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GERIATRIA,

GERONTOLOGIA

E

A

INTERDISCIPLINARIDADE

O Art. 3º da Lei 8.080 de 1990 já definia a saúde dentro de um contexto biopsicossocial e econômico. Ela diz que: “A saúde tem como fatores determinantes e condicionantes, entre outros, a alimentação, a moradia, o saneamento básico, o meio ambiente, o trabalho, a renda, a educação, o transporte, o lazer e o acesso aos bens e serviços essenciais...” (BRASIL, 1990). Este conceito desvincula a saúde da ausência da doença e proporciona uma visão mais ampla, interdisciplinar, do que vem a ser saúde.

A interdisciplinaridade tem por objetivo superar a visão restrita de mundo para compreender a complexidade da realidade, mostrando o ser humano como um ser determinante e determinado pelo meio (MOTTA, 2005). Ela mostra a necessidade de se superar a fragmentação da produção do conhecimento no campo da ciência (MOTTA, 2006) presente no modelo clássico de aquisição do conhecimento, em que na sua organização curricular as matérias são isoladas, classificadas em disciplinas e justapostas em um currículo multi ou pluridisciplinar (MARTINS DE SÁ, 2006).

Para entender melhor o que são “práticas” de produção de conhecimento e interpretação da realidade multi, inter e transdisciplinares, será apresentada a contextualização e definição dada a elas por Vasconcelos (2002, apud MOTTA, 2006, p. 27):

A prática multi é composta por campos de saber simultâneos, que mantêm um objetivo único, porém sem cooperação, e realizam um trabalho isolado e sem troca de informações.

[...]

Na trans, há a estabilização de um campo teórico, aplicado ou disciplinar, de tipo novo ou mais amplo em relação aos que lhe embasam.

Na inter, na qual a interação participativa constrói um eixo comum a um grupo de saberes, há apresentação de objetivos múltiplos, com horizontalização das relações de poder e coordenação.

Pode-se dizer que a interdisciplinaridade implica em um trabalho em equipe. Jacob Filho e Sitta (1996, p. 440) são autores que valorizam o conceito mais amplo de equipe, não fazendo distinção entre as três práticas acima citadas. Para eles, “se falamos de MÚLTIplos profissionais, INTERativos, com interesse em TRANSferir conhecimentos em todos os sentidos, estamos falando de uma equipe, e não de um conjunto de profissionais” (grifo dos autores).

O estudo do envelhecimento possui uma característica intrínseca interdisciplinar, o que tem exigido das IES uma estrutura de ensino mais flexível, fator que tem dificultado a implementação do estudo do envelhecimento, uma vez que a interdisciplinaridade contraria a rigidez pluri e multidisciplinar do modelo clássico de aquisição do conhecimento (MARTINS DE SÁ, 2006). Contudo, segundo o mesmo autor (p. 1476), além da rigidez estrutural, outros fatores também

podem dificultar a implantação de uma proposta educacional inovadora na área da gerontologia. São eles:

a) Comodismo. É mais fácil trabalhar de forma parcelada; b) Necessidade de autoafirmação e autopreservação de cada disciplina em relação às demais;

c) Medo de perder o prestígio pessoal;

d) Obstáculos de natureza psicossocial e cultural; e) Obstáculos metodológicos;

f) Obstáculos de natureza material (falta de espaço adequado, tempo, finanças).

Além destas dificuldades, os professores têm sido o maior obstáculo para esta inovação, uma vez que estes, por medo do fracasso, resistem mais a novas práticas que outros profissionais. Deste modo, faz-se necessária a capacitação dos professores para que estes se sintam mais seguros e possam tratar metodologicamente as questões curriculares do envelhecimento, organizando as matérias não mais de forma isolada e justaposta, mas segundo um novo critério de agrupamento, que tanto pode ser por áreas do conhecimento como por módulos interativos (MARTINS DE SÁ, 2006).

Na formação do profissional de saúde, a interdisciplinaridade se faz importante tanto na teoria quanto na prática, principalmente na área da geriatria e gerontologia. O contato do aluno com idosos durante a graduação, principalmente com idosos saudáveis, pode reduzir o preconceito para com estes (MOTTA, 2008). Além disso, a prática interdisciplinar pode ajudá-lo a compartilhar conhecimentos, fazer repensar a maneira pela qual o idoso está sendo assistido, evitar atitudes individualistas e favorecer o despertar para outras necessidades do idoso que separadamente não poderiam ser identificadas devido à especificidade dos conhecimentos de cada categoria profissional (MACHADO, 2002; SAINTRAIN; VIEIRA, 2008).

Pesquisas, ao comparar o cuidado convencional com o interdisciplinar de pacientes idosos, já têm mostrado que o cuidado interdisciplinar tem reduzido a mortalidade, a dependência e a necessidade de cuidados institucionais (COELHO FILHO, 2000). Entretanto, assim como na teoria, ainda são muitos os obstáculos para se construir uma prática interdisciplinar.

Vasconcelos (2002 in MOTTA, 2006) apresenta alguns dos obstáculos e limitações encontrados na construção de uma prática interdisciplinar. No campo das profissões e instituições corporativas ele cita como obstáculos a divisão social e técnica do trabalho, como também a constituição dos saberes enquanto estratégia de poder. As instituições estabelecem fronteiras de saber e de competência controlando a formação e as práticas, assim como as normas éticas em defesa dos interesses econômicos e políticos de cada grupo.

A precarização das condições de trabalho é outro fator de dificuldade na construção de uma prática interdisciplinar, pois os vínculos informais, o excesso de trabalho, a competitividade e o uso de tecnologia levam ao isolamento e dificultam a estruturação e o desenvolvimento da equipe. Tais dificuldades também são encontradas na Estratégia Saúde da Família – ESF, proposto pelo Ministério da Saúde, que tem o trabalho de equipe como elemento chave para a mudança do modelo assistencial tecnicista/hospitalocêntrico para um modelo focado mais na família e nas suas necessidades (ROSA; LABATE, 2005).

Segundo Loch-Neckel (2009), Rosa e Labate (2005) a falta do exercício do trabalho em equipe durante a formação dos profissionais de saúde tem dificultado a implementação do modelo assistencial proposto pela ESF e levado a uma assistência medicocentrada, com procedimentos técnicos rotineiros, fragmentados e nivelados, focados apenas nos aspectos biológicos. Isto tem dificultado o tratamento integral da comunidade e colocado os membros do PSF impotentes perante a complexidade do objeto da saúde.

3.5 TEORIA DA HIERARQUIA DAS NECESSIDADES HUMANAS

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