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3. APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS

3.2 FOCUS GROUPS

O presente estudo apresenta a elaboração e análise de dois focus groups, pelo que é relevante distinguir os dois grupos de participantes.

O focus group A (FGA) integrou um grupo de médicos com o mesmo nível de progressão na carreira profissional (AH), com a mesma nacionalidade, mas de especialidades médicas diferentes, concretamente a cirurgia, a medicina interna, a ortopedia e a pediatria. Assim, tratam-se de indivíduos com características muito semelhantes, embora com escolhas diferentes ao nível da especialidade da profissão exercida.

Dos sete potenciais médicos que se enquadravam dentro dos critérios de inclusão para a realização deste focus group, quatro aceitaram o desafio e três não aceitaram participar por falta de disponibilidade.

Os anos de actividade profissional dos médicos participantes variaram entre catorze e vinte e cinco anos e são referenciados neste estudo como FGA1, FGA2, FGA3 e FGA4.

O focus group B (FGB) integrou um grupo de médicos com o mesmo nível de progressão na carreira profissional, com a mesma nacionalidade, mas de especialidades médicas diferentes, à semelhança do FGA. Aqui, as especialidades médicas exercidas pelos participantes incluem a cirurgia, a medicina interna, ortopedia e a pediatria.

Dos seis médicos que se enquadravam dentro dos critérios de inclusão para a realização deste focus group, quatro aceitaram o desafio e dois não aceitaram participar por falta de disponibilidade.

Os anos de actividade profissional dos médicos participantes variaram entre vinte e sete e trinta e um anos e são referenciados neste estudo como FGB1, FGB2, FGB3 e FGB4.

Os extractos dos focus groups com frases significativas e que ajudam a clarificar a interpretação dos dados desta investigação são apresentados para cada categoria no Anexo V devido às suas dimensões.

Da análise de conteúdo aos focus groups foram extraídas vinte e três subcategorias que se agruparam em seis categorias, conforme a tabela que a seguir se apresenta, de forma sintética.

Quadro 11 - Quadro síntese da análise de conteúdo aos focus groups

CATEGORIAS SUBCATEGORIAS Credibilidade da informação na Internet • Cruzamento de dados; • Prestigio da fonte; • Experiência profissional; Importância da Internet no desempenho do médico • Informação actualizada; • Manancial de informação; • Canal de comunicação;

• Posicionamento face à Internet; • Principais vantagens.

Papel da Internet na prestação de cuidados de saúde

• Impacto na prestação de cuidados; • Benefícios; • Perspectivas futuras. Dificuldades • Ausência de competências; • Disponibilidade; • Motivação; • Acesso.

Alterações na relação médico- utente

• Alterações na compreensão; • Troca de informação; • Relação de poder.

Riscos para o utente

• Má interpretação do utente; • Auto-diagnóstico;

• Forma de comunicação; • Afastamento do médico; • Riscos psicológicos.

A informação presente na Internet origina, na actualidade, alguma discussão e debate no seio dos profissionais de saúde quanto à sua importância, fidedignidade e credibilidade.

O prestígio da mesma informação e a experiência profissional de cada um, ajuda na percepção da credibilidade. No entanto, o profissional não dispensa o cruzamento de informação bem como a análise de dados. Este confronta os mais diversos sites, autores e tratados.

Esta postura demonstra que a informação disponível devia ser mais filtrada, com base em critérios científicos. O profissional não acede à informação de uma forma indiscriminada, pelo que coloca critérios à sua pesquisa.

Desta forma, nas respostas dos participantes foi sempre visível uma preocupação sistemática na confirmação da informação retirada da Internet e, até mesmo, uma preocupação em confrontar essa mesma informação com outras fontes. Este aspecto verifica-se, por exemplo, na seguinte afirmação de um dos participantes: “(...) depois vou a revistas e depois confirmo (...)”.

Para além do confronto com outras fontes físicas (revistas, livros, outros sites, etc.), é também apontado o confronto de informação entre diversos autores. Um dos participantes refere o seguinte: “(...) confirmar se duas ou três pessoas, autores neste caso (pausa verbal) dizem ou se contradizem (...)”. Verifica-se, mais uma vez, um certo cepticismo em relação à informação retirada da fonte Internet.

A Internet apresenta já uma elevada importância no desempenho e desenvolvimento dos profissionais de saúde, apesar de alguma falta de credibilidade que parece ainda apresentar, sendo que os profissionais acabam por recorrer ao seu bom-senso no sentido de perceber aquilo que devem ou não aproveitar para o exercício da sua profissão: “(...) bom senso profissional (...) condiciona o aproveitamento ou não aproveitamento daquilo que vem na Internet (...)”.

Este suporte de pesquisa ajuda na actualização de um grande manancial de informação e na comunicação em tempo real com pares e outros profissionais de saúde.

O médico, regra geral, vê a Internet como um bom suporte de aprendizagem, como um meio de formação contínua, com um impacto positivo e benefícios para si. Este aspecto pode verificar-se na afirmação que se segue, em que um dos participantes diz recorrer à Internet no sentido de se actualizar: “(...) melhorar os meus conhecimentos e os actualizar (...)”.

