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4.3. Alguns caminhos para o filosofar crítico num sistema de ensino tradicional

4.3.4. Filosofando sobre (e com) a indústria cultural

Para Adorno, uma educação para a emancipação, numa realidade mediada pela cultura produzida pela indústria cultural, só consegue se estabelecer como uma educação para a “contradição e para a resistência” (2000, p. 183). Em seus escritos sobre a educação, vislumbrava um grande potencial emancipatório nas novas gerações, que poderia ser desenvolvido desde que sua formação fosse voltada para esse propósito. Em face da indústria cultural e do obstáculo que ela representa para a liberdade, Adorno sugere que “aquelas poucas pessoas interessadas” na construção de uma sociedade emancipada “orientem toda a sua energia” para a efetivação deste propósito. Mais do que especular na teoria sobre a necessidade de se criar os mecanismos de resistência à dominação pela ideologia, ele sugeriu algumas possibilidades práticas de como efetivar, na sala de aula, a educação para a contradição:

“(...) imaginaria que nos níveis mais adiantados do colégio, mas provavelmente também nas escolas em geral, houvesse visitas conjuntas a filmes comerciais, mostrando-se simplesmente aos alunos as falsidades aí presentes; e que se proceda de maneira semelhante para imunizá-los contra determinados programas matinais ainda existentes nas rádios, em que nos domingos de manhã são tocadas músicas alegres como se vivêssemos num ‘mundo feliz’, embora ele seja um verdadeiro horror; ou então que se leia junto com os alunos uma revista ilustrada, mostrando-lhes como são iludidas, aproveitando-se suas próprias necessidades impulsivas; ou então que um professor de música, não oriundo da música jovem, proceda a análises dos sucessos musicais, mostrando-lhes por que um hit da parada de sucessos é tão incomparavelmente pior do que um quarteto de Mozart ou de Beethoven ou uma peça verdadeiramente autêntica da nova música. Assim, tenta-se simplesmente começar despertando a consciência quanto a que os homens são enganados de modo permanente, pois hoje em dia o mecanismo de ausência de emancipação é mundus

vult decipi em âmbito planetário, de que o mundo quer ser enganado. A consciência

de todos em relação a essas questões poderia resultar dos termos de uma crítica imanente, já que nenhuma democracia normal poderia se dar ao luxo de se opor de maneira explícita a um tal esclarecimento” (idem, p. 183).

As possibilidades de execução de práticas semelhantes às sugestões de Adorno, por parte dos professores de filosofia, são infinitas112. A revolução tecnológica tornou a velha lousa um instrumento pré-histórico, se pensarmos na facilidade de acesso das escolas atuais

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aos aparelhos eletrônicos de reprodução de vídeo tais como o dvd ou o potencial educativo representado pelo uso dos computadores. O “velho vídeo-cassete”, que já era uma tecnologia bastante comum no espaço escolar, há muito se tornou um aparelho obsoleto. Mas o material a ser trabalhado em sala de aula deve ser selecionado pelo próprio professor. Por isso ele precisa ser um observador crítico da indústria cultural, aproveitando ao máximo as suas possibilidades de uso pedagógico.

Quando Adorno e Horkheimer escreveram sobre a indústria cultural, a produção cinematográfica possuía uma baixíssima qualidade estética, algo que hoje já não se pode afirmar de forma generalizada. O próprio cinema transformou-se e se ainda a maioria dos filmes possui um caráter estritamente comercial, se ainda são produzidos na lógica da indústria cultural, por outro lado existem muitos outros que se colocam como uma leitura crítica da realidade, como momentos de reflexão sobre a cultura predominante. São materiais que, se bem utilizados, podem render grandes frutos para o ensino de Filosofia. Um bom filme não substituirá jamais a leitura de um bom livro113, mas diante das limitações que o trabalho didático impõe ao professor, um filme que leve à reflexão social, política ou existencial, é sempre uma boa opção.

Se nos tempos de Adorno, Mozart e Beethoven já não faziam tanto sucesso entre os mais jovens, o que se poderá dizer nos tempos atuais. Mas a música jovem também evoluiu e muitas vezes se colocou como um elemento de protesto, de contra-cultura, e mesmo, de rebeldia em relação ao tradicionalismo exacerbado da sociedade burguesa. Marcuse em 1969, no momento em que as mudanças estavam acontecendo e que o Rock and Roll se colocava como a grande marca da nova cultura, já falava da mudança e da falta de sentido que teria uma tentativa de sensibilização estética daquela juventude através da arte erudita:

“O protesto contra os valores da sociedade burguesa não surge somente na atitude bastante desrespeitosa para com a propriedade privada, mas também na rejeição a outros valores, como por exemplo, e é uma das coisas com que vocês podem concordar ou não, a repulsa ao modo tradicional de ensinar e à cultura burguesa tradicional. (...) Essa cultura já não faz muito sentido para eles. Pode ser bela, pode ser muito profunda, mas de algum modo ela não é apropriada. Não há conexão entre

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O ensino de Filosofia a partir da literatura também é uma boa possibilidade didática. Existem diversos trabalhos científicos que desenvolvem esta tese dentre os quais destacamos: GARCIA, 2005 e DUARTE & SOUSA, 2004.

o que está realmente acontecendo lá fora, no Vietnã, nas barricadas ou nos guetos, e estes belos versos e idéias elevadas” (1999, p. 70).

