PARTE I ENQUADRAMENTO TEÓRICO
4. FLAUTA DE BISEL NA EDUCAÇÃO MUSICAL
Para Gordon, o objetivo das aulas de educação musical para crianças na primeira infância é ajudar os pais e profissionais do ensino pré-escolar a reconhecer a importância da música nas primeiras fases da infância, a descobrir como as crianças muito pequenas aprendem a compreender a música, a proporcionar oportunidades para as orientar na aprendizagem da música e a estabelecer a forma de melhor lhes ensinar música.
A intenção não é a de preparar as crianças para virem a ser músicos profissionais ou que pais e professores identifiquem e fomentem génios musicais. Pretende-se, isso sim, explicar- lhes como poderão guiar informalmente as crianças para uma compreensão da música, à semelhança do que terão já feito em relação à compreensão da linguagem falada.
Gordon (2000) defende que, tal como a generalidade das crianças revela aptidão para aprender a falar, também possui a mesma aptidão para aprender a linguagem musical. Tudo depende do estímulo que lhe é dado. A música não é uma aptidão especial concedida a um pequeno número de pessoas e todo o ser humano tem algum potencial para entender música.
Em suma:
Podemos verificar que não existe uma metodologia única para o ensino e aprendizagem da música; cada professor deverá construir a sua própria metodologia dependendo dos alunos com quem está a trabalhar, adaptando e desenvolvendo a prática da música em termos da improvisação e da audição musical ativa e criativa.
4. FLAUTA DE BISEL NA EDUCAÇÃO MUSICAL
Na cultura musical europeia, o instrumento que mais se aproxima dos modelos primitivos é a flauta de bisel. Era já conhecida na Idade Média, mas adquiriu a forma definitiva no século XVI (Allorto, 1992).
Segundo Candé (1980), as flautas são os instrumentos mais antigos que se conhece. Henrique (1994) refere que, na Renascença, a flauta de bisel foi criada mais como instrumento de conjunto do que solista. Tocava-se geralmente na igreja e sabe-se que, durante o século XVI, os executantes atingiram um elevado grau técnico, sobretudo em Veneza. Ainda segundo este autor, a flauta de bisel terá aparecido, provavelmente, no século XII,
desenvolvendo-se sucessivamente a partir de instrumentos populares que tinham já embocadura de apito.
A partir da segunda metade do século XVIII dá-se a decadência da flauta de bisel e esta “cai totalmente em desuso, ganhando paralelamente em popularidade a flauta transversa”. Mais tarde, no fim do século XIX, surge novamente a flauta de bisel “a partir do trabalho e pesquisa de Joseph Cox Bridge, Christofer Welch, F. W. Galpin e Arnold Dolmetsch. Assim, em 1919 Dolmetsch faz a sua primeira flauta de bisel, dando início a uma nova era de produção que veio a atingir enormes dimensões” (Henrique, 1994:260).
Segundo Brito (1994), entre os finais do século XVIII e a primeira metade do Século XIX, deu-se um desenvolvimento importante na construção de instrumentos de sopro da família das madeiras. Conforme refere este autor, a flauta é o instrumento que mais se estudava na época. Ernesto Frederico Haupt, especialista alemão em boquilhas, esteve nesta época em Lisboa e fabricou várias flautas. O fabricante Manuel António da Silva foi o português que atingiu maior nível na construção deste instrumento, sendo a flauta, bem como os restantes instrumentos de sopro por si construídos considerados de grande qualidade na Exposição Industrial de 1849.
Relativamente ao sistema de ensino nas escolas portuguesas de ensino geral de 2º e 3º ciclo de ensino básico, é possível corroborar que a flauta de bisel é o instrumento mais utilizado, embora se constate que os alunos nas aulas de educação musical têm, normalmente, acesso a todo um conjunto de instrumentos Orff, idealizados a partir instrumentos de percussão e adaptados às crianças.
Henrique (1994) refere ainda que a introdução nas escolas da flauta de bisel permitiu uma prática instrumental elementar e uma boa iniciação para os alunos que praticarem um instrumento de madeira.
Segundo Willems (1974), é bom para a educação musical da criança que ela pratique, em dado momento, um instrumento, por exemplo a flauta de bisel, pois a técnica instrumental, feita num sentido musical e vivo, pode ser uma fonte de prazer. Desta forma, a prática instrumental incutirá nos alunos uma real motivação mesmo na aprendizagem dos exercícios mais simples.
Frega (1997) relata que a flauta de bisel, pelas suas características materiais e acústicas, tem sido bastante utilizada em métodos de introdução à leitura e grafia musical.
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Para além de ser tecnicamente fácil de executar, a flauta de bisel é um instrumento que possui alguns modelos de fácil manutenção para estudantes, acessíveis financeiramente, podendo ser adquiridos por projetos ou escolas que disponham de escassos recursos financeiros, o que permite que o aluno possua o instrumento desde o início da aprendizagem; pode ser facilmente utilizada juntamente com outros instrumentos, favorecendo a integração discente através da formação de conjuntos musicais, além de permitir o trabalho com diferentes registos sonoros.
Possui também a particularidade de ser fácil de transportar, o que dá possibilidades aos alunos de, para além de utilizarem nas aulas de educação musical, a poder levar para estudar em casa. Desta forma, pode afirmar-se que, dadas as suas características, a flauta de bisel terá algumas vantagens em relação a outros instrumentos musicais na educação musical do ensino básico.
Assim, a flauta de bisel foi introduzida nas escolas do 1º Ciclo estimulando a aprendizagem da prática instrumental. Alguns alunos aprendem a tocar flauta e, depois de ganharem gosto pela sua prática, passam para outro instrumento musical como o piano, violino, etc. Podemos, assim, dizer que a flauta de bisel pode servir como motivação na aprendizagem de outro instrumento musical.
Desta forma, o professor tem um papel fundamental na aprendizagem musical dos alunos, este deverá ser o mentor, pois é ele que os educa como músicos reflexivos, que coloca desafios na sua aprendizagem e influencia o seu pensamento musical (Elliot, 1998).
Segundo Monteiro (2011), a educação musical – a aprendizagem e o ensino da música – é indissociável da prática musical: um dos objetivos ou, quando muito, uma das estratégias utilizadas é a prática musical – executar, interpretar uma música.
Beineke (1997) afirma que o trabalho com a flauta de bisel tem objetivos profundos, ou seja, o de envolver o aluno musicalmente, despertando o interesse e a motivação pelo ouvir, aprender e praticar a flauta de bisel.
Desta forma, os alunos desenvolvem assim o conhecimento musical, tendo como possibilidade trabalhar todos os conceitos da música, tais como, o timbre, a altura, o ritmo, a dinâmica e a forma.
Willems (1974) refere que é importante que o professor possa distinguir os valores musicais dos valores instrumentais, embora os dois se interliguem na prática.
Segundo Gordon (2000), a aprendizagem musical deve iniciar-se proporcionando-se a exposição ao som e só depois se deve passar à expressão gráfica.
“Portanto, não deve confundir-se a educação instrumental com
a educação musical, mas é preciso compreender os elos pelos quais se pode unir estas duas disciplinas. Ora, para chegar a um ensino homogéneo, é necessário adotar princípios psicológicos que ponham no seu lugar respetivo a música e a técnica instrumental” (Edgar Willems,
1970:158).
Assim, nas atividades em grupo com a flauta de bisel deve deixar-se fluir a capacidade musical do aluno, pois desta forma os alunos sentir-se-ão motivados e com um objetivo em comum, o de realizarem a atividade instrumental com dedicação e empenho.