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Embora Tom Barnard (atuante no período) fosse um calígrafo de formação tradicio- nal, seu modelo de itálicos simplificados tinha uma abordagem distinta, e suas letras apre- sentavam uma aparência mais simples e suave. Não menos comprometido, com um estilo fluido de itálicos, Barnard foi mais didático e orientou seus livretos e ilustrações para as crianças. Alguns de seus livros de cópias e manuais foram distribuídos gratuitamente para escolas e centros de professores, alcançando considerável influência por um longo período de tempo na Grã-Bretanha (SASSOON, 1999). A Figura 65 mostra os dois estágios iniciais de suas letras minúsculas, o primeiro com as letras básicas e verticais e o segundo orien- tando os traços de união entre as letras para o terceiro estágio, cursivo e ligado. Figura 65 – Modelo de Tom Barnard. Handwriting Activities, 1979 Fonte: SASSOON (1999), adaptada pelo autor. O terceiro expoente dos “Modelos Básicos Modernos”, populares a partir dos anos 1980, foi Christopher Jarman. Seu primeiro livro voltado ao ensino da escrita manual,

The Development of Handwriting Skills: A Resource Book for Teachers, foi publicado em

1979 e permaneceu popular durante mais de vinte anos. Em 1982, Jarman lançou sua série de cinco livros de cópia acompanhados de um livro de atividades, que foram bastante utili- zados nas escolas do Grã-Bretanha e reeditados em 1997, sob o novo título de Jarman Han- dwriting. Seu modelo foi desenvolvido com letras simples e econômicas que podem ser es- critas com qualquer tipo de implemento. A Figura 66 mostra os estágios progressivos do modelo baseado em formas ovais e padrões iniciais de desenvolvimento motor.

Figura 66 – Modelo de Christopher Jarman em Hand Writing Skills Fonte: SASSOON (1999), adaptada pelo autor. O Sistema Nelson Handwriting As pesquisas de Frances M. Brown para sua tese de PhD, no Departamento de Língua Inglesa e Literatura da Universidade de Birmingham, forneceram um recorte sobre a distribuição

Letras minúsculas do primeiro estágio do modelo de Christopher Jarman.

Letras minúsculas do segundo estágio, com traços de saída das letras.

Letras minúsculas do terceiro estágio, ligadas em sua maioria.

dos sistemas comerciais de ensino da escrita manual nas escolas da Inglaterra no início dos anos 1980. Segundo Sassoon (1999), Brown enviou um questionário para 300 escolas do país, dos quais 182 foram respondidos: 46% utilizavam o sistema Nelson Handwriting; 21% o modelo tradicional de Marion Richardson; 6% usavam o modelo de Gourdie; 4,5% o de Barnard; 4% o de Ruth Fagg; 1% o de Jarman e 1% os itálicos tradicionais. Os restantes 16,5% estavam distribuídos entre os modelos de letra de imprensa, modelos cursivos mais tradicionais com laços e “outros”. Em artigo sobre a tese para o Journal of the Forensic Science Society (BROWN, 1985), Brown relata o estudo piloto de sua pesquisa em quatro escolas municipais, onde muitas crianças eram filhos de imigrantes: Três estilos principais são ensinados. Estes são: print script, que é uma série de formas básicas de letras formadas por uma combinação de linhas retas e círculos que são sempre escritas separadas; o sistema Marion Richardson, que é um estilo unido com ênfase em movimentos naturais da mão sem o laços e floreios caracte- rísticos dos velhos modelos cursivos; e Nelson, um modelo redondo desenvolvido na década de 1960, que começa como um estilo simples separado e progride para uma escrita unida mais madura, com alguma semelhança com o itálico modificado. (BROWN, 1985, p. 314). A pesquisa não é suficiente para extrair um retrato exato do que estava acontecendo em sala de aula, em finais do século XX, na Grã-Bretanha. Sassoon (1999) aponta que as diretrizes construtivistas de ensino centrado nas crianças indicavam o caráter repressor do ensino da caligrafia. O consenso era de que as crianças pudessem explorar como dese- jassem as formas das letras para expressar criativamente as suas ideias e, de algum modo, a partir das suas descobertas, aprenderiam a escrever sozinhas adequadamente. O tempo dedicado ao ensino da escrita manual era cada vez menor, e a ideia de descobrir as letras a partir de suas próprias conexões era atraente para a maioria dos educadores, assim como o conceito de “escrita emergente” então incipiente no âmbito educacional da época. No outro extremo, ainda havia muitas escolas comprometidas com um modelo, no qual essa adesão poderia ser considerada de certa forma repressora. Alunos provenientes de outras escolas deveriam se converter ao modelo prescrito pela nova instituição, e es- colas que adotavam os modelos itálicos tradicionais não permitiam livres interpretações por seus alunos, além de exigir o uso da pena de ponta larga na sua execução. Para Sassoon, a ideia de brincar com as formas e inventar as próprias convenções das letras é uma prática ideal para o ensino pré-escolar. A adoção de um modelo não é necessariamente prejudicial, especialmente quando usado apenas por um curto período de tempo e de forma flexível para aqueles que, por qualquer motivo, não conseguirem

