Capítulo 3: Linguagem digital
3.2. Focalizando o hibridismo
Computadores são máquinas especiais porque, antes de mais nada, são máquinas de linguagem. O problema (ou solução) mais básico(a) da interação homem-computador é a necessidade do homem expressar conceitos, relações e atos culturalmente codificados em sua linguagem natural em termos de uma linguagem artificial baseada, em última instância, em dígitos binários mutuamente excludentes (1/0, Verdadeiro/Falso, ligado/desligado, etc.). Na prática, isto é possível por meio de uma cadeia de traduções realizadas por programas interpretadores e compiladores criados especificamente pare este fim, e que funcionam independentemente da atenção do usuário. Por exemplo, quando se digita a palavra "copy" em um teclado de computador, está-se ao mesmo tempo acionando uma tabela de correspondências (algo como uma Pedra de Roseta virtual) embutida nesses diversos programas, através dos quais o computador converte cada um dos caracteres digitados (c, o, p, y) em um número inteiro de base hexadecimal (63, 6F, 70, 79) e, finalmente, em um número binário (1100011, 1101111, 1110000, 1111001) que o processador interpreta na forma de impulsos elétricos, isto é, associando o dígito "1" à passagem de corrente elétrica e o dígito "0" à sua ausência. É a essa representação "elétrica" (traduzível em dígitos binários) de signos culturais que, a rigor, se refere literalmente o termo "linguagem digital", embora a expressão abranja, nos Estudos da
A evolução das diversas linguagens de programação, isto é, códigos que permitem a representação elétrica de signos (verbais, visuais, etc.) complexos, utilizadas hoje pode ser descrita como uma apropriação cada vez mais sofisticada e rigorosamente protocolada da lógica artistotélica, assim como da sintaxe e do léxico das línguas naturais escritas, sobretudo do inglês, para a manipulação das capacidades de processamento do computador por meio de cadeias de "tradução", isto é, programas compiladores e interpretadores, que transformam instruções interpretáveis por seres humanos (programadores e usuários) em comandos interpretáveis pelos processadores. Falar de signos interpretáveis por seres humanos é, obviamente, falar também de imagens e gestos e, por essa razão, um dos desenvolvimentos mais significativos na história recente da interação homem-computador foi a incorporação de metáforas visuais (na forma de ícones e “janelas”) às interfaces de usuário e aos ambientes de programação, bem como o desenvolvimento de artefatos táteis de manipulação da interface tais como o mouse, a caneta óptica, os diversos tipos de joy-sticks, luvas e capacetes utilizados em aplicações de Realidade Virtual, etc..
Na linha de frente desses desenvolvimentos da interação homem-computador estão hoje as pesquisas em inteligência artificial, particularmente as relacionadas à síntese de voz e ao de Processamento de Linguagem Natural, que, eventualmente, levarão à possibilidade de se utilizar ou programar um computador por meio da fala, ou alguma forma de fala muito próxima da natural. Sejam quais forem esses desenvolvimentos, entretanto, todos estarão, a médio prazo, no mínimo, ligados a programas compiladores e interpretadores elaborados predominantemente em linguagens de programação baseadas em notações escritas de línguas naturais, que , ao final do processo, continuarão a representar matematicamente, e depois eletricamente, o que o usuário diz ou faz.
Temos então que na linguagem das TIC viceja e se amplia continuamente um plurilingüismo análogo àquele já apontado por Bakhtin (1988) como sendo constitutivo da linguagem natural. Aqui também estamos diante de uma linguagem que é um sistema de linguagens, de signos que se prestam simultaneamente à expressão de mais do que uma consciência (do usuário, do designer, e do programador, mas também do processador, do programa de navegação, do servidor de rede, etc.). Assim como no caso da linguagem natural, pode-se postular a existência de um sistema abstrato e internamente coerente de formas e regras para a linguagem digital, mas
não se deve confundir esse sistema como “a linguagem”, senão como força criadora de uma linguagem híbrida e heteroglóssica, que se diversifica constantemente. Sobre cada enunciação desse sistema lógico-elétrico-matemático incidem linguagens, intenções e discursos diversos, numa rede que estabelece pontes entre interlocutores e objetos já também saturados de linguagem.
