3.1 Filosofia da história ou história filosófica
3.1.2 Os progressos possíveis
3.1.2.1 Fim último e fim terminal
Para dissertar sobre o fim último e o fim terminal, é importante dispor sobre o juízo teleológico. Assim, ―explicação teleológica é aquela expressa em termos de fins últimos‖ (CAYGILL, 2000, p. 303), que por sua vez se remete a filosofia prática tal qual a trabalhada na Fundamentação da Metafísica dos Costumes (GMS), no sentido de que a ―autodeterminação da vontade é um ―fim‖‖ (CAYGILL, 2000, p. 303). Todavia, o que buscamos é uma explicação teleológica que busque evidenciar a significação dos fatos no mundo; ou melhor, na natureza. Com isso, demonstrando a ideia de um fim que integre a natureza e a liberdade; isto é, que integre os fins da natureza com os fins da liberdade prática.
De tal modo:
O juízo sobre a finalidade objetiva da natureza chama-se teleológico. É um juízo-de-conhecimento, porém apenas atinente ao Juízo reflexionante, não ao determinante. Pois, em geral, a técnica da natureza, quer seja meramente formal ou real, é apenas uma proporção das coisas a nosso Juízo, somente no qual pode ser encontrada a Ideia de uma finalidade da natureza e que, meramente em referencia àquele, é atribuída à natureza (KANT, 1995a, p. 57, itálico de Kant)188.
Sendo que, por técnica da natureza deve ser compreendida como ―a causalidade da natureza, quanto à forma de seus produtos como fins‖ (KANT, 1995a, p. 55, itálico de Kant)189. A qual pode ser formal ou real. A primeira se ligando à intuição, e, por conseguinte, tem por objetivo oferecer ―figuras conformes a fins, isto é, a forma em cuja representação, imaginação e entendimento concordam mutuamente por si mesmos [...], para a possibilidade de um conceito‖ (KANT, 1995a, p. 69)190. A técnica da natureza real significa, por sua vez, o ―conceito das coisas como fins naturais, isto é, como tais que sua possibilidade interna pressupõe um fim, portanto um conceito, que está, como condição, no fundamento da causalidade [...]‖ (KANT, 1995a, p. 69)191
.
Onde destacamos que a própria causalidade nesse sentido de finalidade ―não é de modo nenhum um conceito constitutivo da
188 EEKU, AA 20:221. 189 EEKU, AA 20:219. 190 EEKU, AA 20:232. 191 Idem.
experiência‖ (KANT, 1995a, p. 56)192
. Mas se volta de forma reflexiva, ―sobre um objeto dado, seja sobre a intuição empírica do mesmo, para trazê-la a um conceito qualquer, ou sobre o próprio conceito de experiência, para trazer as leis que ele contém a princípios comuns‖ (KANT, 1995a, p. 56)193. De maneira que, o juízo teleológico é um juízo reflexionante, que tem como ponto de partida ―um particular dado na intuição, mas cuja multiplicidade [universalidade] ainda se encontra indeterminada conceitualmente‖ (KLEIN, 2013a, p. 75).
Com isso, urge a razão estabelecer o universal, por meio de uma dedução que não é ―puramente a priori‖ (KLEIN, 2013a, p. 91), mas é realizado a um nível metafísico, tal qual aquele realizado junto aos MAN. Ou seja, que parte da experiência não como fonte constitutiva, mas formal, ―pois ele precisa que certas representações de objetos sirvam de ocasião para que a reflexão teleológica seja requerida‖ (KLEIN, 2013a, p. 91, itálico do autor). Algo que já ressaltamos, como pressupostos inerentes ao realismo empírico, como fonte e método de formação de conceitos, onde não é fonte das representações, mas denota a forma dos conceitos a serem formulados.
De maneira que, esses juízos teleológicos podem se ajustar a uma conformidade a fins externa ou interna. Em que a externa se realiza na natureza em que determinados fins são tratados como meios para outros. Assim, em uma causalidade adstrita às leis da natureza. Sendo que, a conformidade a fins interna ―pressupõe um tipo particular de relação entre as partes e a forma do todo, a qual não pode ser considerada como estabelecida simplesmente a partir das leis mecânicas da natureza‖ (KLEIN, 2013a, p. 92-93). Cujo conceito remete a ideia de um organismo tal qual o de uma árvore, por exemplo. De modo que, ―uma coisa existe como fim natural quando (ainda que num duplo sentido) é causa e efeito de si mesma‖ (KANT, 2012a, p. 236)194
. Onde essa dupla causalidade que parte da causa ao efeito, e deste a própria causa se realiza, a título de exemplificação, na:
[...] a) a perpetuação da espécie, na medida em que indivíduos geram outros indivíduos da mesma espécie; b) o crescimento e perpetuação do próprio indivíduo, na medida em que ele se desenvolve através de um processo de geração que não pode ser explicado como simples consumo de matéria exterior, pois se acrescenta algo de original no
192 EEKU, AA 20:220. 193 EEKU, AA 20:220. 194 KU, AA 05:371.
processo de transformação dos alimentos; c) a preservação de cada parte depende da preservação de outra e assim reciprocamente, além da capacidade de certas partes realizarem a função de outras quando ocorrem deficiências no sistema (KLEIN, 2013a, p. 93).
