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CAPÍTULO I – Aspectos teóricos: Literatura, Estética da Recepção e Elementos da

D. O espaço

1.8 Fios que se entrelaçam: perspectivas metodológicas

“Quanta gente, Quanto sonho, Quanta história, quanto invento, Quanta arte, quanta vida Há dentro de um livro!”

Ricardo Azevedo - 2001

A análise estrutural da narrativa estudada por si mesma não é completa. Se tomarmos, unicamente, a descrição da construção do narrador, do personagem, do espaço e do tempo de um texto literário, nossa leitura será destituída de valor crítico, por se resumir à metalinguagem própria de sua natureza. Caso contrário, a decomposição dos elementos constitutivos da narrativa pode nos descortinar partes distintas da mesma para estabelecer diálogo com outra perspectiva crítica. Então, procuramos investigar os elementos da narrativa que estruturam os textos produzidos por Ricardo Azevedo dialogando com os pressupostos da Estética da Recepção.

Assim, pretendemos aproximar metodologias que contribuam e nos auxiliem, decisivamente, na leitura que propomos, ou seja, analisar um corpus delimitado da produção infantil e juvenil do escritor com o intuito de observarmos se as obras do referido escritor apresentam um caráter emancipador decorrente de sua organização ficcional e se asseguram a interação entre texto e leitor.

Desse modo, procuramos realizar uma crítica integradora, ou seja, localizar os princípios estruturais do texto narrativo, não os simplificando e os reduzindo às suas partes constitutivas, pelo contrário, trazendo-os à luz da Estética da Recepção. Para tanto, valemo-nos do exemplo de Antonio Candido, no texto O discurso e a cidade (1992). Logo no prefácio da obra, o crítico assinala dois momentos que contempla em seu trabalho. No primeiro momento, esclarece a importância da análise dos componentes estruturais da narrativa, para,

num segundo momento, tecer reflexões críticas sobre os textos literários selecionados para a leitura: “O meu propósito e fazer uma crítica integradora” (1992: 9). Conforme o estudioso, essa visão integradora descortina diferentes formas de se ler um texto literário.

CAPÍTULO II – AS MÚLTIPLAS FACES DE RICARDO AZEVEDO: ESCRITOR, ILUSTRADOR E PESQUISADOR

2.1 Literatura infantil e juvenil: aspectos históricos e temáticos10

Livros

Na verdade, vou dizer, São tesouros de papel.

Mas aquele que eu prefiro É um cheio de desenhos, Um volume muito antigo, Do tempo do meu avô, Mostrando um pouco de tudo

[...]

Ricardo Azevedo - 2001

Dentre as formas literárias existentes, uma das mais recentes é constituída de livros dirigidos às crianças e aos jovens. A literatura infantil e juvenil, assim caracterizada, apareceu no fim do século XVII e início do século XVIII, época em que ocorreram mudanças na estrutura da sociedade e que desencadearam uma série de repercussões, tanto no âmbito econômico, político como social. No campo artístico, especificamente na literatura, entraram em decadência os gêneros clássicos, como a tragédia e a epopéia, ascendendo em seus lugares o drama, o melodrama e o romance. Em razão disso, os temas inscritos nas produções literárias se voltaram para a manifestação de eventos da vida burguesa e cotidiana, deixando de lado os assuntos mitológicos e os personagens aristocráticos.

Um dos principais fatores que moveu tais transformações foi a Revolução Industrial, pois provocou o crescimento político e financeiro das cidades, o desenvolvimento urbano e o

10 Para compreendermos a literatura infantil e juvenil contemporânea, faremos uma breve retrospectiva e abordaremos os aspectos histórico, temático e formal. Retomamos os estudos organizados por Zilberman e Lajolo, que souberam sintetizar com brilhantismo o percurso desta vertente no texto Literatura infantil brasileira: histórias e histórias (São Paulo: Ática, 1984).

êxodo rural. Em conseqüência, a decadência do poder rural e do feudalismo, marcado pela ascensão da burguesia, que lançou a expansão de sua ideologia familista. Por isso, a primeira instituição - a família - fundada na privacidade e na promoção do afeto entre os entes desse pequeno grupo. A criança passa a ser vista de uma maneira diferenciada, tendo um papel relevante na sociedade. Em vista disso, provoca o aparecimento de objetos industrializados (os brinquedos) e culturais (livros), como também o desenvolvimento da ciência (psicologia, pedagogia e pediatria). Nesse contexto, a literatura infantil surge, apresentando caráter pedagógico e autoritário ao responder às necessidades imediatas.