O que pretendo com este breve preâmbulo sobre o funcionamento interno dos computadores é introduzir a característica principal da noção de linguagem digital sobre a qual creio que devamos pensar na relação entre inclusão e linguagem: o seu hibridismo. Assim procedo porque, como mostrarei mais adiante, muitos dos autores que trabalham no desenvolvimento dessa noção, ainda hoje, tendem a pensar na linguagem digital em termos de rupturas: entre o digital e o impresso, a linguagem natural e as linguagens artificiais, a imagem e o verbal, o técnico e cultural, e assim por diante. A partir da constatação de que a linguagem digital, no sentido estrito, é, em última análise, uma das pontas de uma grande cadeia de traduções, compilações e apropriações de diferentes sistemas de representação cultural feitas por engenheiros e programadores, estamos certamente mais aptos a abordá-la, agora em sentido mais amplo, não como uma ruptura, mas como um processo de convergência e hibridização.
Tomemos como exemplo o caso da linguagem natural. É sabido que no desenvolvimento histórico das formas de interação humano-computador, a sintaxe e o léxico do inglês foram refuncionalizados e hibridizados com a lógica da representação elétrica do processador, expressa matematicamente, para gerar linguagens de programação que já não são nem código binário nem língua natural, mas formas híbridas com as quais ambos (humano e computador) podem lidar de forma ágil. Ao mesmo tempo, estamos presenciando movimentos no sentido contrário, isto é, penetrações de elementos típicos dessas linguagens artificiais em nossos usos quotidianos da escrita em linguagem natural (CRYSTAL, 2001) e interferências da lógica de organização e manipulação da informação do computador em nossos artefatos e práticas culturais de leitura e escrita (jornais segmentados em cadernos "navegáveis", revistas cujo layout incorpora convenções de páginas da WWW, o "bloguês"26 nas legendas de filmes transmitidos pela TV a cabo, etc.). O que acontece com a imagem é análogo. Por um lado, as interfaces de computação
se apropriam das "gramáticas" da imagem estática (ícones, metáforas visuais, perspectiva linear, etc.) e do cinema (enquadramento em "janelas", montagem, edição, etc.) para que o usuário não precise digitar comandos escritos, e, por outro, são incorporadas por práticas culturais ligadas à imagem que existiam muito antes do computador (fotocomposição digital, cinema de animação digital, design auxiliado por computador, etc.).
Conceber a linguagem digital a partir do hibridismo é, então, vantajoso em pelo menos três sentidos. Primeiro, no sentido de que essa abordagem é congruente com a caracterização da relação entre tecnologia, sociedade e cultura postulada no Capítulo 2. Segundo, no sentido de que se colabora dessa forma para a renovação transdisciplinar das concepções de linguagem e letramento reivindicadas por diversos autores contemporâneos. Terceiro, no sentido de que, tomando-se como axioma a existência de homologias entre linguagem e sociedade, i.e. a asserção de que formas simbólicas, mediadas por tecnologias ou não, carregam traços, de diferentes maneiras, das condições sociais de sua produção (THOMPSON, 1995), conceber a linguagem digital como uma rede de conexões entre diferentes sistemas (técnicos, semióticos, lógicos) que se hibridizam é uma forma interessante de compreender o próprio contexto sócio- histórico da inclusão digital.
Não estou negando que as diferenças entre oral e escrito, ou entre impresso e digital existam, ou mesmo sugerindo que todas as análises centradas na explicitação dessas diferenças sejam desprovidas de valor. Muito ao contrário, creio que é normalmente pela via do contraste que se pode melhor perceber onde estão as convergências e as apropriações mútuas. Contudo, até onde possamos crer em homologias, o potencial inclusivo/exclusivo da linguagem digital não está naquilo que a afasta ou aproxima do impresso ou do natural, do verbal ou do visual, mas nas maneiras como faz integrarem-se ou agenciarem-se mutuamente esses códigos, modalidades, tecnologias e usos de linguagem.