A necessidade de actualização constante que esta profissão apresenta relaciona-se directamente com o olhar apresentado em relação à Internet.

Esta fonte (Internet) apresenta também um grande impacto na melhoria da prestação de cuidados de saúde, dada a sua universalidade e ao facto de ser um instrumento cada vez mais utilizado.

Este aspecto relaciona-se, em grande medida, e utilizando as palavras de um dos participantes, com o facto de facilitar “(...) conhecimentos no tempo certo e na altura certa de factos científicos (...)” e por ser “(...) um óptimo canal de informação para os médicos (...)”. A verdade é que na generalidade a Internet é encarada como um veículo que traz “(...) vantagem na prestação de cuidados (...)”.

Todavia, apesar dessa percepção, o profissional de saúde nem sempre se predispõe a utilizá-la, tal como já se teve oportunidade de verificar.

As dificuldades sentidas ao utilizar a Internet têm ainda uma grande importância, estas passam pela ausência de competências para a sua correcta utilização, pela falta de motivação, pela disponibilidade e falta de acessibilidade. A utilização da Internet para a presente geração de profissionais de saúde ainda não é algo que lhes é inato, que procurem de forma natural.

Esta sente uma lacuna entre si e a geração seguinte. A oposição de gerações verifica-se na seguinte afirmação: “(...) neste momento é complicado, (...) estamos nós a conseguir dentro das nossas limitações, mas no futuro é o que vai ser, é uma questão de hábito.”.

Devido a isso, a sua motivação aquando a pesquisa na Internet é baixa, existe uma espécie de “preguiça mental”, havendo mesmo um participante que admite não ter grande vontade de pesquisar apenas por o fazer: “(...) não tenho um interesse doido em pegar num computador e procurar, procuro por curiosidade maior (...)”. Há uma grande falta de disponibilidade para a pesquisa via Internet. Existem também os que admitem ainda não terem aprendido a tirar partido desta nova realidade: “ (...) deveria (...) tirar partido de uma realidade que já existe e que me poderia ajudar e que actualmente eu não sei muito bem tirar partido (...)”.

O acesso à Internet no local de trabalho é ainda dificultado, tanto pela falta de computadores disponíveis, como pela pouca disponibilidade, em termos de tempo, por parte do médico.

Esta dificuldade é sentida pelos participantes, o que se verifica na seguinte declaração: “(...) tínhamos que passar (...) a ter menos horas de dedicação ao tratamento dos doentes para passar a ter mais horas para nos inserirmos e integrarmos nesse sistema (...)”. Para além disto, os profissionais que participaram nos focus group referem ainda falta de tempo para analisarem a informação retirada da Internet.

As instituições de saúde seriam incumbidas de prestar o espaço e um determinado número de instrumentos das novas tecnologias para a formação dos seus colaboradores.

O acesso à Internet e à informação que esta disponibiliza veio alterar a relação entre o utente e o médico. A troca de informação entre médico e utente é facilitada, permitindo um maior intercâmbio e fluidez de informação.

O médico verifica que o utente que utiliza a Internet, pesquisa informação relacionada com a patologia que o afecta e assim compreende melhor as informações e conselhos que o médio lhe dá. Há utentes que chegam a ir mais além do que a simples compreensão do que os afecta: “(...) a linguagem e tudo e rapidamente é quase um colega. Conseguem utilizar os termos e tudo.”.

No entanto, o acesso do utente à imensa quantidade de informação presente na Internet pode verificar aspectos perversos: é possível existir uma deturpação da realidade e alterações na compreensão da informação. A exigência para com o profissional de saúde é maior, e o profissional sente-se até, por vezes, na obrigação de dizer “tudo o que o doente quer ouvir”.

Todo o manancial de informação, por vezes, num tipo de linguagem a que o utente não está acostumado, pode apresentar riscos e consequências nocivas para o mesmo. Um dos riscos é a má interpretação. Este risco deriva de incapacidade por parte do utente em interpretar de forma correcta os conteúdos a que acede ou devido a erros nesses mesmos conteúdos.

Este risco pode originar situações de um nível de gravidade elevado, ou que podem ter consequências negativas no longo prazo, como sejam: problemas psicológicos, afastamento do médico e o auto-diagnóstico. Gera-se uma certa desconfiança quando se confronta o que o médico diz com o que se leu a respeito: “(...) relação de desconfiança entre pessoas (...)”.

O auto-diagnóstico pode levar a uma situação de auto-medição que, em alguns casos, representa um elevado risco para o utente. Para além disso, o auto-diagnóstico pode conduzir ao consumo excessivo de medicamentos.

No entanto, também existem aspectos positivos, tal como já foi referido, em relação à troca de informação entre o médico e o utente.

A informação, a quer médicos, como pacientes têm acesso através da Internet tanto pode levar ao afastamento relacional como pode contribuir para o inverso, tal como um dos participantes refere: “(...) pessoas que vão à Internet buscar informação para de boa fé virem falar com o médico assistente (...) querem realmente perceber exactamente do que se está a falar, (...) pode ser até um bom fortalecimento na relação médico-utente (...)”.

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