4. Apresentação e discussão dos resultados
4.2. A rede e seus fluxos
4.2.3. Fluxos de atendimento
Todas as instituições apresentaram um fluxo de atendimento muito semelhante. A forma de acesso da população aos serviços ocorre tanto por demanda espontânea, como por encaminhamento da rede – por meio de documentos oficiais que requisitam ou solicitam atuação
do serviço, seja MP, DCA, CT, CREAS e CRAS. No caso dos CREAS e CRAS, o acompanhamento familiar é iniciado por meio de visita domiciliar por equipe socioassistencial ou por meio de agendamento, via telefone, de atendimento à família no serviço; nos demais, solicita- se que a família compareça à instituição.
As pessoas que chegam diretamente ao serviço são recebidas com uma triagem, geralmente realizada pelo assistente administrativo, na qual identifica-se se a família já é acompanhada no serviço ou se é a primeira vez e, em se tratando de primeira vez, se realmente são pessoas daquele território; não sendo, a família é encaminhada para o serviço de referência correto. No CREAS, também se preenche uma ficha com dados essenciais, como endereço e telefone. Em seguida, a família é encaminhada para atendimento com equipe técnica – profissionais de nível superior ou, no caso do CT, para um Conselheiro Tutelar. No CREAS e no CRAS, esse atendimento (escuta qualificada) é realizado prioritariamente por uma dupla de profissionais, que pode ser assistente social, psicólogo ou pedagogo, de acordo com a disponibilidade. A equipe técnica avalia se o caso é perfil para acompanhamento no serviço; caso a pessoa/família não esteja na instituição adequada, ela é encaminhada para o serviço que possa atender suas necessidades. No CREAS, em se tratando de violência sexual contra crianças e adolescentes, o caso imediatamente torna-se prioridade. Se não houver equipe disponível para o acompanhamento, a família recebe os encaminhamentos iniciais e aguarda inserção no acompanhamento do CREAS, com a sinalização de urgência do caso; quando uma equipe do PAEFI desliga ou conclui um caso, aquele que está aguardando é iniciado, sendo priorizadas as urgências.
No CT, após a triagem, o Conselheiro procede à escuta com quem está realizando a notificação, que pode ser a própria criança ou adolescente vitimizado. Então, escreve-se o Termo
de Declaração, o qual relata a situação de violência. Abre-se a medida de proteção, documento físico no qual estarão as informações da criança/adolescente e sua família. Avalia-se se a criança convive com o agressor e outras necessidades para serem aplicadas medidas protetivas. Em seguida, a família é encaminhada para a DCA; a depender do Conselheiro e da disponibilidade de veículo, a família é acompanhada até a DCA. No caso da Promotoria de Justiça, o fluxo é muito semelhante, com a diferença da triagem, cujo acolhimento inicial é realizado por uma assistente social ou pela equipe da secretaria. Posteriormente, a família segue para o Promotor de Justiça realizar a escuta e aplicar medidas jurídicas necessárias. Todos os casos geram abertura de um procedimento, independentemente de se conhecer a veracidade ou não da denúncia.
O fluxo de atendimento da DCA e do ITEP/RN apesar da característica específica da polícia, não se diferenciam tanto, com exceção do ITEP/RN não receber demanda espontânea, atende apenas sob requisição policial, judicial e do MP. Na DCA, a pessoa denunciante é recebida por um agente que, já na recepção, pergunta qual a denúncia a ser realizada. Se for caso de competência de delegacia comum, explica-se imediatamente que o atendimento deve ser realizado em outra delegacia. Ressalva-se que esse tipo de abordagem na recepção, em meio a outras pessoas, pode expor os denunciantes e/ou vítimas, uma vez que não há segurança do sigilo; outras pessoas que também aguardam atendimento podem tomar conhecimento da violação alheia, o que pode causar constrangimento e revitimização das crianças, adolescentes e suas famílias.
