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CAPÍTULO 2 O ESTUDO DOS DOCUMENTOS OFICIAIS:

2.4 Finalmente: documentos oficiais, o que são?

Além de nossa filiação ao pensamento bakhtiniano, e às pesquisas realizadas com esse objeto de investigação, remeter-nos-emos a outros autores. Assim, juntamente com Kramer (1997), Frade e Silva (1998) e Prado (1999), tentaremos, nesse momento, definir discursivamente os documentos oficiais.

Cremos que essa definição inicial poderá se modificar ou se redefinir no momento em que analisaremos esse material. Esse movimento se dá, pois, tal como

já assinalado, a pesquisa na área das Ciências Humanas se baseia na relação entre sujeito-sujeito, cabendo ao pesquisador “ouvir” seu objeto de pesquisa, o qual definirá sua postura metodológica.

Entretanto, sabemos que o pesquisador também enfoca seu objeto de pesquisa, em nosso caso, os documentos oficiais, através de uma posição axiológica, de uma visão de mundo. Ao definirmos essa posição, partimos, inicialmente, do que dizem alguns autores ao definirem esses materiais.

Prado (1999), em sua tese, estuda documentos oficiais de um período de 70 anos da história da educação brasileira, os quais orientaram o ensino de LP, a fim de entender a relação entre currículo e linguagem neles estabelecida.

Ao definir o que são os documentos oficiais, Prado afirma que eles se constituem de

todos os textos que são indexados enquanto uma orientação de ensino propostos por Municípios, Estados e Federação, ou seja, mesmo que sejam textos elaborados por sujeitos, sua autoria configura-se como nome de um Estado. Ainda que a história de produção desses documentos tenha se caracterizado por uma profícua mudança de nome – programa, guia, proposta, subsídio, parâmetros, etc, a característica de orientação de ensino permanece historicamente. (PRADO, 1999, p. 16).

Já Kramer (1997, p. 18-19) apresenta subsídios para a leitura e análise de propostas curriculares ou pedagógicas, disponibilizando um caminho de pesquisa a seus leitores. Para essa autora, “toda proposta pedagógica é a expressão de um projeto político e cultural”. Assim, ela é um caminho, construída ao longo do tempo, pois “toda proposta pedagógica tem uma história que precisa ser contada”.

Para o estudo de tais materiais, segundo Kramer (1997, loc. cit.), é preciso levar em conta seu contexto social e histórico, visto que “toda proposta é situada, traz consigo o lugar de onde fala e a gama de valores que a constitui; traz também as dificuldades que enfrenta, os problemas que precisam ser superados e a direção que a orienta”.

A autora também destaca a relação entre o novo e o velho nas propostas curriculares, em que há um movimento de negação a um ensino que já era feito, o

velho, em detrimento de um novo ensino, no qual esses materiais se baseiam.

experiência acumulada em troca daquilo que se chama moderno”.

Porém, a autora enfatiza que a troca de um ensino para um novo não pode se dar diretamente, pois cada proposta curricular deve ser encarada como uma aposta, como algo a se realizar de acordo com um caminho que se concretiza além de propostas no papel.

Por fim, Kramer (1997) ressalta o fato de que uma proposta curricular ou pedagógica deve ser analisada como algo a ser construído, não sendo, pois, simplesmente implantada por professores, mas sim como algo capaz de ser reformulado, adaptado por esses profissionais, os quais devem ser participantes de sua construção e consolidação.

Frade e Silva (1998, p. 94) analisam os materiais que fazem parte da leitura dos professores, observando o que esses profissionais leem, enfocando, nesse trabalho, a leitura de textos oficiais por esses profissionais. As autoras justificam esse enfoque devido à importância de tal material, pois o texto oficial “tem sido muito utilizado como importante instrumento de formação, tendo em vista a necessidade de implantação de novas políticas educacionais de várias secretarias de educação do país”.

São os textos oficiais, segundo Frade e Silva (Ibid., p. 95, grifo dos autores), que entram em cena como difusores de novas políticas, vistos como “elemento privilegiado de divulgação de ideias pedagógicas ‘oficiais’” aos professores.

