Brasil. E a lista dos dez maiores filantropos e filantropas57 - segundo a Wealth-X - seguia com nomes de outros sete estadunidenses e dois chineses.

55

Disponível em: <http://idis.org.br/por-que-os-investidores-sociais-brasileiros-nao-divulgam-o- quanto-doam/> Acesso em: 11 dez. 2014.

56

De acordo com o site da firma, a Wealth-X é uma empresa focada em trabalhar a rede de pessoas muito ricas, detendo informações sobre suas famílias, biografias, interesses, etc.: “Wealth-X is the world‟s leading ultra high net worth (UHNW) intelligence and prospecting firm with the largest collection of curated research on UHNW individuals, defined as those with net assets of US$30 million and above”. Ver:

<www.wealthx.com/articles/minisite-post/buffett-makes-largest-charitable-donation-of-2014/>; <epocanegocios.globo.com/Informacao/Acao/noticia/2014/12/warren-buffett-e-o-homem-mais-

generoso-do-mundo.html>; <www.cnbc.com/id/102254417>; <news.morningstar.com/all/market- watch/TDJNMW20141210238/10-biggest-charitable-donations-of-2014.aspx> Acessos em: 11 dez 2014.

57

Ver <ranking: www.wltz.com/story/27590182/wealth-x-reveals-the-largest-philanthropic-donations- of-2014>

Figura 5 - Ranking Filantropia

Fonte: Folha de São Paulo, 21 de janeiro de 2011

De acordo com a matéria da Folha de São Paulo, o Brasil, “pouco generoso”, teria arrecadado no ano de 2009 cerca de 4,7 bilhões de dólares em doações, o equivalente a 0,3% do PIB, tendo sido ranqueado em 76º lugar no ranking do World Giving Index da Charities Aid Foundation (CAF)58. Enquanto isso, os Estados Unidos arrecadaram 303 bilhões de dólares, o equivalente a 2,1% de seu PIB, liderando o mesmo ranking. Sendo assim, nos anos seguintes, o país se manteve no topo do ranking enquanto o Brasil decaía da 76ª para a 85ª posição, em 2011; após passou para a 91ª, em 2013.

Em 2014, os Estados Unidos cairiam para a segunda posição - perdendo a liderança para Myanmar - e o Brasil fecharia emplacando a 90ª posição no ranking. No ano de 2015, os EUA se mantiveram na segunda posição, com Myanmar na primeira, e o Brasil cairia para a 105ª posição. Em uma reviravolta surpreendente, o Brasil subiria em 2016 para a 68ª posição, uma colocação nunca antes alcançada no ranking internacional da CAF.

58

Figura 6 - Bubble Map - World Giving Index 2016

Figura 7 - Continuação

Fonte: Charities Aid Foundation (CAF)59

59

A partir destes dados e de uma série de inquietações acerca não somente dos valores doados, mas dos imaginários e disputas que cercam as práticas filantrópicas, mostrou-se interessante, no sentido bourdieusiano60 do termo, lançar um olhar antropológico para as práticas e discursos presentes no universo da filantropia brasileira e estadunidense. Lembrando a proposta do autor de por meio da análise [sociológica] buscar entender a razão pela qual os atores fazem o que fazem, e assim dar sentido a um composto difuso de práticas a partir de “um princípio único ou um conjunto coerente de princípios” abandonando um olhar ingênuo e postulando que “os agentes sociais não realizam atos gratuitos”, esta pesquisa se voltou a entender por que se faz ou não filantropia, como ela é feita em diferentes contextos, o que pretendem os atores que protagonizam a sua prática e qual o seu papel frente a injustiças sociais.

Para tanto, a análise de Bourdieu sobre o interesse no desinteresse perpassa as análises elaboradas dialogando com a obra seminal de Marcel Mauss acerca da dádiva. A tríade “dar, receber e retribuir” maussiana que, como explica Chanial (2008: 43), inicia, mantém e apazigua as relações ganha agora um quarto elemento para torná-las perenes: fidelizar. A filantropia aparece então como elemento central dessa fidelização nas relações entre pares e entre distintas camadas da sociedade, seja ela na sua vertente corporativa, de famílias ou individual.

Tendo delineado neste primeiro capítulo as separações entre atos caritativos e filantropias, definido investimento social privado e governança econômica, prossigo analisando a historicidade das práticas filantrópicas no Brasil e nos Estados Unidos. Para isso, elaboro uma breve genealogia dessas práticas atentando para tradições religiosas, econômicas e políticas no capítulo a seguir.

60 “…a noção de interesse primeiro se colocou para mim como um instrumento de ruptura com uma visão encantada, e mistificadora, das condutas humanas” (BOURDIEU, 1997: 137).

CAPÍTULO 2 - É DANDO QUE SE RECEBE: FILANTROPIA NO BRASIL E NOS