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... o diálogo é uma exigência existencial. E, se ele é o encontro em que se solidariza o refletir e o

agir de seus sujeitos endereçados ao mundo a ser transformado e humanizado, não pode reduzir-se a um ato de depositar idéias de um sujeito no outro, nem tampouco tornar-se simples troca de idéias a serem consumidas pelos permutantes.

Consideramos importante nesse momento final ressaltar que muitos aspectos fizeram parte desse estudo, nada foi isolado, tudo significado, constituindo um compromisso mais que técnico, ético, cuidadoso, um exercício de cidadania. Realidades vividas, espaços compartilhados, cuidados percebidos, encantamento e envolvimento pela riqueza de detalhes, humanidade significada numa trama tecida nos atravessamentos do convívio com os sujeitos, inquietações no cotidiano da pesquisa. Uma viagem que nos deixou várias vezes à deriva, navegantes aprendizes, observadores, construtores de um espaço cujas paisagens foram se desnudando na medida em que se foi construindo movimentos, desvelando identidades, mediando intenções e ações, nos permitindo cartografar a atenção e o cuidado em saúde em um serviço de referência em HIV/Aids.

Conhecer e analisar a perspectiva dos sujeitos sociais, profissional e usuário, sobre a atenção dispensada ao usuário no tratamento do HIV/Aids, trouxe contribuições que poderão facilitar o processo de interação e comunicação dos profissionais que atuam direta ou indiretamente com os sujeitos usuários em tratamento, possibilitando ainda repensar o cotidiano de sua prática, permitindo implementar alternativas que enriqueçam o trabalho integrado em equipe, favorecendo a co-participação e trocas de experiências. A pesquisa possibilitou, por sua vez, uma visualização do serviço a partir de quem o recebe, o usuário, e da visão dos profissionais em suas relações com os outros profissionais, parecendo-nos um dos pontos mais importantes do estudo por duas razões: a primeira deu voz aos usuários, pois, via de regra, não são considerados em suas opiniões e, neste caso, tornaram-se sujeitos sociais; a segunda foi oportunizar aos profissionais um momento para reflexão das suas próprias ações, apontando possibilidades de estudos futuros sobre o seu próprio trabalho.

Em nossa trajetória, nos chamou à atenção na prática em saúde, a assimetria das relações dificultando a construção e o exercício da cidadania dos sujeitos envolvidos, característica que incide na desconsideração da realidade dos usuários, ou seja, as desigualdades sociais e culturais, a dor e a miséria, o preconceito. Por outro lado, não podemos deixar de pontuar o envolvimento dos profissionais, que embora fragilizados e desamparados ante as faltas da própria escuta, da inadequação da estrutura física e organizacional do serviço, do reconhecimento e da ausência de sustentação às tensões e desafios de lidar com a realidade do sujeito que convive com o HIV/Aids, vêm vivenciando a segmentaridade, a rotinização do seu modo de fazer e ser, incorrendo no erro e na ilusão da negação da realidade e das próprias necessidades. E aqui podemos dar ênfase a necessidade de uma atenção mais cuidadosa a equipe de enfermagem, mais especificamente as técnicas da recepção, que acolhedoras em seu modo de fazer e ser, tornam-se o anteparo das angustias

inicias - da chegada, e finais - da saída, dos usuários do serviço, requerendo para isso treinamento, acolhimento, suporte e escuta às próprias ansiedades. Enfim, aspectos que requerem serem ampliadas para novas formas de produção da atenção e cuidado, com o trabalhador e o usuário, perspectivas para práticas contextualizadas a realidades vividas pelos sujeitos, priorizando apreender com as experiências e construir redes de relações que despertem para a cidadania, os direitos e deveres, a ética e o cuidado, os interesses e desejos.

Uma das questões evidenciadas na pesquisa foi à causa da não adesão ao tratamento, o porquê desse processo acontecer. Embora não fosse o motivo do nosso estudo, indícios surgiram que talvez confirme essa não adesão, como o fato da não escuta significada às necessidades dos usuários, uma vez que a interação é marcada pela rotinização técnica das informações do tratamento, pontuado por eles com dúvidas e dificuldades em seguí-lo. O atendimento do profissional é realizado de forma rápida pela alta demanda agendada, uma questão que reflete também no longo espaço de tempo no agendamento entre uma consulta e outra. Portanto, consideramos que outros estudos poderão ser feitos para melhor vislumbrar esses aspectos, como exemplo: o que contribui para a adesão ou não? Que motivações o sujeito aderente tem para seguir o tratamento?

As características da realidade do local estudado nos levaram a perceber que as relações entre os sujeitos podem ser potencializadas ao se criar espaços coletivos de discussão e reflexão das práticas em saúde e dos processos de trabalho. Ao analisarmos o processo interativo, este não está sendo contemplado em suas peculiaridades e fragilidades voltadas ao entendimento, acolhimento e escuta coletiva do espaço compartilhado, o que pode garantir o envolvimento, cooperação e construção solidária da atenção e do cuidado.

Assim, concluímos após uma longa jornada uma viagem por várias fronteiras, inúmeras paisagens, desveladas por propostas instituídas e instituintes, objetivas e subjetivas, asiladas e exiladas, porém tendo como produto incontáveis mapas, apontando várias direções que compõem conteúdos e conhecimentos que requerem ser contemplados, precisam ser partilhados como a doce brisa das marés. Daí nosso início partilhado, concretude de sujeitos em seu papel social que se encontram nesse momento no exílio, não no abandono, mas na inquietação de novos rumos em sua embarcação.

A atenção ao usuário em um centro de referência HIV/Aids em Natal/RN sob a perspectiva de profissionais e usuários pode ser por nós definida como a possibilidade de redefinir o atual modelo de assistência para uma forma mais humana de acolher, escutar e então conhecer. Portanto, este estudo não se esgota aqui, mas abre caminhos para outros estudos que poderão subsidiar novas práticas produtoras de cuidado e atenção...

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