PERCEBENDO O DESENVOLVIMENTO DAS MINHAS FUNÇÕES PSICOLÓGICAS SUPERIORES
3.6 Diagnóstico da realidade: conhecendo os sujeitos da pesquisa
3.6.6 Formação dos grupos na sala: trabalhando na ZDP
As diferenças de desenvolvimento que surgem no decorrer do processo de aprendizagem do discente podem ser mais bem trabalhadas considerando o auxílio dos
colegas e do próprio professor, desenvolvendo as questões que não conseguem de forma individual, mas que, com a colaboração, pode desenvolver conceitos mais complexos. Trabalha-se, assim, na zona de desenvolvimento proximal e não na zona de desenvolvimento real. Desta forma, o aluno é desafiado a desenvolver novos conceitos e não vivencia um ambiente de repetição. Temos assim a construção de saberes, em que há a intervenção do professor para modificar as condições desfavoráveis ao aprendizado do aluno, garantindo melhores oportunidades de aprendizagem.
Segundo Vigotski, o ensino mais adequado é aquele que se dirige para a zona de desenvolvimento possível, levando em consideração e como ponto de partida a área de desenvolvimento efetiva ou real, pois como ele mesmo indica, o único bom ensino é o que se adianta ao desenvolvimento (PUENTES, 2013, p. 178).
Todas as atividades desenvolvidas pelos alunos durante essa pesquisa foram feitas de forma coletiva, em duplas. Essas duplas foram escolhidas pelo professor e pelos próprios alunos, considerando a colaboração dos alunos ao desenvolver as atividades.
Em diálogos com o professor e considerando o período de observação, percebemos que o pressuposto de um trabalho, na modalidade grupos, praticado na ESEBA, com destaque na sala de aula, não tem propósitos coletivos bem definidos ou princípios em comuns compartilhado entre as diferentes áreas de conhecimento que compõem a escola. Considerando essa questão e a forma como o grupo de estudo se organiza, de modo a possibilitar a reflexão sobre as questões que perpassam a educação escolar, sejam elas em suas dimensões política, didática e (psisco) pedagógica, assumindo um diálogo como ponto de partida para definir ações e trabalhar, percebemos a possibilidade de pensarmos, de maneira coletiva, o trabalho em grupo na escola. E assim, definirmos as intenções e os princípios que orientem estes momentos como processo educacional.
Esta proposta surgiu a partir de dois aspectos: primeiro, das inquietações mediante a observação e preocupação do que acontece na sala de aula e na escola, quando se propõem atividades a serem realizadas em grupo. Identifica-se de maneira geral, a dificuldade de relacionamento entre os alunos, seja na aceitação do outro ─ dentro e fora da sala de aula ─, quanto na execução do trabalho em si ─ mesmo reunindo-se em grupo trabalham individualmente ─; e a crescente falta de compromisso com os estudos. Segundo, das contribuições dos professores, na reunião do grupo de estudo, os quais diante da questão colocada, socializaram suas reflexões e metodologias apresentando caminhos e possibilidades.
Para melhor compreensão da importância e necessidade da proposta é relevante descrever o cenário que compõe os discentes da ESEBA, pois, normalmente, os alunos tem toda sua experiência escolar na ESEBA. Entretanto, a maioria, ao encerrar o ensino fundamental deixará a escola e terá, pela primeira vez, que conviver e trabalhar com pessoas estranhas ou que não compunham o seu restrito grupo de colegas ou amigos ao longo destes 9 anos. É preciso destacar que dentro deste espaço limitado que é a sala de aula, há um aumento da restrição nos laços de convivência proveniente da seleção provocada pela afinidade entre um e outro.
Outra situação preocupante trata-se dos poucos alunos que ingressam na ESEBA ao longo do curso e precisam ser aceitos por aquele grupo. Dessa forma, a convivência dos alunos na ESEBA, ou melhor, a falta de integração entre os alunos da ESEBA é problemática. No entanto, visualizamos por meio do trabalho em grupo, uma possibilidade para a superação desta contradição ─ a necessidade de formamos cidadãos que cada vez mais necessitam trabalhar em grupo e a forma como este trabalho vem acontecendo na ESEBA retratado em vários momentos de reuniões.
Ressaltamos os fundamentos desse trabalho, que considera que o aprendizado, possibilita e movimenta o processo de desenvolvimento, tornando real o que antes era apenas potencial. A mediação acontece por meio dos conhecimentos, da relação do indivíduo com o mundo e dos outros sinais que constituem a base para o desenvolvimento mental ou das funções psíquicas superiores, isso ocorre nos processos de aprendizagem que se estruturam na ZDP (VIGOTSKI, 2010).
Pensamos que toda ação escolar tem um propósito educativo, desta forma, acreditamos que, ao realizar um trabalho em grupo, professores e alunos precisam ter claras as intencionalidades deste exercício, entre elas cito: a possibilidade e a oportunidade de aprender com o outro e a oportunidade e a necessidade de se comprometer com o outro e com o grupo. A primeira intenção é possibilitar que os alunos se vejam e se assumam como seres inacabados cujo processo de desenvolvimento é ilimitado e contínuo, assim sendo, entender que pode aprender com os colegas, sendo ele quem for, pois o processo de formação é social, e através das relações os sujeitos se desenvolvem. Afinal, cada aluno tem algo para socializar, pois todos eles têm saberes, que podem compartilhar, promovendo trocas. Este processo pode ocorrer por meio de diálogos, troca de experiências, imitação, interação e inter-relação.
