Metodologicamente optamos pela análise de trechos da obra agostiniana Confessiones por meio de uma hermenêutica histórica. Esta obra data de fins do século IV, aceitando-se o ano de cerca 397 d. C. para o seu término. Divide-se em treze livros, sendo cada um destes divididos em diversos capítulos. O total de capítulos chega ao número de duzentos e setenta e oito. Assim como outros diversos escritos agostinianos, “Confissões” encontra-se publicada em língua portuguesa e em edição bilíngue latim/espanhol, todas disponíveis para aquisição na forma de livros.
A construção do corpus documental se deu pela relevância que nós atribuímos a trechos que tangenciassem o nosso objeto de estudo, sejam aqueles nos quais o bispo faz referência direta às matrizes discursivas sobre as quais apoia as suas argumentações; aborda as questões relativas às sexualidades e reflete sobre os estatutos de humanidade que caracterizariam diferentes grupos sociais, ou, de igual maneira, os trechos nos quais o bispo fornecia resposta às nossas perguntas de maneira não muito clara.
Um exemplo de nosso trabalho a partir do que mencionamos acima é a associação entre elementos sexuais e estatutos diferenciados de humanidade que inferimos em nossa investigação. Esta não se encontra de maneira óbvia nos escritos do bispo, sendo assim, a partir de uma perspectiva indiciária, como quem recolhe provas que comprovem um crime para o qual inexiste uma testemunha ocular, nós recorremos às pistas, insinuações e rastros que nos permitam pôr nossa hipótese à prova.
Quanto ao contexto e às circunstâncias de elaboração da obra, estes serão abordados de maneira mais adequada ao longo da dissertação, especialmente nos dois primeiros capítulos. Há que se ressaltar que trata-se de obra que em nossa sociedade atual enquadramos como autobiográfica, na qual o bispo narra a sua trajetória de vida desde a infância até à conversão ao credo niceno. Para alguns especialistas tratar-se-ia de um reconhecimento público, de uma prestação de contas aos que constantemente o acusariam de não ter abandonado por completo os costumes de sua vida pré-conversão ao cristianismo católico.129
Como demonstraremos no primeiro capítulo deste trabalho o Norte da África no século IV era uma região marcada pela dissensão religiosa, com destaque para os cismáticos donatistas e os maniqueístas, religião cristã130 considerada herética pela vertente do credo cristão que gozava de apoio dos poderes políticos formais. No caso específico de Agostinho, um converso que antes do credo niceno teria se dedicado durante nove anos ao credo maniqueísta, as “Confissões” seriam uma tentativa de refutar aqueles a quem antes esteve associado.131
129 Cf. Capítulo II, Seção 1, p. 59.
130 Conforme já abordamos nesta introdução (Seção 3) distanciamo-nos de uma concepção de História
Eclesiástica que pode culminar na diminuição da importância histórica de alguns movimentos religiosos subalternos. Cf. MATA, 2010. A partir desta perspectiva, concordamos com Marcos da Costa, para quem o Maniqueísmo foi uma das grandes religiões da Antiguidade Tardia. Cf. COSTA, op. cit., 2003, p. 112-138. Entretanto, vamos além da perspectiva do autor e, partindo de alguns apontamentos de Samuel Lieu, incluímos o Maniqueísmo dentro da dinâmica de interacionismos culturais e profusão de cristianismos que caracterizam o mundo tardo-antigo. Cf. LIEU, op. cit., p. 279-295.
