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A infiltração virtual de agentes pode ir de encontro com o princípio da lealdade. Esse primado assegura que o Estado não utilizará de meios enganosos para a obtenção de provas, ou seja, será orientado pelo princípio da impessoalidade e da presunção de inocência do investigado, pois o dever do Estado não é criminalizar as pessoas.

Por esse motivo, a infiltração jamais poderá interferir na atuação do investigado, isto é, o policial infiltrado deve ser cuidadoso a fim de que não provoque ou instigue uma conduta delituosa por parte do investigado, pois, se assim o fizer, o flagrante e as provas obtidas serão considerados ilícitos.

Nesse sentido, segundo Mariana Fioravante (2021), o agente provocador será aquele que de alguma forma induz ou instiga o investigado a praticar um delito, com a finalidade de fazer a prisão em flagrante e obter provas. Entretanto, essa ação viola o direito fundamental de não se autoincriminar e o da ampla defesa e, por isso, é proibida pela legislação, acarretando a ilicitude do flagrante e da prova obtida.

Como pode-se observar na seguinte Ementa do Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3), referente à Operação “Darknet”, em que o Tribunal decidiu que não restou configurado o flagrante preparado, haja vista que o investigado não foi induzido:

RECURSO EM SENTIDO ESTRITO. PORNOGRAFIA INFANTIL. ART.

241-A e ART. 241-B DA LEI Nº 8.069/90. RECEBIMENTO DA DENÚNCIA. OPERAÇÃO DARKNET. FLAGRANTE PREPARADO.

AUSÊNCIA. NÃO CONFIGURAÇÃO DE CRIME IMPOSSÍVEL.

RECURSO PROVIDO. [...] Após autorização judicial para infiltração de agentes e criação do fórum "Forpedo Brasil" na "DeepWeb", o acusado foi identificado como sendo um dos usuários que compartilhou material pedófilo no referido ambiente, o que culminou com o seu rastreamento e cumprimento de mandado de busca e apreensão em sua residência. 2. Ausência do flagrante preparado ou provocado, eis que nenhum dos usuários foi induzido a praticar crimes pelos policiais infiltrados. Não houve convite ou qualquer outra forma de instigação, nem se fez nascer a intenção da prática dos delitos. Houve, sim, a criação de um fórum onde havia uma espécie de cadastro prévio, etapa que permitia a identificação dos IP's dos usuários, ante a dificuldade de rastreamento ao se utilizar a "DeepWeb"

através do programa TOR. Constatada atividade suspeita pelo usuário, com a publicação de material que denotasse a prática de crimes, o IP era rastreado e a investigação prosseguia com o objetivo de averiguar elementos de autoria e materialidade. Os crimes foram efetivamente consumados, com o compartilhamento de material de cunho pedófilo, para só após se dar o rastreamento e a identificação dos IP's. Os agentes policiais não fomentaram nem impediram a prática dos crimes, daí não se pode falar em crime impossível. A hipótese amolda-se ao que se entende pelo flagrante esperado, válido e aceito em nosso ordenamento jurídico.

[...] (TRF-3 - RSE: 00131528920144036181 SP, Relator:

DESEMBARGADOR FEDERAL JOSÉ LUNARDELLI, Data de Julgamento: 11/12/2018, DÉCIMA PRIMEIRA TURMA, Data de Publicação: e-DJF3 Judicial 1 DATA:07/01/2019) (grifo nosso)

Como é visto, a infiltração policial realizada na operação supracitada não restou eivada de nenhum vício, tendo em vista que os policiais não induziram o suspeito a praticar os crimes contra a dignidade sexual infanto-juvenil, pelo contrário, o acusado disponibilizou material pornográfico de forma voluntária.

Dessa forma, é entendido que quando há ausência de vontade livre e espontânea do acusado faz com que o crime praticado seja considerado crime impossível, devido à ineficácia absoluta do meio empregado, disposto no art. 17, do CP, o qual tornará a conduta atípica.

(ALMEIDA, 2019). Nesse sentido, destaca-se a Súmula nº 145 do Supremo Tribunal Federal, a qual dispõe que “Não há crime, quando a preparação do flagrante pela polícia torna impossível a sua consumação.”.

