PARTE III – As fontes e chafarizes públicos que abasteciam a cidade nos séculos
2. Fontes
2.1 Dentro de Muros
2.1.1 Fonte dos Pelicanos
A fonte dos Pelicanos344 também é conhecida como fonte de Sã Sebastião devido à sua localização antes da sua transferência, em 1940345, para o Largo Dr. Pedro
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Vitorino, onde se encontra actualmente. A ideia do risco é atribuída a Bento de Aguiar Caldeira, que ocupou o cargo de vereador da Câmara do Porto em 1626, 1627 e 1636, podendo a construção deste conjunto ser datada dos dois primeiros anos em que foi vereador346.
Esta fonte aparece referida, em 1669, na Memória do padre Baltasar Guedes, afirmando que esta fonte era abastecida pelo manancial de Mijavelhas que “[…] Chega ao pé da Escada da Sé, e ali sobe em hum repuxo ao lindo Chafariz do Senhor São Sebastiaõ, acabando esta fonte taõ assitiada nas fontes que de si lança ao pé de hum Souto, que de seu sangue for fontes pelo amor de Deos.”347
. Também aparece referida por Manuel Pereira de Novais, que é quem atribui a autoria do risco ao vereador Bento de Aguiar Caldeira, e explica a iconografia do Pelicano348, que é uma presença na iconografia cristã e simboliza o amor de Cristo pelos homens, a ressurreição e o amor do próximo. Assim, esta simbologia ligada à água, “acentua ainda mais a que esta já em si carrega como fonte de vida, meio de purificação e de regenerscência.”349
É uma obra composta por tanque e espaldar, que é decorado por elementos inspirados nas gravuras dos tratados de Wendel Dietterlin350 e de Hans Vredeman de Vries351. O tanque apresenta duas concavidades nas suas faces laterais, mas é o espaldar que apresenta maior carga decorativa. O motivo central é enquadrado por duas cariátides-mísula352, de gosto maneirista, que seguram em cima das suas cabeças uma urna diferente, cada uma, e suportam um friso decorado com métopas e caneluras.
345
MARÇAL, Horácio – O abastecimento de água à Cidade do Porto e à Vila de Matosinhos. 3 Partes. O Tripeiro, Série VI, Ano VIII. Porto: Câmara Municipal do Porto, 1968. p. 307.
346 FERREIRA-ALVES, Joaquim Jaime B. - A arquitectura da água: chafarizes e fontes do Porto dos
séculos XVII e XVIII. Arouca: Centro de Estudos D. Domingos de Pinho Brandão, 1997. pp. 58-59.
347
A.H.M.P./A-PUB/05969 (1), fl. 5.
348 “En frente del Aljube ò Carcel Ecclesiastico, En la Plaçuela de San Sebastian se Eu outro, en que Un
Pelicano de Marmol despide por los pechos la agoa, à imitacion de lo que disen los Naturales que essa Ave prodigiosa hase com sus Polloelos, sustentandolos de la Sangre de sus Pechos, y esto fuè idea del Vereador Bento de Aguiar Caldera, curioso Republico y Politico del Gouierno desta ciudad.” NOVAIS,
Manuel Pereira de – Anacrísis Historial. Volume 2. Porto: Biblioteca Pública Municipal do Porto, 1913. p. 40.
349 FERREIRA-ALVES, Joaquim Jaime B. - A arquitectura da água: chafarizes e fontes do Porto dos
séculos XVII e XVIII. Arouca: Centro de Estudos D. Domingos de Pinho Brandão, 1997. p. 58.
