2.5 A cidade dos hits
2.5.1 O FIM DO CONCEITO DE ÁLBUM
É provável que hoje se consuma muito mais música do que jamais se consumiu no passado.
Muitas barreiras que levavam esse produto até o público em geral, foram eliminadas com o fenômeno da digitalização. Todos têm acesso à música de forma fragmentada e não mais em pacotes ou álbuns como costumava ser. O fato do produto música não ser entregue no formato de suporte, acompanhado de encartes, fotos e release sobre o artista, obrigatoriamente exime o consumidor de criar um vínculo mais estreito com o artista e até mesmo de interagir melhor e compreender sua mensagem. Ou seja, não existe mais o ritual de se comprar um disco ou um CD e abri-lo para ler as letras, conferir as fotos etc.
No passado não muito distante, o acesso à letra completa de um artista dava-se somente através do encarte que vinha dentro do envelope do LP e da caixinha do CD. Hoje existem vários
sites que expõem, traduzem e até interpretam algumas letras. Perdeu-se o ritual de interagir com as informações enquanto colocava-se um CD no aparelho de som, de ler a ficha técnica, de conferir alguns vocábulos de difícil compreensão nas letras cantadas aceleradamente. O encarte morreu junto com o CD.
O consumidor de música atual não se importa com a produção da obra e com a perfeição de um produto acabado, informativo e esteticamente atraente. As capas de um disco ou um CD eram minuciosamente trabalhadas, muitas vezes com grandes artistas assinando a direção de arte, porque esse era um produto para ser exposto em vitrines e prateleiras de lojas de música, com o intuito de atrair a atenção do comprador, mesmo que este já conhecesse o artista.
Tudo era uma grande concepção de ideias que aglutinavam o conceito principal da obra em torno de um título, que muitas vezes remetia a um projeto de turnê e gerava discussões, entrevistas e críticas em torno desse conceito de álbum. Artistas como Chico Buarque, por exemplo, sempre procuravam cunhar algum título de impacto para suas obras, ideias que sintetizavam o conceito de sua arte ou que simplesmente buscavam causar reflexões e questionamentos. Exemplos clássicos são dois dos álbuns mais importantes de sua carreira: Construção e Opera do Malandro18.
A diferença essencial entre essa música do passado e a de hoje é que os produtos do passado, pretendiam transcender o tempo presente, durar, permanecer vivo nas gerações futuras, enquanto os produtos do presente são fabricados para serem consumidos instantaneamente e desaparecerem (LLOSA, 2013).
Esse modelo comercial começou com a gravadora Motown. Cantores e compositores como Chico Buarque, Djavan, Caetano Veloso, Renato Russo e Roberto Carlos, criaram canções para durar, para fazer refletir, rir, chorar e continuar a atrair novos ouvintes no futuro. Não é à toa que eles permanecem nas listas dos maiores arrecadadores de direitos autorais no Brasil. Já as canções de Anitta, Pabllo Vittar, MC Guime e os atuais representantes do sertanejo universitário não devem durar mais do que o tempo da apresentação e desaparecer rapidamente dando espaço para outros.
É o caso da cantora Kelly Key, a Anitta dos anos 2000.
Os artistas atuais dispõem de muito mais recursos para atingir seu público. As redes sociais, os sites de conteúdo e as plataformas de streaming democratizaram o acesso e a distribuição a
18 Mais informações disponíveis em: <http://www.chicobuarque.com.br/>.
qualquer artista, sem precisar passar pelo crivo de um diretor artístico de uma gravadora. Esse cenário é ainda mais perigoso, porque numa sociedade que foi manipulada para consumir produtos descartáveis, artistas de calibre ainda mais duvidoso podem vir a tornarem-se grandes hits, lançando faixas únicas e descartáveis, e fazendo sucesso sem nunca ter lançado um álbum completo sequer.
Embora muitos artistas ainda lancem “álbuns”, algumas vezes conceituais, o fato é que o novo paradigma da música digital é o trabalho de divulgação que é feito faixa por faixa. As plataformas de streaming raramente raqueiam álbuns, mas sim as faixas mais tocadas. Essas plataformas digitais, por serem mais restritas, sob o aspecto de tamanho da tela, também excluem os créditos que obrigatoriamente eram impressos nos rótulos dos discos e dos CDs. Não temos uma ficha técnica completa ou pelo menos não fica exposta. Os consumidores mais novos, especialmente, às vezes não conhecem o artista que mais ouvem e nem fazem questão de saberem que compôs aquela música. As rádios hoje em dia não dão mais o crédito ao compositor. Acabou a ficha técnica. Mesmo as rádios, já há muitos anos não falam os nomes dos compositores. Se os compositores não são mais as estrelas de um trabalho autoral e nem aparecem nos créditos, qual a diferença se uma música foi composta por um computador ou um humano?
Lançar um álbum conceitual no Spotify não significa que as faixas serão escutadas numa sequência lógica que contará uma história. A música digital traz consigo um novo paradigma e influencia ainda mais na pasteurização. Por mais que se tenha canções elaboradas artisticamente, no Spotify, seu hábito de consumo jamais o colocará em colisão com os algoritmos que poderiam sugerir canções mais sofisticadas.