Em outras palavras, seu aparecimento tem características próprias, decorrentes da reorganização social. Com a ascensão da família burguesa, é concedido à criança um novo status e, ao mesmo tempo, são criados meios de controle para acompanhar o seu desenvolvimento e manipular suas emoções. A escola, responsável por tais façanhas, passa a ser a segunda instituição que colabora para a afirmação política e ideológica da burguesia, como forma de controle do grupo no poder. A instituição escolar utilizava textos de caráter infantil como instrumento pedagógico e como veículo de idéias que correspondiam às necessidades daquele momento a fim de atingir seus objetivos formais e, concomitantemente, dialogava com a pretensa organização política, preocupando-se com a inculcação de valores morais. Como afirma Zilberman:

[...] a escola participa do processo de manipulação da criança, conduzindo-a ao respeito da norma vigente, que é também a da classe dominante, a burguesia, [...] a obra literária pode reproduzir o mundo adulto: seja pela atuação de um narrador que bloqueia ou censura a ação de suas personagens infantis; seja pela veiculação de conceitos e padrões comportamentais que estejam em consonância com os valores sociais prediletos; seja pela utilização de uma norma lingüística ainda não atingida por seu leitor, devido a falta de experiência mais complexa na manipulação com a linguagem.

(ZILBERMAN, 2003: 23)

Assim, a literatura infantil e juvenil destinava-se a ser parte do processo de manipulação da criança, conduzindo-a ao acatamento da norma vigente, por estar imbuída de intenções pedagógicas e pragmáticas, subsidiária apenas à educação, não ao artístico. Por isso, a crítica desprestigiava globalmente a produção literária dirigida aos pequenos leitores.

A literatura infantil e juvenil tem seu marco inicial no fim do século XVII, mais especificamente em 1697, com a publicação dos Contos da mamãe Gansa, de Charles Perrault (1628 – 1703) que, inclusive, atribui a autoria da obra ao seu filho, Pierre Darmancourt, devido à posição que tinha na Academia Francesa, pois escrever uma obra popular e de circulação oral representava voltar-se contra os princípios da academia. Perrault compôs suas narrativas com argumentos baseados na ficção popular, isso o levou à produção de várias obras, como: Chapeuzinho Vermelho, O gato de botas, A gata borralheira, A Cinderela, dentre outras.

Jacob Grimm (1785 – 1863) e Wilhelm Grimm (1786 – 1859) foram grandes folcloristas, historiadores e pesquisadores. Em suas viagens, cautelosamente, recolheram da memória popular acervo para a organização de seus contos. Foram os primeiros europeus, no século XIX, que atribuíram valor estético e humano à matéria popular e também exaltaram o povo alemão. Seus contos reúnem-se no volume Contos de fadas para crianças e adultos. Eis alguns contos: “Bela Adormecida”, “Os músicos de Bremem”, “O ganso de ouro”, “O alfaiate valente”, “As três fiandeiras”, dentre outros.

Hans Cristhian Andersen (1805 – 1875), poeta e novelista dinamarquês, um dos mais famosos escritores para crianças, buscou na realidade imediata a descoberta do maravilhoso.

Dessa forma, escreveu mais de 150 (cento e cinqüenta) contos de origem popular. Eis alguns de seus títulos: A roupa nova do imperador, O patinho feio, A pequena vendedora de fósforos, A rainha da neve, O soldadinho de chumbo. A produção literária de Andersen sofreu influência folclórica, entretanto ele soube reavivar o passado e dialogar com o presente,

buscando a substância da alma humana. Nesse sentido, além da fonte da literatura popular, conservou a tradição oral e os aspectos da vida real, introduzindo cenas corriqueiras em suas narrativas. Conseqüentemente, suas obras apresentam caráter poético e a moralidade, por sua vez, é tão leve que não se transforma em lições. Tanto Andersen como os irmãos Grimm valorizaram o elemento maravilhoso na reprodução das histórias ancestrais, visando a uma auto-afirmação dos valores de sua pátria.

Poucas das obras infanto-juvenis asseguraram sua permanência até o século XVIII.

Dentre elas, Zilberman e Lajolo elencam: os contos de fadas de Perrault, as adaptações de Robson Crusoé (1717), de Daniel Defoe, e Viagens de Gulliver (1726), de Jonathan Swift. Os irmãos Grimm, em 1812, editaram a coleção de contos de fadas, considerando-os sinônimos de literatura para crianças. Em seguida, surgiu a escrita de histórias fantásticas por Hans Christian Andersen, nos seus Contos (1833); Lewis Carrol, em Alice no país das maravilhas (1863); James Barrie, em Peter Pan (1911), dentre outros.

