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Filosofia Geral da Lei

No documento dissertação de mestrado Claudinei Lombe (páginas 98-103)

2.2 O contexto: O Espírito da Lei

2.2.3 Filosofia Geral da Lei

A filosofia geral da lei é a valorização da cultural ancestral dos africanos e luta dos afro-descendentes no território brasileiro, sendo esta luta pelo reconhecimento do indivíduo negro e sua historicidade.

2.2.3.1 Fatos e acontecimentos históricos significativos do período de tramitação da Lei no Congresso Nacional

A luta pelo reconhecimento cultural aconteceu no fim da 2ª Guerra Mundial; este foi o principal acontecimento significativo do período de tramitação da Lei no Congresso Nacional. Ao término da Guerra, a declaração dos direitos humanos foi fundamental para os movimentos sociais em todo o Planeta. O Movimento Negro internacionalizou sua luta. A Figura 5 apresenta esta relação, a luta local pelo reconhecimento social, iniciando-se no município e se estendendo até a esfera estadual; enquanto isso, os municípios e os Estados aprovavam leis que beneficiavam a comunidade negra; o Governo federal sentia-se pressionado a tomar medidas em relação à pressão exercida pelo Movimento Negro, que procurava, por meio de sua luta, a emancipação. As organizações internacionais – como a Organização das Nações Unidas (ONU), conjuntamente com os países signatários de convences internacionais – também exercem pressão sobre os países que desrespeitam os direitos humanos.

A seguir, será apresentada a Figura 5, que revela as pressões externa e interna sofridas pelo Governo federal.

Figura 5 - Pressão sofrida pelo Estado nas esferas internas e externas que colabora na luta do Movimento Negro pela sua emancipação [Fonte: o autor]

A figura representa os níveis de pressões interna e externa exercidas sobre o Estado brasileiro para garantir os direitos do negro; internacionalmente, foi feita por entidades de defesa dos direitos da pessoa humana, ONU, Unesco e Fundos das Nações Unidas para a Infância (Unicef), entre outras, e internamente pelo Movimento Negro, que pressiona os governos municipais e estaduais, que aprovando leis que beneficiem a população negra, acabam exercendo uma pressão em nível nacional.

A luta pelo acesso e permanência na educação como processo de inclusão social inicia-se na década de 30, mas as condições não eram favoráveis; a Frente Negra Brasileira teve uma vida curta e em 1937 foi fechada. Em 1978, o ressurgimento do MN, denominado Movimento Negro Unificado, deu continuidade à luta.

Como cenário político, a década de 1980 foi construída para possibilitar a abertura política do País. O programa de anistia promovido pelo Governo Militar, general João Figueiredo, consistiu no retorno ao Brasil dos exilados, intelectuais e ativistas do Movimento Negro, que então retomaram a luta com os grupos pró-democracia. Esse momento foi marcante para refazer o quadro do MN e retomar a luta pelos direitos sociais.

Em 1984, o movimento pelas Diretas Já toma espaço na mídia e mesmo sendo um movimento frustrado no objetivo de se ter uma eleição direta para presidente da República, o País estava mudando. Em 1885, foi eleito, por via indireta, o primeiro presidente civil desde o golpe militar. O presidente eleito Tancredo Neves morreu, assumindo o seu vice, José Sarney. Em 1986, convoca-se uma assembléia constituinte. Em 1988, uma nova constituição é apresentada ao povo. O personagem principal do processo foi o senador Ulisses Guimarães, um dos políticos que lutou contra a ditadura militar. O Movimento Negro se fez presente, participando com vários políticos que, enquanto militantes, apresentaram propostas para atender às demandas levantadas pelo MN. Entretanto, o Movimento não era ouvido pela sociedade, vivíamos a ilusão de uma democracia racial.

Em 1990, o primeiro presidente é eleito por eleição direta após o fim do regime militar, Fernando Collor de Melo. Sua plataforma política era o combate aos marajás, funcionários públicos que recebiam altos salários; enquanto isso, a população de descamisados vivia sendo explorada e sem possibilidades de saírem desta condição. No primeiro dia de seu mandato, o então presidente promoveu um choque econômico na economia brasileira. Dois anos após ter iniciado seu mandato, sofreu um processo de impeachment. Entram em cena seu vice, Itamar Franco, e Fernando Henrique Cardoso, que, como ministro do Planejamento em 1992, lançou um novo plano econômico e uma moeda transitória chamada de Unidade Real de Valor (URV), passando depois a se chamar real. Em 1994, Fernando Henrique Cardoso, considerado o “pai” do plano real, é eleito presidente da República. O problema da população afro- descendente ainda não fazia parte da agenda política do País.

Em 1995, o Movimento Negro promoveu a Marcha de Zumbi em comemoração ao tricentenário de comemoração de sua morte. O então presidente Fernando Henrique Cardoso recebeu uma comissão formada pelas principais lideranças do Movimento da época: intelectuais, políticos, artistas e outros militantes. Eles apresentaram uma pauta de reivindicações para melhorar as condições de vida da população negra no Brasil. Nesta mesma época, o presidente declarou ter “o pé na cozinha” referindo-se ao fato de ter uma herança afro-descendente.

Em posse das reivindicações apresentadas, o Governo encomenda ao IBGE e ao Ipea um estudo sobre a condição da população negra brasileira. Os resultados desta pesquisa apontam para um fato já conhecido do Movimento Negro: o racismo no Brasil era institucionalizado e existia um corte racial em todas as questões que diziam respeito aos direitos sociais. A pesquisa revelou que o problema do Brasil era, antes de tudo, racial e que os negros apresentavam resultados inferiores aos brancos em todos os índices, a saber, educação, remuneração etc.

Diante destas pesquisas, o governo assume realmente o lado sombrio que o mito da democracia racial escondia da sociedade. A partir disso, ele começa a criar políticas compensatórias para melhorar a condição de vida da população negra brasileira.

Em 1996, a Lei de Diretrizes e Bases nº 9.394 é apresentada à sociedade. No período de sua tramitação, a senadora Benedita Silva tenta aprovar uma lei que torna obrigatório nos currículos escolares o ensino da História da África. Não obtendo êxito, coube ao Movimento Negro e aos seus militantes proporem na LDB a inclusão desta proposta dentro da comissão especial de minorias. Não foi possível aprová-la neste momento; contudo, para atender a insistência do Movimento Negro neste sentido, o Governo inclui a questão étnica nos parâmetros curriculares nos temas transversais.

Em 11 de março de 1999, os senadores Esther Grossi e Bem-Hur Ferreira apresentam o Projeto de Lei nº 259, que, em sua proposição, tornava obrigatório o ensino da história e cultura africana e afro-brasileira.

Em 2001, o Brasil participou da III Conferência Mundial de Combate ao Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlatas, em Durban, na África do Sul. Em 11 de agosto deste ano, três dias após o fim da Conferência, tivemos o atentado contra as torres gêmeas nos Estados Unidos da América. Após tantas lutas, o Projeto de Lei nº 259/99 é aprovado e se torna lei, sendo este o primeiro ato do presidente eleito Luís Inácio Lula da Silva. E em 9 de janeiro de 2003 é assinada a Lei nº 10.639.

No documento dissertação de mestrado Claudinei Lombe (páginas 98-103)