acompanhar. A autora relata, no entanto, que o problema poderia estar exatamente na expectativa de que copiar um modelo seria o suficiente para desenvolver uma escrita ma- nual legível e eficiente, como na passagem que segue: [...] Poucos professores tiveram o treinamento para entender sobre a mecânica da escrita. Muitos não pareciam compreender a importância do ponto correto de entrada e a direção dos traços básicos que compõem as letras do alfabeto. Julga- mentos subjetivos foram transmitidos sobre o grau de aderência ao modelo e clareza convencional. Embora os diretores tenham indicado que um sistema ou outro estava em uso, poucos exemplares dos livros estavam em uso nas salas de aula. Os professores então dependiam de sua própria percepção do suposto mo- delo. Isso muitas vezes reproduzia a sua escrita pessoal mais do que as letras pretendidas. [...] (SASSOON 1999) (tradução do autor). Essas entre outras evidências demonstravam que a adoção de um dos sistemas co- merciais de ensino da escrita não bastava. Livros de cópias e sistemas pautados em modelos adequados não eram o suficiente para desenvolver uma boa letra pessoal. Bons e treinados professores eram necessários. As escolas do sul da Inglaterra e principalmente as escolas municipais londrinas pareciam particularmente mais afetadas pelas ideias progressivas que colocavam a produção escrita acima das habilidades na execução da escrita manual. E os professores não poderiam ser responsabilizados, pois a complexidade da caligrafia há muito estava distante da formação pedagógica. Para Sassoon, diante das complexidades lin- guísticas que precisam ser atendidas, havia pouco tempo para dedicar à correta instrução da formação e espaçamento das letras. E a expectativa de que as crianças pudessem ter uma letra elegante e adequada vinha desaparecendo rapidamente, ao mesmo tempo em que as habilidades no treinamento da escrita estavam sendo esquecidas (1999, p. 141). Nesse cenário de finais do milênio, conforme apontado por Sassoon e pelas pesqui- sas de Frances M. Brown, destaca-se o sistema The Nelson Handwriting.

Desenvolvido inicialmente por Alexander Inglis em 1962, foi reformulado por Peter Smith e Alexander Inglis, em 1984, para a editora Thomas Nelson and Sons, e atualizado por Fidge e Smith em 1997. Amplamente adotado na Grã-Bretanha, alcan- çando inclusive antigas colônias, como Austrália, Nova Zelândia e Canadá, atualmente pertence ao grupo da Oxford University Press, formando um amplo sistema de apoio ao ensino da escrita manual que praticamente domina o mercado educacional britâ- nico (SASSOON, 1999; WARWICK e YORK, 2016). A partir de uma estrutura baseada numa série de sete livros de atividades, o sistema Nelson objetiva englobar os diversos aspectos técnicos e funcionais da escrita manual a partir de um modelo de letras simples e progressivo. O Teacher’s Book 2 do sistema Nelson

Handwriting, publicado pela Oxford, descreve que o programa conduz através de “fases cuidadosamente estruturadas para o encorajamento e desenvolvimento de um estilo in- dividual em cada criança, em vez de uma abordagem de escrita inflexível baseada em ‘um modelo que serve para todos’” (WARWICK e YORK, 2016, p. 2) (tradução do autor). Buscando detalhar os estágios dessa estrutura, foram consultados alguns currículos de escolas inglesas21 adotantes do sistema e escolheu-se um deles para descrever o pro- cesso pedagógico relacionado com as diretrizes prescritas no Currículo Nacional de Edu- cação na Inglaterra (National Curriculum in England – NCE) e a série de livros disponibi- lizados pelo sistema Nelson Handwriting. As diretrizes do NCE específicas para o ensino da escrita manual iniciam no final do período de recepção infantil na pré-escola, chamado de EYFS22, entre os quatro e cinco anos de idade; e continuam até por volta dos 11 anos, quando os alunos devem estar com- pletando o Key Stage 2, no sexto ano escolar.