A segurança de acolhida, garantida aos usuários das políticas sociais, trazida, por exemplo, pela PNAS, define como uma das aquisições do usuário o direito de “ser acolhido em condições de dignidade em ambiente favorecedor da expressão e do diálogo” (CNAS, 2009, p. 30). O cuidado em ouvir as pessoas de modo sigiloso é parte do processo de garantia da
confidencialidade das informações, o qual deve estar presente desde a entrada do usuário na instituição. Também se trata de um cuidado ético e do próprio processo de acolhimento, frente à violação encontrada. Melo (2014) afirma que o atendimento à criança e ao adolescente vítimas de violência sexual nos órgãos de investigação policial demanda sensibilidade dos profissionais envolvidos, e que um atendimento diferenciado “decorre muito mais da postura do profissional do que do ambiente em si” (Melo, 2014, p. 216).
Se o caso for de responsabilidade e/ou competência da DCA é, então, realizado o Boletim de Ocorrência (B.O.), no qual a denúncia é registrada. Em se tratando de casos de violência sexual, são expedidas guias de solicitação de exames ao ITEP/RN e entregues ao denunciante. Agenda-se o depoimento especial com a criança ou adolescente vitimizado na delegacia. Depois que a criança é ouvida, instala-se o inquérito policial, no qual são ouvidas outras testemunhas: familiares, pessoas da escola e amigos da criança. Podem ser realizadas outras diligências investigativas, como ida a campo. Por fim, a delegada elabora o relatório conclusivo do inquérito, o qual é encaminhado à justiça e, posteriormente ao MP, que decide se vai realizar a denúncia ao judiciário ou arquivar o caso.
O ITEP/RN, por sua vez, recebe requisições via ofício do MP, do Judiciário ou, na maior parte das vezes, os casos são encaminhados diretamente da DCA. Ao receber documentos oficiais contendo essas requisições, a equipe agenda o atendimento com os usuários. Quando o usuário se dirige diretamente ao ITEP/RN, ele procura na recepção quem o encaminhe para o setor responsável por realizar os exames solicitados. Segundo relato do profissional, nem sempre o recepcionista está na instituição. O atendimento se inicia pelos exames médicos requisitados e, posteriormente, os usuários são encaminhados para o agendamento da avaliação psicológica. Como há uma intensa demanda de avaliação psicológica, os agendamentos são marcados para
alguns meses à frente. Algumas vezes, os usuários também passam pelo atendimento com o Serviço Social, mas nem sempre. Não se identificou um protocolo que justifique essa diferença.
Por fim, vale salientar que o COMDICA não realiza atendimento ao público. Em casos excepcionais, realizam-se atendimentos e encaminhamentos necessários. A escola, em razão de sua função institucional, não possui esse fluxo de atendimento estabelecido.
4.2.4. Fluxos de encaminhamento
Todas as instituições informaram que os casos acompanhados são encaminhados dos mais diversos órgãos da rede. O recebimento de denúncias foi relatado pelo MP, CT e DCA; nos dois últimos, até mesmo do Disque 100. O CREAS afirma que recebe casos somente quando a violação de direitos já foi constatada, uma vez que não é seu papel averiguar as situações. Isto porque o CREAS não é órgão da Segurança Pública, não tem função e poder investigativo, nem de polícia. Também não é responsável por aplicar medidas protetivas, o que exige atuação dos órgãos de defesa e responsabilização – em articulação, sim, com o CREAS. É fundamental “clarificar o papel do CREAS e fortalecer sua identidade na rede” (MDS, 2011, p. 25), evitando situação de “sobreposição de ações entre serviços de naturezas e até mesmo áreas distintas da rede que, evidentemente, devem se complementar no intuito de proporcionar atenção integral às
famílias e aos indivíduos” (MDS, 2011, p. 25). Além de que o trabalho investigativo com as
famílias vai de encontro à perspectiva do acompanhamento familiar, tarefa prioritária do CREAS, na qual é necessário confiança, colaboração e vinculação da família com a equipe. Sendo tais atribuições incompatíveis, não à toa, as instituições de Segurança Pública e o CREAS são de eixos distintos do SGDCA. Nesse sentido, o MDS orienta que não cabe ao CREAS “ter seu papel institucional confundido com de outras políticas ou órgãos, e por conseguinte, as funções de sua
equipe com as de equipes interprofissionais de outros atores da rede, como, por exemplo, da segurança pública, órgão de defesa e responsabilização” (MDS, 2011, p. 25). Assim, ao CREAS compete prestar atenção e orientação direcionadas à promoção de direitos, preservação e fortalecimento de vínculos familiares, comunitários e sociais e ao fortalecimento da função protetiva das famílias, que vivenciam situações de risco e violação de direitos (CNAS, 2009). Além disso, algumas denúncias são falsas, o que gera desprendimento de trabalho desnecessário. Apesar disso, os profissionais relataram que a rede ainda encaminha, de forma equivocada, muitas denúncias ao CREAS Oeste.
