Na sociedade atual, os indivíduos precisam ter o domínio de um gama extensa de conhecimentos os quais proporcionem uma compreensão lógica dos fatos que influenciam o seu ambiente. A educação financeira está inserida nesse contexto e permite o desenvolvimento de habilidades voltadas ao gerenciamento das finanças pessoais.
A expressão “gestão financeira” sugere, a princípio, todas as atividades e todos os instrumentos voltados para o planejamento e o controle dos recursos financeiros de uma entidade. Entretanto, os recursos financeiros não devem ser entendidos apenas como disponibilidades ou como ativos que podem ser convertidos em dinheiro no curto prazo porque essa é uma visão restrita.
(MATIAS; LUTOSA, 2006)
11 O intuito das finanças pessoais, numa definição generalista, é garantir que as despesas sejam sustentadas por recursos obtidos de fontes sobre as quais se tenha controle, de maneira que garanta a independência de recursos de terceiros. Também, que haja proporcionalidade na distribuição das receitas ao longo do tempo, ou seja, uma adequada combinação entre consumo e poupança.
Para o IBGE (2009), o rendimento bruto total da unidade de consumo corresponde ao somatório dos rendimentos brutos monetários dos componentes das unidades de consumo.
Desse modo, os rendimentos obtidos contribuem para o crescimento do patrimônio. Com base em Padoveze (2014), patrimônio é o conjunto de riquezas de propriedade de alguém ou de uma empresa. São aqueles itens cuja civilização convencionou chamar de riquezas, por serem raros, úteis, fungíveis, tangíveis e desejáveis.
No grupo das despesas pessoais, existem algumas que se destacam pela sua constante presença no orçamento doméstico. São os itens básicos de consumo e serviços essenciais ao dia a dia. Por não poderem ser removidas, o ideal é reduzi-las, fazendo pequenos cortes, com leve impacto sobre a qualidade do consumo. De acordo com o IBGE (2009), as despesas de consumo correspondem às despesas realizadas pelas unidades de consumo com aquisições de bens e serviços utilizados para atender diretamente às necessidades e aos desejos pessoais de seus componentes no período da pesquisa. Elas estão organizadas em alimentação, habitação, vestuário, transporte, higiene e cuidados pessoais, assistência à saúde, educação, recreação e cultura, fumo, serviços pessoais, além de outras despesas diversas não classificadas.
As despesas de consumo correspondem ao mais importante componente da estrutura de despesas das famílias. A estimativa da participação das despesas de consumo na despesa total, obtida a partir da POF 2008-2009 (sua pesquisa mais recente na área), foi de 81,3% para o Brasil, com média mensal de R$ 2.134,77.
12 Tabela 1 - Distribuição das despesas de consumo monetária e não monetária média
por tipos de despesa, segundo a situação do domicílio e as Grandes Regiões - período 2008-2009
O elemento essencial para captar a lógica financeira do mercado e das relações econômicas é o conceito de liquidez, porque o foco da administração financeira é manter essa variável sempre em níveis adequados. A liquidez está relacionada ao saldo (receitas menos despesas) em dinheiro. Só se controla saldo (e liquidez) controlando as receitas e as despesas.
De acordo com Pires (2007) a lógica do dinheiro “É como se tivesse que haver um reservatório de dinheiro que tivesse que se manter cheio até certo nível, enquanto dinheiro entra e sai”.
Para auxiliar nesse controle, segundo Pires (2007), “os instrumentos básicos para o planejamento das finanças pessoais são o orçamento e o fluxo de caixa. O conhecimento de alguns elementos de contabilidade e matemática financeira ajuda a consolidar a compreensão da lógica do dinheiro”. É importante entender que existe grande diferença entre as práticas voltadas ao gerenciamento Pessoa Jurídica e Pessoa Física. Contudo, esses instrumentos servem como suporte direto, ou adaptação de ferramentas do mundo empresarial para a realidade do controle dos gastos pessoais, bem como, práticas domésticas influenciam no bom gerenciamento de um empreendimento.
Assim, o orçamento é um instrumento de planejamento, semestral, anual ou plurianual, e nele são listadas as receitas e despesas previstas no período (PIRES, 2007).
Trazendo para a realidade de pessoa física, também pode ser feito mensalmente,
13 semanalmente, ou até, diariamente, dependendo das necessidades que o indivíduo tem de controlar suas finanças. Pela quantidade de dados relevantes que contém e permite visualizar rapidamente, é possível realizar uma série de cálculos que auxiliam na avaliação do desempenho das finanças pessoais, colaborando na detecção de quais itens estão diminuindo, crescendo ou se mantendo constantes.
