Rodolfo Teixeira
Fontes que alimentaram a busca realizada pelo autor
O esforço inicial de quem aceita o encargo de escrever a crônica da vida de uma instituição consiste em reunir dados confiáveis, base do texto que pretende produzir. O passo seguinte é ajuizar as informações obtidas, procurando encontrar nelas a percepção verdadeira do que ocorreu, as razões, as consequências, o paralelo entre épocas que já se foram e as que estão por vir.
As lembranças do historiador que testemunhou ou mesmo participou dos acontecimentos é um amplo arquivo, possivelmente a sua fonte mais confiável. É certo que o memorialista corre o risco do impacto de influências, muitas vezes não percebidas e não controladas, dos sentimentos subjetivos, que podem modificar a visão imparcial, necessária à correta compreensão dos fatos.
Advertido, assim, o redator deste trabalho buscou, primeiro, subsídios nas suas meditações e reminiscências que se acumularam desde 1946, quando se tornou aluno da Faculdade de Medicina, até o ano presente, sem interrupções no seu interesse e cuidado. Considere-se que foram 52 anos.
A juventude e a madureza se impregnaram, igualmente, do mesmo respeito à Escola Médica do Terreiro de Jesus. As impetuosas visões da juventude, próprias desta quadra da vida, quando olhadas ao longe, na distância dos tempos, acabaram por adquirir formas definitivas e prudentes. O passar dos anos permitiu-lhe a ordenação, sem pressa, das suas reflexões, em que o equilíbrio dos julgamentos é o resultado mais apreciado.
Em várias oportunidades escreveu; em outras, apresentou-as em reuniões; também fixou suas impressões, observações e juízos, em assentamentos particulares, os quais, contudo, não vieram à lume; seguidas vezes, emitiu opiniões sobre o que se passou e o que se passava com a Faculdade de Medicina da Bahia, deixando sempre clara a sua preocupação, face às ameaças, ao destino dela, que surgiram ao longo dos anos. Depois, e em sequência, procurou se inteirar das impressões de quem viveu de perto a Faculdade de Medicina da Bahia, no período de 1943 a 1995.
Entrevistou professores, velhos conhecedores dos detalhes, da intimidade dos acontecimentos, das características de personagens do tempo, das verdades
Prof. Alfredo Britto Prof. Augusto Cézar Viana
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nunca reveladas, conhecidas, apenas, de uns poucos. Ouviu, em alongadas conversas, Álvaro Rubim de Pinho, Edgard Pires da Veiga, Jayme Martins Vianna, Fernando Ribeiro Filgueiras, José Simões da Silva Júnior, Alcilidio Barreto, José Moreira Ferreira, entre outros.
Os arquivos da Faculdade de Medicina foram e, obrigatoriamente, teriam que ser consultados: atas da Congregação, relatórios anuais de diretores da Faculdade, registros referentes a concursos, teses, formaturas e outros tantos. Não é difícil perceber a riqueza deste material e a sua contribuição, se por acaso, algum dia, for aproveitado, para o conhecimento de certos momentos da história da instituição.
Convém que se esclareça que parte deste acervo não foi encontrado, seja por desorganização, ou, simplesmente, desaparecimento. Alega-se, como uma das razões importantes, a transferência da sede da Faculdade do Terreiro de Jesus, primeiro, por volta do início da década dos anos 1970, para as precárias instalações do prédio da Clínica Tisiológica e, depois, para o caricato edifício que lhe foi destinado.
E, se mais não aconteceu, há de se agradecer a criação do Memorial de Medicina no reitorado de Macêdo Costa, quando, abnegados, a exemplo de Maria José Rabello de Freitas, desenvolveram atividades que preservaram parte do acervo, naquele tempo, desativando-se e destruindo-se.
Ainda é possível encontrar documentos preciosos, que também poderão ter o mesmo destino, se não forem poupados por providências imediatas. O acervo da Biblioteca da Faculdade poderia ser, também, uma inestimável fonte de informações, se não tivesse sido arruinado por absoluto descaso.
Deve-se recordar o incêndio do prédio da Faculdade do Terreiro de Jesus, em 1905, responsável pelo desaparecimento de documentos valiosos que retratavam a história da Instituição nos anos anteriores ao trágico evento. Não se sabe, hoje, quais foram, mas é fácil compreender que foram muitos.
