2.3 Folhea¸c˜oes
2.3.2 Folhea¸c˜oes singulares de codimens˜ao 1
Introduzimos o conceito de folhea¸c˜ao singular de codimens˜ao 1.
Como j´a vimos na proposi¸c˜ao 2.3.3, uma 1-forma diferencial holomorfa in- tegr´avel, ω, definida numa variedade complexa M define uma folhea¸c˜ao singular de codi- mens˜ao 1 em M \ sing(ω), onde sing(ω) ´e o conjunto singular de ω. A grosso modo, uma folhea¸c˜ao singular de codimens˜ao 1 ´e um objeto que ´e localmente definido por uma 1-forma integr´avel.
Defini¸c˜ao 2.3.3. Seja M uma variedade complexa de dimens˜ao n ≥ 2. Uma folhea¸c˜ao holomorfa singular de codimens˜ao um ´e um objeto F definido por cole¸c˜oes W = {ωα}α∈A,
U= {Uα}α∈A e G = {Gαβ}Uα∩Uβ6=∅ tais que:
2.3 Folhea¸c˜oes 39 2. ωα ´e uma 1-forma diferencial holomorfa integr´avel n˜ao identicamente nulo em Uα;
3. gαβ ∈ O∗(Uα∩ Uβ);
4. Se Uα∩ Uβ 6= ∅ temos ωα = gαβωβ.
Exemplo 2.3.3 (Folhea¸c˜oes dadas por formas holomorfas fechadas). Sejam M uma variedade complexa de dimens˜ao n ≥ 2 e ω uma 1-forma holomorfa fechada em M (isto ´e dw = 0) que n˜ao se anula identicamente. Ent˜ao ω ´e claramente integr´avel e portanto define uma folhea¸c˜ao F em M . O lema de Poincar´e, garante que dado um aberto simplesmente conexo U ⊂ M , existe uma fun¸c˜ao holomorfa f : U → C, tal que ω|U = df . Observe que se g : V → C ´e uma fun¸c˜ao tal que dg = ω, onde U ∩ V ´e conexo e
n˜ao vazio, ent˜ao g e f diferem por uma constante em U ∩ V . Desta forma, a folhea¸c˜ao F pode ser definida localmente por fun¸c˜oes holomorfas no seguinte sentido: existem cole¸c˜oes U= {Uα}α, F = {fα}α e C = {Cαβ}Uα∩Uβ6=∅ tais que:
1. U ´e uma cobertura de M por abertos simplesmente conexos;
2. fα ´e uma fun¸c˜ao holomorfa n˜ao constante em Uα tal que dfα = ω|Uα;
3. Se Uα∩ Uβ 6= ∅ ent˜ao Uα∩ Uβ 6= ∅ ´e conexo, cαβ ∈ C e fα = fβ+ cαβ em Uα∩ Uβ.
Observe que se ω n˜ao tem singularidades, ent˜ao as fun¸c˜oes fα s˜ao submers˜oes
e F ´e regular. Neste caso, se denotarmos por gαβ a transla¸c˜ao gαβ(z) = z + cαβ ent˜ao
fα = gαβ ◦ fβ, de forma que F pode ser descrita por submers˜oes locais com na defini¸c˜ao
2 da proposi¸c˜ao 1, sendo que no caso as gαβ s˜ao transla¸c˜oes.
Dizemos ent˜ao que F tem uma estrutura transversal aditiva. No caso em que sing(ω) 6= ∅, vemos que F tem uma estrutura transversal aditiva em M \ sing(F). Reciprocamente, se F ´e uma folhea¸c˜ao com estrutura transversal aditiva em M \ sing(F) e tal que cod(sing(F)) ≥ 2 ent˜ao F pode ser definida por uma 1-forma holomorfa fechada.
41
Cap´ıtulo
3
Defini¸c˜ao e Exemplos
Na primeira se¸c˜ao do cap´ıtulo, apresentamos o conceito de d-teia e mostramos com v´arios exemplos como elas surgem em diversos ramos da matem´atica. Come¸camos com o caso bidimensional, ou seja, as teias planas, definidas em um aberto contendo a origem de R2
ou C2. Em seguida, embora n˜ao seja o foco de nosso trabalho, definimos as teias multidi-
mensionais. Como dissemos no cap´ıtulo 1, Alain H´enaut iniciou o estudo de teias dentro de um quadro anal´ıtico complexo. Seguimos a mesmo linha, e as principais referˆencias para este cap´ıtulo s˜ao as teses de doutorado de dois de seus alunos: a tese de Olivier Ripoll em [R] e a tese de Luc Pirio em [P].
