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2 ESTUDO COMPARADO SOBRE OS PROFESSORES: UM BREVE

2.1 FORMAÇÃO INICIAL E CONTINUADA

A questão da formação de professores sempre esteve na pauta histórica daqueles que defendem a educação pública de qualidade. Embora, seja discurso

muito em voga na atualidade, entre educadores e governantes, a preocupação já se fazia presente desde o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova.

Embora a questão da profissionalidade do professor apresente-se hoje como um discurso novo e corrente entre professores e pesquisadores, desconhece-se que esse novo, só é novo em parte, por desconhecimento de nossa tradição educacional, ressalvando-se as condições históricas e culturais que lhe foram próprias. A re-leitura do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, em tempos de esquecimento de nossos clássicos pensadores/educadores e de sobrevalorização dos novos autores, pode trazer para um leitor um tanto desatento a grata surpresa de encontrar ali, já explícitas, algumas preocupações que, na última década, reapareceram expressas em outro

"idioma". [...] A proposição das linhas gerais de uma política nacional de educação apresentava, naquele momento, a questão da formação de professores como sendo de fundamental importância, principalmente para os quadros da escola secundária. (BELLOCHIO; TERRAZAN; TOMAZETTI, 2004, p.23).

A formação docente vai se pautando no percurso histórico, em propostas e finalidades diversas. A seguir nos centraremos apenas nas propostas a partir das reformas educacionais dos anos 1990.

A formação inicial, de acordo com o relatório Jacques Delors da Unesco (1998, p.159), propunha:

Formação inicial -Estabelecer laços mais estreitos entre as universidades e os institutos de formação de futuros professores do primário e do secundário.

A longo prazo, o objetivo deverá ser fazer com que todos os professores, mas em especial os do secundário, tenham freqüentado estudos superiores, sendo a sua formação assegurada em cooperação com as universidades ou mesmo em contexto universitário.

Essa indicação posta no relatório reforça o que a própria legislação, elaborada no bojo das reformas educacionais, iria propor em termos de formação de professores, como a formação de professores para a educação básica prioritariamente em nível superior, bem como fazer a formação superior dos profissionais com formação em nível secundário.

A formação continuada considerada como momento de aperfeiçoamento docente, para a melhoria do fazer pedagógico, e consequente aprendizagem dos alunos, era proposta no relatório da Unesco (1998, p.159) da seguinte forma:

Formação contínua - Desenvolver os programas de formação contínua, de modo a que cada professor possa recorrer a eles, freqüentemente, especialmente através de tecnologias de comunicação adequadas. Devem ser desencadeados

programas que levem os professores a familiarizar-se com os últimos progressos da tecnologia da informação e comunicação. De uma maneira geral, a qualidade de ensino é determinada tanto ou mais pela formação contínua dos professores do que pela sua formação inicial. O recurso a técnicas de ensino a distância pode ser uma fonte de economia e permitir que os professores continuem a assegurar o seu serviço, pelo menos em tempo parcial.

Dessa maneira, o relatório entendia que a qualificação docente deveria atender às necessidades mais imediatas, indicando que a formação continuada poderia ocorrer por meio de ensino à distância ou mediada pelas tecnologias de comunicação.

A esse discurso é acrescida a ideia de que os professores precisam "familiarizar-se"

com os progressos tecnológicos, no entanto, logo adiante dessa mesma sugestão para formação contínua, o relatório deixa explícito, seu caráter pragmático, pois indica que esses mecanismos representam de certa forma "uma fonte de economia" na capacitação dos professores, revelando dessa maneira seu caráter de precarização quanto à formação docente.

Ainda assim, o relatório da Unesco (1998, p.162) considerava que "O reforço da formação contínua – dispensada segundo modalidades tão flexíveis quanto possível – pode contribuir muito para aumentar o nível de competência e a motivação dos professores, e melhorar o seu estatuto social".

Essa orientação é pautada, como pode se perceber, pelas regras do mercado de trabalho no regime capitalista, pois considera que a formação continuada deve proporcionar a motivação dos professores, de preferência em modalidades ou técnicas flexíveis. Dessa maneira, fica evidente que, nesse contexto, o discurso da educação de qualidade não destaca a necessidade de mais investimento e ampliação de recursos financeiros, mas somente a melhoria do desempenho docente.

Nesse sentido, tivemos no Brasil uma experiência, entre tantas outras, que levou a cabo as orientações dos organismos multilaterais, que foi a Universidade do Professor implementada no Estado do Paraná no governo Jaime Lerner durante a década de 1990.

As atividades desenvolvidas na qualificação de professores se pautavam exatamente na motivação, autoestima e conhecimento interior do docente em cursos e seminários organizados por empresas de consultoria empresarial. De acordo com Gentili (1998, p.89):

O modelo adotado na Universidade do Professor é emblemático na medida em que sintetiza uma tendência característica das políticas educacionais implementadas pelas administrações neoliberais: replicar no campo pedagógico experiências formativas ou organizacionais próprias do campo empresarial.

