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3.3 FUNDO POÉTICO COMUM

3.3.2 Filosofia e Vedanta

Com uma extensa obra, que abarca diversos temas, Henri Bergson foi um dos filósofos fundamentais do século XX. Em seu ensaio intitulado A Evolução Criadora (1979, p.160,) o autor sustenta que “não há manifestação essencial da vida que não nos apresente, em estado rudimentar ou virtual, as características das outras manifestações”. Segundo ele, a totalidade possui a mesma natureza do indivíduo, de um movimento, um impulso de liberdade criadora que se insere e transforma a matéria incessantemente, de sorte que a distinção entre espaço e duração possui um alcance ainda maior e certamente mais valioso que diz respeito à nossa própria existência. Ele alega que o movimento evolutivo seria algo simples se a vida descrevesse uma trajetória única, comparável à parábola descrita por uma bola de canhão, mas que estamos tratando de algo como uma granada que explodiu em fragmentos destinados a explodir de novo e assim por diante durante muito tempo. “Só percebemos o que está perto de nós, os movimentos espalhados dos estilhaços

pulverizados. É a partir deles que devemos voltar, paulatinamente, até o movimento original”.

Bergson (1979, p.205) menciona a tendência que cada ser carrega em si enquanto potencial, como uma planta, por exemplo, que mesmo distinta de um animal por sua fixidez e insensibilidade, possui ainda movimento e consciência adormecidas nela como lembranças que podem despertar, assim como um animal pode ser desviado para uma vida vegetativa. As duas tendências penetravam-se no início, assim como acontece com a inteligência e o instinto. Sendo assim, ele conclui que existe uma corrente de existência e uma corrente antagônica, de onde se origina toda a evolução da vida. Para encontrar uma fonte comum dessa oposição, no entanto, entraremos ‘nas mais obscuras regiões da metafísica’, afirma o filósofo. Mas, considerando que “as duas direções encontram-se marcadas na inteligência, por um lado e, por outro, no instinto e na intuição, “o espetáculo da evolução da vida sugere- nos certa concepção do conhecimento e também certa metafísica que se implicam reciprocamente. Uma vez destacadas, essa metafísica e essa crítica poderão derramar alguma luz, sobre o conjunto da evolução”.

Para a discussão sobre ‘fundo comum’, interessa a noção de evolução, de origem, da colaboração dessa combinação de filosofia, de crítica e de metafísica que Bergson propõe aqui. Ele ainda afirma que o corpo extrai do meio material ou moral o que pode influenciá-lo, o que lhe interessa, ideia que também se alinha à concepção de Lecoq, baseada no mimismo de Jousse, mencionado anteriormente. E Bergson salienta, naquilo que concerne à experiência real do tempo, do espaço e do corpo, a importância do corpo como elo presente entre passado e futuro, e da consciência como o local onde se evidencia que a realidade é duração, onde se unem a experiência e a intuição.

Assim como Bergson estabelece tais relações com a natureza, ainda que de outro ponto de vista, existem diversos aspectos que se entrecruzam e que ecoam alguns dos fundamentos da visão de Lecoq, entre os quais proponho associações com a filosofia oriental através de alguns pressupostos dos estudos de Vedanta.

Vedanta é o conhecimento contido no final dos Vedas, os textos chamados de

Upanishads. Outros textos de Vedanta são a Bhagavadgita, o Brahmasutra e os Prakaranagranthas, textos que também exploram temas de estudo de Vedanta

essencial através de seu método de escutar as palavras de ensinamento diretamente de um mestre, depois refletir sobre o que foi escutado e contemplar o que foi escutado e refletido, sendo, portanto, a meditação concomitante ao estudo. Segundo Glória Arieira30, Vedanta não é um sistema filosófico, nem tampouco uma religião, mas uma tradição de ensinamento transmitido de mestre a discípulo num fluxo perene desde tempos imemoriais. Assim como não podemos dizer o que veio primeiro, se a árvore ou a semente, é impossível delinear um começo para esse ensinamento.

O ensinamento do Vedanta – que significa "a meta de todo o conhecimento" – é um desdobramento claro e profundo dessa verdade essencial e única, sobre a identidade do indivíduo, aquele que busca o Ser Ilimitado. Baseia-se nas leis espirituais imutáveis que são comuns às tradições religiosas e espirituais ao redor do mundo, em que essa meta se referiria a um estado de autorrealização ou de consciência cósmica. Vedanta menciona a ideia de fundo comum que é Iswara – que pode ser traduzido por deus –, que é o todo manifestado. Para o Vedanta, não há separação entre o Eu e o Todo, não há um círculo fechado ao redor de um Eu: o indivíduo está dissolvido no todo, somos constituídos de uma mesma matéria, os elementos estão todos em comunicação, “nosso corpo é poeira de estrelas”. Ao invés de deus, pode-se considerar consciência ou vida.

O ensinamento central dos Upanishads, coletânea de escritos fundantes da filosofia hindu que encontram-se nos livros dos Vedas, como aponta Frawley (1982), é justamente sobre a unidade de todas as coisas. As várias forças ou princípios ali colocados são maneiras de demonstrar tal unidade. São considerados cinco os elementos básicos – espaço, ar, água, fogo, terra –, que são tomados como uma sofisticada ferramenta para compreender por analogia a unidade de todas as coisas no

self, que é a vastidão da verdadeira visão dos fenômenos da vida. A unidade de todas

as coisas pode ser reduzida a esses elementos, uma vez que compreendemos que tudo o que existe são meras combinações desses elementos, então podemos vislumbrar a unidade em toda manifestação, contanto que tomemos essa analogia num sentido simbólico, como os antigos faziam, e não apenas no sentido científico. Os cinco

30 Gloria Arieira é Diretora Presidente da escola Vidya Mandir Centro de Estudos de Vedanta e

Sânscrito. Estuda desde 1974 com Swami Dayananda, que tornou-se seu mestre de quem escuta os ensinamentos. Responsável pela tradução de vários livros,ministra aulas de Vedanta e de sânscrito em sua escola no Rio de Janeiro. É professora de Maria Nazaré Cavalcanti, ex-integrante do grupo Tear de teatro (PoA), minha professora de ioga e de Vedanta. (http://www.vidyamandir.org.br, acesso em 19/12/12)

elementos são utilizados para ajudar a direcionar a mente gradualmente, abordando por vários ângulos e por nomes diferentes a experiência do Todo. Se essa unidade última será chamada de espaço, de água, de Atma, de Brahma, de olho do sol, de comida ou de graça, pouco importa, somente importa a questão de que tudo é compreendido como uma unidade no seu sentido interno.

Trata-se, em última análise, da universalização desses princípios. Por exemplo, quando você entra em uma sala vazia, ela não está vazia, está cheia de ar. O ar está em contato com o seu corpo e está em contato com as paredes, que estão em contato também com o ar externo àquele espaço, todos constituídos de matéria diversas, com elementos organizados de maneiras diferentes, átomos empacotados com tensões próprias que vão diferi-los enquanto conjuntos, mas que no fundo são todos uma coisa só. A água, seja no mar, no gelo das geleiras ou nas ondas, é sempre a mesma “sopa” de elementos químicos sob influência física, com variações aqui e ali que vão diferenciá-los, mas que possuem o ‘fundo comum’ de serem água, e que somos capazes de identificá-la como tal, e de buscar apreender a noção de ‘água de todas as águas’.

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