350 Vide figs. 38, 39, 41 e 42. 351 Vide figs. 47, 48, 49 e 50.
352 Vide figs. 90 e 91. Segundo Joaquim Jaime B. Ferreira Alves, estas “cariatídes-mísula com as suas
urnas poderiam representar as «naïdes» que encarnam as divindades das nascentes e dos rios e que exemplificariam, na cidade, a influência que as Metamorfoses de Ovídio tinham na decoração em geral, e muito particularmente na decoração de jardins e fontes. As urnas qua cada uma das caríatides-mísula apresentam acentuam ainda mais a ligação com a água daquelas duas estruturas, já que simbolizam a fecundidade dos rios.” FERREIRA-ALVES, Joaquim Jaime B. - A arquitectura da água: chafarizes e
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O motivo central353 é composto pelo suporte da taça, na forma de duas figuras humanas que a sustentam, a taça e o Pelicano, de cujo peito verte a água para a taça que, por sua vez, caí no tanque por quatro bicas. Este conjunto é arrematado por um frontão com aletas, nas extremidades, e as armas reais ao centro.
2.1.2 Fonte dos Canos
Em 1669, o padre Baltasar Guedes menciona a existência de uma fonte dos Canos, que devia o seu nome aos “formosos canos” por onde saia a água354. Esta também é referenciada por Manuel Pereira de Novais localizada no Terreiro de São Bento355. Mas em 1759, José de Sá Carvalho, um particular, mandou construir à sua custa, uma fonte denominada dos Canos, segundo uma planta do arquitecto Manuel Álvares Martins356.
Visto que nenhuma destas fontes chegou até nós, pode-se presumir que a fonte construída por José de Sá Carvalho tenha sido para aproveitamento das águas da antiga fonte dos Canos.
2.1.3 Fonte das Taipas
A construção da fonte das Taipas357 resultou de uma necessidade que veio a fundamentar uma petição, por parte dos moradores do Largo do Postigo das Virtudes, à Câmara, em 1772, que solicitava a edificação de um equipamento de abastecimento de água naquela zona358. O resultado foi a construção desta fonte na rua das Taipas,
fontes do Porto dos séculos XVII e XVIII. Arouca: Centro de Estudos D. Domingos de Pinho Brandão,
1997. p. 58. 353 Vide fig. 89.
354 “Chama-se assim pela bizarria de dous formosos canos por onde saie, juntamente pelos muitos canos
que por aquellas ruas vaõ, d‟agoa. Nasce esta formoza fonte, logo mais acima duas braças, hindo para a Calçada, de huma viva rocha, com tudo he salobra, mas muito fria, servindo de remédio nos cálidos da cristalina neve da alta Serra da Estrella.” A.H.M.P – A-PUB/5969 (1). fl. 8.
355 “En el Terreiro de San Bento ay la fuente de los caños.” NOVAIS, Manuel Pereira de – Anacrísis
Historial. Parte I, Volume 2. Porto: Biblioteca Pública Municipal do Porto, 1913. p. 40.
356
FERREIRA-ALVES, Joaquim Jaime B. - O Porto na época dos Almadas: arquitectura, obras
públicas. Volume I. Porto: Câmara Municipal, 1988. p. 201.
357 Vide figs. 92 e 93.
358 CABEÇAS, Maria da Conceição; D’ARA, Concha – Porto Monumental e Artístico. Património da
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substituindo o chafariz do Postigo das Virtudes359, que fora construído em 1707360. Esta obra ficou ao encargo económico dos moradores361 e recebe água do aqueduto de Paranhos.
Trata-se de uma fonte essencialmente utilitária, mas não deixa de ter uma componente artística bem delineada. A sua simplicidade é acentuada pela sua localização num nicho, entre dois edifícios, delimitado por duas pilastras, e arrematado por um pináculo central. A bica está no centro de um medalhão oval, e deita a água para uma pequena taça semicircular que a verte, através de uma bica, para um tanque que se encontra por baixo.
2.1.4 Fonte da Praça de Santa Ana
A Praça de Santa Ana362 foi projectada pelo arquitecto-engenheiro Francisco Pinheiro da Cunha, entre 1767 e 1775, a mando da Junta das Obras Públicas. A fonte desta praça inseriu-se no risco do projecto, e era constituída por um nicho aberto na parede central da escadaria que dava acesso à capela de São Roque363.
