CAPÍTULO 3: UMA ANÁLISE CRÍTICA SOBRE O PMM: RECONHECIMENTO
3.1 Financiamento do PMM: investimentos e contrapartidas
No primeiro capítulo do presente trabalho, foi possível verificar as fontes de financiamento do PMM. O governo brasileiro junto ao governo canadense e a Agência Canadense de Desenvolvimento Internacional (ACDI) investiram um total de U$ 6.653,729 para a implantação do PMM no Brasil. Deste valor, mais da metade foi investida pelo governo brasileiro, o que pode expressar o interesse do país pelo desenvolvimento de um programa voltado para a inclusão de mulheres em situação de vulnerabilidade social, principalmente nas regiões norte e nordeste do país que eram as mais pobres no momento em que o programa foi planejado.
De acordo com o documento que apresenta a proposta do PMM, submetido pelo MEC e pela Association of Canadian Community Colleges, todo o investimento necessário para o início do programa, foi feito pela boa experiência e relação entre as agências envolvidas neste e em outros projetos desenvolvidos em parceria entre Brasil e Canadá. Além disso, o governo brasileiro julgou primordial a colaboração dos colleges canadenses
por toda a sua experiência com trabalhos em comunidades desfavorecidas e a atuação com a metodologia ARAP.
[...] o sistema de faculdades canadense pode ofertar expertise, capacitação e assessoramento no desenvolvimento de vários serviços de acesso, programas, e capacitação personalizada ao CEFETs44 parceiros. As faculdades e institutos canadenses são os parceiros apropriados no desenvolvimento de capacitação em nível pós-secundário para os objetivos desta proposta. A faculdade líder, Niagara College, adotou os processos ARAP e a programação de acesso no início dos anos 90 e é muito respeitada por ofertar serviços e programas para acessar populações alvo. Outras faculdades membro da ACCC são especializadas em desenvolver métodos de relação com os empregadores e planejar e ofertar programas de capacitação personalizados para setores específicos. (MEC, 2006, p. 37)
Como em toda parceria, era previsto o retorno dos investimentos para todos aqueles que financiaram o projeto. No caso brasileiro, os retornos são mais claros, visto que o PMM é voltado para nossa população, mas para os canadenses foi necessária uma pesquisa para entender os benefícios gerados pelos seus investimentos no Brasil.
No documento que contém a proposta do PMM, é possível observar que os benefícios obtidos pelo Canadá teriam retornos em três níveis.
O primeiro era o benefício no nível institucional. Este entendia a experiência de conviver com os brasileiros e estreitamento de vínculos com nosso povo como um ganho para os canadenses. Além disso, existe uma questão relacionada a aproximação com a experiência dos brasileiros na área de meio-ambiente pouco detalhada no documento.
[...] as faculdades e institutos canadenses parceiros se beneficiarão em grande parte ao contribuir com o desenvolvimento de competências nos CEFETs brasileiros ao auxiliar as mulheres marginalizadas. Elas farão novos colegas e amigos, talvez aprenderão um pouco de português e desfrutarão de um tempo maravilhoso em outro país. [...] se beneficiarão também de um novo currículo em cidadania como também de uma nova metodologia para currículo na importante área de meio-ambiente. Os educadores brasileiros vêem o meio-ambiente de uma forma muito holística, enquanto educadores canadenses tendem a ver o meio-ambiente em segmentos.
(MEC, 2006, p. 39)
44 Cabe ressaltar que - até 2008- o que hoje entendemos como os Institutos Federais de Educação (IFs) eram
O segundo ganho está relacionado ao nível regional. Segundo a proposta de execução do programa, o contato dos canadenses com diferentes populações não- tradicionais brasileiras poderia contribuir com a formação deles, somar conhecimento nessa área que o Canadá já tinha tradição. Por fim, o terceiro ganho, identificado como nível nacional, refere-se a oportunidade do Canadá estreitar vínculos com um país em franco desenvolvimento. Essa aproximação através de uma relação dos sistemas de ensino, segundo o projeto do PMM, seria uma das formas mais produtivas possíveis.
