Para finalizar, pode-se dizer que a rede semântica que se constitui a partir do acontecimento de nomeação deste 1º Momento, tanto do conjunto A como do B são construídas a partir de um movimento que semantiza características relativamente regulares em relação ao funcionamento das estruturas morfossintáticas e semântico- enunciativas dos nomes. Em relação à característica morfossintática do conjunto A, ela é apresentada a partir de uma regularidade formal que toma como modelo padrão basicamente uma estrutura bissegmental ordenada por um nome que corresponde a um classificador urbano e outro que funciona como o identificador/localizador. Como se viu, os nomes são assim construídos a partir de uma normatização morfossintática estável.
Já, em relação ao conjunto B, a característica formal se assemelha ao do conjunto A, preserva o classificador urbano de entrada e, em seguida, o identificador acrescido de um individualizador/localizador que funciona sob o efeito referencial/descritivo, Pode-se, assim dizer que, em ambos os casos, a característica predominante é de um modelo homogêneo de funcionamento morfossintático, no primeiro caso, Nc nome comum (classificador urbano) + sintagma preposicionado Sp (que funciona como o especificador/localizador). No segundo, Nc (classificador urbano) + especificador + Sp (localizador/individualizador).
Quanto aos aspectos do funcionamento semântico-enunciativo, apresentados a partir dos acontecimentos que (re)nomeiam os núcleos sócio-urbanos, inicialmente
devemos levar em consideração que os acontecimentos de nomeações e renomeações dos núcleos sócio-urbanos desse Momento se dão no espaço enunciativo no qual a Língua Oficial do Estado Brasil Colônia/Império, é a Língua Portuguesa/Língua Nacional do Brasil. As (re)nomeações, ao serem enunciadas, constituem o funcionamento designativo dos nomes. As cenas enunciativas instaladas nesses acontecimentos de (re)nomeações são agenciadas por sujeitos da língua constituídos como figuras da enunciação de modos diferentes, o conjunto A apresenta como característica do modo de enunciar o lugar do sujeito explorador autônomo, já em relação ao conjunto B, apresenta o lugar do sujeito Estado do Brasil Colônia/Império.
No primeiro caso, o conjunto A, nas cenas em que acontecem as nomeações, o agenciamento das figuras é caracterizado a partir do lugar do sujeito explorador bandeirante, o L que enuncia, aquele que representa o tempo de dizer na enunciação predica o lugar social do explorador, é o locutor-bandeirante que nomeia em português europeu o local, e, ao nomear, o locutor-bandeirante assimila o lugar de dizer do enunciador-coletivo sob a perspectiva de estar falando em nome de todos do grupo de exploradores que lá se estabelecem. Diferente dessas cenas, a nomeação e renomeação do conjunto B apresentam como características do agenciamento das figuras da enunciação o lugar do sujeito Estado, o L se representa aí, enquanto lugar social do locutor-governador da Capitania/Província identificado pelo lugar de dizer do enunciador-universal que fala sob a perspectiva do ponto de vista político administrativo do Estado do Brasil Colônia/Império. Assim, podem-se observar dois distintos modos de enunciar nos acontecimentos de nomeação, esses modos semantizam diferentemente o local. Um representa o lugar do sujeito explorador, tomado pelo locutor-bandeirante que assume o lugar de dizer do enunciador-coletivo. Os acontecimentos caracterizados por essas cenas que são agenciadas por essas figuras da enunciação, movimentam, no funcionamento dos nomes, sentidos que semantizam o efeito de ocupação da região na relação sujeito explorador-bandeirante com o local explorado, a partir das práticas econômico-extrativistas ali desenvolvidas. Nesses acontecimentos de nomeação dos núcleos sócio-urbanos, os nomes a eles atribuídos, ao funcionarem, passam a designar, então, a partir de suas relações enunciativas, uma região já ocupada pelos exploradores bandeirantes da Colônia portuguesa, uma região na América marcada pelo litígio português/espanhol do século XVIII. Em relação ao conjunto B, o efeito de semantização é outro, a posição da enunciação é a do sujeito
Estado, o L fala do lugar social do locutor-governador Capitania/Província assimilando o ponto de vista do enunciador-universal a partir da perspectiva político jurídico/administrativa do Estado do Brasil Colônia/Império. Esses acontecimentos caracterizados pelo modo de dizer do Estado apresenta no agenciamento das cenas enunciativas o L tomado pelo lugar social do locutor-Governador Capitania/província assimilando o lugar de dizer do enunciador-universal, a perspectiva universal jurídico/administrativa do Estado. Assim, a partir do funcionamento enunciativo dos nomes desse conjunto B, os nomes passam a semantizar sentidos que constroem o efeito da institucionalização da região ocupada. Esse processo de semantização, construído nessa relação enunciativa, produz o sentido que institucionaliza, a partir dos acontecimentos de nomeações dos núcleos sócio-urbanos, a região como parte do território do Estado do Brasil Colônia/Império, efeito este marcado predominantemente nos enunciados que apresentam a relação do lugar social do Estado a partir da perspectiva universal jurídico-administrativa do Estado do Brasil Colônia/Império com a região. Assim, pelas nossas análises, é possível dizer que, aqui, os nomes atribuídos às cidades desse 1° Momento determinam sócio-historicamente a região, os nomes contam histórias que apresentam a construção de uma rede de significação que não se reduz apenas à relação nome/local (palavra ou expressão para referi-lo, uma relação referencial/descritiva com/da região), o funcionamento desses nomes constroem designações que passam a enunciar as histórias que semantizam a ocupação da região, pelos sujeitos exploradores bandeirantes, e, fundamentalmente, as histórias da institucionalização dessa região ocupado pelo sujeito jurídico/administrador do Estado luso/brasileiro, como território pertencente Estado do Brasil Colônia/Império, uma região litigiosa na América portuguesa/espanhola.
5.3 – 2º Momento - De Colônia/Império à República: Uma Mudança Formal dos Nomes que Historiciza as Cidades do Estado de Mato Grosso
Trataremos agora da análise dos nomes de cidades criadas no 2º Momento que tem início logo após a Proclamação da República, em 1889, passando pelo acontecimento político do Estado Novo, em 1937, que desencadeia o movimento de ocupação do interior do país, instituído pelo Governo Federal, denominado “Marcha
para o Oeste”. Este movimento objetivava a implantação de uma política de desenvolvimento econômico e descentralização demográfica do litoral e região sudeste do Brasil, e priorizou o incentivo da imigração e exploração das riquezas do Centro- Oeste brasileiro. O 2º Momento termina em 1964, com o Decreto do Ato Institucional Número 1, que dá início ao Regime Militar.
As cidades criadas nesse momento são as seguintes: Santo Antonio de Leverger; Barão de Melgaço; Araguaiana; Barra do Bugres; Aripuanã; Guiratinga; Alto Araguaia; Poxóreu; Várzea Grande; Ponte Branca; Itiquira; Alto Garças; Tesouro; Torixoréu; Rondonópolis; Acorizal; Chapada dos Guimarães; Nortelândia; Arenápolis; Alto Paraguai; Jaciara; Luciara; Nobres; Porto dos Gaúchos; General Carneiro; Dom Aquino.
5.3.a – A Passagem Formal, Uma Nova Cena: O funcionamento Morfossintático