Com a simplificação na forma de produzir, distribuir e divulgar, a música passou a ser um produto acessível a todos, estimulando a criação em contextos, onde a sofisticação não encontra eco, mas direciona toda uma indústria a apostar muito mais no marketing do que no artístico como forma de atingir um número maior de pessoas num mercado global. Ao analisarmos alguns movimentos musicais no Brasil e compará-los através de diferentes épocas, é possível perceber claramente este distanciamento da forma original de cultura, das canções protesto influenciadas por poesia sofisticada, em relação ao que é produzido e lançado no mercado atualmente.
Que o mercado da música está mudando constantemente, isso não é nenhuma novidade, entretanto, vale salientar que a influência dos recursos digitais está gerando modelos de negócios
que estão sendo guiados puramente pelas estatísticas e pelos algoritmos. A Inteligência Artificial flerta com a música há alguns anos no desenvolvimento de softwares inteligentes que ajudam a compor.
Mas será que a padronização e a massificação cultural irão tornar o caminho mais fácil para que a Inteligência Artificial comece a criar músicas livremente, além de dominar nossos gostos e influenciar em nossas decisões de consumo de música? Estaremos reduzindo nossa capacidade de memória musical, aquela que sempre nos remete a algum acontecimento em nossas vidas, já que a máquina estará fazendo esta associação com o passado por nós? De acordo com Mario Vargas Llosa (2013, p. 210), sim.
Pero también hay pruebas concluyentes de que, cuando la memoria de una persona deja de ejercitarse porque para ello cuenta con el archivo infinito que pone a su alcance un ordenador, se entumece y debilita como los músculos que dejan de usarse. No es una metáfora poética decir que la «inteligencia artificial» que está a su servicio soborna y sensualiza a nuestros órganos pensantes, los que se van volviendo, de manera paulatina, dependientes de aquellas herramientas, y, por fin, sus esclavos. ¿Para qué mantener fresca y activa la memoria si toda ella está almacenada en algo que un programador de sistemas ha llamado «la mejor y más grande biblioteca del mundo»? ¿Y para qué aguzar la atención si pulsando las teclas adecuadas los recuerdos que necesito vienen a mí, resucitados por esas diligentes máquinas?19.
Pierre Levy (1993), em seu livro As Tecnologias da Inteligência, já discorria sobre a questão da memória e sobre como os softwares estão armazenando informações e nos deixando cada vez mais sem memória. A música sempre foi um grande canalizador de memórias, que nos faz voltar no tempo e relembrar bons momentos. As letras nos identificavam com os sentimentos e com nossas formas de pensar. Decorar uma letra de música como Faroeste Caboclo, do Legião Urbana20, era uma façanha, e por muitas vezes acompanhávamos a música com a capa do disco em mãos, checando as letras e decorando cada palavra. Hoje, a música digital não proporciona essa
19 Mas há também evidências conclusivas de que, quando a memória de uma pessoa deixa de ser exercida por ter o arquivo infinito que coloca o computador ao alcance, ela se torna entorpecida e fraca como os músculos que não são mais usados. Não é uma metáfora poética dizer que a "Inteligência Artificial" que está a seu serviço suborna e sensualiza nossos órgãos pensantes, aqueles que estão se tornando, gradualmente, dependentes dessas ferramentas e, finalmente, de seus escravos. Por que manter a memória atualizada e ativa se tudo estiver armazenado em algo que um programador de sistemas chamou de "a melhor e maior biblioteca do mundo"? E por que chamar a atenção se, pressionando as teclas certas, as lembranças de que preciso me vêm, ressuscitadas por aquelas máquinas diligentes?
(Tradução do autor).
20 Mais informações disponíveis em: <http://www.legiaourbana.com.br/>.
experiência. Os jovens, principais consumidores de música, muitas vezes sabem pouco sobre a história dos artistas. Estão muito mais preocupados em curtir, se divertir de forma efêmera e dar lugar para a próxima faixa do próximo artista revelação que lançou um novo single com uma letra fácil de decorar e com ritmo dançante.
Na medida em que os meios digitais ampliaram substancialmente o alcance para o consumo de música, especialmente através dos smartphones, os produtores e as gravadoras passaram a encarar a possibilidade de atingir um público muito maior e com isso focaram em produzir artistas ou canções de grande alcance, quase totalmente massificadas e seguindo algumas fórmulas ou algoritmos do sucesso. Ou seja, o interesse maior é oferecer um produto de fácil degustação, acessível para o maior grupo de pessoas possível, pois a única maneira de conseguir a democratização total da música é tornando-a mais pobre, superficial e acessível.
En las antípodas de las vanguardias herméticas y elitistas, la cultura de masas quiere ofrecer novedades accesibles para el público más amplio posible y que distraigan a la mayor cantidad posible de consumidores. Su intención es divertir y dar placer, posibilitar una evasión fácil y accesible para todos, sin necesidad de formación alguna, sin referentes culturales concretos y eruditos. Lo que inventan las industrias culturales no es más que una cultura transformada en artículos de consumo de masas (LLOSA, 2013, p. 27)21.