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CAPÍTULO 3 – A PROPRIEDADE INTELECTUAL NA

3.1 A FORMAÇÃO DO CONSENSO INTERNO NOS EUA

Em 9 de julho de 1982, Barry MacTaggart, então presidente da Pfizer Internacional, publicou um artigo no New York Times acusando governos de países como Brasil, Canadá, México, Índia, Taiwan, Coreia do Sul, Itália e Espanha de estarem roubando o conhecimento produzido nos Estados Unidos em virtude de sua legislação de PI inadequada(Drahos 2002b: p.61). A acusação se estendia à OMPI, que estaria favorecendo estes países em suas revisões dos tratados vigentes (ibidem: p.61). Percebendo a ampla aceitação do seu argumento nos mais variados segmentos da sociedade e no governo, a Pfizer deu início à empreitada de estabelecer uma conexão entre a propriedade intelectual e o regime de comércio. O argumento era direto e simples: direitos de PI mais fortes significariam mais empregos e devolveriam aos Estados Unidos resultados positivos na balança comercial (ibidem: p.62). Edmund T. Pratt Jr., presidente e CEO da Pfizer de 1972 a 1992, assumiu a liderança do movimento na indústria. Em entrevista concedida a Peter Drahos em 1994, o executivo comentou que sua luta pela proteção global de direitos de PI “foi um dos pontos altos de sua carreira” (ibidem: p.69).

O contexto mais amplo da contrarrevolução monetarista era propício para que executivos como Pratt assumissem a liderança da construção das novas políticas relacionadas à proteção de PI por ser caracterizado por uma “nova aliança memorável entre o poder do Estado e o capital” (Arrighi, 2004: p.325). Sem o poder de um Estado forte, o capital não poderia atingir seus objetivos. A mudança na natureza da competição interestatal – que passa a utilizar a criação de riqueza, mais do que o controle militar sobre outros territórios, como meio para o poder (Strange, 1992: p.7) – reforça essa aliança. Destarte, os monopólios garantidos por patentes e direitos autorais fornecem ao Estado uma arma adequada a esse novo tipo de competição. O processo de consolidação dessa aliança e a formação de um consenso nacional sobre a ligação entre PI e comércio ainda envolveria, contudo, múltiplas

etapas: primeiro entre a própria indústria; em seguida, consolidar o argumento científico e, por fim, selar o negócio com o governo. (Drahos, 2002b: p.68)

Na posição de presidente do Comitê Consultivo para Negociações Comerciais (ACTN14, na sigla em inglês), Pratt deu início a uma jornada de discursos em diversos fóruns comerciais, destacando a conexão entre comércio, propriedade intelectual e investimento. A estratégia era expansiva e outros executivos da Pfizer passaram a ocupar posições chave em associações corporativas e órgãos do governo ligados ao comércio com a finalidade de colocar a questão da propriedade intelectual no topo da agenda destas organizações. Gerald Laubach, presidente da Pfizer Inc., foi para o Conselho da Associação de Produtores Farmacêuticos e para o Conselho de Competitividade criado pelo então presidente Ronald Reagan. Lou Clemente, Conselheiro Geral da Pfizer, assumiu o Comitê de Propriedade Intelectual do Conselho Americano para Negócios Internacionais. Bob Neimeth, presidente da Pfizer Internacional, tornou-se o presidente, por parte dos Estados Unidos, do Comitê Consultivo de Indústria e Negócios da OCDE (ibidem: p.69).

O argumento científico foi formulado com think tanks conservadores, com destaque para a Heritage Foundation, cujas ideias e teorias teriam reconhecida influência sobre o presidente Reagan (ibidem: p.70). O caráter monopolístico inerente à propriedade intelectual poderia entrar em conflito com os princípios de livre comércio, cerne do ideário neoliberal renascido com a contrarrevolução monetarista. Contudo, depois da crise do final da década de 1970, o comprometimento americano com o “livre comércio” do pós Segunda Guerra foi substituído pelo conceito de “comércio livre-mas-justo” (Sell, 2003: p. 36), o qual facilitava a construção de um argumento fundamentado em outros valores igualmente caros ao liberalismo, como o direito à propriedade, o direito à recompensa por trabalho e à justiça. A Pfizer contribuía financeiramente com think tanks, financiando projetos específicos – relacionados à PI – e dando suporte em

14 O ACTN, hoje ACTPN (Comitê Consultivo Políticas Comerciais e Negociações), é administrado pelo Escritório de Assuntos Intergovernamentais e Engajamentos do USTR, em cooperação com os departamentos de Agricultura, Comércio, Trabalho e Meio Ambiente. Seus membros, nomeados pelo presidente dos Estados Unidos, são representantes da indústria ou de suas associações. Fonte: http://www.ustr.gov/about-us/intergovernmental- affairs/advisory-committees/advisory-committee-trade-policy-and-negotiati

conferências (Drahos, 2002b: p.70). No governo, Gerald J. Mossinghoff15, secretário assistente de comércio e comissário de patentes e marcas registradas, ressaltava a importância da ligação entre patentes, marcas e comércio internacional (Sell, 2003: p.83).

O argumento construído desde a publicação do artigo do presidente da Pfizer Internacional no New York Times apresentava as empresas estadunidenses como bravas inovadoras que enfrentariam um futuro incerto em um mundo onde países em desenvolvimento ignoravam as leis fundamentais do comércio e o fair play (Drahos, 2002b: p.88). Diante desta percepção, tanto políticos quanto acadêmicos ressaltavam o perigo da desindustrialização dos EUA: a tese “manufacturing matters” elevava o apoio à indústria ao status de interesse nacional e advogava novas políticas industriais que incluiriam um protecionismo seletivo de setores econômicos chave (Sell, 2003: p.81).

O argumento se encaixava perfeitamente dentro do discurso mais amplo que emanava de Washington e Nova Iorque:

“Desde 1980 os Estados Unidos foram tanto o principal propagador da crença utópica em um mercado mundial auto-regulador quanto o maior beneficiário dessa crença. (...) Enquanto pregava incessantemente a outros as vantagens de se comportar de acordo com esses preceitos, os Estados Unidos geralmente escolheram não adota-los de forma alguma ou adota-los através de acordos cuidadosamente negociados com outros estados, como na liberalização de comércio exterior.” (Silver e Arrighi, 2003: p. 338)

3.2. A formação da estratégia internacional dos EUA para a