31 De igual maneira esta seria a intenção do bispo em sua obra De Vera Religione, escrito que teria como um dos seus principais objetivos a afirmação da fé cristã católica frente aos supostos erros dos maniqueístas. O motivo primeiro seria convencer disto um amigo a quem anteriormente o eclesiástico teria guiado em direção à religião de Mani.132
No caso de De Civitate Dei, o contexto histórico e as circuntâncias são bem diferentes. Agostinho presenciava aspectos bem mais flagrantes da desestruturação das estruturas imperiais, sendo contemporâneo do acontecimento conhecido pela historiografia como Saque de Roma em 410 d. C.. Diante das alegações de que a associação a um novo credo, o cristão, seria a causa premente da degradação do Império Romano, Agostinho viu-se compelido a argumentar a favor de sua crença e, assim, afastar as possibilidades de um retorno ao paganismo de outrora.133
Os trechos dos quais nos valemos das obras “A Verdadeira Religião” e “A Cidade de Deus”, não constituem-se em nossos corpo documental principal, entretanto, nos ajudam no delineamento dos pressupostos filosóficos e doutrinários nos quais se baseiam o regramento sexual proposto por Agostinho, o qual reverberou em hierarquizações sociais que previam a desumanização de alguns grupos sociais tidos como destoantes.
Mesmo que os escritos de De Civitate Dei estejam mais longe no tempo e tenham sido movidos por circunstâncias específicas de seu tempo histórico, acreditamos que alguns elementos apresentam-se como uma “unidade morfológica”134, a qual entendemos existir nas argumentações do bispo sobre pecado, por exemplo, e que encontram-se nas análises feitas por nós no capítulo dois deste trabalho.
A hermenêutica histórica baseia-se especialmente no entendimento dos documentos históricos como provas e evidências135, assim como na compreensão como elemento chave136. E a busca desta compreensão é alcançada quando se dá atenção não somente aos textos, ou à linguagem, mas à realidade histórica137, ou seja, o horizonte hermenêutico deve ser expandido para além dos sentidos e significados das palavras, em benefício da relação entre textos e
132 Cf. Capítulo II, Seção 1, p. 59. 133 Cf. Capítulo II, Seção 1, p. 60-61.
134 “Tal conceito teórico foi discutido por Ginzburg em sua obra História Noturna, e está ligado à recusa da
noção de contexto referente ao encadeamento temporais imediatos, onde geralmente impera uma aparente homogeneidade. Ao contrário, a unidade morfológica do objeto tem como cerne às múltiplas experiências, contraditórias e ambíguas, por meio das quais os homens constroem o mundo e suas ações. Logo diz respeito à recusa das sincronias. Ao criticar os estudos sobre a bruxaria existentes até o momento da escrita de sua obra, Ginzburg fala na marcante característica destes autores em prenderem-se ao “suposto fato” em si, e não no significado dele. Acerca disto cabe retomarmos o pensamento de Todorov quando ele afirma que mais importante do que a recorrência de alguns elementos discursivos deve-se atentar para as motivações destes elementos, assim como os mecanismos discursivos de justificação interna deste discurso. Ou seja, dar primazia ao “fato” em detrimento do seu significado impede que o historiador observe os motivos de fundo do processo de construção do discurso intolerante. Ginzburg chama atenção ao fato de que o pressuposto da unidade morfológica não nos autoriza à projeção automática e perigosamente mecânica de conteúdos culturais numa antiguidade demasiado longínqua, ou de um passado remoto, em um período mais atual. Antes, volta-se ao passado longínquo para lançar luz sobre o seu objeto. Desta forma, entendemos que somente a opção por uma análise morfológica nos permitiria o exame daquilo que Ginzburg denomina de estrato profundo existente por trás do processo, inatingível por outros meios.” Cf. VELOSO, op. cit., 2011a; GINZBURG, Carlo. “Introdução.” In: História Noturna: Decifrando o Sabá. São Paulo: Companhia das Letras, 1991, p. 9-37; TODOROV, op. cit.
135
BENTIVOGLIO, Julio. História e Hermenêutica: a Compreensão como um Fundamento do Método Histórico – Percursos em Droysen, Dilthey, Langlois e Seignobos. OPSIS: Revista do Departamento de História e Ciências Sociais da Universidade Federal de Goias/Campus Catalão, Catalão, v. 7, n. 9, Jul/Dez, 2007, p. 67.
136
Ibidem, p. 68-69.
