6 ANÁLISE E DISCUSSÃO DO ESTUDO DE CASO MÚLTIPLO 7
16.2 FLUXO VERTICAL – INTERGERACIONALIDADE 177
Na família de origem judia dela, os valores em relação ao dinheiro estão fortemente ligados a dinheiro e às perdas financeiras de seu pai. O seus avós eram fugitivos de guerra muito ricos na Alemanha e perderam tudo. O seu pai também decretou falência de um negócio do ramo de vestuário. Com isso, houve inversão de poder entre o seu pai e a sua mãe, que assumiu o controle de outro comércio de roupas até seu pai morrer de câncer. Ela diz:
[...] tem uma questão de dinheiro forte na minha história, porque meu pai teve concordata quando eu era pequena ainda, tinha uns 4 anos [...] meu pai perdeu tudo que a gente tinha e alugou uma casa do mesmo tamanho que a gente tinha [...] a gente morava numa casa supergrande e tal [...] eu tinha uns 13 anos [...] meu pai faliu, de verdade [...] eu continuei estudando em escolas boas e mudou bem o nosso padrão de vida [...] meus amigos continuaram amigos com dinheiro [...] eu vivia uma situação social diferente da minha situação econômica [...] era difícil pra mim entender isso. [...] meus pais começaram a ter muita rejeição das pessoas.
Os pais discutiam entre si e foram rejeitados pela comunidade com a queda financeira, ela diz não querer o mesmo e faz questão de trabalhar muito:
[...] porque teve muita gente que começou a falar mal do meu pai porque faliu, e aí foi uma rejeição social [...] ficaram os amigos contados nos dedos. [...] o que eu
lembro mais era dos fiscais vindo em casa pegar as coisas [...]. Sempre me virei. [...] tinha que ir à luta porque meu pai e minha mãe mal conseguiam pagar as coisas deles, mas eu tive uma ótima educação, tive tudo, em casa não se economiza em nada, mesmo não tendo dinheiro [...] essa coisa da humilhação de quando ficou sem dinheiro [...] meu irmão pôs na cabeça dele que ele ia resgatar a boa imagem do nome da família, então ele falava que ele ia tomar o que fizeram com meu pai [...] hoje ele tem um banco [...] sempre trabalhei, falei: ‘ah eu não vou passar isso de novo’ [...] sempre teve a questão do dinheiro muito forte [...] me confundia muito assim, as realidades, eu lembro que eu vivia em duas, meu pai sempre dizia não pra tudo, minha mãe sempre dizia sim pra tudo [...].
A mãe de M8 assumiu o controle e o pai ficou doente crônico por dez anos:
[...] minha mãe trabalhava muito, meu pai também, e depois de um momento minha mãe começou a ganhar mais que meu pai, depois que a fábrica faliu [...]. Ela foi a luta. [...] depois meu pai foi adoecendo [...] porque a doença do meu pai durou mais de dez anos [...] era uma leucemia, não a crônica [...] minha mãe pensou em se separar [...] ‘seu pai acha que tá comigo só pra transar, ele tá enganado, não preciso de homem pra isso’ [...] ela fala que [...] parou, pensou e achou que ia trocar um defeito de um por um defeito de outro, que meu pai era um homem muito bom, então por isso que ela ia continuar com meu pai. [...] mas eu lembro deles brigando, brigavam bastante assim, meu pai chegou já bêbado em casa.
Comenta ter o jeito “leve” e divertido da mãe: “[...] sempre fui um lado [...] mais descontraído da relação, mais de levar as coisas mais leves [...]”. Diz repetir a mãe na relação:
[...] eu sempre me via como o lado leve da relação. [...] sempre fui um lado [...] mais descontraído da relação, mais de levar as coisas mais leve [...]. Essa descontração eu acho que é uma coisa que eu agregava na relação [...] eu não tenho a necessidade que ele tem de aprofundar em tudo.
