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CAPÍTULO I – DA CONCEÇÃO AO RISCO

VERBAS DA LOTARIA DA S.C.M.P PARA AS OBRA DO HOSPITAL NOVO (1791-1798)

6. A escolha do arquiteto

6.1. John Carr (1723-1807): vida e obra

6.1.2. Formação e carreira

John Carr terá frequentado a escola da sua terra natal, mas nunca recebeu formação académica. Ele foi um verdadeiro autodidata, provido de habilidade natural, que soube tirar partido de um amplo processo de aprendizagem fortemente alicerçado na transmissão do saber conquistado pelas gerações anteriores ligadas à arte da pedra e numa vasta experiência profissional, complementada com viagens, com o estudo de tratados e manuais de arquitetura e com a observação de gravuras. Absorveu valores da época das Luzes, pautada pela institucionalização do ensino da ciência das construções. Este período foi animado pela proliferação de tratados gerais; manuais de arquitetura e construção; enciclopédias e dicionários especializados; cursos e resumos de lições destinados a Escolas e Academias; obras consagradas às técnicas relacionadas com a conceção e dimensionamento de edifícios, preparação de materiais, problemas práticos de execução e questões de durabilidade; publicações sobre temas especializados: desenho e perspetiva, esterotomia, mecânica das alvenarias e produção de materiais527. John Carr soube absorver os ecos teóricos e didáticos destas obras.

Os primeiros ensinamentos sobre a atividade construtiva foram ministrados por Robert Carr. Atendendo à inexistência de registos alusivos à presença de um outro tutor e à durabilidade do vínculo estabelecido entre eles – apenas interrompido pela morte –

525

Cf. WRAGG, Brian – The Life and Works of John Carr of York, ob. cit., p. 81-85. 526 Cf. IDEM, Ibidem, p. 94 e p. 101.

527 Cf. MATEUS, João Mascarenhas – Técnicas tradicionais de construção de alvenarias: a literatura

técnica de 1750 a 1900 e o seu contributo para a conservação de edifícios históricos. Lisboa: Livros

admitimos que o pai possa ter sido um importante agente veiculador de conhecimentos, sobretudo na fase inicial da trajetória profissional de John Carr528.

Carr também aprendeu bastante com a prática, pois experienciou a construção. Começou por exercer o ofício de pedreiro. Porém, decidiu trilhar uma carreira mais auspiciosa que – passando pela supervisão das obras de Kirby Hall – culminou com a sua mudança para a capital de Yorkshire529. Durante a primeira metade do século XVIII, a cidade de York não dispunha de arquitetos na verdadeira aceção da palavra530. Este panorama era análogo ao que prevalecia nas demais zonas do reino. Na verdade, havia arquitetos amadores como, por exemplo, Thomas Robinson, WilliamWakefield e Lorde Burlington531. A prática da arquitetura ainda não estava instituída e a construção de edifícios menores era levada a cabo por artistas que possuiam algum talento532. Carr fora educado num contexto em que o pedreiro também tinha por hábito atuar como arquiteto. Mais tarde, com a sua transferência para York, é provável que estivesse à procura de uma área mais alargada para perpetuar esse costume. Contudo, viria a contactar com novas ideias: o pedreiro não detinha mais o estatuto de “mestre”, era perspetivado como um instrumento a utilizar para garantir a execução dos desenhos de um arquiteto. John Carr terá percebido que seria necessário tornar-se arquiteto para fazer nome e angariar uma clientela distinta. Todavia, nos primeiros tempos continuou a

528 Cf. WRAGG, Brian – The Life and Works of John Carr of York, ob. cit., p. 6. 529

Cf. MAIN, C. J. – “Georgian Doorways in York. A study in provincialism”. Studies in architectural

history. London and York: St. Anthony’s Press (1954), p. 168.