No que se refere às histórias de aventuras em espaços exóticos e personagens audazes, destacam-se: O último dos moicanos (1826), de Julio Verne; As aventuras de Tom Sawyer (1876), de Mark Twaian; A ilha do tesouro (1822), de Robert Louis Stevenson. Entre as que apresentam a vida diária como motivo de ação e interesse temos: O ovo de páscoa (1816), do Cônego Von Schimid; As meninas exemplares (1857), da Condessa de Ségur; Mulherzinhas (1869), de Louse M. Allcott; Heidi (1881), de Johanna Spiry, e Coração (1886), de Edmond de Amicis. Os autores da segunda metade do século XIX confirmaram a literatura infantil em decorrência dos apelos da sociedade burguesa e capitalista, dando-lhe continuidade e favorecendo sua atuação.

A literatura infantil brasileira, por sua vez, nasceu no final do século XIX e começo do século XX, momento em que acontecia a extinção do trabalho escravo (abolição da escravatura), o advento da República, o crescimento e a diversificação da população urbana.

Em 1808, iniciou-se a atividade editorial no país e a publicação de livros traduzidos para as crianças: As aventuras pasmosas do Barão de Munkausen e, em 1818, a coletânea de José de Saturnino da Costa Pereira: Leitura para meninos, contendo uma coleção de histórias morais relativas aos defeitos ordinários às idades tenras, e um diálogo sobre geografia, cronologia, história de Portugal e história natural, e, em 1848, Aventuras do Barão de Münchhausen, ainda insuficientes para caracterizar uma produção literária direcionada ao público infantil e juvenil.

A chegada dos imigrantes configura a consolidação política e econômica, registrando-se a existência de um público consumidor de livros infantis e escolares. Nesregistrando-se contexto, surgiu, em 1905, a revista infantil O tico-tico, que foi aceita imediatamente e com sucesso, já revelando um público consumidor da chamada indústria cultural. Assim, entre os séculos XIX e XX, deu-se a abertura do espaço para a produção didática e literária voltada ao público infantil.

As primeiras obras que circularam entre as crianças foram as traduções de Carlos Jansen: Contos seletos das mil e uma noites (1882), Robinson Crusoé (1885), Viagens de Gulliver (1891), Contos para filhos e netos (1894) e D. Quixote de La Mancha (1901).

Figueiredo Pimentel traduziu os clássicos de Grimm, Perrault e Andersen: Contos da Carochinha (1894), Histórias da avozinha (1896) e Histórias da baratinha (1896). Outro tradutor importante foi João Ribeiro que traduziu, em 1961, o livro italiano Cuore.

No que se refere à produção de autores brasileiros, Zilberman e Lajolo citam: Contos infantis (1886), de Júlia Lopes de Almeida e Adelina Lopes Vieira; Contos pátrios (1904), de Olavo Bilac e Coelho Neto; Histórias da nossa terra (1907), de Júlia Lopes de Almeida;

Através do Brasil (1910), de Olavo Bilac e Manuel Bonfim; Saudade (1919), de Tales de Andrade. Quanto à poesia, destacam-se: o Livro das crianças (1987), de Zalina Rolim em

parceria com João Köpke; Poesias infantis (1904), de Olavo Bilac, e Alma infantil (1912), de Francisca Júlia e Júlio da Silva.

Lajolo e Zilberman discorrem sobre as obras de caráter folclórico, publicadas por Alexina de Magalhães Pinto que, revisadas lingüisticamente, não revelam o aspecto da fala rural da época. Eis alguns títulos: As nossas histórias (1907), Os nossos brinquedos (1909), Cantigas das crianças e do povo e danças populares (1916), Provérbios populares, máximas e observações usuais (1917). Apesar de valorizar a pesquisa folclórica, a autora volta sua preocupação para a correção dos erros de linguagem, uma vez que tais obras atendiam ao projeto educacional do momento. As antologias folclóricas foram publicadas para atender a atividades escolares: A festa das aves (1910), de Arnaldo Barreto, Ramon Roca e Teodoro de Morais; Livro das aves (1914), de Presciliana D. de Almeida; A árvore (1916), de Júlia Lopes de Almeida e Adelina Lopes Vieira.

