CONHECIMENTOS TRABALHADOS DOMINA E/OU REALIZA
5.2. Formação continuada e o trabalho colaborativo
O grupo de docentes pesquisados indicou, em suas respostas ao questionário, que tem participado constantemente de processos de formação continuada em serviço. Conforme a tabela abaixo percebe-se que, em função de o próprio programa de EJA/São José ter como uma de suas características o desenvolvimento da formação docente, vinte e três professores configuram sua participação com cerca de 30 a 40 horas por ano, em média, de formação específica para a EJA.
Tabela 12: Participação de professores em processos de formação continuada Fonte: Dados da pesquisa 2003-2005
Nesta mesma tabela podemos perceber que nove desses professores têm participado de outras atividades formativas com temáticas relacionadas à alfabetização e à EJA. Temos três professores que realizaram cursos voltados para a Educação Especial, dois como ouvintes e um como docente. O interesse por esta temática deve-se ao fato de haver três turmas que atendem a jovens e adultos da Educação Especial.
Nesta pesquisa, opta-se pelo uso do termo formação continuada, pensado numa abordagem mais ampla, mais inclusiva, no sentido da construção do educador crítico, de colaborar com uma participação mais efetiva no mundo das relações que marcam a docência e a sociedade. Visualizo uma concepção de formação docente na perspectiva de educação permanente, na qual formação inicial e continuada estão intrinsecamente articuladas, como duas dimensões – diferentes, mas constitutivas – de um mesmo processo de aprendizagem e profissionalização.
Marin (1995, p.13) apresenta algumas reflexões sobre os termos utilizados na temática educação continuada, analisando seu uso e abordagem. Segundo a pesquisadora, os termos mais utilizados tanto no âmbito escolar como nas instâncias administrativas da educação são: reciclagem, treinamento, aperfeiçoamento, capacitação, educação permanente, formação continuada e educação continuada. O termo específico reciclagem significa o processo de modificação de objetos ou materiais: papéis, copos e garrafas alterados para outras finalidades, ou produção de outros materiais. Dessa forma, o material sofre grandes e radicais alterações, o que torna o termo inapropriado para o processo pedagógico. Nesta concepção, também o termo treinamento apresenta como inadequado, pois,
CURSOS DURAÇÃO NÚMERO DE
PROFESSORES
Educação de Jovens e Adultos e Processo de Alfabetização 30 a 40 horas/ano 23 Libras 340 horas 2 Alfabetização de Educação de Jovens e Adultos 30 horas 2
Pastoral da Criança sobre EJA 30 horas 1
Libras para surdos como docente 400 horas (4 cursos) 1
Alfabetização 300 horas 1
Seminários nacional e estadual de EJA (anualmente)
[...] em se tratando de profissionais da educação, há inadequação em tratarmos os processos de educação continuada como treinamentos quando desencadearem apenas ações com finalidades meramente mecânicas (MARIN, 1995, p.15).
Esse termo até poderá ser utilizado em eventos de formação relacionados à educação física, que exige treinamento com significado de desenvolver destreza muscular. Nesse sentido, também o termo aperfeiçoamento seria inadequado no contexto educativo, por não mais se acreditar em processos de aprendizagem conclusos, pois desse modo se estaria negando a própria especificidade da educação. Quanto ao termo capacitação, ao ser pensado no sentido de tornar capaz, rompe com a noção inatista de aprendizagem; no entanto, ele pode significar convencer, persuadir, e concordo com Marin quando afirma que os profissionais da educação não precisam ser convencidos ou persuadidos, mas sim precisam e esperam participar de processos efetivos de conhecimento. Para a autora, educação permanente, formação continuada, educação continuada são termos que podem ser apresentados em um mesmo bloco, pela sua proximidade e por tomarem como eixo o conhecimento, a idéia de processo como percurso: “A concepção subjacente ao termo educação permanente é a de educação como processo prolongado pela vida toda, em contínuo desenvolvimento“ (MARIN, 1995, p.18).
Assumir esta perspectiva implica que os sujeitos envolvidos no trabalho com a formação continuada de professores assumam outros papéis e estabeleçam com os professores uma,
[...] relação de reciprocidade, eliminando a diferença entre aquele que sabe e aquele que não sabe, promovendo os ajustes entre parcelas dos sistemas educativos, assim como estabelecendo coordenações entre instituições (MARIN, 1995, p.18).
Para os sujeitos investigados, os cursos de formação continuada dos quais têm participado significam possibilidades de base para o desenvolvimento e melhoria no meu trabalho Silvia – 35 anose como orientação, para nos dar mais apoio no nosso trabalho. Maria Heloísa –
38 anos
. Além disso, traz possibilidades de levarmos novidades aos nossos alunos Taís – 42 anos e de
troca de experiência com as colegas de trabalho para melhorar a atuação. Laís – 35 anos.
Desse modo, na sua ótica, os momentos de formação continuada têm colaborado bastante para o dia-a-dia em sala de aula. Mari – 51 anos, tendo em vista que os cursos têm mudado, pois antes era só teoria, agora está tendo também relação com a prática. Pedro – 33 anos
Para o grupo, os elementos dos cursos de formação continuada que têm sido considerados relevantes e significativos são as interações, o trabalho em grupo,
as trocas de experiências ocorridas entre os professores no período das sextas- feiras destinado ao estudo, planejamento e produção de documentos e materiais didático-pedagógicos. Nos seus dizeres, verificamos os seguintes destaques:
Muito importante, pois podemos conhecer melhor a opinião dos outros. Silvia –
35 anos
A troca de idéias, socialização, trabalhos em grupos.Taís – 42 anos A integração do grupo da EJA. Laís – 35 anos
A forma de ser trabalhada e aplicada em sala de aula. Mari – 51 anos Participação em grupo.Isabel – 59 anos
O trabalho do grupo e os resultados que temos alcançado com esse trabalho. Maria Heloísa – 38 anos
As trocas de experiências. Neli – 35 anos
A troca e experiências entre as colegas e a nossa valorização enquanto profissionais da educação. Simone – 34 anos
(Fonte: Dados da pesquisa 2003-2005)
Nos depoimentos dos docentes percebemos a importância das diferentes interações estabelecidas nos processos colaborativos de estudo, de produção de práticas e de formação continuada. Estas interações e as trocas de conhecimentos, de experiências, de materiais e de estudos caracterizam também espaços de sociabilidade. Tais trocas baseadas, sobretudo, no “fazer”, no “que fazer”, no “saber fazer”, “no registro e na teorização das suas práticas constituem importante aspectos de constituição da docência”. Estas práticas, conhecimentos e imagens de docência na EJA são socializados e debatidos num movimento de tensões permanente, que permite problematizar esses diferentes elementos produzindo, assim, formas particulares de atuar junto aos jovens e adultos.
Esses processos, marcados por possibilidades, tensões, dificuldades e pela luta por condições materiais, de tempos de organização do trabalho docente, vem lhes permitindo atuar sobre os âmbitos que mediatizam a sua prática docente.
Nesse processo de formação, como um dos elementos que constituem o seu trabalho, os professores buscam mediações que façam ressonância com sua prática. Há uma busca de um conhecimento teórico e prático que estabeleça relações significativas com o trabalho docente.
Ao lidar com o cotidiano do seu trabalho, professores constroem significados para a sua prática, ampliando necessidades formativas e o sentido tanto
da formação como da sua própria prática. Dessa forma, o grupo aponta como questões a serem aprofundadas na formação continuada os seguintes elementos:
CONTEÚDOS