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PRIMEIRA DÍADE

4. Filosofia e Sedentarismo

Seria toda a filosofia ocidental uma nota de rodapé a Platão? Não por acaso, a boutade de Whitehead tem um fundo de seriedade teórica em sua formulação. Afinal, ao desenvolver sua teoria do caráter processual da natureza, o filósofo e matemático inglês descreve uma concepção preênsil da percepção humana, ou seja, nossa percepção da realidade seria constituída por uma imediaticidade não-representacional204. A crítica que Whitehead faz à teoria dos atos intencionais e ao sentido idealista da consciência, fundados em regimes representacionais, não é nada mais do que uma crítica à aphaeresis platônica de remeter dados preênseis da realidade a uma estrutura eidética prévia. Para Whitehead, pensamos em ideias gerais, mas vivemos o detalhe. As esferas são o mundo do detalhe, da não-discrição, da preensibilidade, não de estruturas eidéticas-noéticas. Nesse percurso, a anamnese de nossa origem genética talvez tenha se perdido em benefício de uma reminiscência das Formas. Ao longo de dois mil e quinhentos anos, a radicação vital, a nossa razão vital, para falar com Ortega y Gasset, e a imediatidade de nossa condição preênsil de símeis possivelmente tenha se atrofiado. Afinal, nada menos geométrico do que um mamífero.

É nessa divisão entre o sprit géométrique e o sprit de finesse, valendo-me aqui da poderosa intuição de Pascal, que se coloca a filosofia, desde o seu nascimento. É nessa constatação entre recordação das ideias e recordação da espécie, entre ontogênese e filogênese, que Sloterdijk encontra a flutuação entre filosofia e Antropologia, bem como o ponto partida para a odisseia da esferologia. A geometria é, literal e etimologicamente, a medida da Terra. É conhecida a sentença de Husserl, segundo a qual, de acordo com os

203 Conferir também o breve e brilhante capítulo de E-I que distingue entre um anjo e um idiota, a partir de

Nietzsche e Dostoiévski.

204 WHITEHEAD, Alfred North. O conceito de natureza. Tradução Julio Fischer. São Paulo: Martins Fontes,

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sentidos, a Terra permanece fixa. Husserl usa esta imagem para corroborar a sua concepção de uma região de ancoragem das estruturas eidéticas propiciadoras da experiência, ou seja, para demonstrar o caráter apodítico da estrutura transcendental da consciência. Por isso, enquanto se ancorou no princípio de identidade e não ousou pensar a diferença ontológica radical, da Jônia a Jena, de Tales a Hegel, como bem intuiu Franz Rosenzweig, a filosofia foi uma narrativa da totalidade205. Enquanto se apoiou na quantificação eidética de um ponto fixo, de Platão a Husserl ou de Parmênides a Heidegger, ela foi a vindicação teórica de um princípio imutável. Antropologicamente, concebeu a Terra como um ponto que, embora móvel para o entendimento, não o é para os sentidos.

E aqui surpreendentemente incluo Heidegger, como Sloterdijk também o faz. Pois sequer a existência entendida como ek-sistere (fora da permanência) e as paisagens flutuantes da facticidade, por meio das quais o tempo desvela o ser ao ente, não nos livram da demoníaca sedução da fixidez. É assim que ela reaprece nas metáforas heideggerianas pastoris de gosto duvidoso, justamente ao definir o ser humano: o homem não é o senhor do ente, mas o pastor do ser. É nesse sentido que, ironicamente e de um ponto de vista antropológico, para Sloterdijk a história da metafísica é a história do sedentarismo206. E mesmo Heidegger ainda continua sendo um pensador agrícola, imiscuído na Floresta Negra, sem acesso à condição de pensamento capaz de compreender a revolução tecnológica que se inicia nas primeiras décadas do século XX e, com suas reticulações e capilarizações, mapeia o globo com seus tentáculos e rizomas, abrindo-nos a uma experiência antropológica sob alguns aspectos sem precedentes em milênios.

Por conta disso é que apenas na segunda metade do século XX e o século XXI temos a formulação de uma diferença ontológica de fato global, capaz de conceber noções como imortalidade, ser, substância, ou seja, todas as categorias metafísicas da permanência, como virtualizações projetadas ilusoriamente no “plano de imanência”. Surge a condição

205 ROSENZWEIG, Franz. La estrella de la redención. Salamanca: Sígeme, 2006, p. 43 e seg. 206

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de possibilidade de um pensamento rigorosamente nômade207. A tão propalada morte da filosofia, nos dias de hoje, não anuncia nada mais do que o avassalador movimento

desinibidor dos agentes apticos de que fala Gaos, ou seja, da tecnologia, fogo prometeico

projetado na utopia do consumo infinito e na realização possível de um sonho escatológico de origem religiosa: os mil anos de felicidade208. Porém, a despeito de vivermos em uma era rigorosamente pós-metafísica, cujos agenciadores coletivos de sentido são sempre figurações flutuantes do Capital, o mediador universal, para Sloterdijk, pensador da pluralidade epistemológica e, em última instância, um anarquista epistemológico, na linha de Feyerabend, isso não significa que possamos invalidar totalmente a metafísica. Da mesma forma que a aparência da imobilidade da Terra não vai deixar de nos obsedar todas as manhãs e de nos possibilitar belas imagens de pôr do sol, a todos nós, inclusive aos astrônomos. A revolução copernicana, tanto a cosmológica quanto a de Kant, baseada no sujeito transcendental, não nos impediu de continuar a dizer que o sol se põe no horizonte, dado invalidado por qualquer análise astrofísica superficial209.

É interessante ver como Sloterdijk no fundo não elimina totalmente o argumento de Husserl. Afinal, se do ponto de vista dos sentidos o sol continua girando ao redor da Terra, nada o impede de continuar possibilitando a manutenção de diversas mitologias geocêntricas210. Ou seja: a realidade em que vivemos é fruto de um confronto entre a mobilização copernicana e o desarmamento ptolomaico211. Este confronto não se resolveu, permanece em aberto. Isso significa que, justamente em defesa do pluralismo das crenças, podemos conviver com crenças consideradas superadas, mas que são efetivas no âmbito da razão prática. Em outras palavras, não se pode afirmar que a percepção geocêntrica dos sentidos seja incapaz de gerar realidades noéticas válidas. Para os sistemas de crenças que guiam nossa vida cotidiana, pouco importam os buracos negros, as supercordas, a antimatéria, a teoria do caos, os universos paralelos, os quantas, desde que a ilusão da

207 Conferir as seções específicas na qual Deleuze e Guattari tratam das máquinas de guerra e das máquinas de captura: DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. Mil Platôs. Capitalismo e Esquizofrenia. Cinco Volumes.

Coordenação da tradução Ana Lúcia de Oliveira. São Paulo: 34 Letras, 2007.

208 DELUMEAU, Jean. Mil anos de felicidade: uma história do paraíso. São Paulo: Terramar, 1997. 209 MCDP.

210 MCDP. 211

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ascensão e do declínio do sol nos possibilitem criar uma mitologia da infância ou pintar as diversas faces verdadeiras da catedral de Rouen.