Na década de vinte, a produção literária de Monteiro Lobato (1920) surgiu com idéias contrárias às existentes. Apesar de as histórias também acontecerem no ambiente rural, apresentam uma temática renovadora e os personagens são capazes de lançar-se além daquele mundo, confirmando a preocupação estética e emancipadora do texto literário voltado para o público infantil em oposição ao projeto pedagógico. Conforme Lajolo:

Monteiro Lobato inaugura a literatura infantil brasileira. O surgimento de livros para crianças pressupõe uma organização social moderna, por onde circule uma imagem especial de infância: uma imagem da infância que veja nas crianças um público que, arregimentado pela escola, precisa ser iniciado em valores sociais e afetivos que a literatura torna sedutores. Em resumo, um público específico, que precisa de uma literatura diferente da destinada aos adultos. (LAJOLO, 2000: 60)

Desse modo, o Sítio do Picapau Amarelo, criação lobatiana, é o ponto de entrada de todas as narrativas, como vemos nas obras: Reinações de Narizinho (1931), O saci (1921), O picapau Amarelo (1939), A chave do tamanho (1942), dentre outras em que os personagens

garantem o seu espaço no ambiente rural. Conforme Zilberman e Lajolo (2003), o sítio não se define como um mero espaço onde as ações acontecem, mas representa uma concepção e uma visão definida a respeito do mundo e da sociedade, como também uma preocupação com a criação de obras dirigidas ao público infantil. Nesse sentido, o sítio representa um projeto estético incorporado à literatura infantil, como também uma aspiração política.

Diferentemente de autores que recorreram ao folclore, Monteiro Lobato apontou contradições e rejeitou a tradição popular da maneira como seus antecessores a trabalharam em suas produções literárias. Conforme Zilberman, a produção de Monteiro Lobato desmente

“seu conteúdo como se realizasse uma tarefa para mostrar que ele poderia, se assim o desejasse, apelar para o folclore, mas se o fazia era para negá-lo” (2003: 226). Lobato apropriou-se do conto de tradição popular, brincou com os personagens de forma inovadora.

Além disso, realizou adaptações de obras estrangeiras, principalmente, de narrativas européias, incorporando-as ao contexto fantástico do sítio e atribuindo-lhes tratamento espontâneo, próximo à oralidade de seus moradores, valendo-se de um estilo coloquial e livre de erudição.

As pesquisadoras esclarecem que tanto Lobato quanto Graciliano Ramos, embora em décadas diferentes, souberam compreender a peculiaridade da época em que viveram, bem como retratar a maturidade da literatura infantil que, desde então, já cobrava espaço para participar do reduto mais seleto e prestigiado da produção artística literária.

Se, de um lado, Monteiro Lobato inaugurou a fase literária destinada às crianças com obras de valor imensurável, por outro lado, na década de 40, este salto qualitativo se estagnou.

Havia uma multiplicidade de publicações voltadas para a criança, o mercado editorial se fortificava e os escritores se profissionalizavam, mas não havia a realização de um trabalho inovador. Nas décadas de 50 e 60, restringiram-se às idéias pedagógicas e nacionalistas (narrativas históricas, biografias, histórias que transcorrem em florestas ou no campo, atos

heróicos dos bandeirantes). Na década de sessenta, após o golpe militar, consolidaram-se formulações ideológicas que deviam manter uma determinada imagem do país. A política adotada foi fundamental para nortear a vida cultural. Zilberman e Lajolo ressaltam um crescimento intenso e muito significativo no setor editorial:

Num regime capitalista que apóia a livre iniciativa, a existência dessa malha institucional que se ocupa da literatura pressupõe uma contrapartida: um setor editorial relativamente forte e desenvolvido e a existência de um público capaz de constituir mercado consumidor de livros. (ZILBERMAN;

LAJOLO, 1986: 172)

Nas décadas de 60 e 70, a crescente produção literária respondeu aos mecanismos culturais, políticos e econômicos. Em vista disso, programas voltados para a discussão da leitura e literatura infantil intensificaram-se gradualmente. Votou-se a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei no 4.024, de 20/12/1961), que propôs a leitura como habilidade básica para o processo de aprendizagem11. Surgiu, então, a Fundação do Livro Escolar (1966), a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (1968), o Centro de Estudos de Literatura Infantil e Juvenil (1973), a Academia Brasileira de Literatura Infantil e Juvenil, criada em São Paulo (1979), o Instituto Nacional do Livro (1937), dentre outras instituições, no decorrer dos anos 70.

