• Nenhum resultado encontrado

1. O homem é o tutor de sua própria divindade

1.9. Filosofar é se preparar para aceitar a vida

A falta de entendimento é a causa de muitas aflições, desditas e desgostos ao homem comum. Por não compreender bem as leis de funcionamento do mundo circundante, nem atentar para a importância da alma no jogo da vida, quase nunca consegue alcançar as coisas que almeja, os objetivos que anela. Quer a felicidade, mas, no entanto, torna-se infeliz. A dor e o desconforto que sente diante do que não pode mudar lhe abre a consciência para a percepção de sua situação de cativo, de prisioneiro das circunstâncias, eis porque Epicteto afirma que:

A origem da filosofia, pelo menos para o lado dos que se dedicam como é preciso, e conformemente à porta dela, é a percepção simultânea da fraqueza e da impotência, desse (do homem) em torno das coisas necessárias...226

É a partir da consciencização das carências e dos impedimentos de toda ordem aos quais está sujeitado que o homem desperta para o filosofar ... E o que é o filosofar (To de philosophesai ti estin)? Não é o estar preparado (paraskaeuasasthai)227 perante as coisas que acontecem?...228 Em face disso, o papel do filósofo revela-se como uma decorrência natural das necessidades humanas de enfrentamento e superação de dificuldades oriundas, em sua maioria, do despreparo e inabilitação habitualmente manifestas na senda do homem ordinário.

Assim sendo, a atribuição essencial, o traço distintivo do filósofo será o de condutor de almas, ou seja, o de educador. Epicteto tinha uma consciência tão profunda dessa sua missão, que mais parecia um preparador olímpico, embora visasse à vida. Por essa razão foi incompreendido por muitos de seus discípulos. Segundo seu próprio testemunho:

Em seguida falais: Ancião sem coração, saindo eu de (lá da escola) não chorou, nem disse: criança, caso enveredes para dentro de

226 Ἀρχὴ φιλοσοφίας παρά γε τοῖς ὡς δεῖ καὶ κατὰ θύραν ἁπτομένοις αὐτῆς συναίσθησις τῆς αὑτοῦ

ἀσθενείας καὶ ἀδυναμίας περὶ τὰ ἀναγκαῖα. L., II, 11, 1-2.

227 Habilitado, estar pronto para.

circunstâncias embaraçosas e difíceis, se fores mantido são e salvo, acenderei o candeeiro...229

Ora, o filósofo-educador tinha como objetivo tornar hábeis, destros, capazes os alunos que vinham até ele, para com o que quer que lhes acontecesse. Portanto não era de se esperar que no momento de retorno às suas comunidades, ouvissem de Epicteto que as circunstâncias lhes fossem favoráveis. No momento de despedida da escola o único desejo que externava era que não esperassem por cargas mais leves, mas que continuassem trabalhando por ombros mais fortes.

Inspirado em Sócrates em quem vê o zelador do cuidado que os outros devem ter consigo próprios, como fica evidenciado na pergunta... Sócrates convencia todos os que se lhe aproximavam, a cuidar de si mesmos? ...230 Sente-se na obrigação de auxiliar corrigindo os que lhe procuravam:

Se vens perante a mim para ser ajudado e eu não te ajudar em nada e tu como perante a um filósofo (e) eu nada te falar como filósofo . Como seria cruel estar diante de um filósofo e ele não lhe corrigir! ...231.

Conclui-se então que a origem da filosofia, o filosofar e o papel do filósofo estão interligados por um mesmo fio que principia pelos penares e sofrimentos decorrentes do estado de escravidão em que se encontra o homem ordinário, comum.

A capacitação do homem para a felicidade dependerá então do grau de compromisso que ele apresentar no engajamento na filosofia, assumindo-a como um sistema de desambição, de desapego, talhando sua conduta na pegada do desprendimento sucessivo e gradual de tudo e de todos. Essa a proposta de Epicteto de construção de felicidade baseada no princípio de liberdade.

229 εἶτα λέγετε ‘ἀφιλόστοργος γέρων· ἐξερχομένου μου οὐκ ἔκλαυσεν οὐδ' εἶπεν “εἰς οἵαν περίστασιν ἀπέρχῃ μοι, τέκνον· ἂν σωθῇς, ἅψω λύχνους”‘. L., II, 17, 37. 230Σωκράτης πάντας ἔπειθε τοὺς προσιό<ν>τας ἐπιμελεῖσθαι ἑαυτῶν; L., III, 1, 19. 231 ἄν τε μὴ λέγω, ὅρα οἷον ποιήσω, εἰ σὺ μὲν ἔρχῃ πρὸς ἐμὲ ὠφεληθησόμενος, ἐ[ρ]γὼ δ' οὐκ ὠφελήσω σ' ὐδέν, καὶ σὺ μὲν ὡς πρὸς φιλόσοφον, ἐγὼ δ' οὐδὲν ἐρῶ σοι ὡς φιλόσοφος. L., III, 1, 11.

Sobre cada uma das coisas que seduzem tanto as que se prestam ao uso, quanto as que são amadas, lembra-te de dizer de que qualidade são, começando a partir das menores coisas. Caso ames um vaso de argila (diz) “eu amo um vaso de argila”, pois se ele se quebrar, não te inquietarás. Quando beijares ternamente teu filho ou tua mulher, (diz) que beijas um ser humano, pois se morrerem, não te inquietarás...232

Grande parte da quietação defendida por Epicteto se refere à compreensão da vida desprendida que sabe diferenciar duas esferas de ser, uma que nos pertence propriamente e outra que não. É a diferença que medeia entre o humano e o inumano. A divisão é na verdade uma ontologia a serviço do hegemônico. Nela e com ela tem-se de aprender a separar, identificando o verdadeiro ser - do qual importa cuidar centralizando todas as atenções -, do ser das coisas, cujo valor é imensamente inferior comparado ao hegemônico.

Após o separatismo que delimita as regiões ontológicas fundamentais (o “sobre mim” e o “não sobre mim”) Epicteto propõe a política de desapegamento progressivo e sequente de todos os ligames que prendem o homem por laços corporais, que é uno verbo a katharsis convertida em princípio diretivo da conduta na preparação para a liberdade. Eis a ginástica preceituada por ele:

Este o exercício que era preciso praticar desde manhã até a noite.

Começando pelas menores coisas, pelas mais frágeis uma marmita,

um vaso de argila; (e) oxalá assim, chegar à pequena túnica, chegar ao cãozinho, ao cavalinho, ao pequeno pedaço de terra. Daí para ti mesmo, ao corpo, às partes do corpo, às crianças, à esposa, aos irmãos. Olha bem todas as partes para tudo rejeitar para longe de ti. Purifica os dogmas para que nada daquilo que não te pertença se prenda a ti, não façam parte de tua natureza, nem te cause sofrimento se te forem arrancadas. E diz cada dia exercitando-te como ali (no ginásio), não que filosofas (porque seria um termo pretensioso), mas que tu és um escravo a caminho da emancipação. Isso é a verdadeira liberdade...233

232 E., III.