1.3. A EXPOSIÇÃO E SEUS DESDOBRAMENTOS
1.3.2 flor do mal
Seguindo então o guia da exposição, após os cartazes, temos o jornal contracultural Flor do Mal, do qual Duarte foi o responsável gráfico bem como editor e colaborador poético. O acesso a esse jornal na exposição se dá pelos trechos dele colocados na mesa de madeira ao centro da sala bem como por um fac-símile de
toda sua edição número 1, disponível para consulta em um discreto banco ao lado do caderno onde os visitantes deixam seus nomes após observarem a exposição.
Soube, ao entrevistar Diogo, que a presença de fac-símiles foi fruto de sua insistência perante o curador oficial que inicialmente se recusou a expor tais peças.
Diogo considerou importante a presença destas pelo fato de propiciar uma espécie de contato direto da obra de Duarte com o público visitante.
Esse periódico, lançado no ano de 1971 em colaboração com Luiz Carlos Maciel, Tite Lemos e Torquato Neto, pode ser considerado como uma das produções que inauguraram a propagação do ideário contracultural no cenário brasileiro, como podemos observar a partir dos trechos dele apresentados na exposição. Os textos de Flor do Mal passeiam por temas como vida comunitária, chegada da Nova Era, antipsiquiatria e misticismo oriental. Presentes na mesa da exposição se encontravam um texto de Duarte sobre Caetano Veloso na forma de uma carta cabalística, um relato poético de Galvão, dos Novos Baianos, sobre sua vida em comunidade, um texto sobre androgenia como condição humana transcendental e pequenos trechos falando sobre a chegada da Era de Aquário.
Estes temas estão anunciados no próprio texto moldura presente na capa deste periódico elaborada por Duarte:
Nossa capa publica a foto da menina Ninon de dez anos de idade raptada em Belfort Roxo, há algumas semanas, esta foto foi posta no lixo numa redação de jornal de um amigo da gente achou. Ninon continua desaparecida. Lá dentro nossas páginas contam qual é a transação da Era de Aquarius; Galvão, dos Novos Baianos, fala da comunidade deles; leia a carta escrita no hospício por Antonin Artaud, louco e gênio e veja Caetano, Arcanjo I, o Mago; saiba de Gil em Nova York e do rock de Alice Cooper;
conheça o André a flor de mil ce’palas e o mana’ de David Cooper, anti- psiquiatria em Londres. Isto não é um jornal para ser lido, é para ser curtido.
Este é o número 1, Rio de Janeiro, 4 de novembro de 1971.Preço: um cruzeiro. (CAPA FLOR DO MAL, 1971).
FIGURA 8 – FLOR DO MAL
Fonte: Universo 70. Disponível em: <https://goo.gl/lKOKhx>. Acesso em 12/12/2015.
Com uma linguagem visual praticamente toda elaborada a mão, conferindo caráter artesanal alternativo ao periódico, este jornal tinha como propósito fornecer um espaço onde poetas e artistas pudessem publicar suas ideias sem as limitações que se colocavam em publicações de grande circulação. Segundo Barros (2008) quem escrevia na Flor eram os próprios Tite de Lemos, Torquato Mendonça, Rogério Duarte e Luiz Carlos Maciel, assim como pessoas que eles conheciam e que eram consideradas por eles como “antenadas” com as ideias contraculturais, entre eles: Antônio Bivar, Joel Macedo, Waly Salomão, José Simão, Antônio Capinam, Célia Maria e amigos da clínica psiquiátrica que Rogério tinha conhecido quando de sua internação. Segundo Duarte,
Exatamente esse número – acho que é o primeiro – foi o mais importante.
Foi uma das minhas ações mais radicais da tal estética gráfica tropicalista, que implica num rompimento total com o chamado modernismo racionalista, com o instrumental europeu imposto a nós via Bauhaus e sobretudo escola de Ulm, cuja filial brasileira nos sabemos que é a Escola Superior de Desenho Industrial. (DUARTE apud RODRIGUES, 2005).
Acerca dessa ruptura, Rodrigues (2005) comentou que esta atitude estética por parte de Duarte, o qual tinha um profundo conhecimento das artes gráficas, não teria sido decorrente de alguma espécie de desprezo. Ela foi fruto de uma necessidade de transgredir no intuito de que a tradição suíça do design não virasse um dogma no Brasil, segundo Duarte:
minha ruptura não é de uma pessoa qualquer, é de uma pessoa que falava a mesma linguagem que eles, não era de um cara que não conhece e pensa que design é outra coisa. Era de alguém que conhecia bem a estética do design, que tinha aprendido bem naquela cartilha e que rompeu por adotar uma contemporaneidade. (DUARTE apud RODRIGUES, 2005).
As fotos presentes nos textos alocados na exposição são também elementos centrais no sentido transmitir a intenção daquilo que é dito nos textos: rapazes e moças com longos cabelos trajando roupas simples tentando levar uma vida natural em busca de paz e amor, dialogam bem com o conteúdo dos textos apresentados e se expressam como registros de que seria possível viver da forma anunciada pelas ideias contidas nos textos.
A importância da presença de Flor do Mal na exposição se dá, não somente por se relacionar a um ponto de mudança na trajetória e produção de Duarte, mas também pelo fato de que consultá-lo, em outras circunstâncias, é praticamente impossível. Tendo sido rodado em poucas tiragens é muito difícil ter contato com a
Flor do Mal, seja em via impressa ou virtual. Sua presença na exposição deu acesso a um importante momento da elaboração e apresentação do ideário contracultural no Brasil, temática esta que será mais devidamente aprofundada ao longo do terceiro capítulo.