De maneira diferente do orçamento, no que se refere ao tempo, o fluxo de caixa é uma ferramenta que serve para realizar o acompanhamento do saldo diário, com a finalidade de se evitarem lacunas ou falta de dinheiro para os pagamentos necessários. De acordo com Pires (2007), “numa situação financeira superavitária, o fluxo de caixa é dispensável nas finanças pessoais, pois bastará o orçamento com uma linha que apresente o saldo final mensal para que seja possível saber como vão as contas”.
Por sua vez, a Contabilidade é um sistema de registro de movimentações financeiras que possibilita, através dos demonstrativos gerados, uma visão clara da situação patrimonial de uma pessoa ou instituição. Ela surgiu e consolidou-se como um mecanismo capaz de gerar informações úteis aos usuários. Para Matias e Lutosa (2006), a Contabilidade caracteriza-se por identificar os fatos que afetam economicamente e/ou financeiramente as entidades, mensurando-os, registrando-os, e, por fim, evidenciando-os.
Outra ferramenta útil e que possui diversas aplicações no sistema econômico presente é a Matemática Financeira, uma vez que “é o instrumento utilizado para mensurar as transações financeiras” (MATIAS; LUTOSA, 2006, p. 10). Desse modo, ela explica o funcionamento do dinheiro e fornece instrumentos quantitativos para lidar com ele. Dentre os exemplos mais próximos do seu uso, destacam-se as análises para financiamentos de casa e carros, a realização de empréstimos, de compras com cartão de crédito e aplicações financeiras.
Entende-se que a situação financeira ideal é aquela em que as receitas sempre superam as despesas. Para atingir esse ponto, algumas alternativas podem ser adotadas: aumentar as receitas e manter as despesas constantes; aumentar as receitas mais que proporcionalmente às despesas; reduzir as despesas, mantendo as mesmas receitas; ou, ainda, aumentar as receitas, reduzindo, simultaneamente, as despesas.
Frente a isso, torna-se fundamental gerir as variáveis receita, despesa, resultado (deficitário ou superavitário) e poupança, mantendo claramente os objetivos pessoais ou familiares a serem alcançados, com o auxílio da boa administração financeira. Afinal, o ideal
14 é manter o dinheiro sob controle para proporcionar momentos satisfatórios no presente, sem que isso impacte negativamente o bem-estar futuro.
A boa gestão das finanças pessoais não deve somente impor sacrifícios. Ela deve levar o indivíduo a dominar o conhecimento e as técnicas que lhe permitem respeitar e aproveitar-se da lógica intrínseca do dinheiro para obter maior nível de satisfação de suas necessidades e desejos. O indivíduo deve avaliar o custo e o benefício das alternativas – manter o endividamento ou reduzi-lo – e escolher a alternativa que para ele, de acordo com sua visão das coisas, é a melhor. Portanto, a boa gestão das finanças pessoais não é um assunto relacionado apenas a economia, contabilidade, dinheiro ou números.
Envolve crenças, questões valorativas não mensuráveis, avaliações, visões de mundo. (PIRES, 2007)
Diante desse cenário, a constituição de uma poupança pessoal deve ser uma meta a ser incorporada por quem deseja equilíbrio em suas finanças, cabendo a cada pessoa avaliar o seu patamar ideal de poupança, sempre observando os benefícios e os correspondentes custos para atingi-lo.
A poupança acumulada ao longo da vida tanto pode ajudar a constituir a aposentadoria complementar quanto constar como um fundo em caso de uma grande oportunidade de ganho, como a aquisição à vista de um bem com valor muito abaixo da média. Além disso, tal recurso contribui com a liquidez, na medida em que proporciona certo conforto psicológico diante das incertezas financeiras do cenário econômico.
Com isso, o estudo e o planejamento das finanças pessoais são imprescindíveis para a organização de despesas, bem como a análise das condições de financiamento para aquisições de bens e serviços necessários à satisfação das necessidades e desejos individuais, além de definir as ferramentas utilizadas para otimizar o desempenho gerencial das finanças. Assim, diante de uma economia baseada em moeda e crédito, as finanças pessoais colaboram com o uso do dinheiro de maneira adequada, ou seja, visando ao suprimento das necessidades de forma consciente.