2.2 FINANCIAMENTO ELEITORAL E AÇÃO ESTRATÉGICA DOS ATORES
2.2.3 Financiamento Eleitoral e Grupos de Interesse
Torna-se importante a identificação de grupos de interesse, representados não só pelos partidos e blocos parlamentares presentes na Câmara dos Deputados, mas também na rede de financiamento dos deputados eleitos, aproximando agentes políticos e empresariais ligados por interesses em comum, sendo que esses agentes se mobilizam em torno de um conjunto restrito de objetivos. Em “Dicionário de Política” (BOBBIO et al., 1998), Pasquino afirma que a definição mais explícita do que seria grupos de interesse se acha em Truman, para o qual grupo de interesse é "qualquer grupo que, à base de um ou vários comportamentos de participação, leva adiante certas reivindicações em relação a outros grupos sociais, com o fim de instaurar, manter ou ampliar formas de comportamento que são inerentes às atitudes compartilhadas" (PASQUINO, 1982 apud. BOBBIO, 1998, p. 564). Desta forma, os grupos de interesse abrem canais de influência para dentro dos negócios de estado e financiam campanhas como uma forma de investimento na esperança de recompensas futuras (HOROCHOVSKI et al., 2017).
Nesse sentido, uma vez que os grupos de interesse se orientam por objetivos é necessário explicitar quais os objetivos dos atores sociais que compõem a rede de financiamento da CMADS. Embora isso se torne mais claro nos capítulos empíricos deste trabalho, a literatura sobre comportamento partidário aponta para o fato de que os partidos políticos se orientam por um pequeno conjunto de objetivos: busca por políticas públicas, votos ou benefícios de gabinete; enquanto que os líderes partidários se esforçam alcançar o cargo (office) (STROM & C. MULLER, 1999, p. 5). Os autores citam que líderes partidários podem descobrir que insistir em preferências políticas específicas implica responsabilidade eleitoral, contudo, é provável que haja trade-off (trocas) entre diferentes objetivos, e os líderes partidários achem que precisam comprometer algumas metas para alcançar outras (STROM & C. MULLER, 1999).
Portanto, é provável que o objetivo dos deputados membros da CMADS seja permanecer na comissão. Uma vez que a busca por cargos pode ter valor intrínseco ou instrumental (STROM & C. MULLER, 1999), esses atores podem estar interessados simplesmente nos privilégios oferecidos pelo cargo ou podem enxergar o cargo como veículo para ganhar vantagens sobre o eleitorado ou afetar políticas públicas. Nesse sentido, resultados de pesquisas que utilizam a metodologia de ARS sugere que “para ser bem-sucedido eleitoralmente um candidato deve ter vários financiadores, estar próximo dos demais atores e colocar-se em posições
privilegiadas nos fluxos relacionais que estes estabelecem entre si” (HOROCHOVSKI et al., 2016, p. 44).
É interessante saber como contextos de organizações externas, a exemplo de partidos políticos, empresas e também normativas institucionais, influenciam nas estratégias adotadas pelos líderes partidários na busca por seus objetivos, porque diferentes estudos realizados sobre o tema indicam que os representantes políticos respondem mais a seus financiadores de campanha do que ao eleitorado. Sabendo que os deputados membros da CMADS durante a 55ª legislatura receberam doações de campanha advindas principalmente de partidos e empresas, a exigência de resposta por parte tanto do financiador empresa, quanto do financiador partido acaba por envolver o deputado - alvo do financiamento - em múltiplas arenas de jogos.
Ao cruzar os dados de financiamento eleitoral com uma série de atributos, como o pertencimento à bancada ruralista e o recebimento de doações de empresas ligadas ao agronegócio, Horochovski et al. (2016) perceberam que os deputados que rejeitaram o Substitutivo do Senado ao Projeto de Lei (PL) Nº 1.876/1999, o que culminou na aprovação no novo Código Florestal (Lei nº 12.651/2012), não levaram em conta a opinião acadêmica, contrária às alterações contidas no novo código:
[...] a decisão majoritária dos parlamentares não levou em consideração a opinião pública e a opinião qualificada da comunidade científica e outros especialistas. Torna-se altamente interessante e necessário investigar outros fatores envolvidos, dos quais destacamos o interesse direto de financiadores de campanha ligados ao agronegócio. (HOROCHOVSKI et al., 2016, p. 12).
O resultado foi uma legislação mais branda quanto ao uso do solo. Fica o questionamento: se não a opinião de ambientalistas e nem acadêmica, o que subsidiou a escolha feita por aqueles deputados? Os autores apontam para o interesse de financiadores de campanha ligados a setores econômicos que sofrem impacto direto das regulamentações contidas no Código Florestal e sugerem que as características das bancadas importam nos processos decisórios.
Em relação à condição ideológica, ainda que haja dissonâncias, é possível “afirmar que ideologia partidária importa no posicionamento dos parlamentares em relação a questões ambientais, como ocorre em outros temas” (HOROCHOVSKI et
al., 2016, p. 16), sendo que, torno de 77% dos deputados de esquerda votaram “sim” e cerca de 79% dos deputados de direita votaram pelo “não”. “Como era de se esperar, há uma expressiva concentração de votos contrários à aprovação do substitutivo ao PL entre a bancada identificada como ruralista” (HOROCHOVSKI et al., 2016, p. 16). Os autores comentam ainda:
[...] Em todos os casos, estar em grupos distintos de parlamentares está associado a diferentes comportamentos em plenário, aqui considerados por meio do voto favorável ou contrário em relação à matéria analisada. Sinteticamente, homens, que não eram de partidos de esquerda e que participavam da bancada ruralista no ato da votação e que receberam financiamento de campanha de empresas ligadas ao agronegócio mostraram-se mais propensos a rejeitar o Substitutivo do Senado Federal ao PL 1.876/1999. Isso demonstra como as escolhas do eleitorado combinadas à fórmula eleitoral são determinantes no processo decisório. Uma Câmara dos Deputados com perfil majoritariamente oposto muito provavelmente teria produzido um diploma legal distinto. (HOROCHOVSKI et al., 2016, p. 22 a 23).