32 contextos138, um movimento dialógico entre as propriedades da obra discursiva e as propriedades estruturais do seu contexto sócio-histórico.139
Desta maneira, a análise dos escritos de Agostinho de Hipona levará em conta o seu enquadramento no que denomina-se de literatura patrística, com suas características comuns, em um contexto de favorecimento do poder da Igreja pelo governo imperial e fortalecimento do poder dos bispos nas cidades; assim como tais escritos serão estudados observando também as suas características próprias, como as concepções agostinianas sobre a sexualidade, as quais atrelam-se à experiências vivenciadas pelo próprio bispo.
Há que se sublinhar que as concepções agostinianas acerca da sexualidade, na maioria das vezes, não se encontram no discurso agostiniano de maneira clara, ou objetiva. Sobre isto, vale a reflexão do historiador italiano Carlo Ginzburg: “o fato de uma fonte não ser objetiva (mas nem mesmo um inventário é ‘objetivo’) não significa que seja inutilizável.” 140
Desta forma, sem correr o risco de cair no que Carlo Ginzburg denomina “positivismo ingênuo” nossa intenção não é “jogar a criança fora junto com a água da bacia – ou, deixando de lado as metáforas, a cultura popular junto com a documentação que dela nos dá uma imagem mais ou menos deformada.” 141
Logo, seguiremos às proposições de Ginzburg e por meio de uma metodologia indiciária, daremos atenção aos detalhes, por vezes tão negligenciados na hermenêutica histórica142. Atentaremos às argumentações do bispo de Hipona acerca de inúmeros aspectos do cotidiano, como, por exemplo, ações ligadas à alimentação, ao vestuário e ao lazer.
A documentação por nós utilizada será entendida como um conjunto de “estratégias discursivas” em que se originam relações de poder; “representações do mundo social (...) determinadas pelos interesses de grupo que as forjam.” 143 Por meio destas representações aspiramos vislumbrar as práticas sociais 144 nas quais ocorrem os afrontamentos e os conflitos, uma vez que embora as representações aspirem à certa universalidade - elas constituem-se “mecanismos pelos quais um grupo impõe, ou tenta impor, a sua concepção de mundo social, os valores que são seus e o seu domínio.” -, elas estão situadas no que Chartier denomina campo de concorrências. Ou seja, estão sujeitas as ressignificações, desvios e admissões.145
Os sujeitos alegadamente dados ao excesso, tão criticado por Agostinho, ao se afastarem das noções de “pureza”, “normalidade” e “comunidade sagrada”, não se enquadrariam nos quesitos constituintes da identidade cristã. Como é característico da Antiguidade tardia, a tendência à assimilação entre as idéias de cristão e participante da dinâmica oficial dos poderes políticos instituídos fazia com que os supostamente desviantes das concepções defendidas pelo bispo de Hipona ocupassem uma posição marginal que poderia, às vezes, reverberar em exclusão, não somente na dinâmica religiosa, mas também nas relações políticas institucionais.
138
Ibidem, p. 77.
139 Cf. discussão empreendida sobre a relação entre estrutura e conjuntura no item Referenciais Teóricos. 140 GINZBURG, Carlo. O Queijo e os Vermes: o Cotidiano e as Idéias de um Moleiro Perseguido pela
Inquisição. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 16.
141
Ibidem.
142 ______. “Sinais: Raízes de um Paradigma Indiciário”. In: ______. Mitos, Emblemas e Sinais: Morfologia e
História. São Paulo: Companhia das Letras, 1989, p. 143-179.
143 CHARTIER, op. cit., p. 17.
144 “Na verdade, é preciso pensar e como todas as relações, incluindo as que designamos por relações
econômicas ou sociais, se organizam de acordo com lógicas que põem em jogo, em acto, os esquemas de percepção e de apreciação dos diferentes sujeitos sociais, logo as representações constitutivas daquilo que poderá ser denominado uma cultura, seja esta comum ao conjunto de uma sociedade ou própria de um determinado grupo”. In: Ibidem, p. 66.
33
I – AGOSTINHO DE HIPONA E O AMBIENTE POLÍTICO-CULTURAL DE DESENVOLVIMENTO DO SEU PROJETO DE IDENTIDADE CRISTÃ NO SÉCULO IV