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Filhos ouvintes e a interação com os pais surdos

2 SURDOS E FAMÍLIA

2.3 Filhos ouvintes e a interação com os pais surdos

Os filhos ouvintes de pais surdos são pessoas que participam da comunidade surda, mas pouco se fala sobre eles. Eles também são conhecidos aqui no Brasil como Codas. Conceituando esse termo, Souza (2014, p. 33) afirma:

O termo Coda é na verdade uma abreviação de origem norte- americana correspondente a Children Of Deaf Adults, utilizada por uma organização internacional que desenvolve trabalhos envolvendo filhos de pais surdos.

As famílias de pais surdos e filhos ouvintes podem apresentar a Libras como principal meio de interação, socialização e subjetivação. O desenvolvimento da linguagem está associado a aspectos cognitivos, emocionais, afetivos, sociais e identitários. Utilizamos como aporte teórico o conceito de Vygotsky (1991) acerca da linguagem e suas inter-relações como as funções psicológicas superiores. Nessa perspectiva, as interações mediadas pelas línguas orais, escritas e sinalizadas nos diversos contextos culturais são alicerces para o desenvolvimento das habilidades cognitivas, como o pensamento, memória, abstração. Tais habilidades são essenciais para a socialização e a aprendizagem do ser humano.

No Brasil, a criança ouvinte, no contexto de interação com pais surdos, tem contato com a Língua Brasileira de Sinais, mas, em situações sociais com outros familiares ouvintes, por exemplo, ela entra em contato com a utilização da Língua Portuguesa a partir, inicialmente, da oralidade e, posteriormente, do código linguístico escrito. Essa criança tenderá a desenvolver habilidades nas duas línguas: português e Libras. Nessa perspectiva, aprende a interagir numa perspectiva bilíngue.

Na interação social em famílias de pais surdos com filhos ouvintes, ou em famílias de filhos surdos com pais ouvintes, tende a coexistir um bilinguismo bimodal, que compreende duas modalidades de comunicação linguística. A primeira é a modalidade visual-espacial, que caracteriza a Libras. A segunda é a modalidade oral-auditiva, que caracteriza as línguas faladas (português, francês, espanhol, etc.). De um modo genérico, o bilinguismo, neste trabalho, será compreendido como o uso de duas línguas em ambientes familiar e social. Quadros (1997) apresenta o bilinguismo como uma competência linguística em duas línguas, seja individualmente ou em grupo.

As crianças tornam-se bilíngues por muitas razões: imigração, educação, residência temporária em outro país ou simplesmente por nascer em um ambiente que assume o bilinguismo (NEVES, 2013, p. 34).

Os filhos ouvintes de pais surdos assumem a condição de bilíngues pela circunstância linguística de seus pais. Nessa condição, os filhos interagem com seus pais surdos por meio de uma modalidade visual-espacial e compartilham a modalidade oral-auditiva da Língua Portuguesa com outros familiares ouvintes. Os usos da modalidade oral-auditiva da Língua Portuguesa são reforçados ainda por sua inserção no ambiente educacional, no qual a mediação do conhecimento ocorre prioritariamente nessa última modalidade nas trocas interpessoais de comunicação.

Neves (2013) afirma que a língua tem um papel fundamental para o processo de desenvolvimento cognitivo da criança. A autora ainda pontua que a maioria dos estudos bilíngues aborda o bilinguismo unimodal, ou seja, [...] “o estudo de duas línguas da mesma modalidade” (p.39), tais como a interação em português e inglês; português e francês, e até mesmo entre a Libras e a Língua de Sinais Americana (ASL).

O foco do nosso trabalho consiste em contribuir com pesquisas que envolvem o bilinguismo bimodal, ou seja, o uso de duas línguas com modalidades diferentes, como a língua visuoespacial (Libras) e a oral-auditiva (Língua Portuguesa).

Uma criança ouvinte filha de pais surdos é geralmente exposta primeiramente à língua de sinais. Considero importante salientar que cada história de vida é única. Minha experiência com meus pais surdos e familiares surdos não deve ser tomada como referência. Somos todos únicos e ao mesmo tempo um mosaico de “outros” com os quais convivemos (OLIVEIRA, 2014, p. 278).

A autora afirma que a criança, mesmo sendo ouvinte, aprende primeiramente a língua de sinais, pela condição linguística dos pais. E salienta que devemos estar atentos às histórias de vida, pois possuem singularidades e especificidades.

Nesse contexto, o método biográfico apresenta-se como opção e alternativa para fazer a mediação entre as ações e a estrutura, ou seja, entre a história individual e a história social (BUENO, 2002, p.17).

Com a colaboração desses autores, podemos compreender que a abordagem metodológica contribui para perceber as especificidades da condição bilíngue de

cada filho ouvinte na interação com pais e/ou familiares surdos. Os aspectos linguísticos desses sujeitos estão presentes nas mediações e nas histórias individuais.

