Com a definição das três histórias, era preciso finalizar o roteiro, com a apresentação da Família Borges, a estruturação final dos diálogos, a definição de como as histórias seriam apresentadas, aprofundar as características das personagens e saber quem iria representá-las, escolher os cenários e outros itens para que a finalização e aprovação do roteiro definitivo.
Como já afirmado, anteriormente, os novos conceituais teóricos devem ser apresentados sob demanda. Assim, foi feita a explicação de que os roteiros podem ser escritos de diversas formas, sendo as mais usadas a que descreve as cenas e os diálogos na sequência, como eles já vinham fazendo ou a segunda opção, que monta colunas de vídeo de um lado e áudio de outro, como mostra o Quadro 4, com um fragmento do trecho da história de Dona Conceição, com Sr. Agenor no café da manhã.
Quatro 4 – Fragmento do Roteiro “Um dia na vida de Conceição. Uma
empregada fofoqueira” (preliminar)
Vídeo Áudio
Imagens de Dona Conceição
preparando o café da manhã na cozinha da família Borges. Sr. Agenor está falando ao telefone com um amigo e Conceição fica atenta e logo se adianta para ouvir a conversa. Animada com as informações que ouve, se aproxima mais. Sr. Agenor desliga o telefone. A empregada aproveitar para oferece o café e fofocar.
Cenas dos diálogos entre eles. Imagens abertas e fechadas
Som ambiente da preparação do café de Sr. Agenor falando ao telefone celular.
Conceição – Olha o cafezinho Agenor – Obrigado, Conceição
Conceição – Senhor, peço
desculpas pelo atrevimento, mas o senhor não acha que a patroa gasta demais?
(segue o diálogo)
Foi colocado aos aprendizes que só a partir do roteiro pronto, é possível seguir para as outras etapas da pré-produção como a montagem dos cenários, os ensaios, a preparação dos atores.
O grupo optou por continuar escrevendo no formato que foi apresentado pela equipe responsável pelas adequações do roteiro: Luciano Lira, Marcus Souza, Silvana Borges e Shirlei Sabag, que corrigia, digitalizava a nova versão e encaminhava para todos para nova discussão. (Figura 30)
Figura 30 Roteiro digitalizado para acompanhamento e discussão
A partir do modelo escolhido, foi explicado aos aprendizes que este era um tipo de roteiro mais simples, sem as definições técnicas que acompanham o modelo complexo, onde o roteirista detalha os enquadramentos, as tomadas de cena, a iluminação e outros elementos que são usados para o trabalho dos diretores da produção audiovisual. Que no caso do estudo, era o papel que eu estava desempenhando como coordenador do projeto.
Do ponto de vista metodológico, faz-se necessária uma explicação neste momento do processo. Como apresentado no Capítulo 2, ficou definido com a coordenação geral do Ponto de Cultura Maluco Beleza, que haveria uma integração entre os cursos de Produção Audiovisual, Filmagem, quer foram dois e Edição de vídeo, para as gravações e edição do produto a ser desenvolvido no curso que coordenava.
A justificativa para esta integração residia no fato que havia aprendizes comuns nos três cursos e pelo tempo previsto para o curso de Produção Audiovisual não seria possível o detalhamento das técnicas de uso de equipamentos de gravação, iluminação e de manuseio dos equipamentos.
Mas no caso de um planejamento de um curso desta natureza é preciso organizar o calendário para que todas as fases da produção audiovisual sejam contempladas e que aconteça o envolvimento de todos os aprendizes, ou daqueles que optarem por participação em duas ou mais fases.
Retomando os trabalhos de conclusão do roteiro, depois de várias discussões analisando viabilidades, prós e contras e fazendo visitas aos locais, ficou decidido pelo grupo que seriam três cenários:
1- Cozinha – onde aconteceria a cena entre Dona Conceição e seu Agenor durante um café da manhã. A locação seria na própria cozinha do Ponto de Cultura devidamente produzida.