Procurou o autor desta memória subsídios para o seu trabalho em periódicos da responsabilidade de organizações médicas (tais como o Jornal da Associação Bahiana de Medicina, Jornal do Conselho Regional de Medicina e da Revista Médica da Bahia) e da imprensa leiga; reportagens,
pronunciamentos de diretores da Faculdade de Medicina, de reitores, de autoridades de vários Ministérios – Cultura, Saúde, Educação – de políticos,
Prof. Clementino Fraga
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de professores ilustres, de médicos e de leigos – recordações, promessas, lamentos – eis tudo.
A Gazeta Médica da Bahia é uma fonte sadia e venerável, sempre
consultada e sempre esclarecedora; referência obrigatória a quem se dispõe a aceitar encargos semelhantes aos que desafiam, agora, o autor deste trabalho. Acolheu-a todas as vezes que a ela recorreu e sempre acrescentou novas informações, bem além das que buscava.
Livros editados, ao longo desses anos, abordaram o tema e as dificuldades por que passava a Escola Médica do Terreiro de Jesus. Penas ilustres, moveram-se e comoveram-se, face ao desenrolar de muitos episódios que as deixavam perplexas. Alertavam, muitas vezes, em tom de denúncia, a sociedade e mesmo, além, a própria história, convocando os cronistas do futuro a refletir sobre os acontecidos.
O livro de Octávio Torres Esboço histórico dos acontecimentos mais importantes da vida da Faculdade de Medicina (1808-1946), editado
na data da fundação da Universidade Federal da Bahia, é particularmente interessante. Tão ao gosto do autor, minúcias, pesquisas em arquivos, do- cumentos fotográficos, apreciações de fatos e de pessoas aparecem no livro. Embora não tendo acesso a ele, porque, presume-se, não existirem mais exemplares, mas conhecendo através de citações o seu conteúdo, vale mencionar o trabalho de Antônio Pacífico Pereira Memórias sobre a Medicina na Bahia.
O material que serviu ao autor foi constituído por quatro grandes livros, encontrados nos arquivos da Faculdade de Medicina. Neles estão registrados atas, matrículas, diplomas, relatórios, etc. referentes aos primeiros anos da Faculdade.
É oportuno destacar outros documentos consultados que esclareceram e interpretaram a reforma do ensino médico da década de 1960. A pesquisa também se estendeu a livros de alguns ramos do conhecimento, que se interdependem com a medicina, facultando a percepção real do período enfocado.
Congregação reunida em fins do século XIX
Congregação 1917
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II
Questionamentos e Razões:
O Enigma da Faculdade
de Medicina
Por quê? O enigma baiano e o enigma da Fa-
culdade de Medicina. Por que a Faculdade de Medicina foi como foi e é como é? As circunstân-
cias favoráveis, inteligências destacadas, trabalho dedicado, potência intelectual, civismo, esclareci-
mentos de aspectos da patologia regional.
Como responder a estes questionamentos.
Aspectos administrativos. Paralelo entre as escolas médicas da Bahia e do Rio de Janeiro, o norte e
o sul. Aspectos políticos: no plano federal e no plano estadual, no Império e na República. A po- lítica local, a política partidária. O populismo dos
anos 1980. Amador Neghme Rodriguez. O mo- vimento revolucionário de 1964. Expectativas da juventude. Os verdadeiros objetivos do ensino. O administrador da Faculdade e as suas limitações.
O homem, o meio e o tempo. O homem como
elemento propulsor, insubstituível na sociedade. O professor. As escolas de
pensamento.
A Faculdade de Medicina e os seus professores.
A origem dos professores: poucos estrangeiros: José Soares de Castro, Manoel Henriques de Pai- va e Jônatas Abbott. Nascidos em outros estados.
Professores que construíram a sua formação na Bahia. Alicio Peltier de Queiroz, Cézar Augusto
de Araújo e João José de Almeida Seabra. Os que frequentaram universidades estrangeiras. José Silveira e Fernando Freire de Carvalho Luz. Formação em outras cidades do Brasil, o Instituto
Oswaldo Cruz. As “viagens de estudo”: Edgard Rêgo dos Santos, José Adeodato de Souza, Anto-
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Memória Histórica da Faculdade de Medicina do Terreiro de Jesus (1943-1995)
As universidades europeias e a sua influência.
Coimbra e Lisboa: Antônio Ferreira França e José Lino Coutinho. As universidades francesas: Paris e Montepelier. As universidades belgas: Lausanne
e Bruxelas. A universidade de Edinburgo.