Para realizarem a investigação acerca da leitura dos professores, as autoras definem, primeiramente, o que são os textos oficiais. Para Frade e Silva (Ibid., p 96) eles são, em primeiro lugar, textos publicados em diários oficiais ligados aos governos, apresentando a característica de função legislativa, e referindo-se “ao funcionamento de políticas públicas, à administração governamental mais ampla, à regulamentação da vida administrativa das escolas”.

Porém, tais textos também podem ser caracterizados por outro tipo de publicação, ao serem provenientes de Secretarias e destinados às escolas, “cuja finalidade principal é redefinir e/ou orientar práticas educativas”. Frade e Silva (1998, loc.cit.) enfatizam, ainda, que ao se realizarem mudanças político-educacionais, a produção desses materiais aumenta de volume e “são produzidos programas curriculares e alguns cadernos específicos para destacar determinado aspecto da política educacional”.

referência para as práticas educativas nas últimas décadas, pois eles se caracterizam por expressar a posição acadêmico-pedagógica de órgãos públicos reguladores da política educacional.

Assim, conforme Frade e Silva (1998, p. 97) torna-se evidente a “expectativa dos órgãos oficiais de que a leitura dos textos oficiais seja quase obrigatória em contextos radicais de mudança”. Dessa maneira, não são os professores que buscam espontaneamente esse tipo de leitura, “mas é o texto que vai oficialmente ‘em busca’ de seus leitores”.

A partir da leitura desses autores sobre o que são documentos oficiais, e de acordo com a perspectiva teórico-metodológica em que nos inscrevemos, cremos que é possível definirmos discursivamente esses materiais como atos de fala impressos, em que um órgão governamental, aliado às produções científicas advindas da academia, legitima diretrizes para um novo ensino destinado à escola.

Além do mais, esses documentos, que podem ser publicados com variados nomes – propostas, guias, referenciais – ao oficializarem uma prática de ensino, pelo menos em um nível oficial, esperam de seus leitores privilegiados, os professores, a adesão às suas propostas.

Além da variação dos nomes que podem ser dados aos documentos oficiais destinados à esfera escolar, ressaltamos que esses materiais podem ser publicados em diferentes formatos, fazendo parte do conjunto de textos oficiais desde os documentos que se destinam a regulamentação de novas diretrizes escolares, cadernos, em que se divulgam atividades a serem postas em prática pelos professores, ou também encadernações compostas de textos de especialistas, que subsidiam determinadas propostas ao ensino. Podemos observar, ademais, que esses textos funcionam como mediadores entre academia, ensino e governo, pois são resultados de políticas educacionais ancoradas em um conhecimento produzido fora da escola para, em geral, modificar ou redefinir um determinado ensino.

De acordo com a visão bakhtiniana, compreendemos que os documentos oficiais são enunciados, produzidos em nome de uma Secretaria ou de outro órgão oficial, que se dirigem aos professores, prioritariamente. A alternância entre os sujeitos, característica fundamental dos enunciados, ocorre nos documentos oficiais, mesmo indiretamente, pois devido à conclusibilidade desses materiais, os professores os compreendem ativamente, dando a eles as suas contrapalavras

um nível indireto, sem um contato estreito entre a Secretaria de Educação e esses profissionais, ou diretamente, quando os textos oficiais são entregues a determinados professores para serem analisados, criticados e reformulados.

Vale ressaltar, conforme Bakhtin ([1952-53] 2010, p. 275), que uma contrapalavra pode se formular mesmo a partir de “uma compreensão ativamente responsiva silenciosa do outro ou, por último, uma ação responsiva baseada nessa compreensão”.

Portanto, uma resposta dada pelos professores aos documentos oficiais pode ocorrer pela adesão, pela rejeição, pela adaptação das propostas, as quais podem ocorrer verbalmente, silenciosamente ou mesmo através de uma ação.