2- Sala da casa – onde aconteceria a visita de Dona Zefa, a sogra. Uma sala de reuniões que antecede o estúdio de gravação do Programa Maluco Beleza foi escolhida como o local, sendo necessária a transformação para um ambiente de uma sala de estar ou de visita.
3- Praça – Além dos dois cenários internos decidiu-se por uma gravação externa. O jardim de entrada do Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira foi o local escolhido, simulando uma praça onde Dona Conceição e a vizinha Dona Agripina, se encontrariam para comentar sobre o envolvimento de Dona Fátima com o jardineiro. Ali
também, num dos cantos da praça, foi definido o local para a cena do encontro entre Dona Fátima e o jardineiro,
Definidos os cenários, personagens e esboçados os diálogos, foi colocado aos aprendizes que era necessário apresentar as histórias. Do ponto de vista teórico, as principais possibilidades sugeridas foram apresentadas no estilo de telejornais ou de documentário e narrativas em off com inserção (cobertura) de imagens sobre o texto narrado.
Eles optaram pela segunda alternativa. O texto apresenta Dona Conceição e a Família Borges. Já havia sido estabelecido que Dona Fátima não teria voz, só imagem. Mesma solução encontrada para mostrar os três filhos do casal. Só que no caso deles, seria uma foto. Uma das senhoras sugere as fotos dos netos para ilustrar a história.
Na montagem do cenário da sala de estar da casa, onde aconteceria a gravação do diálogo entre Dona Zefa, a sogra e Dona Conceição, o grupo monta o ambiente com uma mesinha e coloca o quadro das crianças, como mostra a Figura 31
Figura 31. Detalhe da mesinha com a foto das crianças
Mais uma vez repetindo o procedimento do Ciclo de Ações, as etapas de reflexão e depuração levaram às sugestões e fechamento das ideias em torno de nomes:
Cena 2 - A visita (Dona Conceição e a sogra, Dona Zefa)
Cena 3 – Encontro no Parque (Dona Conceição e Dona Agripina)
Também neste momento era necessário escolher entre os aprendizes quem iria representar os personagens. Como cabe à coordenação mediar o processo e considerando o elevado nível de envolvimento com o trabalho colaborativo e as tomadas de decisão conjuntas, foi deixada em aberta a participação e quem se interessasse, de forma espontânea.
Apesar desta posição, não foi tão surpreendente a reação do grupo em considerar como “natural” que Maria Augusta Zeferino, Dona Augusta, fosse “Dona Conceição” e Luciano Lira, Agenor. Entre os que se apresentaram para outros personagens, foram escolhidos: Maria Izolina Borges, “Dona Zefa”, Mary Ines Fernandes Rosa, “Dona Agripina”, Shirlei Sabbag, como “Fátima” e Fernando Aranha, como o jardineiro.
O passo seguinte foi a “construção” dos personagens e neste sentido, quem ganhou mais atenção foi Augusta. A questão era: como transformar a imagem de uma vovó, de cabelos brancos, fala doce, olhar sereno, numa empregada que adorava fazer uma fofoca?
Esta discussão caracteriza-se como uma das mais “divertidas” de todas e, de repente, a saída: ela precisava dizer alguma coisa que indicasse suas “más intenções”. E mais do que isso: Augusta tinha que fazer uma expressão de “malvadeza” ao falar a frase “Sinto que hoje vai ser um dia produtivo para mim”, seguida de um sorriso sarcástico.
O termo “produtivo” foi entendido pelo grupo como um dia em que ela iria fazer muita fofoca. Uma nova conceituação teórica se fazia necessária. A ideia da força dramática do personagem e a continuidade de seu papel. Assim, em todo o final de cena das partes 1 e 2, “Dona Conceição” fazia um gesto característico de sua felicidade depois de ter conseguido “fofocar” e no final da última história, ela encerra o vídeo, caminhando na praça, sorrindo, gesticulando de alegria e dizendo “não disse que hoje ia ser um dia muito
produtivo para mim!”. O roteiro completo, aprovado e gravado pode ser conhecido no Apêndice 2.