530 Na segunda metade da centúria, o cenário começou a sofrer algumas transformações significativas. Surgiu uma nova geração de arquitetos formada por um grupo de indivíduos que domina a profissão. Alguns membros deste grupo viriam a admitir, pela primeira vez, aprendizes nos seus ateliês. Por conseguinte, a partir deste momento podemos falar da existência real de uma profissão arquitectural [cf. SUMMERSON, John – Architecture in Britain. 1530 to 1830, ob. cit., p. 342]. Em York, na segunda metade do século XVIII, refulge o protagonismo de John Carr e de Thomas Atkinson. No entanto, importa ainda destacar William Lindley, que terá sido o primeiro assistente de Carr e William Belwood, que esteve ligado à supervisão da obra de Harewood House. Cf. WRAGG, Brian – “Two architects of York”. York Georgian Society Report, 1957-1958, p. 38-41.

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A partir do final do século XVII, os conhecimentos alusivos à arquitectura romana constituem um objeto privilegiado de sistematização, registando um forte impulso com as descobertas de Pompeia e de Herculano. Posteriormente, a verdadeira natureza da arquitetura grega ganharia inteligibilidade. Assim, a teoria proliferava. Os arquitetos começaram a sentir necessidade de ser eruditos. Por sua vez, os eruditos podiam facilmente tornar-se arquitetos. É neste contexto que surge a figura do arquiteto amador, que adquire especial relevância em Inglaterra, sendo Lorde Burlington o mais conhecido de todos. Robert Adam dá-nos conta da dimensão deste fenómeno ao afirmar: “Todos os pequenos

aristocratas do país são arquitetos”. Cf. SUTTON, IAN – História da arquitectura no ocidente : desde a Grécia Antiga até ao presente . Lisboa: Verbo, 2004. ISBN 972-22-2355-0, p. 246.

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combinar as duas funções. Ilustra portanto o processo de transição que ocorre entre a figura do “arquiteto -pedreiro” e a do arquiteto profissional533.

A maioria dos arquitetos britânicos não recebia formação profissional. Todavia, os mais afortunados, como Kent, Chambers e Wyatt, puderam estudar no estrangeiro. Refulge a escassez de indivíduos descendentes de uma família de arquitetos, bem como do número de aprendizes em ateliês desses profissionais. Assim, as obras editadas constituíam a principal fonte de conhecimento534.

John Carr tinha por hábito subscrever publicações. Pouco depois da morte do grande herdeiro do arquiteto – William Carr falecera em 13 de fevereiro de 1822 – Sir John Soane comprou dois livros com inscrições de Carr: The Description of the Hot- Bath at Bath, de John Wood e Select Architecture, de Roger Morris. Adquiriu igualmente uma cópia manuscrita da obra de Batty Langley intitulada: Ancient Architecture Restored, que poderá ter sido feita por um assistente de Carr. Ainda que a biblioteca de John Carr tenha sido desmembrada, é possível identificar alguns títulos a partir do registo das suas subscrições: A Book of Ceilings, composed in the Stile of the Antique Grotesque, de 1776, de George Richardson; Iconology, or a Collection of Emblematical Figures, de 1779, do mesmo autor; Plans, Elevations and Sections of Noblemen and Gentlemen’s Houses, de James Paine; Gothic Ornaments in the Cathedral Church of York, 1795-1800. O famoso Vitruvius Britannicus de Campbell também fazia parte da sua coleção. John Carr devia possuir uma cópia da nova e alargada edição da obra de Joachim von Sandrart: Deutshe Academie, publicada por Volckmann em 1768, pois era muito popular na época e parece servir frequentemente de fonte de inspiração aos seus trabalhos535. Robert Morris foi um dos seus autores de eleição, a partir do qual absorveu as convenções do estilo palladiano, que teve como principais divulgadores William Kent e Lorde Burlington. Possuia a obra Essay upon Harmony, que nos documenta o interesse do arquiteto pelas teorias da proporção536.