As crianças ouvintes com pais ou responsáveis surdos estão imersas em duas línguas com estruturas e modalidades diferentes. A aquisição da língua de sinais ocorre no contexto familiar e da Língua Portuguesa, oral e escrita, com familiares e amigos e, posteriormente, constitui-se como elemento mediador dos processos escolares.

O trabalho intitulado “Pais ouvintes e filhos surdos: impasses na comunicação”, de Bastos e Silva (2013), revela um obstáculo na interação estabelecida entre os pais ouvintes e o filho surdo. Acredita-se que, para eliminar o impacto negativo na comunicação, as famílias de pais ouvintes e filhos surdos devem percorrer um caminho para compreender que seus filhos precisam aprender uma língua sinalizada (Libras) e a Língua Portuguesa escrita, de modo a favorecer o desenvolvimento cognitivo da criança. É preciso que eles compreendam que a falta da audição em nada a impede de ser uma pessoa que aprende, ensina e se transforma.

Para Oliveira (2014, p. 277):

As pesquisas e reflexões em torno dos Codas – Children of Deaf Adults – Filhos de Pais Surdos ainda são incipientes no Brasil. As questões que permeiam essas reflexões e pesquisas orbitam a esfera da cultura e língua. A língua de sinais é a primeira língua de um Coda? O Coda é bicultural? Quando o tradutor intérprete – Tils – é Coda, ele tem vantagens sobre o profissional que não é Coda? Tais questões não encontrarão respostas prontas neste trabalho.

Os filhos ouvintes de pais surdos, desde a infância, têm esse contato com a língua de sinais dos seus pais, diferentemente da maioria dos ouvintes que aprendem posteriormente a língua brasileira de sinais no contexto escolar ou em outros contextos (OLIVEIRA, 2014).

As crianças ouvintes de pais surdos, primeiramente, aprendem com seus genitores a língua de sinais. Dessa forma, devemos considerar que cada seio familiar possui experiências diferentes. Nesse sentido, é preciso entender que as histórias individuas são únicas, mas construídas a partir do agrupamento entre as demais pessoas que constituem a família (OLIVEIRA, 2014).

Para Vygotsky (1993), as relações entre pensamento e linguagem são de extrema importância para o desenvolvimento das habilidades cognitivas das crianças. Acredita-se que o meio social favorece a aquisição da linguagem, que torna os indivíduos sociais e culturais, e esse mesmo meio social viabiliza a construção do pensamento e a comunicação. No nosso trabalho, o desenvolvimento linguístico de filhos ouvintes de pais surdos é mediado pela Libras, pela oralidade e pela Língua Portuguesa escrita nos contextos familiares e escolares, trazendo implicações para a subjetividade e a aprendizagem desses sujeitos.

2.3.1 Codas: do que, de fato, estamos falando?

O termo CODA, significando Children of Deaf Adults (Filhos de Adultos Surdos), foi criado, em 1983 nos Estados Unidos, a partir da pesquisa realizada por Millie Brother, acerca de filhos nascidos de pais surdos. O resultado mostrou que 90% desses filhos são ouvintes. Em seguida, ela mesma cria uma pequena organização e, tempos depois, uma entidade de visibilidade mundial.

Atualmente, a CODA Internacional é presidida por Ray Williams, organização privada e mantida pelos seus membros, que são filhos ouvintes de pais surdos. Sobre o termo CODA e Coda, Souza (2014) apresenta as diferenças na escrita e no significado, ou seja, o termo escrito em caixa alta, CODA, representa a organização, ao passo que a terminologia Coda se refere aos filhos ouvintes de pais surdos.

Oliveira (2014) aponta que os Codas são constantemente imersos em interações nas duas línguas: geralmente, a Libras se constitui sua língua materna, e, em outro momento, usam a Língua Portuguesa na modalidade oral e escrita. Porém, nessas interações com as duas línguas, é necessário levar em consideração as experiências individuais dos sujeitos e a organização e a configuração da família e dos outros espaços de socialização a que a criança tem acesso ao longo do desenvolvimento da linguagem (OLIVEIRA, 2014).

Silva (2019) afirma que é natural a forma como acontecem as relações entre os pais surdos e familiares ouvintes, ou seja, a vivência entre o grupo de ouvintes e a comunidade surda. Os momentos em que esses filhos ouvintes vivenciam a prática interpretativa entre os dois grupos podem influenciar na escolha profissional e pessoal (SILVA, 2019).

Quadros (2017) considera a primeira língua dos filhos ouvintes, aprendida com os pais surdos, como sendo língua de herança. O termo, segundo a pesquisadora, refere-se ao uso da língua de sinais no seio familiar dos Codas, língua diferente da utilizada pela comunidade em geral. Contribuindo com essas ideias de duas línguas, Silva (2019) afirma que essas pessoas, devido à utilização dos dois meios comunicativos, são bilíngues biculturais. O sujeito Coda e sua especificidade como filho de pais surdos pode contribuir para a ampliação de contatos linguísticos e culturais, a fim de desenvolver um olhar sensível sobre a diferença.