Tanto o MP, como o CREAS, o CEDECA e o CRAS informaram o recebimento de casos de todas as instituições do SGDCA, e que esse recebimento tem ocorrido por meio de documentação impressa – guia de encaminhamento, no caso do CEDECA, e ofício, nos casos do MP, CREAS e CRAS –, preferencialmente com informações acerca do caso. A escola informou que, eventualmente, recebe agentes da DCA, em situação de diligência em campo, visando a colher informações sobre algum aluno, na ocasião de investigação de situações de violência. A escola informou ainda que se articula com o CT quando ciente de situação de violência sexual intrafamiliar, realizando contato prévio e encaminhando relatório situacional ao órgão.
A DCA informou as denúncias como a forma mais frequente de abertura de novos casos e, em se tratando das instituições, o MP como instituição que mais tem encaminhado casos, bem como com quem a DCA mais se articula, pela característica do serviço. Também informou receber encaminhamento do CT, Disque 100 e, na menor parte das vezes, do CREAS e serviços do sistema de saúde.
O CT informa que existe uma “cultura do Conselho Tutelar”, e que seu papel de serviço porta de entrada é bem disseminado na rede de enfrentamento e na população, embora acredite
que todos os serviços também devam ser porta de entrada, conforme relato:
Geralmente, o que se sempre é dito é que a porta de entrada é o Conselho Tutelar... Apesar de que eu discordo um pouco em relação a isso! Eu digo que a porta de entrada é toda a rede de atendimento. Não somente o Conselho Tutelar! Mas o pessoal já tem uma cultura em questão ao Conselho Tutelar. Quando uma criança ou adolescente é vítima de abuso ou exploração sexual, não cabe somente ao Conselho Tutelar. Pode ser através das unidades de saúde, das escolas, a própria Delegacia, Promotoria da Infância, né? Que podem receber esses casos. Mas, geralmente, vem pra cá. Então, há essa importância maior porque, culturalmente, o pessoal entente que o Conselho Tutelar é a porta de entrada. O primeiro procedimento, né? Então, assim, é importantíssimo! É tanto que se observa: de cada dez casos, nós recebemos, no mínimo, seis! (CT)
Concorda-se que é função de toda a rede a atuação em situações de criança e adolescente vítimas de violência sexual intrafamiliar, embora chame a atenção o Conselheiro expor com certa indignação o fato de o CT ser porta de entrada na rede e discordar “um pouco” dessa função, justificando que seria uma função de todos. Defende-se, na verdade, que uma coisa não anularia a outra, o que torna esse argumento impreciso. Chama atenção também o Conselheiro explanar com certo demérito o reconhecimento dessa função pela comunidade, de existir o que ele chamou de “cultura do CT”, na qual as pessoas, sabendo de uma situação de violação, logo procuram esse serviço. Considerando o fato de que o CT é o órgão instalado no território, “encarregado pela sociedade de zelar pelo cumprimento dos direitos da criança e do adolescente” (Art. 131, ECA, 1990), aplicando as medidas protetivas necessárias, sempre que uma criança ou adolescente tiver seus direitos ameaçados ou violados (ECA, 1990), seria esperado que os profissionais desse órgão reconhecessem o mérito da comunidade realizar as denúncias e de se dirigir ao órgão competente que deve fornecer auxílio às famílias em situação de violência. Na rede de defesa, conforme afirma Faleiros (2003, p. 77), “os conselhos tutelares são instrumentos fundamentais
para se poder zelar pelos direitos da criança. São os olhos e a potencialização da voz das próprias crianças e das denúncias para enfrentamento da trama, do drama e do trauma”.