De igual modo, John Carr tinha acesso a gravuras. Inspirou-se, nomeadamente, na imagem da Ponte Santa Trinita, em Florença, desenhada por Bartolomeo Ammanati, em 1558. Esta gravura deverá ter sido adquirida pelo jovem Marquês de Rockingham, durante uma grande viagem. Depois, pediria então a Carr para desenhar algo similar.

533

Cf. EDEN, William Arthur – John Carr, architect of York 1723-1807. A monograph. [s.n.], 1929, p. 38-39.

534 Cf. WRAGG, R. B. – John Carr of York, ob. cit., p. 8-9.

535 Cf. IDEM – The Life and Works of John Carr of York, ob. cit., p. 101. 536

Em 1760, o arquiteto apresentou duas propostas. O primeiro projeto, mais parecido com o original, mostra arcos eliptícos; o segundo era menos sofisticado, mas mais económico. Os desenhos não passaram do papel. Todavia, permitem vislumbrar a fonte de inspiração537.

John Carr era detentor de uma sólida experiência na área da construção; conhecia os elementos da arquitetura clássica; possuia sensibilidade estética e estava atento ao panorama arquitetónico da época, sendo bastante influenciado por Lorde Burlington e por Robert Adam com quem colaborou538. A influência do aristocrata – Richard Boyle – foi especialmente marcante nos primeiros trabalhos do maior arquiteto georgiano de Yorkshire539.

Na primeira metade da centúria, Lorde Burlington ditava a moda vigente. Condenava os excessos do barroco, ao qual Wren e Vanbrugh se haviam convertido. Além disso, defendia o regresso a uma arquitetura que respeitasse a ordem e as regras prescritas por Andrea Palladio (1508-1580). Destarte, as élites optavam por encomendar casas cujo risco obedecesse às proporções avançadas pelo conceituado arquiteto do Renascimento italiano, que soubera tirar partido de motivos da arquitetura clássica conferindo-lhes uma escala humana, em vez da monumentalidade característica dos modelos da antiguidade. Assim, um arquiteto que adotasse um estilo manifestamente sólido, despojado, sóbrio, austero e correto era considerado “palladiano”. John Carr detinha essa conotação540.

Lorde Burlington alcançou projeção internacional no âmbito da arquitetura, inclusivé em França. Os edifícios da sua autoria – sempre basicamente palladianos – eram muito apreciados541. Chiswick House constitui a obra de referência do aristocrata, na qual aplicou conhecimentos decorrentes do estudo da

sua coleção pessoal de desenhos originais de Andrea Palladio e de Inigo Jones. Concebeu um edifício invulgar, sobrearticulado e repleto de citações arquitetónicas. De um modo geral, as proporções baseiam-se em Palladio. Por sua vez, os detalhes denotam“uma justaposição académica” de

537 Cf. WRAGG, Brian – The Life and Works of John Carr of York, ob.cit., p. 39.

538 Cf. MAIN, C. J. – “Georgian Doorways in York. A study in provincialism”. Studies in architectural

history. London and York: St. Anthony’s Press (1954), p. 168.

539 Cf. PEVSNER, Nikolaus – Yorkshire: York and the East Riding. 2nd ed. London: Penguin Books, 1995. ISBN 0-14-071061-2, p. 71.

540 Cf. WRAGG, R. B. – John Carr of York, ob.cit., p. 8. 541

Cf. JOHNSON, Francis Frederick – John Carr of York, architect 1723-1807, ob. cit.,s/p.

motivos de Palladio, Scamozzi, Jones, Vitrúvio, entre outros. Lorde Burlington buscou inspiração na Villa Rotonda, em Vicenza, de Palladio. Todavia, Chiswick House não se trata de uma simples imitação, mas antes de uma interpretação original da obra do arquiteto italiano. A villa palladiana foi valorizada com a criação de um jardim clássico desenhado por William Kent com base em princípios geométricos, embora com o intento de parecer “natural”. Lorde Burlington também gizou um edifício público emblemático – York Assembly Rooms – que manifesta uma tendência para a monumentalidade da Roma antiga, superando Palladio e Jones. Uma vez mais, o aristocrata evidenciou um excelente domínio do legado do arquiteto renascentista542.

