1. Um percurso analítico a partir da metodologia e fontes de estudo
1.4 Fontes de estudo utilizadas
1.4.1 A produção e crítica documental
Estabelece-se um amplo e promissor diálogo entre os documentos da Irmandade e as relações sociais, num quadro de coordenadas espaciotemporais, que se irão retratar ao longo do trabalho. A informação sistematizada não é um objetivo por si mesmo, mas funcionou como base de leitura e de interpretação, fazendo-se uma abordagem mais detalhada a alguns dos documentos porque contêm maior número de informação sobre os seus servidores e
protegidos, os cargos e funções, bem como referência a alguns aspetos conexos com o clero e/ou com a prática litúrgica.
As descrições minuciosas expostas no livro de atas convidam o investigador a conviver com os acontecimentos de ordem social e evangélica, sendo uma fonte preciosa e auxiliar para o estudo da comunidade religiosa; oferecem, antes de qualquer outra consideração, uma visão globalizante, mas, como em qualquer investigação, haverá sempre falência de perspetivas, porque nenhum projeto se poderá considerar fechado com tudo o que aqui se depreende de completo e definitivo, até porque cada documento é um universo único e cada ponto de vista, cada ângulo de observação, são sempre parciais e redutores.
Parte da documentação utilizada foi da autoria dos secretários da Irmandade de Nossa Senhora dos Remédios. Estes redatores foram os principais responsáveis pela boa qualidade dos registos, não só pela maneira como trataram os livros, mas também na forma como acataram as determinações dos estatutos; foram uma espécie de mediador informativo entre a Irmandade e a comunidade não obstante de os estatutos fornecerem informações pormenorizadas sobre o modo de proceder (as suas funções são discriminadas na parte I, capítulo 3, ponto 3.3.3).
A não existência de um local próprio para o cartório obrigava a Mesa Administrativa a reunir nas residências particulares, em especial na casa do juiz; talvez, por isso, se justifique alguma desordem na ordenação dos assuntos, e/ou na ordem dos registo, tal como aconteceu com a falta de registo da eleição da Mesa Administrativa do ano 1884-85, e do ano seguinte, ano 1885-86. Estes hiatos temporais serão descritos mais pormenorizadamente na parte I, capítulo 3, ponto 3.1. É provável que parte destes casos acabassem por ser detetados e posteriormente efetuado o seu registo. Os casos mais flagrantes são os livros das lembranças e os Tombos de Irmãos onde, para além da desordem referida, se repetem os assentos, sem respeitar a ordem cronológica. Crê-se que a reiteração dos assuntos em vários livros talvez se devesse ao facto de a documentação ter de ser apresentada em diversos locais e instituições. Além disso, a heterogeneidade das equipas redatoriais e a alternância de secretários com características, estilos e hábitos diversos poderão ter causado inconformidades nos registos.
O acervo documental esteve, ainda, sujeito a delapidações por causas naturais, como o incêndio que deflagrou no dia dezassete de dezembro de 1868 e, um outro, no ano de 1879, em casa do juiz da Irmandade, Visconde Guedes Teixeira. Num ápice de tempo, incrivelmente impetuoso, perderam-se muitas das preciosidades da Irmandade. Aconteceram, ainda, outros atos de razia e vandalismo tal como foi anunciado pelo juiz na sessão da Mesa Administrativa, no dia doze de dezembro de 1914, aos senhores mesários, comunicando que:
«durante o dia 10 do corrente mês haviam sido roubados da sacristia interior os três cálices de uso, (…) vaso grande do sacrário, a cadeirinha da água benta, tudo de prata e um relicário de metal prateado» (AINSRL 1903-1917: 77vs).
Estas inadvertências diminuíam o espólio documental, causando limites a uma abordagem mais analítica dos dados, os quais se tentará ultrapassar através de uma posição de permanente crítica e de multiplicidade de critérios. Se, no primeiro caso, o incêndio aconteceu de forma acidental, no segundo nada tem de espontâneo. É o resultado de um verdadeiro fenómeno de intrusão, pois os recursos, símbolos e valores que usurparam pertenciam à Irmandade.
Os manuscritos que subsistiram (e consultados) datam de fases diferentes, entre os séculos XVIII/XX. Os primeiros são exemplares únicos ou cópias manuscritas que, pela idade e características, são objetos de frágil cunho. Analisar o seu conteúdo, por tudo aquilo que representa, foi deveras aliciante e essencial para a história da Instituição, uma espécie de trilhar caminho e ousar contribuir para o conhecimento mais rigoroso do seu percurso, destapando as influências internas e externas bem como o modus vivendi com os irmãos, o suporte económico e as obras do santuário.
Os estatutos determinavam que a Irmandade deveria possuir três núcleos documentais:
i) Um Livro de Registo de Irmãos/Tombo dos Irmãos - onde se registaram os Irmãos admitidos (Remidos e não Remidos) e as advertências que lhe eram feitas;
ii) Livros de Gestão e Administração da Irmandade – registavam-se as atas das sessões da Mesa Administrativa. Ilustram os vários aspetos políticos e institucionais da Instituição.