Fundações estrangeiras.
Fundações americanas: Fundação Rockfeller. Edu- ardo Lins Ferreira de Araújo. Fundação Kellog. Instituto de Saúde dos Estados Unidos. Universi-
dades de Cornell e Pensilvânia.
Reflexões sobre a qualidade do professor. O
predomínio do ensino teórico. Os primeiros tem- pos. A precariedade dos ambientes de ensino. As intenções da reforma Bom Retiro. Influência da Escola Tropicalista da Bahia. A reforma Leonardo
de Carvalho. O início do século XX. Os progres- sos dos anos 1950 e 1960. A reforma universitária
na década de 1970.
O meio e suas características. O meio onde
nasceu e floresceu a Faculdade de Medicina. A cidade do Salvador. A Bahia de Todos os Santos.
O comércio. Aspectos da economia.
O povo e as etnias. Os três troncos raciais. Suas
características e sua representatividade entre os docentes da Faculdade de Medicina. A Congrega- ção e a Sala dos Lentes. Juliano Moreira. Salustia- no Ferreira Souto. Paralelo entre o comportamen- to das populações em diferentes regiões do país. Perfil da sociedade baiana. As elites e a “gente do povo”. O colonizador e o senhor de engenho: não
faziam, mandavam. Repercussões sobre o ensino médico. A Faculdade e os acontecimentos históri-
cos do seu tempo.
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Questionamentos e Razões:
O Enigma da Faculdade
de Medicina da Bahia
Por quê?
Pinto de Aguiar, economista renomado, foi quem concebeu a expressão: “o enigma bahiano”. Usou-a para exprimir a perplexidade que o envolveu, ao sentir a desproporção de valores: as promissoras possibilidades da terra baiana e o retardo do seu desenvolvimento socioeconômico.
É aceitável estabelecer o paralelo desta situação com o caso particular da Faculdade de Medicina. Por quê? Por que a Faculdade de Medicina da Bahia foi como foi e é como é? Por quê?
Embora em várias ocasiões tivesse a seu favor circunstâncias favoráveis; embora possuísse em todas as fases de sua vida inteligências destacadas e vontades leais a lhe desejar o melhor; embora desenvolvesse os seus misteres em espaços ricos de motivos a lhe estimular a pesquisa, a procura de coisas novas – por que não se destacou mais, por que não produziu mais, por que não libertou toda sua presumida potência intelectual, frequentemente contida ou desviada para outros interesses? Por quê?
Por que a Faculdade de Medicina da Bahia conseguiu produzir, durante quase dois séculos, gerações de médicos, de que todas as regiões do Brasil se beneficiaram do seu labor dedicado e da sua competência respeitável? Por que esses homens foram capazes de competir e vencer em ambientes adversos mais favorecidos e mais afamados?
Por que, apesar de tudo, esclareceram alguns aspectos de patologia regional, através de trabalhos científicos reconhecidos na literatura nacional e estrangeira como de qualidade superior? Por que e como não ficaram indiferentes aos
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Memória Histórica da Faculdade de Medicina do Terreiro de Jesus (1943-1995)
momentos maiores e mais difíceis vividos pela sociedade baiana e brasileira, participando no atendimento às populações e na análise dos aspectos epidemiológicos e clínicos, características das epidemias e das endemias que ocorreram em nosso meio, tais como: a febre amarela, a peste, a varíola, a AIDS, a esquistossomose, a doença de Chagas, a leishmaniose e tantas outras?
Da mesma forma não se esquivou nas ocasiões em que a sua ação de civismo se fez necessária:
– na guerra do Paraguai, quando professores e estudantes se deslocaram para os longínquos campos de luta;
– no episódio de Canudos, quando transformou as suas salas de aula em enfermarias e recolheu feridos, enviou assistentes e alunos que socorreram o sofrimento dos que participaram da tragédia fratricida, que se desenrolou nos sertões da Bahia;
– no apoio ao movimento Constitucionalista de 1932 (poucos registros, se é que existem, da prisão, na penitenciária do Estado da Bahia, de seus professores e alunos);
– no gesto de solidariedade e ação, quando da intervenção do Brasil na segunda guerra mundial, através do movimento criado e liderado por professores e alunos da Faculdade – a “Legião dos Médicos para a Vitória”.
Tudo isso construiu o orgulho e a gratidão daqueles que, sob a sua orientação, foram conduzidos no aprendizado da medicina e da cidadania.