O quadro geral no Brasil, nessas décadas, apresentou uma expansão no consumo e na produção de livros, e isso não aconteceu isoladamente, pois multiplicaram-se investimentos na cultura, novas mídias surgiram num Brasil urbano, como o rádio, a televisão, os posters.

Escritores profissionalizaram-se e a produção artística (música, teatro e literatura) comprometeu-se com valores e com a linguagem de esquerda. Criaram-se movimentos de

11 Apesar da grande demanda de textos literários utilizados na sala de aula, ainda, eram trabalhados de forma pragmática. Geralmente, professores utilizavam as fichas de leitura que acompanhavam cada obra.

cultura popular e a produção literária assumiu várias tendências: literatura-jornalismo, surgimento da poesia marginal, entre outras. O regime capitalista estimulou o fortalecimento do mercado editorial, incentivando a política cultural e promovendo grande investimento neste setor.

As medidas políticas e econômicas que aceleraram a modernização da indústria e do comércio livreiro permitiram investimento em propagandas e inovações no produto em pauta.

Isso resultou, na literatura, em duas vertentes. De um lado, escritores aproveitaram a oportunidade do mercado, o livro enquanto objeto mercadológico, com fins econômicos, produzindo obras com o intuito de atender às expectativas do leitor, ou seja, com a criação de personagens estereotipados, aproximando-se da cultura de massa. De outro lado, artistas preocupados com a criação de obras de caráter emancipador. Diante dessas questões, na década de 70, marcou-se o boom da literatura infanto-juvenil devido à ampliação da indústria editorial e, concomitantemente, instituía-se uma literatura com o desejo de emancipação do leitor, voltada, predominantemente, para o incentivo ao espírito crítico e, menos, para a inculcação de valores morais, utilitaristas e pedagógicos.

Nesse percurso, Perrotti, no texto intitulado O texto sedutor na literatura infantil (1986), registra que João Carlos Marinho Silva, com a publicação da obra O Caneco de Prata (1971), rompeu com a tradição retórica herdada dos europeus e o discurso utilitário perdeu espaço, evidenciando a autonomia, a organicidade e a originalidade do texto literário que se estruturava, agora, segundo critérios decorrentes de sua própria dinâmica interna. Dessa maneira, percebemos, na década de 70, uma produção literária preocupada com o jovem leitor, diferenciando-se da temática abordada nas produções anteriores. Essa tendência atravessa a década de 80, perpassa os anos 90 chega até 2000. Nessa trajetória, Zilberman e Lajolo citam as seguintes obras: O caneco de prata (1971), de João Carlos Marinho; Soprinho (1973), de Fernanda Lopes de Almeida; Domingo de manhã (1976), Ida e volta (1976), ambos

de Juarez Machado; A bolsa amarela (1976) e Corda bamba (1979), de Lygia Bojunga Nunes; Chapeuzinho Amarelo (1979), de Chico Buarque; Flicts (1979) e O menino maluquinho (1980), de Ziraldo; História meio ao contrário (1979), de Ana Maria Machado;

Onde tem bruxa tem fada (1979), de Bartolomeu Campos de Queirós, dentre outras. Cabe assinalar que O peixe que podia cantar, a obra inaugural de Ricardo Azevedo, foi publicada em 1980.

Zilberman e Lajolo enfatizam que uma das inovações mais importantes do Modernismo na literatura brasileira foi a incorporação, à língua literária, do coloquial e da oralidade, herança lobatiana que provoca a aproximação da criança ao texto artístico, considerando a heterogeneidade deste público leitor. Além das inovações pertinentes aos temas e à linguagem, a literatura infanto-juvenil contemporânea brasileira valeu-se dos aspectos gráficos, não apenas como um mero complemento, mas estabelecendo uma relação dialógica entre o texto verbal e visual, de forma plurissignificativa e polissêmica, ao expressar uma determinada experiência humana.

Novaes diz que: “A literatura infantil é antes de tudo, literatura; ou melhor, é arte:

fenômeno de criatividade que representa o mundo, o homem, a vida, através da palavra.

Funde os sonhos e a sua vida prática, o imaginário e o real, os ideais e sua possível/impossível realização...” (2000: 27).

As inovações que ocorreram a partir da década de 70, a vertente designada infantil e juvenil passa a ter um espaço na crítica literária geral. Apesar do crescimento de autores e títulos que enveredaram na literatura para crianças e jovens, havia, ainda, um grande número de produções que não incorporaram a qualidade estética esperada de uma obra literária.