Entretanto, a despeito de o flagrante provocado ser considerado ilícito, o flagrante esperado é admitido e, portanto, é necessário fazer essa comparação entre os dois institutos.

Analisa-se o julgado do TRF-4, quanto à diferenciação entre flagrante preparado e flagrante esperado.

[...] 7. Não se verifica a ocorrência do flagrante preparado e tampouco ilicitude da prova, porquanto a atuação do agente da Polícia Federal como infiltrado no programa Gigatribe foi autorizado judicialmente e atendeu todas as recomendações e limites de investigação no sentido de apenas obter registros sobre usuários do aplicativo que compartilhavam entre si, material de pedofilia-pornográfica no ambiente virtual. 8. No caso, os crimes já estavam sendo cometidos e o aguardo e a espera do fornecimento da senha, apenas foi para confirmar a atuação delitiva. E assim que tal foi realizado, permitiu-se com maior clareza e certeza flagrar que o usuário J. M.

compartilhava material nefasto envolvendo crianças e adolescentes pelo aplicativo Gigatribe. Trata-se, pois de flagrante esperado, já que a polícia tinha notícias de que infrações penais estavam sendo cometidas por inúmeros agentes pela aludida rede social fechada e aguardava o momento da consumação das condutas para de executar as devidas medidas constritivas penais [...] (TRF4, ACR 5068165-51.2013.4.04.7100, SÉTIMA TURMA, Relatora SALISE MONTEIRO SANCHOTENE, juntado aos autos em 20/03/2019) (grifo nosso)

Assim, diferentemente do flagrante provocado, em que o agente induz o investigado à prática do ilícito, o flagrante esperado ocorre quando a polícia espera o melhor momento para capturar o acusado, isto é, o policial toma conhecimento prévio acerca de um crime que está sendo praticado ou irá se consumar e adota providências para prendê-lo em flagrante em um melhor momento. Não há, portanto, por parte do agente policial qualquer induzimento ou instigação, mas tão somente à espera do melhor momento para efetuar a prisão em flagrante.

(MARCÃO, 2021)

Na infiltração virtual, o flagrante esperado pode ser realizado, por exemplo, em uma situação em que o policial infiltrado obtém materiais do investigado, como fotos e vídeos, por

meio virtual, e descobre que ele o armazena e, após a descoberta, a equipe efetua o flagrante após tomar as devidas providências. Nesse caso, o agente infiltrado somente cumpriu com a sua função de descobrir as condutas do investigado, sem induzir o investigado. Esse flagrante é legal, segundo a jurisprudência e a doutrina. (CABETTE, 2017).

Ingrid Silva (2017), citando Renato Brasileiro de Lima, ensina que o agente provocador dispõe de algumas características.

Em síntese, como observa a doutrina, caracteriza-se, o agente provocador, pela presença dos seguintes elementos: a) efetiva incitação por parte do agente provocador determinando a vontade delituosa do indivíduo provocado (elemento objetivo); b) vontade de determinar a prática de um crime para possibilitar a punição de seu autor (elemento subjetivo); c) adoção de medidas de precaução para evitar que o crime provocado se consume. (LIMA, 2017, apoud SILVA, 2017, p. 42).

Diante do exposto, percebe-se que o agente infiltrado deve agir com cautela durante a operação, a fim de que não induza o investigado à prática delitiva, deixando que o investigado inicie os atos preparatórios e executórios espontaneamente, para que as provas obtidas na investigação sejam válidas para o processo penal.

Vale a pena, no entanto, destacar o entendimento de José Carlos Teixeira Costa Júnior (2018), que explica que tal escusa não poderá ser utilizada quando o crime se consumar antes da instigação. Isso ocorre, por exemplo, se o policial provocar o investigado a transmitir, oferecer, divulgar materiais pornográficos envolvendo criança ou adolescente (crime do art.

241-A), ainda assim será possível o flagrante pelo crime do 241-B, que se consuma pelo simples fato de possuir esse material, pois a posse iniciou-se antes e a despeito da instigação.

