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O sofrimento invisível no trabalho

4.1.1. Fisionomias do poder abusivo

A análise das práticas de gerenciamento do capital humano modeladas pelas exigências do contexto organizacional contemporâneo, descritas no capítulo 3, ao confirmarem que as práticas qualificadas como assédio moral são estratégias organizacionais de exclusão, estimulou novas indagações. Quais formas de constrangimentos foram adotadas para assediar moralmente? Quais as percepções dos acusados e das vítimas? Quais os critérios de exclusão fundamentaram a classificação de um WUDEDOKDGRUFRPR³GHVFDUWiYHO´"4XDLVRV fundamentos dos instrumentos que classificam o trabalhador? As respostas a estas questões se transformaram nos propósitos que nortearam o desenvolvimento do item, em questão.

A busca de respostas exigiu um olhar mais acurado nas denúncias públicas decorrentes das ações individuais efetuadas junto aos Tribunais de Justiça do Trabalho, o que foi possível graças à divulgação dos seus acórdãos na internet. Pois, o conteúdo das denúncias divulgado na imprensa escrita foi mais superficial, provavelmente, em face dos limites impostos a esse veículo de comunicação.

As organizações brasileiras da amostra, públicas e privadas, desnudaram suas faces aéticas e desumanas relativas à gestão de pessoas. Todavia, quais as justificativas dos acusados para assediar moralmente o trabalhador? A maioria dos acusados argumentou que se trata de uma prerrogativa do exercício do seu poder diretivo. E mais, que a competitividade é lícita independentemente dos meios utilizados para assegurar essa condição no mercado.

[LQJDGRSHORJHUHQWHGH³LPEHFLO´EHQJDOD´³LQ~WLO´YHQGHGRUHVTXHQmR DOFDQoDYDPDSURGXWLYLGDGH´

Processo nº 01117-2002-032-02-00-0

devido ao processo de reestruturação da empresa para atender a exigência do mercado foi necessário substituir o quadro de empregados.... não se pode confundir mensagens honestas e transparentes... motivadoras com terrorismo psicológico ou manipulação perversa

Processo nº 1341-2004-010-02-40.0

Um número expressivo de empregadores concordou que o estresse e as pressões caracterizaram as relações produtivas no atual cenário competitivo. Eles destacaram que a concorrência acirrada impõe aos empreendimentos econômicos no regime capitalista e, portanto, aos trabalhadores neles envolvidos, exigências que acarretam pressões e estresse.

Algumas empresas se defenderam registrando que exerceram seu poder de direção e disciplinar de modo regular, em outras palavras, conforme o previsto no artigo 2º da Consolidação das Leis de Trabalho (CLT). Porém, as empresas justificaram que tais situações se afiguram ordinárias num mercado competitivo. Daí, não ser possível atribuir ao empregador qualquer responsabilidade por esta situação.

Aumento da pressão... estilo gerencial autoritário e dominador ....ameaça de dispensa... após o mesmo ter assumido uma função... imposição para o cumprimento de metas

Vários empregadores, também, ressalvaram a inexistência de provas dos danos à saúde dos empregados. Além disso, a análise trouxe à tona a desconfiança dos empregadores quanto às queixas relativas às seqüelas, principalmente, se provenientes de quem retorna ao trabalho após o afastamento por acidente de trabalho, quem atua como representante sindical ou é incapaz de manter níveis de desempenho competitivo. Para eles os empregados que retornaram ao trabalho após o afastamento por acidente de trabalho (Act) se esquivaram do trabalho, segundo o processo nº 00436-2003-001-14-00-0.

Quanto aos representantes sindicais, trata-se de ³XPD PiILD GD HVWDELOLGDGH VLQGLFDO´, conforme a expressão utilizada pelo empregador acusado no processo nº 00247- 2003-001-019-00-0. Na percepção de alguns empregadores a demissão de um trabalhador que desempenha esse papel na organização, antes do término da sua estabilidade sindical, não implica na ofensa da honra, no ataque à imagem e nem sequer na anulação da sua dignidade. Quanto aos empregados incapazes de manter patamares de crescentes de desempenho excelente, ou seja, que agrega valor ao negócio, alguns empregadores justificaram que a exclusão foi fruto de medidas relacionadas à reavaliação do quadro pessoal, efetuado por especialistas que foram os responsáveis pela classificação do empregado.

