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CAPÍTULO 4 – ANÁLISE DOS RESULTADOS

4.2. ANÁLISE DAS ENTREVISTAS

4.2.6. Fontes de Renda e Atividades Complementares

A principal fonte de renda vem da aposentadoria, mas como o salário é pouco as pessoas estomizadas acabam realizando atividades que complementam a renda familiar. Tais atividades não são as mesmas realizadas quando trabalhavam no setor formal, mas atividades aprendidas ao longo da vida que se tornaram “quebra-galhos”, ou melhor, “bicos”.

Distribuo propagandas nas caixas de correios três vezes por semana por mais ou menos quatro horas. (Entrevistado 3).

Eu vivo do salário-mínimo mesmo e do meu serviço particular que eu faço. [...] Conserto geladeira, coloco gás em geladeira e vendo hortaliças na feira. Distribuo aqueles cartõezinhos, a pessoa precisa e liga para mim e eu vou em casa. Sempre eu gosto muito de fazer salgados para a festa. Muitas vezes a pessoa pede para festa, os amigos conhecidos aí eu faço. (Entrevistado 6).

Revendo pratas em um período de uma a duas semanas por mês. Não é desse trabalho que eu tiro o meu sustento. É só mesmo para passar o tempo e não ficar só em casa. (Entrevistada 8).

Verificou-se que os homens estomizados têm mais necessidade de complementar a renda do que as mulheres, uma vez que dos cinco estomizados entrevistados, dois realizam atividades que complementam a aposentadoria e o auxílio-doença. Uma possível explicação é responsabilização masculina na provisão e no sustento familiar, uma vez que em muitas famílias o homem ainda é o principal provedor. Em relação às mulheres, das cinco entrevistadas, apenas uma realiza tal atividade e não por necessidade financeira. Quando as mulheres estomizadas precisam complementar a renda, contam com o salário dos maridos.

Ai de mim se não fosse o meu marido. Se fosse só o meu salário, não dava nem para pagar minhas dívidas [...]. Ia morrer de fome, minha irmã. Um salário-mínimo

não dá pra nada. E quem usa fralda como eu? E o remédio de quando estou com infecção? (Entrevistada 5).

O homem estomizado, considerado chefe de família devido aos papéis tradicionalmente construídos com a idéia de provedor do lar, com a aposentadoria deixa de desempenhar a função de provedor principal quando a esposa continua a trabalhar no setor formal de atividade.

Atualmente sobrevivo com minha aposentadoria, mas a renda maior vem do salário da minha esposa que ainda trabalha fora. Eu ajudo nas despesas de casa, faço algumas compras. Tem hora que coloco o combustível, tem hora que é minha esposa... E aí está dando pra levar. (Entrevistado 1).

Em relação às mulheres estomizadas nota-se que duas passaram a ser co-provedoras no lar com a aposentadoria, por causa do nível educacional e da qualificação profissional recebidos durante a atividade laboral. Assim, acabaram assumindo o papel de provedora principal do lar.

Sobrevivo com o benefício de auxílio-doença. Não realizo nenhuma atividade de complementação de renda porque não preciso. O trabalho que faço fora de casa é filantrópico fazendo eventos para idosos, para pessoas com câncer e para crianças carentes. São eventos comunitários que não recebo nada por isso. Sou responsável pela principal fonte de renda da casa, pois meu marido é funcionário público. (Entrevistada 7).

Eu vivo da minha aposentadoria. E como eu tenho o meu filho ele paga a água e quando dá compra o gás. Meu marido vive de bico. Tem mês que ele me dá e tem semana que ele não me dá. Eu que faço a feira, quer dizer, as responsabilidades maiores são minhas, né? Tem o meu filho que é especial que é um gasto total. [...] Foi tirado do meu salário a minha gratificação. Não aposentei com o salário integral, mas a gente vai vivendo. (Entrevistada 10).

Os dois principais motivos para a realização de atividades de complementação de renda por parte das pessoas estomizadas são: o suprimento das necessidades básicas, bolsas coletoras, remédios, fraldas e outros produtos necessários para o autocuidado e a necessidade de realização de alguma atividade em que se mantenham ocupados. Com isso, a distribuição gratuita das bolsas coletoras reflete financeiramente na renda das pessoas estomizadas que,

devido ao subemprego e à baixa remuneração, não têm recursos para comprar os equipamentos necessários, muitas vezes importados, que se sujeitam às variações de preço do mercado internacional.