É interessante notar que as prescrições estatutárias e as recomendações do NCE apresentam cuidados específicos ao conhecimento e à terminologia para orientar o ensino da escrita manual. Entre estes cuidados, destaca-se o uso do termo unjoined styles (estilos separados, ou estilos não ligados), em substituição ao uso termo print script (letra de im- prensa), assim como o termo joined style (estilos ligados, ou unidos) é utilizado no lugar de cursive style. Isso pode ser fruto de frequentes intervenções, debates e consultorias entre os órgãos legislativos de educação e as instituições que agregam designers gráficos e calígrafos na Inglaterra, tais como a National Handwriting Association (NHA). O Quadro 4 apresenta uma síntese das diretrizes do NCE, especificamente para o ensino da escrita manual em cada estágio; as faixas etárias e o cronograma de atividades pedagógicas propostas pela escola inglesa Thomas Eaton Community Primary School; e as descrições das instruções e atividades propostas nos livros do Sistema Nelson, indica- dos em cada etapa (NCE, 2013; THOMAS EATEON... 2016; WARWICK e YORK, 2016). 21 Os currículos de escolas consultados seguem as diretrizes do National Curriculum in England 2013, que também é impor- tante fonte desta pesquisa. Cabe ressaltar que está é a versão vigente do currículo nacional de educação em 2018 e sua última atualização ocorreu em maio de 2015, conforme os dados disponíveis no sítio https://www.gov.uk/government/publica- tions/national-curriculum-in-england-primary-curriculum. Acessado em 24/07/2018. 22 EYFS (Early Years Foundation Stage) – Engloba a organização da fase pré-escolar na Inglaterra e regulamenta o esta- tuto para o ensino infantil nesta etapa que vai do nascimento aos 5 anos de idade (National Curriculum in England, 2013). Esses padrões para os primeiros anos da educação infantil apresentam diferenças na Escócia e País de Gales.

Quadro 4 – Comparativo entre as diretrizes de ensino da escrita manual na Inglaterra

Nation Curriculum in England (NCE)

Thomas Eaton Community Primary School

Sistema Nelson Handwriting

EYFS

Pré-escola Idade 4–5 anos Nível Inicial Starter Level Book Aprendizagens específicas:

• Escrita manual: as crianças usam seu conhecimento fônico para escrever as palavras de maneiras que combinem com seus sons falados;

§ também escrevem irregularmente algumas palavras comuns;

§ escrevem frases simples que podem ser lidas por eles mesmos e por outros;

§ algumas palavras serão escritas corretamente e outras são foneticamente plausíveis. • Letramento: o desenvolvimento da

alfabetização envolve incentivar as crianças a ligar sons e letras e começar a ler e a escrever. As crianças devem ter acesso a uma ampla gama de materiais de leitura (livros, poemas e outros materiais escritos) para despertar seu interesse.

• As crianças têm oportunidades ao longo do dia para escrever; • atividade matutina em seus

cadernos de escrita;

• práticas lúdicas de escrita no ar, com massinha de modelar, creme de barbear, giz de cera, etc.;

• a escrita "formal" não é ensinada até o final do ano de recepção (nível inicial), em vez disso, as crianças são

estimuladas com atividades de motricidade fina e experiências para empunhar o lápis adequadamente.

• Exercícios com padrões a partir das formas, traços e movimentos que compõem as letras;

• exercícios para desenvolver as habilidades e motricidade fina; • introduz à formação das letras separadas, dígrafos e trigramas chave;

• pega e controle do lápis; • materiais de avaliação para

monitorar a progressão dos alunos; • recursos para impressão e

reprodução de exercícios práticos; • teoria sobre os 3Ps da escrita:

Postura, Pegada e Papel (Posture, Pen Hold and Paper

Position);

• vídeo aulas e aplicativos digitais de apoio didático para professores e alunos;

• exercícios de escrita com letras de altura-x entre 10 e 8mm. Alfabetos de letras de separadas simples e pré-cursivas minúsculas do modelo Nelson Handwriting

(letras f e k de imprensa)