3.1
Teias Planas
Seja Ω ⊂ C2 um subconjunto aberto e simplesmente conexo, onde estamos supondo que
0 ∈ Ω. A defini¸c˜ao de uma d-teia regular sobre Ω faz uso apenas dos conceitos de folhea¸c˜ao e posi¸c˜ao geral.
Defini¸c˜ao 3.1.1. Uma d-teia regular sobre Ω ⊂ C2 ´e uma fam´ılia de d folhea¸c˜oes holo-
morfas por curvas regulares (superf´ıcies de Riemann lisas), W(d) = {F1, . . . , Fd}, sobre Ω
tais que para todo ponto p ∈ Ω, a fam´ılia {TpFi, i = 1 . . . d} de subespa¸cos de TpΩ est´a
em posi¸c˜ao geral.
Em outras palavras, uma d-teia regular sobre Ω ⊂ C2 nada mais ´e que uma
fam´ılia de folhea¸c˜oes por curvas de Ω, em que as curvas da folhea¸c˜ao se intersectam transversalmente.
3.1 Teias Planas 42 0 1 2 ... d
Figura 3.1: Uma d-teia sobre Ω
Faremos a liga¸c˜ao de alguns resultados b´asicos sobre folhea¸c˜oes, apresentados no cap´ıtulo 2, com a defini¸c˜ao de teia, afim de estabelecer a linguagem e nota¸c˜oes utilizadas neste trabalho. Sendo assim, seja O = C{x, y} o anel das s´eries convergentes de duas vari´aveis complexas com coeficientes em C. Seja tamb´em W(d) = {F1, . . . , Fd} uma
d-teia definida em um aberto Ω ⊂ C2 contendo a origem. Recordemos (proposi¸c˜ao 2.3.1)
que dada uma folhea¸c˜ao regular F de C2´e sempre poss´ıvel obter uma submers˜ao F , tal que
as folhas de F s˜ao dadas pelas curvas de n´ıvel da submers˜ao F , ou seja, {F (x, y) = cte}. Assim, usualmente denotamos uma d-teia por W(d) = {F1(x, y), . . . , Fd(x, y)}.
Utilizando a linguagem do c´alculo exterior, a hip´otese de posi¸c˜ao geral satisfeita pelas folhas de W(d), na origem, ´e expressa da seguinte forma:
dFi(0) ∧ dFj(0) 6= 0 para 1 ≤ i < j ≤ d.
Uma outra forma de denotar uma d-teia ´e utilizando formas diferenciais, as formas de Pfaff. Vimos que para toda folhea¸c˜ao holomorfa F de codimens˜ao 1 em C2,
existe uma 1-forma diferencial ω ∈ Λ1(Ω), tal que a folha de F que passa pelo ponto p ∈ Ω ´e obtida pela integral primeira de ker(ω(p)). Assim, denotamos tamb´em uma d-teia por W(d) = {ω1, . . . , ωd}. Portanto, a menos de um elemento invert´ıvel de O, os objetos fundamentais que definem a d-teia W s˜ao as 1-formas diferenciais seguintes:
ω1 = ∂x(F1)dx + ∂y(F1)dy ... ωd = ∂x(Fd)dx + ∂y(Fd)dy
3.1 Teias Planas 43 ou ainda os d campos de vetores
X1 = ∂y(F1)∂x− ∂x(F1)∂y ... Xd = ∂y(Fd)∂x− ∂x(Fd)∂y
onde ∂x e ∂y denotam os operadores diferenciais ∂∂x e ∂∂y usuais. Neste caso, as folhas da
teia s˜ao as curvas integrais destes campos de vetores.
Exemplo 3.1.1. A teia H(3) = {x, y, x + y} ´e uma 3-teia sobre C2 (veja um esbo¸co real
da teia na figura 3.2). Este ´e um dos exemplos mais simples de uma 3-teia em C2 com
caracter´ısticas muito importantes. Como veremos mais adiante, esta ´e uma teia linear, algebriz´avel, de posto m´aximo e hexagonal. Todos os termos anteriores em destaque ser˜ao explicados mais tarde, bem como as rela¸c˜oes entre estes conceitos.
