2 IMPLICAÇÕES SOCIOESPACIAIS DO PROCESSO DE REQUALIFICAÇÃO
4.2 FORMAÇÃO DO BAIRRO LAGOA GRANDE: PASSADO E PRESENTE
O Bairro Lagoa Grande surgiu nas proximidades de uma das lagoas mais importantes de Feira de Santana, a Lagoa Grande, que na década de 1950 servia como fonte de abastecimento de água para a cidade.
Em 1957, na visita do Presidente da República, Juscelino Kubistcheck à cidade, foi inaugurado o serviço de água encanada procedente da Lagoa Grande. A cidade crescia em alta velocidade e ganhava contornos de cidade grande, atraindo investimentos econômicos de vários setores da economia. (VARGAS, 2008, p. 11). A Lagoa Grande teve um importante papel no desenvolvimento urbano de Feira de Santana com a implantação, neste local, do primeiro sistema de abastecimento de água da cidade demandado pelo considerável aumento populacional naquele período.
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Ver Santo, S. M. A expansão urbana, o Estado e as águas em Feira de Santana – Bahia (1940-2010). 2012. Tese (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo) – Universidade Federal da Bahia, 2012.
Do mesmo modo, além da necessidade do fornecimento de água, a questão habitacional tornava-se também outro fator preponderante que culminou em formações socioespaciais, como a Rocinha, atribuídos à atuação ineficaz ou ausência de políticas habitacionais que pudessem acompanhar as necessidades e o ritmo da ocupação do espaço urbano feirense:
A falta ou deficiência dessas políticas aliada ao elevado número de pessoas que chega à cidade, diariamente, em busca de emprego e moradia permite o surgimento de assentamentos urbanos clandestinos ou irregulares em áreas de interesse ambiental. Esse segmento da população engorda o mercado informal ou permanece à margem de qualquer atividade econômica, instalando-se, comumente, em locais próximos ao centro urbano, às margens das lagoas, em áreas destinadas por lei, à preservação permanente do ambiente, colocando-as em iminente risco de extinção. (VARGAS, 2008, p.10-11).
O Estado, no processo de ocupação do bairro e de maneira específica nas proximidades da lagoa foi determinante, pois, de acordo com Santo (1995), o bairro Lagoa Grande, antes denominado de Rocinha é de formação recente, datando de 1960, e em 1992 observou-se a o surgimento de uma favela conhecida como Favela da Rocinha, na área da Lagoa Grande. Assim, a formação socioespacial do Bairro Lagoa Grande é reflexo da política habitacional da época condicionada pela ação e omissão do Estado.
Em 1957, a área da Lagoa Grande era quase que totalmente desocupada, o espelho d’água praticamente imperceptível.
A partir do decênio de 1970, com a criação do Plano Municipal de Habitação Popular (PLANOLAR), instituído pela Lei no825/77, através de uma ação planejada, o governo municipal, na tentativa de amenizar os problemas de moradia pela falta de uma política de habitação para a população de baixa renda, procedeu à doação de lotes e material para a construção das casas:
O Plano do município doou lotes e instalou água, energia e viabilizou transporte para vários loteamentos. As famílias construiriam as casas. Entre os núcleos, incluem-se a Rocinha, o Aviário, o Panorama, o Jussara, enfim, foram mais de doze loteamentos implantados seguindo as regras do PLANOLAR. (OLIVIEIRA, 2010, p. 93).