Apesar do irrefutável sucesso alcançado por Lorde Burlington e da admiração suscitada pelos seus trabalhos, William Eden atribui-lhe apenas o mérito de ser um excelente conhecedor de arte e um mecenas, que protegeu nomes sonantes como William Kent, Colen Campbell e Giacomo Leoni543. Faleceu em 1753, mas nos últimos vinte anos da sua vida o mecenato às artes fora minado por dificuldades económicas544.

A denominada “Fase Palladiana” marcou, de forma iniludível, a fisionomia da arquitetura inglesa, entre 1710 e 1750. Durante este período, assistimos ao pulular de ideias inerentes à prática da arquitetura e à adoção de paradigmas, tendo por base o reconhecimento da excelência de certos arquitetos e autores. Uma vez formulado, o gosto palladiano viria a ser profusamente adotado pela segunda geração da aristocracia Whig, que ousa exprimir o seu profundo desagrado face à dinastia dos Stuart, à Igreja romana e à maioria das coisas estrangeiras. Em termos arquitetónicos, refuta o gosto que havia sido eleito pela corte, os excessos do barroco e os trabalhos de Cristopher

542 A planta de Chiswick House exibe afinidades com o projeto da Villa Rotonda. Sobressai a pureza do desenho, baseado numa sequência de divisões proporcionadas circulares, octogonais, retangulares e absidiais. Na fachada principal, um pódio rusticado com ornato em forma vermicular sustenta um pórtico coríntio – nitidamente inspirado em Palladio – cujo acesso é feito por duas escadas com balaustrada. À semelhança da solução adotada por Inigo Jones na Queen’s House, a balaustrada continua a desenvolver-se entre as colunas do pórtico e sob as janelas laterais. A fachada voltada para o jardim ostenta três janelas palladianas inseridas em arcos de descarga. Os nichos, a porta sob a janela central e a janela de Diocleciano repetem o tema do arco. As janelas de Diocleciano, inspiradas nas antigas termas romanas e que figuram em diversos trabalhos de Palladio, são um elemento recorrente nos desenhos de Lorde Burlington. A planta das Assembly Rooms apresenta salas com configurações distintas, nomeadamente com a forma absidial. Sobressai a imponência da sala de baile, riscada a partir de um desenho incluído na obra Os quatro livros de arquitetura, inspirado numa descrição das salas egípcias realizada por Vitrúvio. Cf. COLE, Emily – A gramática da

arquitectura, ob. cit., p. 278-281; PALLADIO, Andrea – Les quatre livres de l’architecture. Paris:

Flammarion, 1997. ISBN 2-08-010218-4, p. 135-136 e p. 158. Imagem disponível em:

http://www.architecture.com/Images/Palladio/PalladianVillas/VillaRotundasinfluence/RIBA29774_5 30x436.jpg [acedida em 2012-03-09].

543 Cf. EDEN, William Arthur – John Carr, architect of York 1723-1807. A monograph, ob.cit., p. 7-8. 544 Cf. HEAPE, Robert – Georgian York: a sketch of life in Hanoverian England. London: Methuen & Co

Wren em particular545. O estilo palladiano traduz “a vontade de expressão de uma arquitetura democrática, quase fundada num princípio de universalidade”546.

O movimento palladiano inscreve-se num clima de estabilidade política e de euforia nacional generalizada que decorre da tomada de poder pelo partido Whig. O conde William Shaftesbury foi um ilustre representante da geração vinculada ao palladianismo. No ano de 1712, numa interessante carta redigida a partir de Itália – Letter concerning the Art, or Science of Design – defendeu uma arquitetura de feição anti-barroca e alicerçada num gosto esclarecido. Atacou o barroco inglês, intimamente associado à obra de Cristopher Wren, ao qual contrapôs a simplicidade artistíca e arquitetónica do modelo clássico, expressão sublime da razão esclarecida. Com efeito, o estilo barroco não correspondia à sensibilidade estética de Shaftesbury e era encarado como o símbolo de um absolutismo e catolicismo ultrapassados547.