Ou quando releva as coisas e pensa no lado positivo:
[...] eu olho pra ele e vejo ele com as qualidades e com os defeitos que acho que tem mais qualidade que defeito [...] ele fala às vezes uma coisa que aquilo me agride. [...] mas ele fala e depois ele muda um pouco. [...] não o teor, mas o formato sabe, de falar e [...] eu relevo, eu falo: ‘não, ele é assim’ [...] talvez eu tenha que aprender a ouvir o que ele tá dizendo. Eu falo: ‘não, ele tá falando isso’, mas não é bem assim que ele fala.
A mãe dela não tinha proximidade com o seu esposo, brigavam e discutiam muito:
[...] mas eu lembro de uma vez ele chegando bêbado em casa, porque ele dormiu no carro, sentado no carro [...] de sair talvez com outra mulher. Minha mãe falava: ‘acho que ele às vezes sai’ [...] e essa coisa da relação do negócio do dinheiro (os
dois temas de brigas entre os pais) [...] lembro da minha mãe pagando pra eu dançar
no final do ano [...] lembro que ela ia lá chorar pra negociar como que ela poderia pagar, pra gente poder continuar fazendo as coisas. Eu não lembro dela me dizer não, pras coisas [...] ‘você não vai poder dançar’ [...] no final do ano. Ela dava um jeito e a gente participava [...] depois eu vim saber que ela vendeu as joias [...] (Grifo nosso).
Incoerência: sem ter dinheiro, mantinha o seu nível social, e impermeabilidade: a
mãe não atenta ao marido.
Segundo M8, seu pai era rígido, uma pessoa bondosa com os outros e menos com os próprios filhos, e lembra que ele ficava pouco em casa, por conta do trabalho. Considerava a filha um xodó, parecida com a mãe dele, entretanto ambos disputavam, e ela reagia e fazia as coisas que queria (impermeabilidade). Ela repete a forma de trabalhar como a do pai e prefere seguir seu ponto de vista ao do marido, o qual reclama da pouca disposição dela com a vida familiar por trabalhar muito e ter pouco tempo. As suas reclamações são semelhantes às de sua mãe em relação ao seu pai.
M8 diz ter uma relação diferente com o pai após ele adoecer:
[...] meu pai era uma pessoa muito boa assim, com os idosos, eu sempre falava que ele era mais pra fora de casa do que pra dentro, ele ajudava todo mundo, mas os filhos ele não era assim e ele tinha um xodó por mim [...] o importante pra ele era só o trabalho [...] ele ficava lendo o jornal no café, aí ele perguntava assim: ‘tá tudo bem?’. Aí você começava a responder, você via que ele nem tava ouvindo mais
(desconfirmação). [...] ele brigava comigo mais do que ninguém, porque eu
respondia, eu não fazia as coisas que ele mandava eu fazer [...] eu enfrentava ele, eu não aceitava [...] e acho que ele tinha orgulho, mas eu tive que ser nas forças com meu pai [...] era alemão [...] em casa ele era bem rígido assim, mas é que ele ficava pouco em casa [...] por causa do trabalho [...] só era importante o trabalho [...]. E aí meu pai mudou naquela cirurgia, porque toda família ficou muito perto dele, os filhos, eu acho que ele não esperava, porque ele era tão general com a gente, tão distante [...] ele não esperava, ai [...] ele mudou, ele virou pai, eu falei que eu ganhei um pai depois de velha [...] ele conversava com a gente, ele de verdade se interessava pelas coisas da gente.
Ela também viveu duplas mensagens dos pais, que não concordavam entre si sobre o que ela podia ou não fazer (incoerência). No relacionamento a dois isso se repete entre ela e o marido, ela aprovando mais as coisas dos filhos e ele os limitando.