[...] este projeto certamente terá a capacidade de aumentar a quantidade e o nível de interação entre Brasil e Canadá. Como o Brasil é uma das economias com o mais rápido desenvolvimento apesar de suas desigualdades, é importante o Canadá desenvolver sua relação com o Brasil. Desenvolver uma relação do sistema de ensino é uma das formas mais produtivas de se fazer isso.
(MEC, 2006, p. 39)
Para fazermos uma análise crítica sobre esse tópico, tona-se necessário incialmente entender o papel da Agência de Desenvolvimento Internacional do Canadá. Tal organização foi fundada em 1968 para gerenciar os programas de ajuda do governo canadense. Atualmente é responsável por 75% da assistência oficial do Canadá, o que o coloca como sétimo país do mundo que mais presta assistência aos países em desenvolvimento.
A aproximação dessa agência com o PMM pode se perceber primeiro pelo interesse de atuação na América Latina, bem como no desenvolvimento de ações que favoreçam o desenvolvimento da população de mulheres ao redor do mundo, especialmente em projetos de origens populares.
O financiamento de projetos, assim como o PMM, acontece através da ACDI em parceria com outras instituições, tais como Banco Mundial, OMS, UNICEF, dentro outros. Segundo a ACDI, cerca de 1.6 bilhões de dólares já foram investidos em desenvolvimento internacional.45
Além da agência acima citada, ambos os governos envolvidos financiaram o programa, porém a disparidade de valores foi notória. Enquanto o governo canadense investiu aproximadamente 7% do total destinado ao programa, o governo brasileiro investiu cerca de 61%, ficando o restante a cargo da ACDI.
45 Informações disponíveis no endereço eletrônico da ACDI: http://www.canadainternational.gc.ca/brazil-
Precisamos refletir que por mais importante que seja as agendas de governo e suas prioridades de atendimento à população em situação de vulnerabilidade, esse financiamento não se deu apenas por interesse na formação cidadã e profissional de mulheres em situação de vulnerabilidade social.
Não podemos aqui analisar, pura e simplesmente, a ideia amistosa e benevolente dos canadenses de usarem milhões de dólares para trazes seus profissionais no nosso país fazer novas amizades e aprender português no Brasil. É preciso avaliar antes disso o interesse econômico que perpassa todo esse investimento.
A ACDI se aproxima em vários aspectos das políticas preconizadas pelo Banco Mundial, OMS e UNICEF. Não é por acaso que todos são parceiros e entendem o setor educacional como um dos mais importantes campos de investimento dos países em desenvolvimento.
Investir e financiar projetos de educação em países em desenvolvimento nada mais é que uma política de valorização do capital, onde a educação se torna uma mercadoria lucrativa disfarçada de política para populações em situação de vulnerabilidade.
De acordo com Silva et al (2008, p.20), ao pensarmos nas agências financiadoras e organizações envolvidas como no PMM, precisamos entender que,
[...] as formas de cooperação envolvem o desenvolvimento de programas e modalidades de articulação entre esses organizamos, bem como critérios e atividades que promovam o apoio das políticas “financeiras” do FMI e do Banco às políticas “comerciais” da OMC, visando sempre à liberalização do comércio de bens e serviços, dentre os quais está a educação.
Diante do exposto até aqui, precisamos compreender e ainda buscar algumas respostas que não aparecem nos acordos de cooperação e financiamento do PMM.
Investir em um programa como este, obviamente, é necessário em um país em desenvolvimento como o nosso. Isso inclusive justifica o grande investimento financeiro brasileiro. O que não fica claro é o real ganho canadense nesse programa, as informações contidas no projeto são ínfimas nesse ponto e nossa crítica deve questionar tanto os interesses econômicos quanto políticos contidos na proposta.
Investir em educação em um país em desenvolvimento, especificamente para as camadas populares, pode garantir a manutenção dos interesses da classe dominantes, consequentemente a lógica do capital. Tal fato é interessante para ambos os governos
envolvidos, o que justifica o interesse para além das ações politicamente corretas. Como bem descreve Meszáros (2008, p. 27), “é necessário romper com a lógica do capital se quisermos contemplar a criação de uma alternativa educacional significativamente diferente”.