Todas as instituições entrevistadas afirmam que existe uma articulação com os serviços da rede no que se refere ao recebimento e atendimento dos usuários encaminhados por outros serviços, embora reconheçam que há muitos desafios a serem superados, sobretudo em relação à contrarreferência. O CT considera incipiente a contrarreferência recebida, em razão da demora (algumas vezes meses ou ano), principalmente dos CREAS, apesar de compreender que se trata da intensa demanda de trabalho de cada instituição. Também pontuou a inexistência de contrarreferência da DCA nos casos de violência sexual intrafamiliar, embora tenha afirmado que compreende que são processos sigilosos. Já o CREAS enfatiza a perspectiva de trabalho articulado com a rede de enfrentamento: “A gente trabalha prioritariamente na questão da articulação em áreas que nós consideramos muito importantes. Articular com a Saúde, com a Educação, com a Segurança Pública, para acompanhamento terapêutico. Então, a gente trabalha nessa perspectiva” (CREAS).
O CT citou a DCA como principal instituição para onde as famílias são encaminhadas quando se trata de casos de violência sexual intrafamiliar. A DCA identificou o ITEP/RN, onde são realizados os exames de corpo de delito e avaliação psicológica, além do MP, instituição para onde é encaminhado o relatório conclusivo produzido pela Delegacia após a finalização da investigação; também citou como parceiros o CEDECA Casa Renascer e o Departamento de Psicologia na Universidade Potiguar (UnP) – que tem oferecido apoio à DCA, por meio da estagiária de Psicologia e o trabalho que ela tem desenvolvido na instituição. O CREAS e o CEDECA Casa Renascer não elegeram uma instituição específica para a qual realize encaminhamentos de forma mais intensa, informando a necessidade de envolvimento de todo o
SGDCA e citando esses atores.
O fluxo dentro da rede também foi um assunto bastante discutido no grupo focal, no qual os participantes puderam concluir que o desconhecimento do papel institucional de outros serviços e de suas formas de acesso gera encaminhamentos equivocados e, por consequência, entraves no fluxo, além de desgaste dos usuários. Citou-se o encaminhamento equivocado para a DCA, a qual recebe muitos casos de competência das delegacias comuns, além da confusão em relação a maus-tratos e negligência. O profissional explicou que apenas no primeiro caso a competência é da DCA, mas que tem recebido muitos casos de negligência contra criança e adolescente e isso produz um volume grande de processos na DCA. Também citou o encaminhamento de usuários diretamente ao ITEP/RN e a necessidade de toda a rede conhecer que o fluxo não acontece dessa forma. O CEDECA pontuou que há uma confusão em relação ao seu papel e explicou que atende apenas casos emblemáticos, que são os mais complexos, quando a rede já não consegue mais dar conta. Apesar disso, informou o corrente encaminhamento pelo CT de casos que não são demandas do CEDECA.
Os participantes do grupo também pontuaram a necessidade de mapeamento da rede e de esse mapeamento ser de conhecimento de todas as instituições, visando a facilitar a visualização das instituições, a própria comunicação entre serviços, e efetivar o fluxo da rede de enfrentamento. Vale salientar que a proposta inicial do grupo foi a construção coletiva do fluxo do território e, embora tenha sido pensada, a ausência de representantes prejudicou a sua conclusão.
4.3. Práticas identificadas
enfrentamento da violência sexual intrafamiliar contra crianças e adolescentes, que estão organizadas nos três eixos do SGDCA. No Apêndice G, há a tabela de práticas realizadas nas instituições investigadas.
4.3.1. Eixo defesa
Neste eixo, destaca-se a responsabilização do agressor e a aplicação de medidas protetivas para as crianças e os adolescentes vitimizados. Essas duas ações foram bastante relatadas, tanto entre as instituições que compõem a defesa, como pelos serviços dos outros eixos do SGDCA. O MP e a DCA afirmam que a responsabilização do agressor e encaminhamentos da vítima para a rede de proteção são suas principais atribuições no enfrentamento do abuso sexual contra crianças e adolescentes. Ao ITEP/RN, a responsabilidade é acerca do processo de investigação, com os exames periciais. Segundo Faleiros (2003, p. 76), “a responsabilização é o processo legal de notificação, de investigação, de denúncia pública, de processo jurídico, de sanção e de penalização (condenação) do abusador. Ela se focaliza no abusador e na sua responsabilização social e legal pela transgressão efetivada”.