Quanto à ambiguidade, esta se repete na relação com H8. Ela diz:
[...] meu pai, que eu acho que ele é uma pessoa muito boa, mas às vezes ele é mais preocupado com os outros do que comigo, com a esposa, ele ajudava os velhinhos, ele é uma pessoa muito boa. [...] eu vejo muita honestidade, muito caráter que é uma
coisa que meu pai tinha muito parecido (com o esposo) [...] meu pai falava não, e eu fazia do mesmo jeito. [...] ele (o esposo) também é sempre não [...]. (Grifo nosso)
Acredita que o esposo tem partes boas e ruins, assim como sua mãe, que preferiu relevar o lado bom, atitude que ela repete.
Comenta que H8 procura se casar com pessoas de melhores condições econômicas que a dele:
[...] coincidentemente ou não, ele casou com duas esposas e as duas que trabalham. [...] podia ter casado com uma pessoa que não tem condição financeira [...] pra ele poder ser do jeito que ele é [...] talvez ele encontre uma esposa que faça o trabalho duro [...]. Entre aspas [...] ele pode dar pros filhos educação, as coisas que ele quer e ter a vida que ele quer porque tem alguém que ta provendo [...].
Outra dupla mensagem é passada para os filhos quando ele diz:
Não dá, porque a gente começou inclusive a brigar na frente das crianças. Uma vez a gente começou a brigar, e depois dava beijinho na frente das crianças, porque era o único jeito que a gente tinha de conversar, se não a gente ‘cala a boca’ ou a gente não tinha como conversar.(Incoerência)
Outro aspecto importante é a união fraterna:
[...] na minha casa essa coisa da falência do meu pai nos uniu muito, era nós contra o mundo [...] ainda é hoje assim, a gente é muito unido, pode tudo, desde que não mexa em nenhum de nós [...] eu sento na minha família, é só zona, é brincadeira, conversa sobre o cotidiano. Na família dele, o irmão dele sempre traz um livro, um artigo. [...] presente de aniversário, eles vão visitar um museu. [...] é um outro formato de conversa [...].
Há aceitação mútua nesse sistema.
Segundo M8, a questão de consumo já é vista na família como:
[...] eu acho que é minha personalidade. [...] minha mãe, eu acho que foi resolver as coisas. [...] não ficou parada quando faliu tudo, ela foi, construiu a casa, meu pai foi ajudando, mas ela era que tocava a família. [...] eu peguei minha vida no meu colo [...]. Cada um do seu jeito fez a mesma coisa, dos filhos, que acho que é uma traço comum, e cada um tem um desgaste forte também por causa disso”. [...] essa questão de, como chama, distúrbios de impulso? Nós todos temos. [...] transtorno, nós quatro temos. [...] o dinheiro, ele te faz passar coisas. [...] não consigo viver sem dinheiro, eu preciso do dinheiro pra poder fazer isso [...]. Pra um dia não chegarem e me tratarem como foram tratados, como a gente foi tratado. [...]
O provável padrão de interação de seus pais era inicialmente complementar rígido com submissão feminina, que se tornou depois simétrico com disputas.