No discurso de um dos moradores do bairro Lagoa grande e responsável pela fundação da primeira associação comunitária no local pode-se perceber que o processo de ocupação relatado, a partir de 1979, contou com apoio e incentivo do poder público municipal:
Quando eu vim para aqui foi em 1979. Dessa área aqui nós começamos a ajudar, fundamos uma associação, primeiro não era uma associação comunitária era associação de leite, onde eu era a fiscal. Em 1989 nós aí fundamos uma associação do bairro, Associação Menino Jesus que é do bairro. Essa associação é registrada, sem fim lucrativo, porque associação não tem fim lucrativo, associação é uma comunidade toda em comum geral e é o nosso trabalho. Daí a gente sentiu que tinha mais necessidade do bairro evoluir, nós conversamos que na época era Dr. Colbert (Prefeito de Feira de Santana naquele período), aí fomos angariando e aumentando, temos a área aqui atrás onde eu moro, tem a Rua Apolônia, tem uma porção de ruas lá atrás e aí tem a Ulisses Guimarães, Colbert Martins, a gente aumentou, muita gente precisava de casa aí a associação começou se movimentar [...] como não tem sede ela é registrada com o endereço da minha casa e daí a gente começou o trabalho. Quando a gente fazia reuniões a rua fechava, às vezes as pessoas perguntava – “vem cá, o que foi que teve ali? Teve algum acidente alguma coisa?” Não, tinha Deus orientando para alguém ter um lar um teto para botar a cabecinha aí dentro. Então, nós quando começamos lá era setenta e oito lotes, de setenta e oito lotes tem mil e poucas casas. (Grupo 1/Representante Comunitária Local 1). O programa de habitação daquele período conhecido como PLANOLAR incentivou a ocupação de algumas áreas da cidade de Feira de Santana com a doação de terrenos, dentre elas a do Bairro Lagoa Grande, mas, sem a devida preocupação com as implicações futuras da ocupação. Nesse contexto, nos países de terceiro mundo, de acordo com Spósito (2004), para prover o problema habitacional governo adota o modelo de autoconstrução definido como:
[...] processo de construção de moradias exercido por pessoas que utilizam seu tempo de descanso (fins de semana, feriados, férias), individual ou coletivamente. Quando a atividade é exercida coletivamente, pode ser chamado de mutirão, que equivale, assim, ao auxílio que se prestam os habitantes de um bairro, reunindo-se todos e realizando a construção de moradia em proveito de um só, que é gratificado, mas que ajudará os outros a fazerem outras moradias para aqueles que participaram da atividade. (SPÓSITO, 2004, p. 85).
A alternativa do governo municipal na tentativa de buscar soluções para atender ao número de moradias (Anexo A) ditado pelo aumento da população foi a elaboração de um plano para a construção de casas e realização de cadastramento das famílias. Contudo essas ações inicialmente planejadas desencadearam ocupações irregulares e vendas de terreno, como no caso da formação da Favela da Rocinha, no Bairro Lagoa Grande, objeto de estudo desta pesquisa.
Em 1993 foi denunciada pela então Secretária de Habitação, Ana Rita Braga, uma invasão e a venda de terrenos na área da lagoa noticiada por um dos meios de comunicação da época, que destacou o posicionamento da Secretaria de Habitação frente à situação observada na Lagoa Grande em que aproximadamente mais de cem famílias já se encontravam morando no local (Anexo B):
A maior preocupação da Secretaria de Habitação é que além do terreno não poder ser habitado por se tratar de uma área de preservação ambiental, os atuais moradores estão correndo riscos. Enquanto não chove, eles vão passando porque a lagoa está seca, mas quando as chuvas de março chegarem vão ficar em situação complicada, por isso vamos tentar resolver o problema antes que isso aconteça. Ana Rita garantiu que a secretaria vai construir casas populares para deslocar o pessoal da Lagoa Grande. Só estamos aguardando liberação de verbas do governo federal. Na próxima semana vamos continuar o recadastramento dos sem-teto, e esperamos dentro de pouco tempo solucionar esse problema. (SECRETÁRIA..., 1993).
Desde as denúncias de invasão e vendas de terreno para construção de habitações em 1993, somente em 2007 é que o Bairro Lagoa Grande foi contemplado com projeto de requalificação urbana em programa do Governo Federal.
Assim, o que deveria ser uma ocupação regular contribuiu para uma ocupação do espaço irregular. Para Oliveira (2010):
Boa parte da população ocupa uma área doada pelo PLANOLAR nos anos 80 e 90. A outra parcela é formada pelos que ocuparam gradativamente a área onde estava instalado o sistema de abastecimento de água de Feira de Santana até a década de 70. Os terrenos no entorno também foram invadidos. Nenhum morador tem a posse da terra. (OLIVEIRA, 2010, p. 104).
Mesmo que tardiamente, pois muitas famílias viviam na área “invadida” da Lagoa Grande que se encontra em processo de degradação acentuado, espera-se que as ações de requalificação urbana possam garantir melhorias não somente no campo ambiental, mas em termos de condições dignas de moradias especialmente para a população que vive em partes aterradas da lagoa.
4.3 QUESTÃO AMBIENTAL: A LAGOA GRANDE ENQUANTO UMA ÁREA DE