A emergência do novo gosto está diretamente relacionada com a publicação de trabalhos que obtiveram grande sucesso. Em 1715 foi editado o primeiro volume de Vitruvius Britannicus, da autoria de Colen Campbell548, que reunia cem gravuras de edifícios clássicos erigidos em território britânico. Em 1717 apareceu o segundo tomo. O terceiro volume, mais tardio, remonta ao ano de 1725. Trata-se de uma obra de caráter programático profusamente ilustrada com gravuras sobre arquitetura. O texto confina-se ao prefácio, incluído no primeiro tomo, e às explicações alusivas aos projetos reproduzidos. Campbell delineou a evolução da arquitetura inglesa desde os primórdios do século XVII. A obra de Palladio aparece citada como grande modelo inspirador. Destaca as realizações de Inigo Jones (1573-1652)549. Todavia, também reconhece o

545

Cf. SUMMERSON, John – Architecture in Britain. 1530 to 1830, ob. cit., p. 295-296.

546 Cf. D’ALFONSO, Ernesto e SAMSA, Danilo – Guia de história da arquitectura. Estilos

arquitectónicos. Lisboa: Presença, 2006. ISBN 972-23-3584-7, p. 178.

547

Cf. IDEM, Ibidem, p. 295-296; LAMERS-SCHUTZ, Petra (coord.) – Teoria da arquitectura do

renascimento aos nossos dias. Colónia: Taschen, 2003. ISBN 3-8228-2693-6, p. 414.

548 O escocês Colen Campbell (1676-1729) foi um dos fundadores do estilo palladiano na Inglaterra. Começou a sua carreira como advogado e conseguiu alcançar notoriedade no universo da arquitetura com a publicação da obra de referência Vitruvius Britannicus. Cf. FLETCHER, Sir Banister – A

history of architecture. 19th ed. London: Butterworths, 1987, p. 1044.

549

Inigo Jones viria a imprimir um novo rumo à arquitetura britânica seiscentista. Descobriu Andrea Palladio nas viagens efetuadas a Itália, tendo adquirido conhecimentos, até então inéditos em Inglaterra, através do estudo da obra “Le antichità di Roma” e da contemplação das ruínas romanas e dos edifícios construídos por Palladio em Vicenza e arredores. Em 1615, foi nomeado inspetor das construções reais. As obras de Inigo Jones rompem com o maneirismo semigótico do estilo jacobino e lançam os fundamentos do conceito de “Palladianismo”. Inspirado em Vitrúvio, Palladio e Scamozzi, refutou o esplendor e as fantasias românticas, enveredando por um clacissismo sereno. Desenvolveu a sua atividade num contexto determinado pela política anticatólica da monarquia inglesa, pelo pluralismo cultural, pela liberdade e espírito de abertura a distintas experiências. Cf. KOCH, Wilfried – Estilos de arquitectura: a arquitectura europeia da Antiguidade aos nossos dias. Lisboa: Editorial

contributo facultado por grandes arquitetos da época, como Sir Christopher Wren (1632-1723), John Vanbrugh (1664-1726), Nicholas Hawksmoor (1661-1736) e John James (1672-1746). Colen Campbell refuta o barroco continental devido à ausência de regras. Decidiu integrar a representação da catedral de São Pedro de Roma por ilustrar, de forma bastante esclarecedora, o somatório de todos os erros arquiteturais e servir de contra-exemplo. Além disso, testemunha o declínio cultural de Itália, que entretanto se afastara das fontes da sua cultura e do denominado “taste of building”. Em seu entender, os arquitetos e artistas ingleses deviam assegurar a intemporalidade do gosto clássico. Campbell preconizou a simplicidade do modelo classicista presente na arquitetura palladiana e aproveitou Vitruvius Britannicus para promover uma vasta campanha publicitária ao serviço do seu próprio trabalho, conquistando inúmeras encomendas. Esta obra permite-nos conhecer o panorama da arquitetura inglesa e a representação dos projetos de Colen Campbell. Além disso, constitui uma insofismável fonte de ideias arquitetónicas utilizada na prática da arquitetura em Inglaterra. A influência do palladianismo de Campbell foi sobejamente exercida por intermédio do pensamento arquitetural de Lorde Burlington, que viria a substituir Campbell enquanto mentor dessa tendência artística e a desenvolver um classicismo pautado por um rigor incomparável na sua época, alicerçado nos estudos da antiguidade e nos esboços de projetos de Palladio que adquirira em Itália550.