Nesse nicho havia uma escultura de um génio montado num golfinho364, executada em 1774 pelo mestre escultor de Braga, José de Sousa. Esta peça escultórica
359
“E também do mesmo aqueduto (de Paranhos) vem dar ao chafariz do Postigo das Virtudes, que
milhor se lhe pode chamar Porta pella grandeza e largura. Corre este chafariz perennemente no seu elevado capitel por coatro bicas, cuja agoa recebe hua excellente e primoroza taça, e desta sahe por duas bicas que recebem duas taças de conxa primorozamente lavradas, e destas passa a outras da mesma perfeição e de muito maior grandeza. E destas passa a dita agoa a comunicar-se ao povo. Hé esta de estimável grandeza e primoroza architectura assim na altura, como na perfeiçam do seu lavrado, por ser obra moderna, por quanto da parte Nascente se acham escriptas em conta as palavras ou letras seguintes: “1750.” E da parte do Poente se lê a inscripção seguinte: «Hanc molem extruxit populo auxiliante senatus una ergo ex duplici fonte perennat aqua.»” CAPELA, José Viriato – As Freguesias do Distrito do Porto nas “Memórias Paroquiais” de 1758. Braga: Memórias, História e Património, 2009. p.
631.
360 COUTINHO, Bernardo Xavier – Fontes e chafarizes do Porto. A propósito de um problema de
toponímia. Boletim Cultural, vol. XXXII. Porto: Câmara Municipal, 1969. p. 427.
361 “A fonte das Taipas, construida com aceio e dispendio debaixo d‟hum arco de pedraria lavrada, feito
á custa dos moradores da rua ou pequeno largo das Taipas; tem nas costas da fonte huns tanques dos quaes se ignora o fim para que se fizeraõ, salvo se houve em vista a juncçaõ das vertentes, para serem repartidas por diversos por lhes pertencerem.” REIS, Henrique Duarte e Sousa – Apontamentos para a verdadeira história antiga e moderna da Cidade do Porto. Volume I. Porto: Biblioteca Pública Municipal
do Porto, 1984. p. 182. 362 Vide figs. 94 e 95. 363
FERREIRA-ALVES, Joaquim Jaime B. - A arquitectura da água: chafarizes e fontes do Porto dos
séculos XVII e XVIII. Arouca: Centro de Estudos D. Domingos de Pinho Brandão, 1997. p. 60.
364 “Contudo, a Praça de São Roque, formada em semicírculo, lageada de pedra larga e fina, cercada de
casas regularíssimas com três andares, de janelas todas iguais e envidraçadas, uma capela feita à romana, que lhe serve de remate, duas bem repartidas escadas, que, cingidas com balaústres da mesma
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lançava a água num tanque com a forma de concha, sendo alterada mais tarde, passando a apresentar o seu tamanho aumentado e uma estrutura rectangular365.
Esta fonte também era conhecida como fonte do Souto ou fonte de São Roque. Segundo Henrique Duarte e Sousa Reis, esta fonte tinha duas bicas e uma era abastecida pela água proveniente da junção dos mananciais de Paranhos e de Salgueiros e a outra era provida de uma mina antiga, pertencente à Câmara e ao Convento de São Francisco366. Foi demolida em 1875, sendo substituída pela fonte da Rua Mouzinho da Silveira367.
2.1.5 Fonte da Praça da Ribeira
A actual fonte da Praça da Ribeira368 faz parte do programa de renovação daquela praça (c. 1776-1785), a mando da Junta das Obras Públicas, criada no Porto em 1763. Esta fonte veio substituir o chafariz que ali existia anteriormente369. A construção desta, deve ter-se iniciado antes de 1784, ficando concluída em 1786. O risco é atribuído ao cônsul inglês John Whitehead, como todo o conjunto da praça. A obra foi arrematada pelo mestre pedreiro José Francisco370.