Contrariamente, em sua visita ao Brasil, Hirigoyen acentuou que o atual contexto de negócios favorece a agressão moral que busca fazer crer ao assalariado que este tem que se estar disposto a aceitar quaisquer imposições se quiser manter o emprego.

cobrança diária para a venda de produtos... visando o crescente alcance de metas altas de vendas... se em 6 meses o empregado não atinge 80% a 90% das metas pode chegar a ser despedido... o banco não tem interesse em que não alcança meta

Processo nº 01117-2002-032-02-00-0

Os dados empíricos confirmaram o posicionamento da autora: para alguns empregadores o ato de empregar se assemelha a um favor. Com base nesta visão de mundo, algumas empresas fingem não perceber que seus gestores conduzem suas equipes de forma tirânica ou perversa, expressões comumente empregadas por Hirigoyen nas suas obras. De modo geral as empresas denunciadas em função de posturas aéticas se defenderam argumentando que tais práticas alegadas como assédio moral devem ser entendidas como ³HVIRUoRVYLVDQGRRDOFDQFHGHPHWDV´. Para o poder diretivo abusivo a coação para dominar p³QRUPDO´. Razão pela qual na percepção da maioria dos acusados inexistiram as alegadas humilhações e os danos decorrentes alegados pelas vítimas do assédio moral.

HPSUHJDGRVTXHQmRDWLQJLDPDVPHWDVHUDPREULJDGRVD³SDJDUSUHQGDV´ fazer apoio em cima da mesa, na frente de colegas... submetidos a palavras pejorativas e desabonadoras de seus superiores hierárquicos.

Processo nº 00064-2003-015-04-00-6

Pressões para trabalhar mais do que para o exercício de suas funções normais em vendas... se a pessoa não produzisse mais era massacrado e H[HFUDGRSXEOLFDPHQWH³9HUJRQKD´

Processo nº 00021-2004-097-3-00-0

Contestando, alguns juízes advogaram que as exigências de modelos de gestão estrangeiros, especialmente americanos, ao fomentarem a sustentação da competitividade atingiram a dignidade do trabalhador (Dig), a partir da coação psicológica para subjugar o trabalhador e impor-lhe a qualquer preço, uma produtividade [...] selvagem e incompatível com a capacidade humana [...], conforme a expressão utilizada pelo juiz do processo nº 00847-2002-005-17-00-3.

Um número expressivo de processos ilustrou outro argumento: o trabalhador é avaliado em função da sua contribuição ao negócio. Se as metas forem cumpridas há bonificação, caso contrário a punição é inevitável. Confirmando, 51% dos processos acessados na internet, 50% dos processos publicados na mídia impressa e 12% das reportagens denunciaram práticas de assédio moral que atentaram contra a dignidade do trabalhador, buscando excluí-los do mundo do trabalho.

a empresa deve responder pela atitude do seu preposto que agrediu os valores morais do empregado e feriu o seu decoro e prestígio profissional ao buscar inferiorizar intencionalmente o empregado perante o grupo.

Processo 00064-2003-015-04-00-6

a empresa passou a hostilizar o empregado por conta de reiteradas faltas ao serviço que decorriam da necessidade de socorrer sua esposa gestante... a condição passou a descontentar o empregador, visto que não poderia dispensar o funcionário sem considerável prejuízo financeiro, acarretado pelo montante que teria que indenizar.

Processo 01224-2004-014-03-00-7

As estratégias de exclusão, sistemáticas e estruturadas, revelaram total aviltamento na relação de trabalho para suplantar, de forma perversa, a personalidade do outro e os seus direitos. Os acórdãos comprovaram que o assédio moral buscou excluir o trabalhador indesejável por meio das duas principais fisionomias do poder: degradação das condições de trabalho e aumento de exigências relativas à produtividade.