Tomemos, como uma pequena provocação para uma análise mais aprofundada que apresentarei no Capítulo 4, o caso do bloguês, essa forma de escrita criada por pessoas que têm o hábito de publicar diários pessoais na rede ou interagir por meio de programas de mensagens instantâneas. Numa rápida visita a um desses blogs da WWW, encontrei um glossário elaborado coletivamente por blogueiros que se conheciam mutuamente e resolveram oferecer ao não-
iniciado, como eu, uma pequena porta de entrada para a sua comunidade de prática. Alguns dos itens constantes do glossário eram:
(1) :-@ = "grito" (2) }{ = "face a face" (3) d+ = "demais" (4) 9dades = "novidades" (5) blz = "beleza" (6) abs = "abraços" (7) naum = "não" (8) eh = é
Quadro 1 - Alguns itens de um glossário de bloguês disponível na WWW
Não pretendo discutir aqui a gramática do bloguês, nem as implicações do seu uso por adolescentes em relação ao seu domínio da língua padrão, ou execução de tarefas escolares, coisas que certamente são interessantes, mas não pertinentes para meu argumento. O que gostaria de mostrar com essa lista é que o bloguês, assim como as linguagens internas do computador, é basicamente desenvolvido a partir de hibridizações e refuncionalizações envolvendo escrita, oralidade, representação visual e elementos de linguagens técnicas/artificiais de computador. Pictogramas como (1) e (2) são conseguidos pela refuncionalização de sinais diacríticos da escrita impressa que servem para recuperar elementos paralingüísticos da fala (volume da voz, proximidade dos interlocutores, etc.). Rébus como (3) e (4) utilizam notações matemáticas para recuperar imagens acústicas que, combinadas com outras, formam cadeias fonêmicas interpretáveis como palavras. A omissão de vogais como em (5) e (6), uma estratégia empregada também em certas escritas de línguas naturais como o hebraico clássico (embora por motivos totalmente diferentes), aumenta a velocidade e diminui o esforço da digitação permitindo aos interlocutores que emulem a agilidade típica da interação oral ao mesmo tempo em que outras palavras, como (7) e (8), formam-se pela substituição de diacríticos por vogais ou consoantes criando uma pseudo transcrição fonológica que, ao mesmo tempo, torna as palavras mais longas, e com isso refuta o argumento de que o bloguês é "conseqüência" da dificuldade envolvida em digitar, e transgride a ortografia da língua padrão recuperando uma "licença poética" utilizada antigamente por telegrafistas e operadores de telex.
Podemos querer ver aí pelo menos três fenômenos: uma "ruptura" entre escrita impressa e digital, uma variedade do português que burla as distinções rígidas entre fala e escrita, ou uma instância de uma gramática de hibridizações e refuncionalizações típica da linguagem digital. Dos três pontos de vista é possível falar de linguagem e inclusão. O primeiro provavelmente nos levaria a pensar no “impacto” da tecnologia sobre a produção e circulação da informação e das conseqüências desse “impacto” sobre as novas formas de estratificação social (como desenvolver nesses jovens, com esses hábitos lingüísticos, o domínio da norma padrão escrita que lhes permitirá tornarem-se adultos com "educabilidade" e "empregabilidade"?). O segundo provavelmente nos levaria a refletir sobre a necessidade do respeito às preferências lingüísticas desses jovens como forma de assegurar sua cidadania (como legitimar esse seu "direito lingüístico" na estrutura social vigente? Como trazer essa variedade para a escola? ). Creio serem esses dois pontos de vista válidos e relevantes para a lida com duas dimensões da inclusão/exclusão já bastante problematizadas. Porém, do terceiro ponto de vista, talvez estivéssemos melhor posicionados para perceber como um grupo de jovens obriga seus pais e professores a reformularem os mecanismos de coerção lingüística que estabelecem assimetrias de poder entre jovens e não tão jovens ao combinar coisas (línguas, modalidades, tecnologias) supostamente velhas de maneiras supostamente novas27. Estaríamos então pensando sobre como o hibridismo, ao mesmo tempo, viabiliza e desestabiliza relações de poder nas quais certas formas de inclusão/exclusão são operacionalizadas via linguagem, sobre o bloguês como a força centrífuga da linguagem, e não como “impacto” de uma “nova” e diferente forma de mediação tecnológica.
Focalizar o hibridismo não é contudo uma opção metodológica simples, pois requer que se cruze fronteiras disciplinares, e que se forjem instrumentos também híbridos e vistos muitas vezes com maus olhos por analistas mais interessados em projetar suas áreas de especificidade sobre as TIC do que em reavaliar o escopo e os instrumentos de suas áreas de origem em função do que acontece nessas tecnologias de linguagem. Antes de prosseguir com meu argumento sobre a linguagem digital, creio que seja do interesse do leitor que eu aborde, ainda que breve e superficialmente, as linhas gerais dessa problemática.
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