A fonte é constituída por tanque e espaldar, e está adossada à fachada monumental do edifício que fica entre a rua dos Mercadores e a rua de S. João. Esta
pedra fina, vão formar diante dela um largo pátio, debaixo do qual aparece um lindo génio cavalgado sobre um golfinho, que lança borbotões de água em uma bacia de pedra lavrada em forma de concha, merece alguma estimação do público apaixonado por semelhantes obras.” COSTA, Agostinho Rebelo da
– Descrição topográfica e histórica da cidade do Porto. Lisboa: Frenesi, 2001. p. 50.
365 FERREIRA-ALVES, Joaquim Jaime B. - A arquitectura da água: chafarizes e fontes do Porto dos
séculos XVII e XVIII. Arouca: Centro de Estudos D. Domingos de Pinho Brandão, 1997. p. 60.
366 “A fonte de S. Roque do Souto tem duas Bicas, sendo huma d‟ellas alimentada pela agoa proveniente
da arca de Paranhos e Salgueiros, a outra de huma mina antiga pertencente ao Senado da Camara e Religiozos Franciscanos, que por isso fornece o chafariz interno da Bolsa do Commercio.
Chama se de S. Roque porque lhe fica nas costas a pequena Capella erecta á imagem d‟esse Santo, a pedido dos portuenses como advogado contra a peste; foi por essa ocasiaõ que o dito Joaõ d‟Almada e Mello uniformizou a limitada Praça, que ainda assim está muito regular no risco e pedraria. A fonte tem hum grande tnque para deposito das agoas.” REIS, Henrique Duarte e Sousa – Apontamentos para a verdadeira história antiga e moderna da Cidade do Porto. Volume I. Porto: Biblioteca Pública Municipal
do Porto, 1984. p. 191. 367
MARÇAL, Horácio – O abastecimento de água à Cidade do Porto e à Vila de Matosinhos. 3 Partes. O Tripeiro, Série VI, Ano VIII. Porto: Câmara Municipal do Porto, 1968. p. 303.
368 Vide figs. 96, 97 e 98.
369 “Outro Chafariz se hiso, por los años de 1678, en la Plaça de la Ribera com la agoa de la fuente de
los Guindaes, que se encañò para este Chafariz, que assi mesmo es de obra Curiosa y grande y Mucho Adorno y perfeccion.” NOVAIS, Manuel Pereira de – Anacrísis Historial. Volume 2. Porto: Biblioteca
Pública Municipal do Porto, 1913. p. 40.
370 FERREIRA-ALVES, Joaquim Jaime B. - A arquitectura da água: chafarizes e fontes do Porto dos
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fachada é dividida horizontalmente em três registos que por sua vez estão separados, na vertical, por pilastras, sendo todo este conjunto arrematado por um entablamento dórico com métopas decoradas por rosetões. No primeiro registo, encontra-se a fonte da praça com o seu espaldar de linhas sóbrias reflectindo a tendência para um gosto classicizante acentuado pelo neopalladianismo e as obras da Junta das Obras Públicas. A segunda parte, tem um nicho no centro, onde provavelmente seria colocada a imagem de São João ou de São Pantaleão, o padroeiro da cidade. E no último registo, ao centro, estão as armas reais371. Segundo Henrique Duarte e Sousa Reis, esta fonte é abastecida pelo manancial de Malmajudas, mas aquando da sua construção estava-lhe destinado outro projecto372.
2.1.6 Fonte Aurina
Esta fonte, mesmo não tendo chegado aos nossos dias, estava localizada na actual rua da Fonte Taurina373. Uma particularidade desta fonte é a quantidade de nomes que teve desde o século XVII até ao século XIX, analisados por Bernardo Xavier Coutinho374. Manuel Pereira de Novais diz que a nascente desta fonte era no local da mesma375. Nas Memórias Paroquiais de 1758, diz que deita bastante água, e que anteriormente esta saía de uma carranca com a forma de cabeça de touro, o que deu o nome à rua da Fonte Taurina376.