Mas, o olhar atento deste estudo trouxe à tona que a degradação intencional das condições de trabalho (Des) se distinguiu por meio dos ataques à dignidade do trabalhador (Dig) dirigidos a empregados indisciplinados que se recusaram a cumprir ordens ou realizar ações que contrariavam suas crenças e valores (Ind). Para tanto, os acusados nem sempre adotaram atitudes ostensivas, obviamente mais fáceis de provar. Ao contrário, estes utilizaram agressões sutis revelando a perversidade do assédio. Ações perniciosas aSHQDV³YLVtYHLV´pela vítima e pelo agressor e, portanto, mais difíceis de serem comprovadas.

seguida por três ou quatro vigilantes à distância. Processo nº 00936-2003-036-3-00-0

Todavia, em algumas situações, a visibilidade do assédio extrapolou o binômio vítima-agressor. A coragem de testemunhas enfraqueceu as justificativas dos acusados ao confirmarem as percepções das vítimas.

a empregada era a única acompanhada por três a quatro vigilantes. Razão pela qual a empregada sempre ficava chorando e cabisbaixa.... a empregada tinha liderança e reivindicava direitos, como a emissão de CAT.

Os comentários irônicos se constituíram em outra face do poder abusivo. não ser do nosso interesse a continuidade da prestação de seus serviços nesta Unidade e com o escopo de manter a boa ordem dos trabalhos da secretaria e a harmonia da equipe .. a não observância das normas.... constitui-se um mau exemplo para os demais servidores...é impossível a sua permanência no serviço externo da secretaria e inviável o mesmo permanecer no âmbito interno da secretaria...destacando a presença da ex-esposa e do ex-cunhado na secretaria...cabendo frisar que a separação do casal foi litigiosa..o acusador revela não ser amigo da ex-esposa.

Processo nº 1461-2003-000-03-00-3

A crueldade foi a tônica das relações contaminadas pelo assédio moral. As estratégias de exclusão, por meio de uma ação sistemática e estruturada, revelaram total aviltamento na relação de trabalho para suplantar, de forma perversa, a personalidade do outro e os seus direitos, como demonstra o processo a seguir. A violência psicológica seguiu uma dinâmica na qual o sujeito perverso empregou várias modalidades de agressões contra a vítima que a violentaram no conjunto dos seus direitos, de modo sutil, sorrateiro, silencioso, ardiloso com o intuito de confundi-la. Segundo o acórdão, os métodos empregados se assemelharam aos adotados pelos fascistas para submeter e conduzir as vítimas ao cadafalso.

assédio sexual da chefia, associado a pressões públicas para regularização de débitos junto ao SPC.

A ânsia da destruição do ambiente do trabalho para a exclusão dos ³LQGHVHMiYHLV´GHVFREULXRXWUDIRUPDGHKXPLOKDU$LPSRVLomRGRLVRODPHQWRHVSHFLDOPHQWH aos que retornaram ao trabalho após afastamento médico (Afm) e aos cipeiros (Cip).

assédio moral praticado por sua superiora hierárquica... transferência para sala menor e sem os equipamentos necessários ao desenvolvimento de suas atribuições... Após, as agressões se mostraram em atitudes como a mudança de sala, restrição às saídas, proibição do uso de telefone e computador... em seguida, foi-lhe negado qualquer tipo de trabalho e retirada da sala.

Processo nº 01292-2004-057-3-00-0

o empregador não agia de modo leal...alterou a escala de trabalho sem comunicar previamente ...não aceitou atestados médicos plenamente válidos emitidos pelo SUS... foi perseguido por ser integrante da CIPA... após sua reintegração foi coagido a requerer a saída do cargo de chefe.

Processo nº 00487-2004-001-19-00-5

A empregada foi jogada à ociosidade, ante a ausência de atribuições... nos últimos meses a empresa submeteu a empregada à pressão psicológica excessiva e constante.

Processo nº 05316-2004-7-12-00-0

A maioria das estratégias de exclusão visou o aumento da produtividade. Em busca de maiores lucros, as organizações da amostra atacaram de modo reiterado à dignidade GRVSHUFHELGRVFRPR³GHVFDUWiYHLVexigindo desses uma produção cada vez maior, até que esses completamente estressados solicitem seu desligamento GRV TXDGURV IXQFLRQDLV ³SRU LQLFLDWLYDSUySULD´Especialmente, as mulheres.

A nova economia provoca um grau imenso de competitividade e de insegurança na empresa. Igualmente, pela uniformidade que demanda, gera uma intolerância com a diferença, com aquele que se afasta do padrão esperado pela empresa, que discorda, contesta, denuncia, pois é o do novo estado de coisas a submissão e a obediência. De outro lado, há um acúmulo de atribuições, de novas tarefas, a um mesmo empregado, de quem se espera uma polivalência. Fonte de economia e custos, vez que evita a contratação de outros trabalhadores.