Porém, é importante ressaltar que esse ser organismo não se torna uma máquina, em que suas funções se sobressaem em uma força motora de conotação mecânica. Mas de fato, manifesta ser possuidora ―em si [de] força formadora <bildende> e na verdade uma tal força que ele comunica aos materiais que não a possuem (ela organiza). Trata-se pois de uma força formadora que se propaga a si própria [...]‖ (KANT, 2012a, p. 240)195. Consolidando-se em um sistema teleológico da natureza que parte da afirmação de que o homem é o ―último fim da natureza, em relação ao qual todas as restantes coisas naturais constituem um sistema de fins‖ (KANT, 2012a, p. 305)196
.
Assim sendo, como o juízo teleológico é um juízo reflexivo que parte da causa ao efeito, e deste a causa, vemos que o fim último da natureza se inicia e se concretiza junto ao homem. Ou melhor, o gênero humano. Onde Kant dispõe que esse movimento reflexivo permite a construção de dois fins correlatos, que remetem a interesses do gênero humano adstritos a suas características, isto é, levam a disposição do gênero humano à felicidade e à cultura.
No entanto, enquanto o conceito de felicidade não pode ser extraído da natureza animal do gênero humano, mas ―pelo contrário é a mera ideia de um estado197, à qual ele quer adequar este último sob condições simplesmente empíricas (o que é impossível) (KANT, 2012a, p. 305)198; a cultura garante sua validade como um fim, por dever ser considerada a ―produção da aptidão de um ser racional para fins desejados em geral (por conseguinte na sua liberdade)‖ (KANT, 2012a, p. 307)199. De onde se infere que a cultura é um efeito que também se mostra como uma causa junto ao gênero humano, mas nesse sentido não pode ser considerado o fim último na acepção de não poder haver
195
KU, AA 05:374.
196 KU, AA 05:429.
197 Aqui outro exemplo de uma ideia, pois a própria felicidade é um
conceito da razão, que, aliás, é incondicionado ao ponto de não termos um conceitos específico do que seja felicidade.
198 KU, AA 05:430. 199 KU, AA 05:431.
nenhum outro, pois tal posição é ainda do gênero humano como um todo.
Assim, ―não pode haver um fim último (letzter Zweck) da natureza, se tal finalidade não for absolutamente última, ou seja, fim em si mesma sem nenhum outro como sua condição‖ (NODARI, 2014, p. 283). Há necessidade de uma transição – uma passagem –, do fim último para o fim terminal, onde o gênero humano como objeto e fonte de cultura permaneça como fim último, mas se movimenta a uma posição isolada como fim terminal, no sentido de que um ―fim terminal é aquele que não necessita de nenhum outro fim como condição de sua possibilidade‖ (KANT, 2012a, p. 310, itálico de Kant)200. Mesmo porque, ―se percorrermos a natureza completamente, não encontraremos nela, enquanto natureza, nenhum ser que pudesse reivindicar o privilégio de ser fim terminal da criação‖ (KANT, 2012a, p. 301)201.
Com isso, como fim terminal, um conceito deixa de ser ―meio para, mas [passa a] condição de, isto é, condição para os demais‖ (NODARI, 2014, p. 283, itálico do autor). Cujo fim se afasta da natureza, por não poder mais ser encontrado nela; voltando-se para a própria criação, no sentido de construir uma ideia no extremo da série do tempo em que há somente o ideal moral por excelência, a ideia de sumo bem. Porém, conforme ressaltamos, tal ideia está fora da natureza, vigendo na razão como um ideal que de fato jamais ocorrerá no mundo, apesar de nunca dever ser abandonado.
Nada obstante, se o fim terminal da natureza – e, por conseguinte, da criação –, é um ideal, o fim último se mostra como uma condição formal e necessária para a passagem ao fim terminal. Mas onde vemos, com base em outras referências, que há ao menos outro fim terminal. O fim terminal do direito, a ideia de um estado capaz de garantir a paz perpétua, que nessa posição não pode ser tomado como fim terminal da natureza, mas como fim último, representando a configuração máxima da cultura do gênero humano. De maneira que,
[...] essa busca, à qual cada cidadão deve empenhar-se, em direção à constituição Civil Republicana tanto em cada Estado como também na relação entre os Estados não é o fim terminal (Endzweck), mas é, por sua vez, condição formal que proporciona as condições para o desenvolvimento das disposições da natureza. (NODARI, 2014, p. 286).
200 KU, AA 05:434. 201 KU, AA 05:426.
De tal modo, podemos agora dispor sobre a ideia de progresso do gênero humano junto ao ele próprio. Dispondo sobre a ideia de um progresso que tem por fundamento tornar em ato a potência do ser humano junto a sua essência; que junto ao mundo manifesta-se como uma determinação real, não só por aquilo que lhe é próprio, mas também por aquilo que o deturpa – suas inclinações.