Quadro 4 – Comparativo entre as diretrizes de ensino da escrita manual na Inglaterra (continuação)

Nation Curriculum in England (NCE)

Thomas Eaton Community Primary School

Sistema Nelson Handwriting

KEY STAGE 1 – Ano 1 Idade 5–6 anos Ano 1 Book 1A / 1B Os alunos devem ser ensinados a:

• sentar-se adequadamente na mesa, segurando um lápis de forma confortável e correta;

• começar a formar letras minúsculas na direção correta, começando e terminando no lugar certo; • formar as letras maiúsculas e os

dígitos de 0 a 9

• entender quais letras pertencem a quais "famílias de letras” (os conjuntos reúnem as letras com formas semelhantes) e praticá-las. Recomendações:

• A escrita manual exige um ensino direto, frequente e discreto.

• O tamanho do material de escrita (lápis, caneta) não deve ser muito grande para a mão de um jovem aluno.

• Alunos canhotos devem receber ensino específico para atender às suas necessidades.

• Sessões de escrita manual ocorrem quatro vezes por semana durante a tarde; • as crianças revisitam a

aprendizagem do Nível Inicial; • praticam a estrutura básica

das letras, olhando para as letras maiúsculas e minúsculas, antes de passar para o material do primeiro ano, focando no começo do uso das junções.

• Letras minúsculas pré-cursivas, verticais com traços indicadores das saídas das letras;

• maiúsculas simples e verticais, (o alfabeto das letras maiúsculas é um só e continua o mesmo durante toda a evolução do modelo); • como começar e finalizar as letras; • instruções sobre os traços formadores

das letras;

• letras semelhantes e os seus 4 conjuntos formais de "famílias de letras” (letter families); • como traçar os números de 0 a 9; • revisão sobre os 3Ps da escrita; • um aplicativo on-line oferece

animações das letras e das junções; • orientações específicas para alunos

canhotos quanto a pega do lápis, postura e alinhamento do papel; • exercícios de escrita com letras de

altura-x de 6mm.

Alfabeto de letras pré-cursivas minúsculas e os 4 conjuntos formais (letter families) (letras f e k pré-cursivas)

Alfabeto das letras maiúsculas e numerais

Fonte: NCE (2013); THOMAS EATON... (2016); WARWICK e YORK (2016), elaborado pelo autor.

Quadro 4 – Comparativo entre as diretrizes de ensino da escrita manual na Inglaterra (continuação)

Nation Curriculum

in England (NCE) Community Primary School Thomas Eaton Nelson Handwriting Sistema

KEY STAGE 1 – Ano 2 Idade 6–7 anos Ano 2 Book 2

Os alunos devem ser ensinados a: • formar as letras minúsculas com o tamanho correto, relacionando uma com a outra;

• começar a usar alguns dos traços diagonais e horizontais necessários para unir letras e entender quais as letras, quando adjacentes umas às outras, que devem ser deixadas separadas; • escrever as letras maiúsculas e os

numerais no tamanho correto, orientar e relacionar corretamente as letras maiúsculas entre si e com as minúsculas; • usar o espaçamento entre palavras

relacionando ao tamanho das letras. Recomendações:

• Os alunos devem rever e praticar a formação correta das letras com frequência.

• Eles devem ser ensinados a escrever com um estilo unido (cursivo) assim que puderem formar as letras de forma segura e com a orientação correta.

• Revisão dos conteúdos do ano anterior;

• instrução da escrita manual duas vezes por semana durante 15 minutos; • atividades de completar

folhas de exercícios pela manhã, com foco na formação das letras e nas junções corretas.

• Revisão das letras minúsculas pré-cursivas,

• revisão dos traços formadores das letras e as “famílias de letras” (letter families);

• aprendizagem de letras minúsculas e maiúsculas e prática de formação com tamanhos consistentes. • práticas das associações fonéticas

entre letras e sons conforme Currículo Nacional para Ortografia; • orientações sobre as junções entre

as letras, conforme 4 grupos de ligações, e quais letras permanecem separadas (joining groups e break letters);

• as crianças também têm a oportunidade de continuar praticando usando as letras separadas (print letters);

• exercícios de escrita com letras de altura-x de 5mm.

Grupos de ligações (joining groups e break letters)

Fonte: NCE (2013); THOMAS EATON... (2016); WARWICK e YORK (2016), elaborado pelo autor.

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