371 FERREIRA-ALVES, Joaquim Jaime B. - A arquitectura da água… p. 59. 372
“A fonte da Praça da Ribeira, foi mandada construir á custa da Cidade, por ordem de de (sic) joaõ
d‟Almada e Mello quando rompeo a rua de S. Joaõ e regularizou a dita Praça, em cujas obras consumio muito cabedal. Tem esta fonte no espaldar o escudo das armas Portuguezas e inferiormente hum nicho, que sem duvida foi destinado para a imagem de S. Joaõ por ser esse o nome do director da obra que lhe fica proxima.
He fornecida a fonte pelo manancial de malmeajudas, como já lembrei, ainda que no acto da sua construcçaõ se lhe destinou outra nascente.” REIS, Henrique Duarte e Sousa – Apontamentos para a verdadeira história antiga e moderna da Cidade do Porto. Volume I. Porto: Biblioteca Pública Municipal
do Porto, 1984. p. 191.
373 MARÇAL, Horácio – O abastecimento de água à Cidade do Porto e à Vila de Matosinhos. Parte I. O Tripeiro, Série VI, Ano VIII. Porto: Câmara Municipal do Porto, 1968. p. 301.
374 No século XVII era chamada de fonte Aurina e fonte de Aurina; Nos séculos XVII e XVIII, fonte Ourina e fonte Dourina; e no século XIX aparece como fonte Taurina e fonte Tourina. COUTINHO, Bernardo Xavier – Fontes e chafarizes do Porto. A propósito de um problema de toponímia. Boletim Cultural, vol. XXXII. Porto: Câmara Municipal, 1969. pp. 397-405.
375 “Y en la fuente de Aurina està fuente manantial […]” NOVAIS, Manuel Pereira de – Anacrísis
Historial. Parte I, Volume 2. Porto: Biblioteca Pública Municipal do Porto, 1913. p. 46.
376 “Há outra fonte, onde em hua caza subterrânea no fim da Rua da Fonte Aurina, onde chamam a
Lingoeta do Terreiro, a qual lança bastante agoa, a qual ocularmente fui ver. Dizem que antigamente sahia a tal agoa por boca da cabeça de hum touro, pelo que deu o nome à rua chamada a Rua da Fonte Taurina, e corrupto o vocábulo, ficou Fonte de Aurina.” CAPELA, José Viriato – As Freguesias do
81 2.1.7 Fonte da Biquinha
Pouco se sabe acerca da fonte da Biquinha. Segundo Baltasar Guedes, localizava-se na extinta rua da Biquinha, e era já antiga. Ainda nos diz que se encontrava debaixo de um arco de pedra, no local da sua nascente377. Já Henrique Duarte e Sousa Reis diz que a água era péssima e as suas vertentes dirigiam-se para o rio da Vila, por estar muito próximo dele378.
2.1.8 Fonte da Ponte Nova
A fonte da Ponte Nova pertence ao grupo de fontes que não chegaram até nós. Ficava debaixo do arco que atravessava o rio da Vila, criando uma comunicação entre a rua das Flores e a rua da Banharia379.
Segundo Baltasar Guedes, era uma obra de cantaria muito antiga, com uma arca com quinze palmos de comprimento, que tinha no meio outro repartimento com quatro palmos de altura. A arca tinha um arco e era ricamente decorada com relevos de rosas e serafins. Situava-se no subsolo, e o acesso era feito por cem degraus de pedra. As suas vertentes seguiam por um cano subterrâneo para uma pia junto à porta do abade da freguesia de São Nicolau380.
Distrito do Porto nas “Memórias Paroquiais” de 1758. Braga: Memórias, História e Património, 2009. p.
621.