No cartório existe uma série muito completa que reúne as atas das reuniões da Mesa Administrativa de 1848 a 1956. Existe também o livro das eleições de 1851 a 1873 e um livro da eleição das mordomas de 1820 a 1862;
iii) Livro de Registo de Bens e do Património da Instituição.
Nestes livros encontram-se os averbamentos das esmolas, rendimentos, despesas das obras e gastos da Irmandade de 1777-1834. Receitas e despesas da confraria de Nossa Senhora dos Remédios de 1870-1884. Livros de Contas correntes por capitais, foros e rendas de 1880-1920. Existe ainda um Livro de Legados Pios e de doações (até ao ano de
1920 apenas eram registadas as doações mais importantes). Um Livro de Inventário e de Lembranças (paramentaria religiosa ou outra de natureza diversa) de 1740 a 1769 e de 1866 a 1872, bem como o registo da evolução das obras do santuário. Um deles é datado de 1919, da autoria de João Amaral.
Apesar de os estatutos referirem apenas a existência destes livros obrigatórios, a Irmandade alargou os seus registos a outras postilas, visando a boa qualidade da gestão organizacional e um zeloso cumprimento legal e estatutário.
Existem, também, conservados no cartório, uma cópia da Pastoral de 32 de agosto de 1776, e diversos Breves Pontifícios; entre estes destaque para o Breve Pontifício de catorze de maio de 1777, o Breve Pontifício de Pio IV, de 1780, o Breve Pontifício, de seis de agosto de 1802 bem como a petição de licença para a bênção da capela. A consulta desta documentação, selecionada entre a massa documental, produziu novas perspetivas de leitura, desvendando motivações e atuações da Irmandade que, de outra forma, permaneceriam ocultas.
A análise destes documentos foi complementada com outras fontes secundárias como cartas, cópias de escrituras, alvarás, doações, padrões de juros, posses e escrituras de compra e venda de terrenos e abjudicação de obras do atual santuário dispersas pelo Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Arquivo Distrital de Viseu e Arquivo Distrital de Braga e pelas Bibliotecas Públicas de Lisboa, Porto, Lamego, Braga e Viseu. Não se tratou aqui de estudar o fundo documental, ainda que extenso, mas sim de considerar um conjunto vasto e disperso de obras e de tentar encontrar documentação – por sinal, como se vê, vária – que pudesse contribuir para esclarecer as circunstâncias que rodearam a criação do culto de Nossa Senhora dos Remédios. Esta documentação não está recenseada, por isso os percursos de investigação encetados foram, em grande parte, encontrados por tentativas, ou melhor, por tentativa e erro, um processo sempre moroso.
O interesse por estes livros é enorme e perante a certeza absoluta de novas descobertas, este estudo jamais se pode pretender como definitivo. Mas, perante as restrições de tempo, destes exercícios académicos, muitas hipóteses de investigação e de buscas documentais, no sentido de esclarecer esta ou aquela questão de pormenor, foram previstas mas suspensas ou abordadas de forma incipiente.
Pese embora as falhas supracitadas e as insuficiências da análise daí derivadas, espera-se que esta investigação constitua um bom contributo para a abordagem do culto de Nossa Senhora dos Remédios, em Lamego.
1.4.2 A conservação e preservação dos documentos
Na sua generalidade os livros da Irmandade encontram-se em bom estado de conservação. A preocupação de um local apropriado para a conservação do fundo documental era uma das apreensões que vem desde o século XVIII, conforme o assentamento:
Não cuide o pio leitor de que o escrever algumas coisas neste livro, para ficarem para lembrança para o futuro, é porque entre na mais leve presunção que fique cronista e desejar palavras ou aplausos, quando sei poder ser mais motivo para censura, porém como não sejam em coisas contra a fé, mas sim nascidas da minha obrigação, forme cada um o conceito que quiser, porque a mesma Senhora sabe a intenção.
Continua escrevendo que não devemos aos antigos mais que uma certa lembrança da sua negligência, pois nos não deixaram gravado, ou escrito em parte algumas, de onde contem os princípios da erecção desta Capela de Nossa Senhora dos Remédios (INSRL – Livro de eleições de 1741: 8).
O juiz lamentava a falta de espaço para a guarda dos documentos, apelando para a necessidade urgente de criar um local próprio. Tal pretensão manteve-se no século seguinte como atesta a resposta da Mesa, aquando da receção do ofício, nº. 292, no ano de 1870, proveniente do administrador do concelho, a solicitar a verificação das contas; após receber a notificação, a Irmandade respondeu que «não tinha cartório especial nem empregado permanente para o dirigir» (AINSRL 1870:174vs).
À medida que a Instituição ia crescendo, aumentava as responsabilidades, envolvendo-se em processos judiciais, frequentemente provenientes da receção de heranças, precisando, por isso, de preservar a documentação fundamental para a sua defesa em tribunal, ou então para dar cumprimento a legados instituídos. Estas e outras razões levaram a Instituição, no final do século XIX, a criar um cartório para depósito, manutenção e conservação de documentos, na parte superior da capela, restringindo o acesso ao pessoal especializado e responsabilizando os que tinham a seu cargo a sua conservação.