John Summerson destacou ainda um outro trabalho basilar vinculado ao movimento palladiano: a tradução, em dois tomos, da famosa obra de Palladio: I quattro libri dell’architettura, efetuada por Nicholas Dubois – que também redigiu uma introdução – com gravuras redesenhadas por Leoni551 e buriladas na Holanda552.

Presença, 1982. Vol. 2, p. 75; JORDAN, R. Furneaux – Western architecture: a concise history. London: Thames and Hudson, 1988. ISBN 0-500-20087-4, p. 238-241; Cf. D’ALFONSO, Ernesto e SAMSA, Danilo – Guia de história da arquitectura. Estilos arquitectónicos, ob. cit., p. 177.

550 Cf. LAMERS-SCHUTZ, Petra (coord.) – Teoria da arquitectura do renascimento aos nossos dias. Colónia: Taschen, 2003. ISBN 3-8228-2693-6, p. 412-420; SUMMERSON, John – Architecture in

Britain. 1530 to 1830, ob. cit., p. 296.

551

Giacomo Leoni (1686-1746) era natural de Veneza. Uma vez instalado em Inglaterra, procurou tirar partido do entusiamo dos ingleses pela arquitetura palladiana e obter a proteção dos membros do partido Whig. Cf. LAMERS-SCHUTZ, Petra (coord.) – Teoria da arquitectura do renascimento aos

nossos dias, ob. cit., p. 414.

552

Em face do exposto, o dealbar do movimento palladiano associado ao nome de Inigo Jones estaria intimamente relacionado com os dois livros acima referidos e com três figuras da arquitetura: Colen Campbell, Nicholas Dubois e Giacomo Leoni. Todavia, importa ainda acrescentar William Benson,

referenciado no primeiro tomo de Vitruvius Britannicus, por ter traçado, no ano de 1710, Wilbury House “in the style of Inigo Jones”, que representa o primeiro testemunho do revivalismo em torno do arquiteto britânico553.

Estas duas grandes obras de referência apresentam diversos aspetos em comum: foram dedicadas ao rei Jorge I e rotuladas como produções Whig; enalteceram a mestria de Andrea Palladio e de Inigo Jones, fonte de inspiração privilegiada para os arquitetos britânicos; os autores estavam familiarizados com as coleções de desenhos deixadas por Inigo Jones e reconheciam a sua importância554.

Estes trabalhos inauguraram uma época profícua, animada pela publicação de inúmeros livros de arquitetura. Durante o período compreendido entre 1725 e 1759 – ano assinalado pela edição da obra de Chambers: A Treatise on Civil Architecture – refulge a impressão ininterrupta de exemplares ilustrados de arquitetura. Os principais trabalhos foram patrocinados por Lorde Burlington e incluíam títulos como, por exemplo, Designs of Inigo Jones (1727), de Kent; Villas of the Ancients (1728), uma série de reconstruções de casas e jardins romanos baseada em passagens da literatura clássica, da autoria de Robert Castell; e Fabbriche antiche (1730) de Burlington, um livro com gravuras reproduzidas a partir de desenhos de Palladio, publicado numa edição limitada e com prefácio em italiano. Ocorreu ainda a difusão de obras influentes