Figura 3.2: H(3) = {x, y, x + y}
Observa¸c˜ao 3.1.1. Denotamos a teia anterior por H(3) pelo fato dela ser hexagonal. Em geral, como veremos, denotaremos as teias lineares por L(d) e as teias algebriz´aveis por A(d).
Ampliaremos agora nossa defini¸c˜ao de teia para incluir teias com singulari- dades. Se W(d) = {F1(x, y), . . . , Fd(x, y)} ´e uma fam´ılia de folhea¸c˜oes holomorfas singu-
lares sobre Ω, diremos que p ∈ Ω ´e um ponto gen´erico de W se p ´e ponto regular para Fi(x, y) para todo i = 1 . . . d.
Defini¸c˜ao 3.1.2. Uma d-teia singular sobre Ω ´e uma fam´ılia W(d) = {F1(x, y), . . . , Fd(x, y)}
de folhea¸c˜oes holomorfas singulares sobre Ω tais que, para todo ponto gen´erico p ∈ Ω, a fam´ılia {TpFi, i = 1, . . . , d} de subespa¸cos de TpΩ est´a em posi¸c˜ao geral.
3.1 Teias Planas 44 Podemos, ent˜ao, definir o conjunto singular de uma d-teia:
Defini¸c˜ao 3.1.3. Seja W(d) = {F1(x, y), . . . , Fd(x, y)} uma d-teia singular sobre Ω. O
conjunto singular de W(d), denotado por P[W], ´e a reuni˜ao das singularidades sing(Fi)
das folhea¸c˜oes Fi e dos pontos de Ω nos quais a hip´otese de posi¸c˜ao geral n˜ao ´e satisfeita.
´
E claro que uma teia sobre Ω ´e regular se, e somente se, seu conjunto singular ´e vazio. Al´em disso, quando n˜ao dissermos explicitamente que uma teia ´e singular, estamos supondo a teia regular. Se F1 e F2 s˜ao duas folhea¸c˜oes sobre Ω denotamos P[F1, F2] o
conjunto dos pontos de Ω onde as folhas de F1 e F2 n˜ao s˜ao transversais. Portanto, se
W(d) = {F1(x, y), . . . , Fd(x, y)} ´e uma d-teia sobre Ω temos
X [W] = [ Fi∈W sing(Fi) [ [ F,F′∈W, F 6=F′ X [F, F′]
Exemplo 3.1.2. Consideremos o espa¸co CP2 e denotemos por CP1∞ a reta {[x : y : z] ∈ CP2 | z = 0} como sendo a reta no infinito. Ent˜ao W = {x, y, x2 + y2} ´e uma 3-teia
singular sobre CP2. O conjunto singular de W ´e a reuni˜ao de trˆes retas: X
[W] = CP1∞∪ {(x, y) ∈ C2| xy = 0}
Novamente, um esbo¸co real desta teia numa vizinhan¸ca da origem de R2 est´a
na figura
Figura 3.3: A teia singular W(3) = {x, y, x2+ y2} e seu conjunto singular
Exemplo 3.1.3. Esbo¸car a teia W(3) = {2xdx + dy, dx + dy, ydx + xdy}. Neste caso, temos que a 3-teia ´e definida pelas formas de Pfaff: ω1 = 2xdx + dy, ω2 = dx + dy e ω3 =
3.1 Teias Planas 45 Assim temos: R ω1 = 0 ⇔ R 2xdx +R dy = 0 R ω2 = 0 ⇔ R dx +R dy = 0 R ω3 = 0 ⇔ R ydx +R xdy = 0 ⇔ F1(x, y) = x2+ y F2(x, y) = x + y F3(x, y) = xy
Trata-se de uma teia singular. De fato, a origem P = (0, 0) ´e uma singularidade da folhea¸c˜ao F3 e, portanto, uma singularidade da 3-teia W.
Al´em disso as folhas de F1 e F3 tangenciam-se ao longo da par´abola 2x2 = y.
De fato
(2x, 1) = λ(y, x) ´e satisfeita para λ = x1.
Tamb´em temos que F2 e F3 tangenciam-se ao longo da reta y = x. De fato,
(1, 1) = λ(y, x) ´e satisfeita para λ = 1y.