[...] O raciocínio que justifica semelhante decisão é simplista, e enganador:

mecanismos de treinamento, avaliação, controle, medição, disciplinamento e estímulo à produtividade que funcionam com eficácia no campo empresarial devem funcionar com a mesma eficácia no campo escolar.

A lógica empregada na educação estava definitivamente determinada pelas relações de mercado, embasadas no desenvolvimento de competências relativas ao empreendedorismo e à competitividade, demandas essas imprescindíveis para o mundo do trabalho, conforme destaca Gentili (1998, p.89):

Na limitada perspectiva do Prof. Wahrhaftig7, se quinze executivos conseguem reativar seus neurônios num final de semana dedicado à meditação Zen, novecentos professores, enclausurados nos bonitos campos paranaenses fazendo cursos de inteligência emocional, voltarão às suas escolas como agentes competitivos e empreendedores.

A discussão sobre a formação inicial e continuada com dados mais recentes se pautará nas informações do relatório da pesquisa internacional da OCDE de 2009 (Talis).

Para avaliar a atual situação da formação inicial e continuada, este estudo pauta-se nas informações do relatório da pesquisa internacional Teaching and Learning International Survey (Talis), realizada em 2007 (OCDE, 2009). A pesquisa Talis apresenta dados quanto à escolaridade dos professores, considerando o percentual de professores do ensino secundário básico, que equivale às séries finais do ensino fundamental no Brasil, pelo mais alto nível de ensino formal concluído pelos docentes (Tabela1).

Na tabela, é adotada a Classificação Internacional Normalizada da Educação ou International Standard Classification of Education (ISCED) da Unesco, destinada a permitir a comparação entre diferentes países. De acordo com essa classificação, o nível 5 corresponde à primeira fase da educação terciária, que no Brasil é equivalente ao ensino de nível superior, e está dividido em abaixo da formação superior ou em fase de formação. O nível 5B representa cursos de curta duração e de ordem mais

7 Prof. Ramiro Wahrhaftig foi Secretário de Estado da Educação na primeira gestão do Governador Jaime Lerner entre 1994-1997.

técnica; o nível 5A representa a formação em cursos de graduação; e o nível 6 corresponde à pós-graduação (OCDE, 2009).

TABELA 1 - ESCOLARIDADE DOS PROFESSORES EM DIFERENTES PAÍSES- 2007-2008 ABAIXO DA

Como é possível perceber, a maior parte da formação docente se concentra no ensino superior (graduação), e nesse aspecto o Brasil apresenta um percentual bastante significativo 89,3%, seguido pela formação em nível de especialização, no qual predominam os países europeus.

Cabe neste aspecto fazer o apontamento, de estudos mais aprofundados quanto aos dados demonstrados pela pesquisa Talis referentes a formação de professores em bacharelado e licenciatura no Brasil, isto porque apresentam séria incoerência entre os dados de pesquisas nacionais, que revelam que a maior parte dos professores apresentam formação superior em licenciatura.

Isso significa que a reforma educacional empregada no Brasil aponta, pelo menos no nível de formação docente, dados positivos agora quase 20 após sua implementação; no entanto não é possível afirmar que de fato essa formação ocorreu de maneira qualitativa.

Já os dados referentes à formação continuada, da pesquisa Talis (Tabela 2), indicam o percentual de professores que participaram de desenvolvimento profissional nos últimos 18 meses entre os anos de 2007 e 2008; a média de dias destinados ao aperfeiçoamento para todos os professores; a média de dias entre os que receberam o desenvolvimento profissional; e o percentual médio de dias em que o desenvolvimento profissional foi obrigatório.

Esses dados permitem identificar os países que investiram em formação continuada tanto no que se refere à abrangência quanto à quantidade de formação ofertada. Entretanto, para avaliar os efeitos desseinvestimento, é necessário um estudo mais detalhado sobre o conteúdo e a forma dos programas e das atividades oferecidas, que não cabem neste estudo, de caráter preliminar, conforme segue:

TABELA 2 - PARTICIPAÇÃO DOS PROFESSORES NO DESENVOLVIMENTO PROFISSIONAL NOS ÚLTIMOS 18 MESES EM DIFERENTES PAÍSES - 2007-2008

Isso significa, que a maior parte dos docentes (88,5%) participou de algum programa de desenvolvimento profissional, como formação continuada nos últimos 18 meses. De maneira geral, pode-se afirmar que houve uma tendência quanto à formação continuada, já que, no Brasil, 83% dos docentes afirmaram ter participado de formação continuada. Esse dado apresenta um percentual bastante significativo, que deveria impactar qualitativamente no fazer pedagógico.