377 “Está esta fonte a quem deu o nome: he obra antiguissima do tempo que aquellas ruas heraõ hortas.
Está debaixo de hum arcozinho de pedra, nasce ali mesmo, brota meio annel d‟agoa salobra, podera estar mais limpa e concertada a respeito daquellas estalagem e concurso de gente.” A.H.M.P. – A-
PUB/05969 (1), fl. 7v.
378 “A fonte da Biquinha, he outra de pessima agoa existente debaixo do arco que há na rua d‟este nome,
e taõ proximo do Rio da Villa que para elle corre no sitio junto á Capella de S. Chryspim e Chryspiniano.” REIS, Henrique Duarte e Sousa – Apontamentos para a verdadeira história antiga e moderna da Cidade do Porto. Volume I. Porto: Biblioteca Pública Municipal do Porto, 1984. p. 187.
379 “A fonte da Ponte Nova, he muitíssimo antiga, como mostra a obra de pedraria d‟essa mesma fonte, e
he notável ainda mais por huma antiquíssima arca tambem de pedra que ali há a pouca distancia. Nunca vi a dita arca mas consta he toda lavrada em relevos. A agoa he saloba (sic) e conserva se entre o povo a crença de ser excellente para as molestias dos olhos. Está construída a fonte debaixo do arco, que atravessa o rio da Villa, formando a communicaçaõ da rua das Flores para a rua da Banharia.” REIS,
Henrique Duarte e Sousa – Apontamentos para a verdadeira história antiga e moderna da Cidade do
Porto. Volume I. Porto: Biblioteca Pública Municipal do Porto, 1984. p. 190.
380 “Debaixo da Ponte Nova nasce huma bica de agoa, he demasiadamente fria: a Cidade a por ali
quando fichou a formosa fonte de agoa salobra dos Congostas = He esta fonte de obra muito antiga, tem Arca de comprido quinze palmos, toda de cantaria, tem no meio repartimento de quatro palmos de alto, com que faz duas arcas; terá de agoa meia manilha. No anno de 664, por mandado deste Senado a fui abrir: hé muito para ver = Tem arco, enredos (sic), suas rozas e Seraphim da obra antiga, tem sem degraos de pedra muito bem feitos, para hir para ella, toda esta empadeirada, com que se naõ se deixa ver: está no meio do quintal de huma forneira da Ponte Nova, junto a hum pilar, cujo quintal e cazas é
82 2.1.9 Fonte da Rata
A fonte da Rata pertence ao grupo de fontes que não chegaram aos nossos dias, e que pouco ou nada se sabe. É referida nas Memórias Paroquiais de 1758 sem nenhuma informação que possamos usar381, e também é mencionada por Manuel Pereira de Novais, que nos dá a sua localização, dizendo que “ […] dentro de la ciudad, al baxar de la Ferraria nueba, la fuente da Rata […].”382
Apesar de ser citada nas Memórias Paroquiais como posicionada na freguesia de São Nicolau, esta fonte localizava-se na freguesia de Miragaia383.
2.1.10 Fonte de São João Novo
Esta fonte384 parece ser datada do século XVII, embora não sendo possível sabê- lo com precisão, esta aparece mencionada por Manuel Pereira de Novais, que nos diz “En la Calle de San Iuan nuebo ay outro estanque, que viene condusida e lagoa de la fuente de las Virtudes, com la que và para este Conuento de Augustinos.”385
Esta também surge mencionada pelo abade Francisco António nas Memórias Paroquiais, de 1758, bem como a origem da água que a abastece, dizendo que a “fonte que está encostada ao muro da cerca do Convento de São João Novo […] tem a sua origem no sitio aonde está situada a Senhora das Virtudes, que hé freguezia de São Pedro de Miragaia, extra muros desta cidade.”386
Prazo do Contador Mor joaõ de Figueiroa Pinto; da qui vai esta agoa por aquelles quintaes abaixo, e sai