Ademais, eles são enunciados, pois estão inseridos na cadeia da comunicação discursiva, dialogando com outros documentos publicados anteriormente a eles, com leis em que se baseiam, com o contexto sócio-histórico em que foram produzidos, e mesmo com determinadas teorias científicas que os legitimam.

Desse modo, os documentos oficiais devem ser compreendidos ativamente, a fim de serem respondidos, de modo que, somente assim, poderemos observar como esses materiais se constroem em relação ao intuito discursivo de seus produtores. Pois, de acordo com Bakhtin

a obra, como a réplica do diálogo, está disposta para a resposta do outro (dos outros), para a sua ativa compreensão responsiva, que pode assumir diferentes formas: influência educativa sobre os leitores, sobre suas convicções, respostas críticas, influência sobre seguidores e continuadores; ela determina as posições responsivas dos outros nas complexas condições de comunicação discursiva de um dado campo da cultura. (BAKHTIN, [2010] 1952-53, p. 279).

Cremos, destarte, que a compreensão dos documentos oficiais pode nos levar a entender determinadas convicções de um órgão oficial diante do ensino de LP, e a imagem dos professores dessa disciplina construída pelos produtores desses materiais, em frente aos conhecimentos que veiculam, pois todo enunciado é organizado em função de seu destinatário.

Os produtores dos documentos oficiais levam em conta a quem estão se dirigindo, os professores e, ao mesmo tempo em que esperam uma resposta, já antecipam a compreensão de seus destinatários, procurando guiá-los a

determinadas tomadas de posição diante do ensino.

Ao veicular determinados conhecimentos provenientes de uma ciência, em nosso caso, a Linguística, isso também ocorre, pois os produtores dos documentos levam em conta o quanto esses profissionais estão a par desses saberes, visto que

ao falar, sempre levo em conta o fundo aperceptível da percepção do meu discurso pelo destinatário: até que ponto ele está a par da situação, dispõe de conhecimentos especiais de um dado campo cultural da comunicação; levo em conta as suas concepções e convicções, os seus preconceitos (do meu ponto de vista), as suas simpatias e antipatias [...] (BAKHTIN, [1952- 53] 2010, p. 302)

Acreditamos que, ao observarmos como se dá a relação entre a Linguística e o ensino em âmbito oficial, poderemos compreender que muitas das escolhas do que é ou não veiculado acerca desse conhecimento científico, ou mesmo de que forma ele é veiculado, se dá em função de como os produtores desses documentos constroem uma imagem dos profissionais que atuam na área de LP.

Por fim, não podemos esquecer que os documentos oficiais, tal como o nome nos aponta, são produções originadas de órgãos do governo, carregando consigo esse caráter de legalidade e valor diante do que deve ou não ser ensinado nas escolas.

Consideramos, ademais, que esses materiais fazem parte dos gêneros oficiais, podendo apresentar certa padronização, e têm como produtores uma instituição - tal como uma Secretaria, um Governo em vigência - e não um sujeito único. Dessa forma,

esses gêneros, particularmente os elevados, oficiais, possuem um alto grau de estabilidade e coação. Aí, a vontade discursiva costuma limitar-se à escolha de um determinado gênero, e só leves matizes de uma entonação expressiva (pode-se assumir um tom mais seco ou mais respeitoso, mais frio ou mais caloroso, introduzir a entonação de alegria, etc.) podem refletir a individualidade do falante (a sua ideia discursivo-emocional)”. (BAKHTIN, Ibid., p. 284).

A partir dessas considerações, propomos, pela perspectiva bakhtiniana, estudar os documentos oficiais discursivamente, como um enunciado que se relaciona com outros anteriores, com um contexto mais amplo e mais imediato, que

se projeta de acordo com seu destinatário, esperando dele uma compreensão ativa, e que pode nos contar um pouco sobre a história do ensino de LP.

Esperamos demonstrar com esse estudo, conforme Bunzen (2011, p. 902-3), que a relação entre a Linguística e o ensino de LP, mesmo oficialmente, pode fazer com que os documentos oficiais, juntamente com outros materiais voltados ao ensino, “constituam uma faceta da própria história da disciplina escolar”.