Na mesma linha de pesquisa, o artigo “Estruturas de poder nas redes de financiamento político nas eleições de 2010 no Brasil” de Horochovski et al. (2016) destaca um fenômeno da política brasileira capturado por meio de análise topológica do financiamento eleitoral, e revela uma estrutura que cerceia determinadas candidaturas e projeta outras, na qual:
Menos de 1% dos doadores privados, em sua ampla maioria os principais grupos empresariais do país, financiaram diretamente, dentre os eleitos, 85% dos governadores, 83% dos senadores, 64% dos deputados federais e 34% dos deputados estaduais. (HOROCHOVSKI et al., 2016, p. 45).
Os resultados revelaram uma rede de financiamento que abrangeu, além da presidenta, 80% dos candidatos eleitos, em que as mesmas empresas financiam candidaturas dos mais diferentes perfis ideológicos e cujo candidato que se encontra no centro da rede tem 147 vezes mais chances de se eleger do que os que se encontram em posições periféricas.
Para além disso, os diversos tipos de agentes envolvidos na rede de financiamento eleitoral se comportam de modos distintos, em função de seus interesses e estratégias específicos (HOROCHOVSKI, JUNCKES, SILVA, et al., 2016) e (HOROCHOVSKI et al., 2017). Enquanto a tendência do financiamento por parte das pessoas físicas guarda estreita relação com o ideário dos partidos,
percebe-se que, por parte das empresas, a distribuição de recursos aos partidos se dá sob o critério de maior viabilidade eleitoral e, frequentemente, financiam partidos em disputa direta entre si.
No campo da ciência política, principalmente no que diz respeito ao financiamento eleitoral no Brasil, Mancuso (2014) divide a produção bibliográfica sobre o tema em três eixos: (i) trata da relação entre investimento e desempenho eleitoral, para afirmar uma equação já conhecida em que mais recurso financeiro reverte-se em maior quantidade de votos; (ii) que relaciona o financiamento eleitoral e os benefícios aos financiadores; e o (iii) focaliza determinantes de financiamento eleitoral, ou seja, o que é levado em conta quanto uma empresa decide investir em determinada campanha. Assim, é possível afirmar que a pesquisa aqui proposta se enquadra no eixo (ii) que discute os benefícios gerados para financiadores de campanha.A busca de vantagens mútuas, ou barganha, é apontada como uma das principais motivações que levam uma empresa a financiar determinada campanha.
Aqui, as doações são vistas como trocas, entre empresários e candidatos, de recursos eleitorais por benefícios. Os benefícios visados pelos doadores podem ser de diversos tipos, tais como acesso aos tomadores de decisão, celebração de contratos com o poder público, obtenção de regulamentações favoráveis, realização de gastos públicos que favoreçam seus interesses (por exemplo: construção de infraestrutura que beneficie suas empresas) etc. (MANCUSO, 2014, p. 9).
A exploração do tema do financiamento eleitoral no Brasil em geral se restringe à relação entre financiamento e desempenho eleitoral, sendo que na pesquisa feita por Mancuso (2014) o autor aponta para a escassez de trabalhos que relacionassem o financiamento de campanhas com benefícios advindos através do voto e posicionamento dos parlamentares. Santos (2015) realiza este exercício para estimar o efeito do financiamento de campanha sobre a cooperação do parlamentar com o setor da indústria e apesar de ter conseguido comprovar apenas parcialmente tais efeitos, os resultados se alinham à literatura internacional sobre o tema que encontra relação positiva entre contribuições de campanha e comportamento congressual. No sentido de mostrar como o investimento eleitoral se traduz em concessão de benefícios pelos decisores, Mancuso(2014) é enfático ao afirmar:
Há, portanto, amplo espaço para trabalhos que procurem mensurar a influência dos doadores sobre o comportamento dos parlamentares, em termos de apresentação de projetos e emendas, confecção de relatórios e
pareceres, pertença a comissões (permanentes, especiais e de inquérito), votos em comissões e em plenário etc. (MANCUSO, 2014, p. 24 e 25).
Esta lacuna se refere à omissão de variáveis independentes relevantes para a equação entre financiamento e desempenho eleitoral. Portanto, o presente trabalho investiga se há relação entre comportamento congressual e financiamento eleitoral e a forma que assume tal entrosamento. Em especial aqueles comportamentos que exercem impacto na produção normativa sobre modelos de desenvolvimento no Brasil.
Este estudo parte da hipótese de que a rede de financiamento de campanha oferece indicativos sobre os elementos influenciadores do comportamento político. Nesta arena, interagem candidatos, partidos políticos e empresas doadoras de campanha. É expresso a seguir o quanto as relações estabelecidas antes de o candidato ser eleito podem influenciar sua atuação ao longo do mandato, para tal utiliza-se a Análise de Redes Sociais como método para identificar a rede de financiamento eleitoral dos deputados membros da Comissão do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável.