A TRAJETÓRIA DO LATICÍNIOS BELA VISTA
3.1. Fontes Orais e a Construção do Conhecimento
O processo de modernização do campo e complexidade, sobretudo em suas relações econômicas e sociais, não pode ser apreendido apenas pela enumeração de dados econômicos e/ou demográficos. É necessário ouvir as pessoas, compreender, a partir de suas narrativas, suas trajetórias e experiências, as mudanças de suas práticas sociais que o processo de transformação envolve.
Mas, antes, já respondemos a uma crítica que provavelmente se levantará. Qual a importância das fontes orais e de que forma elas podem contribuir para o tipo de pesquisa proposta?
A primeira parte da resposta diz respeito ao uso das fontes orais em si. Alessandro Portelli, um dos mais importantes teóricos da História Oral defendeu a paridade de armas entre as fontes orais e os demais tipos de fontes na escrita da História, bastando-se por si própria e suas características, embora não tenha excluído a possibilidade de que fontes orais e fontes escritas fossem complementares. Afirma o autor que:
[...] as fontes escritas e orais não são mutuamente excludentes. Elas têm em comum características autônomas e funções específicas que somente uma ou outra pode preencher (ou que um conjunto de fontes preenche melhor do que a outra). Desta forma, requerem instrumentos interpretativos diferentes e específicos (PORTELLI, 1997, p. 26).
Paul Thompson (1998) vai na mesma direção de Portelli ao propor seu entendimento da relação entre a fonte oral e as demais possibilidades do abrangente conjunto de fontes possível ao trabalho historiográfico. Tomando como exemplo a biografia de Henry Ford, Thompson (1998) reflete que o vasto corpus documental disponível é como um conjunto de peças que possibilitam abarcar as realizações e atividades desempenhadas pelo industrial americano ao longo de sua experiência profissional e de vida. No entanto, os depoimentos que ele concedeu ao seu biógrafo, foram fundamentais para demonstrar seus métodos, motivações e visões de mundo, de forma a organizar as peças do quebra-cabeça que formaram o enredo de sua atuação e a relação com seu tempo.
Yara Khoury (2004) corrobora a interpretação dos dois teóricos da História Oral ao defender que a memória narrada pelo sujeito é uma elaboração social de sua experiência – relação esta que deve ser compreendida na interação com outros sujeitos e instituições – tornada memória que, ao ser por ele narrada, dá sentido à sua ação ao longo do tempo (KHOURY, et al., 2004).
Mas, Portelli (1997) faz dois alertas. O primeiro é sobre a hierarquização das fontes, supervalorizando as fontes orais em detrimento das demais fontes, ou depreciando-a, também na relação com as demais. Avisa o autor que as fontes orais não são “meros suportes para fontes tradicionais escritas, ou cura ilusória para todas as doenças”
(PORTELLI, 1997, p. 26). Esse alerta é importante, sobretudo em um tipo de pesquisa que
não tem na História Oral sua centralidade metodológica. Ao escolher as fontes orais como possibilidade de complementação do enredo de que tratamos, nosso olhar é de pensar de que forma se pode ir além da análise geral e buscar o olhar dos sujeitos diretamente afetados pelos processos descritos.
O segundo alerta do autor italiano é para que não se confunda a narrativa oral com o esforço jornalístico do “ouvir o outro lado”, numa compreensão rasa de que a narrativa dos fatos é sempre dual, um esforço de oposição de lados opostos permanentemente. A narrativa oral é uma elaboração da memória do sujeito que narra, embora o estímulo da narrativa seja determinado pelo pesquisador, ao escolher quais perguntas fazer.
Numa pesquisa em que a escolha for por mais de um narrador, o teor das narrativas geralmente será diferente, embora se parta de um terreno comum de experiências compartilhadas, no caso, o fato de serem produtores rurais e sua relação com o Laticínios Bela Vista. É por isso a indicação de que na narrativa oral não há “um sujeito unificado; é contada de uma multiplicidade de pontos de vista, e a imparcialidade tradicionalmente reclamada pelos historiadores é substituída pela parcialidade do narrador”
(PORTELLI, 1997, p. 26).
A segunda parte da questão, sobre a contribuição do uso das fontes orais para a pesquisa em si, cremos que já foi parcialmente respondida nas reflexões acima, mas entendemos ser relevante acrescentar que as narrativas orais dão “carne” ao debate, ou seja, trazem as pessoas, suas demandas e visões de mundo de forma mais contundente, pois, conforme verificamos, as fontes orais tratam da “vida diária e a cultura material destas pessoas e grupos” (PORTELLI, 1997, p. 27) pesquisados, a partir deles próprios, sem outras mediações institucionais, a não ser a mediação do pesquisador. Isso se relaciona ao que o espanhol Josep Fontana afirmou ser a tarefa dos intelectuais, “recuperar os fundamentos teóricos e metodológicos sólidos que possibilitem ao nosso trabalho nos colocar em contato com os problemas reais dos homens e mulheres de nosso mundo”
(FONTANA, 2004, p. 18).
Os problemas reais dos homens e mulheres do mundo da produção leiteira não são apenas inerentes à sua atividade profissional10; são, também, relacionados às formas como
10 Ressaltamos que não trataremos os sujeitos sociais com quem dialogamos – pequenos e médios produtores rurais, proprietários de terra – a partir da categoria de camponês, pela própria complexidade do termo e seus significados, políticos, sociais e econômicos, no universo rural brasileiro. Sobre o tema, indicamos, entre outras, a obra de José de Souza Martins (1990), disponível na bibliografia.
cada um elabora sua experiência de vida e profissional. Aqui incluímos a forma como sua atividade profissional se insere na cadeia produtiva leiteira mais geral, na qual o papel ocupado por empresas de transformação como o Laticínios Boa Vista é fundamental.