Processo nº 01301-2003-011-3-00-0

Os ataques à honra do trabalhador para forçar o aumento da produtividade se associaram ao uso abusivo do poder de direção do empregador, ou mais simplesmente, se vincularam à esfera das relações de subordinação.

No cotidiano, o exercício do poder diretivo abusivo ocorreu de várias formas. Ou insultando por meio de deboches; ou sujeitando o trabalhador a castigos físicos, palavras de baixo calão e ofensas pessoais e morais em reuniões de trabalho; ou impondo uma constante exigência para o alcance de metas determinadas a priori; ou divulgando rankings para constranger uns aos outros numa galopante e frenética competição; ou coagindo implicitamente que o fracasso poderia resultar em demissão, especialmente se o trabalhador estivesse no exercício de uma função gerencial.

Em sua maioria o assédio moral se iniciou por atitudes e palavras de gerentes contra determinado empregado. Após, o mesmo passou a ser praticado pelos colegas que, com medo da retaliação, se afastaram da vítima. A ofensa e a humilhação se transformaram em ³WHFQRORJLDs gerenciais´UHYHOando a desumanidade na conduta de alguns empregadores.

os vendedores eram xingados SHOR JHUHQWH GH ³LPEHFLO´ ³EHQJDOD´ ³LQ~WLO´DTXHOHV TXH QmR DOFDQoDYDP D SURGXWLYLGDGH HUDP VXEPHWLGRV D PDXVWUDWRVSRUH[HPSORHQYLDGRVSDUDD³VDODGRV]HUDGRV´.

Processo 01117-2002-032-02-00-0

negligência no cumprimento dos mandatos judiciais que lhe foram distribuídos.

Processo 1461- 2003 ± 000 ± 03-00-3 O ato é que apesar do deferimento de um número expressivo de ações judiciais, a criação dessa figura jurídica não foi suficiente para a comprovação da hipótese do assédio moral em 53% das ações judiciais individuais junto aos Tribunais de Justiça do Trabalho (figura 56). As estratégias de exclusão continuaram a tornar o ambiente de trabalho insuportável. Porém, à diferença do ocorrido antes da nomeação do conceito, essas passaram a ser percebidas como injustiças organizacionais na percepção dos empregados.

Perseguições, retaliações e imposição de esforços físicos na prestação de serviços, após acidente de trabalho, contrariando ordens médicas, além da imposição de punições descabidas.

Processo nº 00436-2003-001-14-00-0 não ficou comprovado o fato de que o empregado tivesse sido colocado em sua cadeira no corredor da empresa para ali permanecer ociosamente deste modo, até segunda ordem.

Fonte: Anexo 4.3.

Os dados revelaram que apesar de as provas serem condições sine qua non à comprovação da hipótese do dano em função do assédio moral, considerando que o nível da robustez do conceito assédio moral ainda não favorece o testemunho de pessoas, nem sempre estas são possíveis. Especialmente, provas orais concretizadas por meio de testemunhos. O medo do desemprego as silencia. Além disso, a ofensa moral é uma questão subjetiva.

A testemunha disse que foi desencorajada pela supervisora de tomar qualquer atitude....a empregada não pode contar com respaldo algum da empresa

Processonº 00967-2003-13-4-00-3

As testemunhas do empregador e das vítimas tiveram percepções distintas quanto aos objetos das denúncias públicas. As primeiras perceberam o assédio moral como injustiça organizacional. Daí a coragem da contribuição para a comprovação do assédio.

A recorrente sofria pressões diárias para a realização da venda de produtos do grupo econômico Bradesco.

Processo nº 1301-2003-011-3-00-0

A testemunha afirma que a cobrança era monstro... várias pessoas foram despedidas porque não atingiam metas...eram metas muito altas... pessoas chorando.. nas reuniões era dito que o Banco não tinha interesse em empregados que não alcançassem a meta...a reação dos empregados era de medo de serem mandados embora...havia um clima de terror...

Processo nº 01301-2003-011-3-00-0

'XUDQWHRWHPSRHPTXHIRLJHUHQWHUHFHEHX³DPHDoDV´GRGLUHWRUUHJLRQDO de ser demitido, porque não cumpriu integralmente os objetivos mensais da diretoria, em torno de 40. Processo nº 00546-2003-066-03-00-7 20 25 30 Processos Deferidos Processos Indeferidos 23 26

Fig 56

Distribuição dos processos por tipo