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Formação de identidade no confronto do sagrado com o profano e no embate

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Elemento que vai sendo desenvolvida aos poucos, “a identidade se situa no ponto de cruzamento entre algo que vem de nós (o equipamento psíquico com o qual nascemos) e algo que nos vem de fora, isto é, da realidade externa”.147 A construção da identidade se dá pelo reconhecimento de que o homem é um ser social e histórico, condicionado pelo meio em que vive e, como tal, pode e deve interferir na realidade, bem como pela admissão de que:

As identidades nunca são unificadas; que são, na modernidade tardia, cada vez mais fragmentadas e fraturadas; que elas nunca são singulares, mas multiplamente construídas ao longo de discursos, práticas e posições que se cruzam e até podem ser antagônicas. As identidades estão sujeitas a uma historicidade radical, constantemente em processo de mudança e transformação.148

A partir dessas explicações, podemos entender o caráter plural e multifacetado das comunidades, o que significa dizer que as construções identitárias não são tão simples,

146 FREEDMAN, David Noel (ed.). The Anchor Bible Dictionary. New York: Doubleday, 1992. v.1, p.554. 147 MEZAN, Renato apud BARLACH, Lisete; PEZO, Maria A. A identidade judaica: uma identidade

religiosa. Estudos de Religião, n.34, p.186, jan. /jun.2008.

148 HALL, Stuart. Quem precisa de identidade? In: SILVA, Tomaz Tadeu (org. ). Identidade e diferença: a

mas recebem influências, aculturam e são aculturadas. A importância da construção desse processo abrange questões míticas, rituais, linguísticas, simbólicas e culturais.

Por certo a identidade encontra um elemento formador na percepção do sagrado e seu embate com o profano. Segundo Eliade, o sagrado se manifesta como uma realidade inteiramente diferente das realidades “naturais”. É certo que a linguagem exprime ingenuamente o tremendum, ou a majestas, ou o mysterium fascinans mediante termos tomados de empréstimo ao domínio natural ou à vida espiritual profana do homem.149 O sagrado e o profano constituem duas modalidades de ser no mundo, duas situações existenciais assumidas pelo ser humano. Os modos de ser sagrado e profano dependem das diferentes posições que a humanidade conquistou no cosmos.150

O ser humano não consegue eliminar totalmente o religioso da sua vida, mesmo que tenha optado por viver de forma profana. Nessa experiência alguns espaços se destacam de forma específica como “locais privilegiados”, os quais, de alguma forma, marcaram a vida de uma pessoa, sendo considerados “lugares sagrados”, diferentes dos espaços comuns da existência cotidiana.151

Entendendo o mundo como um cosmos, toda e qualquer agressão exterior ameaça transformá-lo em “caos”. Eliade teoriza ter sido o “nosso mundo” fundado pela imitação da obra exemplar dos deuses, a cosmogonia; os “adversários que o atacam são equiparados aos inimigos dos deuses, aos demônios e, sobretudo ao arquidemônio, o Dragão primordial vencido pelos deuses nos primórdios dos tempos”.152

O ataque de “nosso mundo” equivale a uma desforra do Dragão mítico, que se rebela contra a obra dos deuses, o Cosmos, e se esforça por reduzi-la ao nada. Os inimigos enfileiram-se entre as potências do Caos. Toda destruição de uma cidade equivale a uma regressão ao Caos. Toda vitória contra o atacante reitera a vitória exemplar do Deus contra o Dragão (quer dizer, contra o “Caos”). É por essa razão que o faraó era assimilado ao deus Rã, vencedor do dragão Apophis, ao passo que seus inimigos eram identificados a esse Dragão mítico. Dario considerava se um novo Thraetaona, herói mítico iraniano de quem se dizia ter matado um Dragão de três cabeças. Na tradição judaica, os reis pagãos eram apresentados sob os traços do Dragão: tal é o Nabucodonosor descrito por Jeremias (51:34) e o Pompeu apresentado nos Salmos de Salomão (IX,29). [...] O Dragão é a figura exemplar do Monstro marinho, da Serpente

149 ELIADE, Mircea. O Sagrado e o profano: a essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 1992,

p.13.

150 ELIADE, 1992, p.15. 151 ELIADE, 1992, p.18. 152 ELIADE, 1992, p.30.

primordial, símbolo das Águas cósmicas, das trevas, da Noite e da Morte – numa palavra, do amorfo e do virtual, de tudo o que ainda não tem uma “forma”. O Dragão teve de ser vencido e esquartejado pelo Deus para que o Cosmos pudesse vir à luz. Foi do corpo do monstro marinho Tiamat que Marduk deu forma ao mundo. Jeová criou o Universo depois da vitória contra o monstro primordial Rahab.153

A repetição do ritual anual da vitória do deus sobre o Dragão, que simbolicamente são o sagrado e o profano, o puro e o impuro, reporta a uma nova criação, ou seja, sempre a uma recriação, ao novo, à ordem. Do mesmo modo, a vitória do deus contra as forças das trevas, da morte e do caos se repete a cada vitória da cidade contra os invasores, reafirmando a identidade. “A criação do mundo torna-se o arquétipo de todo gesto criador humano, seja qual for seu plano de referência”.154

Nas sociedades arcaicas, segundo Eliade, os povos concebiam o mundo como um microcosmo habitado e tudo o que estivesse fora desse espaço cosmicizado, habitado e organizado seria o desconhecido, o estranho que representa o caos, a desordem, o perigo, as trevas, o mal, a morte, a região dos demônios.155 Para o autor, os “inimigos são

identificados como as forças demoníacas”156, pois trazem a desordem a uma ordem

estabelecida. Como exemplo ele cita os inimigos do Faraó, que eram considerados filhos da destruição e traziam o caos, a desordem. Porém Faraó, identificado como o deus Rá, vencia o dragão mítico, reconhecido como o grande inimigo por ameaçar a ordem e o equilíbrio da vida nesse espaço habitado e organizado.157 A concepção do adversário como um ser demoníaco, do mal, sobrevive ainda na atualidade, haja vista que sobre eles projetamos os nossos próprios desejos destruidores.158

O exclusivismo israelita se deparou com um mundo de grande diversidade cultural e religiosa. O desafio era conviver nessa nova realidade sem perder a identidade, sem deixar de ser judeu. Quais são os marcos que não poderiam ser removidos? Quais os limites do puro e do impuro, do sagrado e do profano? O que significava ser judeu nesse novo contexto? Everson Spolaor vê a nova realidade como uma “liquefação da

153 ELIADE, 1992, p.30. 154 ELIADE, 1992, p.29.

155 ELIADE, Mircea. Imagens e símbolos: ensaio sobre o simbolismo mágico religioso. São Paulo: Martins

Fontes, 1991, p.34.

156 ELIADE, 1991, p.34. 157 ELIADE, 1991, p.34. 158 ELIADE, 1991, p.38.

identidade” judaica, afirmando que a ideologia de uma pureza identitária estava ameaçada pelos casamentos mistos, sincretismo religioso, mitos de outras culturas, etc. 159 A

aculturação que estava acontecendo precisava ser combatida pelos que buscavam uma pureza religiosa. Ser puro, então, consistia em rejeitar os impuros e negar a identidade dos que estão associados às trevas e ao espírito da perversidade.

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