Na família de origem dele, que também é da Alemanha e judia, ele é o mais novo. Os pais não se davam bem e, quando ele tinha 8 anos, se separaram, porém mantiveram uma relação de brigas e disputas, nas quais M8 se envolvia e se aliava à mãe (Lealdade familiar), formando uma triangulação com seus pais. Com a saída de casa de seu irmão, com dez anos a mais, H8 se afirmou como o apoio da mãe. Ele ouvia, desde pequeno, mensagens negativas de cada um dos pais, colocando um contra o outro, que pode ser compreendido hoje como violência psicológica da parte dos pais. Ela se queixava da ausência do marido, que era dedicado ao trabalho. O pai não cumpriu com o compromisso de sustento dos filhos, o que influenciou no relacionamento dos dois por muito tempo. A mãe dele diz que abriu mão do trabalho – era professora –, para cuidar dos filhos quando pequenos e depois no exterior como governanta: “[...] dizia: ‘eu abri mão de tudo pra ser mãe dos dois’ [...].”Houve rompimento de aproximadamente 17 anos entre H8 e o pai, algo que também foi influenciado pela própria mãe e que nos dias atuais poderia ser compreendido como alienação parental. H8 diz: “[...] a questão foi financeira (motivo da separação) [...] tinham objetivos distintos. Meu pai trabalhava muito” (e tinha pouco convívio com a família) (Grifo nosso). Esse aspecto é o mesmo que enfatiza sobre a sua esposa, que trabalha muito e diz influir na convivência com os filhos:
[...] ele trabalhava muito, aparentemente queria muito avançar, crescer [...] e ele e minha mãe tinham rusgas frequentes sobre a presença dele em casa e a família [...] eu rompi com meu pai durante vinte anos, um pouco mais. [...] nós (ele, o irmão e a
mãe) mudamos e migramos para Israel, onde nós moramos cinco anos [...] aos 17 fui
com ela. [...] que eu era pequeno, não sabia o que tava acontecendo, só via eles discutindo (o pai e a mãe). (Grifo nosso)
As disputas ocorriam na frente dos filhos: “Então eu ouvia dos dois lados quem era mais errado na relação [...] ficava de um lado pro outro, então ouvia sempre os dois lados [...] brigavam, o motivo foi o dinheiro [...] pensavam diferente [...] era sempre alguma coisa que um tava fazendo contra o outro [...]”. Houve modelos de impermeabilidade e pontuação da sequência e não lidaram com as diferenças, pois nenhum aceitava o ponto de vista do outro. O
fator financeiro também é questão que permeia a relação a dois de H8, repetindo modelos intergeracionais de ambas as famílias. Ele relata que:
[...] procurei relativizar o valor do dinheiro versus a questão da convivência [...] eu não quero sacrificar qualquer coisa pra ser um milionário [...] meu objetivo prioritário era me realizar através daquilo que eu fazia e tivesse satisfação, gosto, alegria [...] machucou, evidente, porque tinha momentos que eu olhava pros lados e via: bom, tem gente muito melhor que eu [...] me dei conta que eu tava crescendo internamente enquanto outros tavam sempre com umas questões em ter [...] (como
na relação com M8). (Grifo nossso)
H8 diz que seus pais não tinham “comunicação alguma”, e ele foi desconfirmado pelo pai:
[...] não tinha, nem um pouco [...] não tem modelo. [...] não tem uma referência, porque foi ausente. [...] (o pai dele) ia de vez em quando e aí, depois de um certo tempo, eu acabei realmente rompendo com meu pai [...] já estava distante dele, já estava mais afastado, ele não pagava estudo. [...] dizia: ‘isso é atribuição da sua mãe’ [...] fui me dando conta devagarinho, isso aconteceu antes. [...] mais ou menos uns 14, 15, essa disputa de atenção e aí eu rompi com ele [...] depois de ficar os cinco anos em Israel [...] eu comecei a pensar [...] eu procurei contato com ele, falei pra ele: ‘não fiz faculdade, não terminei o colegial, e tô fazendo madureza [...] você me ajuda?’ [...] ‘Ah, não, não dá’ [...] deu cinco minutos, tchau [...] fiquei sem falar com ele mais uns dez anos [...] e aí retomamos [...].
Ele reconhece que, na relação atual, repete os modelos de comunicação de seus pais: “[...] não se entra em acordo sobre um propósito comum. [...] cada um puxando pra um lado. P: como os pais? (ele gagueja e responde) [...] é [...] não tem conversa. P: parecido com seus pais?. H8: “Exato [...]”. Assim, as dificuldades de comunicação dos seus pais com uso de desconfirmação, desqualificações e sem encaixe de posições, se repetem no relacionamento com M8. Por outro lado, H8 faz o antimodelo de seu pai, mantendo presença com os filhos.
O provável padrão de interação de seus pais era simétrico com disputas e brigas sem encaixe de posições.