A responsabilização está fundamentada na CF, a qual determina, em seu Artigo 227, § 4o que “a lei punirá severamente o abuso, a violência e a exploração sexual da criança e do adolescente”. Entretanto, observa-se que essa responsabilização não tem sido um processo fácil. Inúmeros são os desafios existentes para conclusão deste processo, dos quais podem-se destacar a obtenção de provas, considerando que muitas vezes a situação de violência sexual intrafamiliar não deixa marcas e dificilmente envolve um flagrante, e a morosidade do sistema policial e judiciário. Nesse sentido, o MP afirma que a o afastamento do agressor, por exemplo, é uma medida muito complexa, que necessita de indícios de autoria e materialidade, mas que esbarra
nas dificuldades de obtenção de prova, sendo possível aplicá-la: “Quando a gente tem indicio de autoria e materialidade, elementos de autoria e materialidade bastante fortes, que indicam a necessidade desse afastamento [do agressor] como elemento de proteção a família e a vítima principalmente” (MP). Assim, o afastamento do lar ou uma prisão preventiva do agressor é algo que na maioria das vezes não é realizado de imediato, a não ser que esteja diante de um flagrante ou com provas evidentes. A discussão do tempo para o afastamento do agressor é importante, pois sem o afastamento imediato, quem acaba sendo afastada é a criança – o que incorre em uma revitimização. Sobre esse afastamento:
É raro, porque há casos também de denúncia de abuso sexual e que não procede. Eles [polícia] têm que fazer toda a investigação. Quando é um caso escabroso, de flagrante, como foi o segundo caso – que eu não sei como foi se filmaram, se bateram foto, alguma coisa assim –, que, quando chegou lá, aí, realmente viram que contra fatos não existe argumentos, né? Entendeu? Então, foi retirado ele de imediato, foi preso e tudo por causa do abuso, porque foi um flagrante. Mas quando não sai o flagrante, não tem como. Aí, é aberto um inquérito; aí, é encaminhado para investigação, para a Vara da Infância, tudo isso. E enquanto isso, a vítima não pode ficar em casa, não pode ficar no mesmo teto do agressor. (CT)
O que se observa no presente relato é certa inversão em relação à pessoa afastada do ambiente familiar: a criança ou adolescente vitimizado recebe como “medida de proteção” o acolhimento institucional ou em família extensa, enquanto o agressor não é retirado do ambiente até que se tenham elementos para que ele seja acusado. Isto reforça o histórico de como o acolhimento de crianças e adolescentes no país esteve relacionado à culpabilização e revitimização das crianças e suas famílias (Pinheiro, 2006). Além da sobreposição do direito do adulto em detrimento do da criança, contrariando o princípio do melhor interesse da criança e da prioridade absoluta, determinado pelo Estatuto da Criança e Adolescente.
para a vítima, no sentido de ela saber que sua denúncia e todo processo ao qual foi submetida não foi em vão e que o violador foi penalizado. Quando isso não acontece, a rede identifica o sentimento, pelas pessoas vitimizadas, de impunidade em relação ao agressor. “Porque não é um crime qualquer. É um crime que a responsabilização do agressor faz parte do processo de recuperação da vítima, ela saber que de alguma forma ele será punido” (DCA).
Melo (2014) afirma que a responsabilização é imprescindível, pois tem esse caráter retributivo. Além disso, a responsabilização do agressor não se trata meramente de sua penalização, mas também do seu tratamento, assumindo caráter também preventivo. Por isso, é importante o acompanhamento não só da vítima e família, mas também do violador. Infelizmente, nesta pesquisa, não foi possível identificar qualquer atividade nas instituições investigadas, destinada a esse fim; ao contrário, durante toda a pesquisa a responsabilização do agressor foi mencionada pelos atores da rede como sinônimo de sua penalização. É necessário superar a perspectiva de responsabilização como mera penalização, tal atitude ampliaria o trabalho preventivo realizado na rede a partir do alcance junto aos agressores. Faleiros (2003) afirma que é praticamente inexistente no país o atendimento e o tratamento do abusador. Muitos, na prisão, são submetidos a sevícias e ao sair voltam a cometer os mesmos crimes.