Aqui em Brasília nós não temos apoio nenhum. Se ele quiser ter uma qualidade de vida, ele vai ter que ganhar muito dinheiro para comprar os dispositivos que dê confiança a ele. Temos bons exemplos no país como no Sul e no Estado de São Paulo, de apoio ao ostomizado diferenciado de Brasília. Somos menosprezados pelo governo e infelizmente a situação é essa. (Entrevistado 2).

Nesse sentido, nota-se que o trabalho continua uma categoria central para a criação de valor em uma sociedade produtora de mercadorias e para a estruturação social. Na nova morfologia do trabalho deve-se considerar a existência de uma alteração qualitativa e a de uma ampliação das formas de extração da mais-valia, conforme propõe Antunes (2003). Assim, a centralidade operada no mundo do trabalho das pessoas com estomia intestinal definitiva pode ser verificada no exercício de atividades para a complementação da renda familiar ou da renda individual; em atividades domésticas e em trabalhos voluntários, todos necessários à reprodução capitalista.

Outra questão importante é que a baixa renda; a dificuldade de acesso às informações sobre saúde; sobre os médicos e tratamentos; sobre alimentação saudável; sobre saneamento básico e condições de moradia, criaram condições para a estomia e essa deficiência física reforçou a condição de vulnerabilidade das pessoas com estomia intestinal definitiva com poucos recursos financeiros. Tal situação reforça as diferenças entre as pessoas estomizadas que podem pagar e têm acesso aos serviços privados de saúde e às informações e os que não podem pagar. Nesse sentido, a estomia reforça o preconceito e a exclusão de bens e serviços. Um exemplo dessa correlação pode ser verificado nos trechos das entrevistas abaixo.

Apareceu essa enfermidade – o câncer, que eu não esperava. Sempre eu fazia exame de rotina. Ai o médico falou que eu tinha que operar. Não sentia nenhuma dor de barriga. [...] O médico perguntou se eu tinha ouvido falar em colostomizado. Eu disse não. E ele disse que talvez eu precisasse de usar aquela bolsinha. Minha irmã usava, mas eu nunca tinha visto e achava que era normal. Eu não sabia o que era. (Entrevistado 3).

Tive Chagas no intestino e no estômago. Bom, peguei Chagas e acho que por problema de família, mesmo. Meu pai morreu de Chagas, uma irmã minha também.

Em Minas tem muito barbeiro e a gente morava em casa de barro. Acho que foi adquirido lá mesmo. Ela veio manifestar mais quando tinha 25 anos e fiz a colostomia com 27 anos. [...] Quando tiraram um pedaço do intestino deu infecção e através da infecção que colocaram a colostomia. Nessa época os médicos quase não orientavam a gente, hoje que eles dão muita orientação. De primeiro operava e mandava a gente ir pra casa, às vezes ia com a operação até aberta mesmo e aí ela foi sarando com o tempo. (Entrevistado 6).

Ainda que com a aposentadoria e com as atividades de complementação de renda, as pessoas estomizadas tiveram uma significativa perda econômica com redução da capacidade total ou parcial do trabalho e com o aumento dos gastos com a saúde. O prejuízo maior fica por conta da situação feminina, uma vez que as mulheres se aposentam em atividades socialmente menos reconhecidas e depois de aposentadas ainda realizam atividades em trabalhos não remunerados. Além disso, as mulheres acumulam mais jornada de trabalho do que os homens, ou seja, elas envelhecem mais trabalhando por mais tempo.

Observa-se que a dupla jornada do trabalho feminino também é responsável por sua dupla alienação. Assim, retomando Antunes (2003), nota-se que o capitalismo, ao apropriar-se desigualmente da divisão sexual do trabalho, diferenciando a qualificação e a capacitação da mão-de-obra masculina e feminina no ingresso no mercado de trabalho, apropria-se da polivalência do trabalho feminino e duplica o seu trabalho, dentro e fora da esfera doméstica, devido à necessidade de reprodução do capital em seu processo de valorização.