Nesse sentido, a fim de valorar as provas colhidas durante a infiltração, a autoridade judicial deverá analisar o contexto em que essas provas foram adquiridas, conforme ensina Ingrid Silva: “na valoração das provas, a autoridade judicial deve analisar em quais contextos as provas foram colhidas, a fim de que os prejuízos ocasionados pela ponderação dos princípios sejam menores que os benefícios.” (SILVA, 2017, p. 74)

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente trabalho teve como objetivo precípuo a análise da validade das provas colhidas durante o método de investigação conhecido como infiltração policial, nos crimes cometidos no ambiente cibernético. Para tanto, buscamos inicialmente trazer um estudo do que são os crimes virtuais e sua classificação, trazendo como possível solução de investigação, a infiltração policial virtual.

A partir dessa apresentação inicial, passamos à análise da técnica de investigação em si, tratando do seu conceito, de suas características, de seu funcionamento, finalidade. A partir desse estudo, percebemos que a infiltração virtual de agentes possui características de subsidiariedade e excepcionalidade, ou seja, são utilizadas somente utilizada em ultima ratio, isto é, como último recurso.

Dessa forma, percebemos que essa investigação é bastante invasiva e afronta alguns direitos fundamentais do acusado, em especial os direitos à privacidade, intimidade e o direito à não autoincriminação. Entretanto, apesar de muita discussão acerca da ilegitimidade dessa técnica de investigação, foi visto que a criminalidade virtual está cada vez mais forte e evoluída, gerando a necessidade de ações efetivas por parte do Estado para o seu combate.

Diante disso, a legislação brasileira, dispôs expressamente a possibilidade de infiltração de agentes virtuais para a obtenção de provas no combate a determinados crimes, legitimando a atuação dos policiais, ainda que relativizando direitos fundamentais dos investigados.

Entretanto, concluímos esse estudo, considerando ser legítima e necessária a infiltração policial virtual para a investigação de determinados crimes, principalmente porque o ambiente cibernético além de afetar bens jurídicos deveras caros para a sociedade, como por exemplo, a dignidade sexual de crianças e adolescentes, possui mecanismos que dificultam a investigação nesses espaços, como por exemplo a utilização de criptografia, sensação de impunidade e anonimato.

Nesse sentido, entendemos que a infiltração deve ser realizada e as provas colhidas através dela serão válidas. No entanto, deve-se seguir as normas, a fim de não tornar a medida, e consequentemente as provas, ilícitas. Para tanto, a infiltração deve ser baseada na proporcionalidade, isto é, tendo em vista que os direitos do investigado serão relativizados, deve haver uma ponderação de direitos para não prejudicar a investigação.

Dessa forma, inicialmente a infiltração deve ser utilizada somente quando não houver outro meio menos invasivo para a obtenção das provas, devendo obrigatoriamente ser precedida de autorização judicial, ter indícios veementes de materialidade, individualizar os sujeitos

investigados (ainda que por um perfil ou nickname), ter prazo determinado, documentar tudo que for realizado durante o procedimento e, principalmente, não induzir ou instigar o investigado a praticar crimes, isto é, atuar de forma cuidadosa para não interferir na vontade do investigado, pois, se assim o fizer, o flagrante e as provas colhidas serão consideradas ilícitas.

Cabe ressaltar que a infiltração policial no ambiente digital é, de certa forma, nova no ordenamento jurídico brasileiro. Isso porque, foi introduzida expressamente pela primeira vez no ano de 2017, possibilitando a utilização dessa técnica somente para crimes específicos contra a dignidade sexual de crianças e adolescentes. Após, em 2019, passou-se a prever a infiltração virtual também na Lei de Organizações Criminosas. Dessa forma, ainda é cedo para avaliar se é uma técnica efetiva no combate aos crimes cibernéticos, porém, é um método de investigação que está sendo bastante utilizado frente à criminalidade cibernética e, como vimos pelas jurisprudências apresentadas, seguindo as regras estabelecidas pela lei, as provas serão válidas no processo penal e consequentemente, a infiltração terá sido efetiva.

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