Vigotski (2010) entende que essa interação tem papel importante no desenvolvimento da aprendizagem do aluno. Na perspectiva desse autor, o sujeito adquire potencial para
internalizar e realizar sozinho, aquelas ações em que recebeu auxílio de outras pessoas. Por isso, é importante que o professor esteja atento para explorar o potencial dos alunos, proporcionando-lhes apoio e recursos para que sejam capazes de atingir níveis de conhecimentos mais elevados, além daqueles que conseguem aprender sozinhos, sem ajuda.
A segunda intenção é para que o aluno se preocupe em aprender, seja para ele e também para o outro, sendo este, seus colegas, seus pais, professores e escola, buscando o desenvolvimento de todos, na troca e socialização de conhecimento. Neste sentido, é importante que o aluno se esforce para compreender, aprofundar um assunto e preocupar-se e procurar o melhor jeito de contribuir para a formação dos colegas, ajudando-os a superar suas dificuldades. Enfim, de fazer parte tanto da sua quanto da formação do outro.
Nesse sentido, o professor exerce importante papel de mediação, na dinâmica das interações interpessoais e na interação dos alunos com os objetos de conhecimento. Assim, a escola desempenhará bem o seu papel, à medida que, partindo daquilo que o aluno já sabe, ele for capaz de ampliar e desafiar a construção de novos conhecimentos, ou seja, incidir na ZDP dos alunos.
O trabalho em grupo, nesta perspectiva, tem como princípios a solidariedade e o exercício de uma cidadania democrática ativa. Espera-se que os alunos aprendam a reconhecer que todos, com suas diferenças, podem contribuir e receber contribuições, além de sua importância para a boa convivência, seja esta na sala de aula, na escola ou fora dela. Com isso, espera-se também que o individualismo, a competição, a exclusão, características apresentadas e tão fortemente acentuadas na sociedade, possam desaparecer das salas de aula e ou, ao menos, reduzirem-se drasticamente no âmbito da escola.
Para isso, entendemos que ações conjuntas devem ser pensadas e planejadas, por isso nos organizamos nas nossas reuniões do grupo para discutir esse assunto, chegando a algumas estratégias de formação das duplas. Por exemplo, se for considerado que os grupos devem variar os integrantes, precisa haver critérios que garantam isso, a letra inicial do nome, do sobrenome; número de chamada na ordem crescente; gênero, masculino e feminino; na mesma fila o último com primeiro, entre as filas ou linhas; e por que não, entre as classes do mesmo ano de ensino, quando possível.
Pensamos que para os alunos perceberem os benefícios, aceitar e aprender a trabalhar em grupos diferentes, com pessoas que tem mais ou menos afinidade ou que não tenham nenhuma afinidade, os professores poderiam definir, em conjunto, os critérios de seleção dos grupos pensando numa sequência de trabalhos. Determinar um ou mais período, no trimestre,
para a realização do trabalho em grupo, permite aos alunos trabalhar com um mesmo grupo em situações diferentes, aumentando as chances de se conhecerem melhor, interagirem mais e de manifestarem pontos fortes e fracos favorecendo a sua formação e a do outro. Esta questão do tempo também é importante para que um assuma o compromisso com o outro e com o grupo.
Como a finalidade da proposta é o exercício da solidariedade e da democracia, é necessário que se reserve, entre os critérios de seleção dos professores, o direito ou a liberdade, num momento posterior, para que os alunos escolham com quem desejam ou querem desenvolver o trabalho.
Este momento é a possibilidade de que possamos avaliar se as intencionalidades do trabalho em grupo estão ou não sendo alcançadas. Para isso, consideramos imprescindível que antes de iniciar esta proposta metodológica, os professores, ao solicitar aos alunos que trabalhem em grupo, identifiquem quais são os grupos e quais os critérios de escolha dos alunos para a sua formação. Se nesta fase inicial, for possível identificar padrões, como afinidades (grupos fechados, mas que podem ter naturezas diferentes), interesses (para tirar nota alta, seja daqueles que têm bons rendimentos e não querem se misturar, seja daquele não tem um bom rendimento escolar e quer tirar uma nota alta), falta de opção (para quem fica sempre por último), pensamos que seja possível avaliar e contribuir com uma maior socialização em sala de aula, fator que consideramos que reflete no convívio social deste aluno, pois o mesmo teria que lidar com situações de troca com sujeitos com quem não estão tão acostumados.
Aprendemos com a história da humanidade e acreditamos que os resultados terão avanços e retrocessos e que alguns podem demorar mais ou menos tempo, ou seja, não será linear e nem simples, pois esse é um processo de construção. Todavia, concebendo a escola como um lócus privilegiado para a formação humana, sendo esta responsável pela preservação daquilo que a humanidade inventou e que é bom, e dê resistência àquilo que vem sendo construído e vai no sentido contrário do que a sociedade e a escola precisam, concluímos que as ações que acontecem na escola, com destaque ao trabalho em grupo, devem acontecer de modo integrado e com propósitos bem definidos, sendo estes maiores do que a simples quantificação de um conteúdo escolar (PUENTES; LONGAREZI, 2013) . Essa é uma preocupação que tivemos, a de buscar formas de elevar a qualidade do que trabalhamos e chamamos de trabalho em grupo.
No próximo capítulo, analisamos algumas das atividades de ensino que foram elaboradas de forma colaborativa com o professor e desenvolvidas pelos alunos do 9º ano A, considerando o objetivo do trabalho de analisar as potencialidades da atividade de estudo para o desenvolvimento do pensamento e linguagem algébrico de alunos do ano final do ensino fundamental, considerando o conteúdo de equações do segundo grau. Mesmo tendo elaborado atividades de ensino de funções e de equações, construindo uma unidade dialética, o foco desta pesquisa foram as equações de segundo grau, portanto, as atividades analisadas foram desenvolvidas quando os alunos estavam trabalhando esse conhecimento.
4. A ANÁLISE DAS ATIVIDADES DE ENSINO: O DESENVOLVIMENTO DO