A história da música jovem, embora bastante breve quando comparada a toda a história da construção dialética da cultura ocidental, é um testemunho valioso sobre como o homem se rebela e depois se torna resignado ante o poder que o sistema possui de cooptar todo tipo de contra-cultura, transformando-a em mercadoria. Alguns dos ícones do rock dos anos 60 atualmente são os ícones da indústria fonográfica, os campeões de venda de discos de um segmento da economia que tem se expandido cada vez mais. O mesmo se poderia dizer sobre o movimento hip-hop, nascido nos guetos das grandes cidades, que nos anos 70 se colocava como a principal marca do protesto dos afro-americanos contra a hegemonia da “cultura branca” e que, atualmente, se converteu em um mero segmento da indústria cultural. É bem provável que a maior parte dos jovens rebeldes dos anos 60 estejam hoje “muito bem colocados” como empresários e profissionais liberais dentro da “cultura burguesa” criticada tão ostensivamente por eles114. Refletir sobre a “breve história da cultura jovem” é um bom caminho para a crítica da indústria cultural nos tempos atuais. É um exercício que pode proporcionar aos estudantes a percepção sobre como o sistema sempre encontra um jeito de “enquadrar” a todos, mesmo aqueles considerados como os “mais rebeldes”.

Mas de qualquer modo, sempre existirão jovens e possivelmente sempre haverá neles um potencial para o pensamento crítico que geralmente se manifesta, em primeiro lugar, como rebeldia. É necessário trabalhar este potencial para que não fique apenas na rebeldia sem propósito, transformando-o em crítica consciente. Trabalhar a cultura através daquilo que ela tem de repressivo, denunciando e enunciando os seus principais problemas, é uma tarefa que o professor de filosofia pode muito bem assumir no seu exercício docente. Isso não quer dizer que ele deve deixar de trabalhar os conteúdos específicos da filosofia, mas que precisa selecionar aquilo que realmente tem sentido para a contradição às forças da heteronomia. O cinema e a música podem e devem ser usados, mas apenas como exemplos relacionados e não como conteúdos.

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Um bom exemplo sobre como “os mais rebeldes” tendem a se resignar diante da pressão da sociedade capitalista pode ser encontrado no filme alemão Edukators (Alemanha/Áustria, 2004) do diretor Hasn Weingarther.

Uma das justificativas para trabalhar com o filme seria o pouco tempo disponível para leituras mais aprofundadas sobre os conteúdos da filosofia. Ele pode representar com mais facilidade uma questão filosófica que, de qualquer modo, demandaria uma leitura mais complexa. Como já foi dito, o filme nunca substituirá uma boa leitura. Por isso, seria inoportuno trabalhar filmes inteiros durante as aulas. O filme não deve substituir o filosofar, mas proporcionar o pano de fundo, o pretexto, o exemplo de uma situação existencial a ser discutida na sala de aula. Fazer recortes de determinadas cenas, que retratem situações específicas relacionadas com os temas que estão sendo discutidos, é uma boa opção.

Nesse sentido o filme pode tanto ser utilizado para ilustrar uma crítica já imanente no seu conteúdo, quanto para servir de exemplo sobre a banalidade da vida sobe o domínio da indústria cultural. Neste caso, o professor deve explorar a cena junto com os seus alunos, investigando sobre as determinações ideológicas da representação. Mas isso apenas depois de já ter discutido, com base em textos clássicos ou mesmo do livro didático, sobre o que é a ideologia.

Uma idéia interessante, para discutir sobre o tema específico da ideologia, seria gravar as propagandas comerciais exibidas durante o horário nobre da televisão para analisar junto com os alunos. A análise do discurso, especialmente do discurso publicitário, é uma boa opção para o desenvolvimento do espírito crítico (BRANDÃO, 2004). Não apenas do vídeo, mas também a publicidade implícita em algumas “reportagens” das revistas semanais, especialmente daquelas que tratam sobre as “banalidades” do mundo dos “famosos”, do universo das “celebridades”. O próprio discurso jornalístico, tanto da televisão, quanto dos jornais impressos, das revistas semanais podem e devem ser analisados nas aulas para uma compreensão sobre a ideologia, no momento em que ela se materializa “formando” a opinião da massa.

A mídia, de uma maneira geral, pode ser um objeto de análise constante nas aulas de Filosofia, uma prática sempre necessária para evitar que o “mito contemporâneo”, materializado nos produtos da indústria cultural, domine a razão. O nascimento da filosofia, na Grécia Antiga, geralmente é retratado como a passagem “do mito ao logos”. Para ensinar Filosofia, filosofando, mais de 2500 anos após o surgimento da filosofia, ainda é necessário efetuar o mesmo tipo de passagem. Assim como a superação do mito era fundamental para o

desenvolvimento do pensamento filosófico, superar a indústria cultural é uma necessidade latente para o exercício do filosofar com os jovens atualmente.